Bets: nova forma de roubar a classe trabalhadora

Por Rana Agarriberi, coordenação nacional CST

Bets: nova forma de roubar a classe trabalhadora

Nos últimos anos, as redes sociais, jornais, propagandas televisivas, rádios e até jogos de futebol passaram a ter um novo personagem: as casas de aposta online — ou, para os íntimos, as bets.

O crescimento dentro das fronteiras nacionais chama a atenção, com figuras de peso como Virgínia Fonseca, Neymar, Galvão Bueno, Luciano Huck e até gigantes no estrangeiro, como o jogador de basquete LeBron James e Magnus Carlsen, um dos maiores enxadristas da atualidade. Mas o que está por trás desse crescimento?

O que é?

Com cores vibrantes, músicas envolventes e dinâmicas que remetem aos jogos de videogame, os valores mínimos são baixos, com depósitos a partir de R$ 2,00; já a promessa dos prêmios alcança as nuvens.

Imagem 1: jogo do Tigrinho

Legalizado desde 2018, o mercado de apostas no Brasil cresceu sem controle até dezembro de 2023, quando o governo Lula sancionou o PL 3.626 e alterou as Leis 5.768/71 e 13.756/18, que regularizaram o mercado das bets.

Desde então, as propagandas se multiplicaram, bem como os influencers que, sem nenhum pudor, divulgam vídeos gravados como prova de que ganhar é possível e fácil.

Cachê da desgraça

As propagandas na TV são boas; porém, para converter simpatizantes em jogadores, o mais efetivo são as redes sociais.

De stories do cotidiano, com uma linda mesa de café da manhã ou um corte fazendo exercícios na academia, os vídeos deslizam de forma leve para o lucro que o influencer “acabou de ter” e estimulam o seguidor a jogar também. Esses indivíduos usam seu carisma cobrando suas migalhas para atrair trabalhadores pobres e desesperados. Em janeiro de 2025, a revista Piauí revelou alguns valores pagos para influencers e atores divulgarem apostas online:

Virgínia Fonseca chama a atenção pelo “cachê da desgraça”, recebendo 30% do que os apostadores perdem. No fechamento do contrato com a Esportes da Sorte, recebeu um adiantamento de R$ 50 milhões. Em outro contrato, com a gigante Blaze, recebeu R$ 29 milhões. Já Neymar tem um contrato estimado em R$ 100 milhões por ano com a Blaze. Carlinhos Maia recebe R$ 40 milhões por ano, e Cauã Reymond, R$ 22 milhões, ambos com a BateuBet. Gkay recebia um cachê de R$ 1,4 milhão mensal com a Esportes da Sorte.

Imagem 2. da esq para dir: GKay, Virgínia Fonseca, Cauã Reymond e Carlinhos Maia

Pressionado pela repercussão da “CPI das bets”, uma das figuras mais asquerosas desse submundo, o influenciador Carlinhos Maia tentou tirar o seu da reta e responsabilizar o indivíduo:

“Se você não tem cabeça, não jogue. Se você não consegue se controlar na cachaça, não beba. Se eu disser ‘pule do penhasco’, você vai pular porque eu estou dizendo a você? Não. Então aprenda uma coisa: você joga porque você quer. Eu não jogo. Eu divulgo, mas não jogo.”

Acostumados com CPIs que acabam em pizza, dessa vez o desfecho teve de mudar seu bordão: acabou em memes, e nada mais.

Apesar dos valores expressivos, as casas de apostas não usam apenas gigantes das redes e atores consagrados, mas também atingem o baixo clero dos influencers, que, sem prometer nada, entregam menos ainda, rendendo-se ao “tigrinho”.

Ainda que os valores sejam inimagináveis para reles trabalhadores como eu e você, isso tudo é dinheiro de pinga para quem realmente lucra.

De quanto estamos falando?

O alarde do debate não é para menos: os valores são vultosos! Segundo o Ministério da Fazenda, as empresas de quotas fixas faturaram R$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2025, já descontado o valor dos prêmios pagos — mas esse valor é apenas parte do setor.

Nesse mar de bilhões, não falta quem queira navegar! Em outubro, causou forte repercussão nas redes o anúncio do lançamento da BET da Caixa Econômica Federal. Estimando uma arrecadação entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões, a proposta — que já foi aprovada pelo Ministério da Fazenda — apanhou da esquerda e até da direita, e fez o presidente da CEF, Carlos Vieira, adiar o projeto, pelo menos por enquanto.

A CEF, entretanto, já registrou três marcas: Betcaixa, Megabet e Xbet Caixa, permitindo apostas esportivas, físicas e virtuais.

De acordo com o Banco Central, entre janeiro e março de 2025, os apostadores gastaram R$ 30 bilhões por mês. Mas se engana quem pensa que os jogadores são empresários ricos de smoking.

Quem perde?

Segundo o Instituto Locomotiva, 86% dos apostadores estão endividados. O Instituto DataSenado foi além e demonstrou que a maioria dos apostadores é composta por homens que ganham até dois salários mínimos (R$ 3.036,00).

De acordo com os dados da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), podemos concluir que, além de masculina e pobre, a base das apostas online encontra na juventude a maior vítima das promessas de dinheiro fácil: 25% têm entre 16 e 28 anos; 21% têm entre 29 e 43 anos.
O Governo Federal complementa essas informações: a média por apostador foi de R$ 164,00 por mês, cerca de 10% do salário mínimo. O dízimo da igreja agora encontra um novo santo: o Tigrinho.

O Tribunal de Contas da União publicizou que os beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3,7 bilhões para as casas de apostas apenas no mês de janeiro de 2025, cerca de 27% do total dos R$ 13,7 bilhões distribuídos no mês.

Crescem os relatos dos impactos dos jogos online

Com desdobramentos psicológicos como depressão, ansiedade e estresse, longe de revelarem uma transformação de conquistas — compra de casas, carros etc. — o que se repete são famílias devastadas devido ao vício.

Famílias pobres relatam empréstimos, vendas de carros, casas e até roubo para sustentar o vício. Infelizmente, os impactos já chegam até a suicídios e tentativas de suicídio nos lares brasileiros e em diversos países.

Uma a cada três pessoas que moram de aluguel já atrasa ou conhece alguém que atrasou o pagamento por causa de jogos e apostas online, segundo pesquisa feita pela plataforma imobiliária Loft/Offerwise.

Quem lucra de verdade?

Operando no Brasil, grande parte das casas de apostas tem tentáculos estrangeiros. Denise Coates, fundadora da Bet365, tem uma fortuna estimada em US$ 9,4 bilhões (R$ 53,2 bilhões).

Imagem 3: Denise Coates

A revista Forbes destaca que Denise vem de uma família acostumada ao ramo de apostas. Seu pai, Peter Coates, foi o fundador da Provincial Racing, uma próspera casa de apostas.

Para a fundação da Bet365, ela se valeu de um empréstimo no valor de US$ 18 milhões junto ao Royal Bank of Scotland. A plataforma está presente em dezenas de países e movimenta cerca de US$ 65 bilhões (R$ 373,13 bilhões) por ano.

Já a Betano é ligada ao grupo grego Kaizen Gaming, cujo CEO e cofundador é George Daskalakis, e atua em mais de sete países. Em 2023, a Kaizen Gaming registrou uma receita de aproximadamente € 1,6 bilhão (cerca de R$ 9,6 bilhões).

Imagem 4: George Daskalakis

A Betsson, ativa desde 1963, opera em vários países e tem valor estimado em US$ 1,7 bilhão (R$ 9,6 bilhões).

A Blaze, por sua vez, é sediada na ilha de Curaçao, um paraíso fiscal. No Brasil, cai em uma espécie de limbo jurídico: tem sede no exterior, mas atua em um ambiente digital aberto, sendo difícil estabelecer quem são os nomes por trás da empresa. Em 2023, teve mais de R$ 100 milhões bloqueados devido a denúncias de apostadores que teriam ganhado prêmios, mas nunca conseguiam resgatar os valores.

Imagem 5: Neymar e a propaganda para Blaze

Todo esse lucro é fruto do trabalho suado de despossuídos de todo o mundo que, sem recursos sequer para garantir a quitação das dívidas, arriscam o pouco que têm para tentar não se afogar. Mas não para por aí. As bets são uma forma conhecida de lavagem de dinheiro.

Em 2024, a Polícia Civil de Pernambuco realizou a Operação Integration, que desarticulou um esquema de lavagem de dinheiro ligado à exploração ilícita de jogos. Entre os investigados estavam a influenciadora Deolane Bezerra e o cantor Gusttavo Lima, divulgadores desse tipo de “diversão”.

Já em 2025, a Polícia Federal realizou uma operação em outubro com o objetivo de desarticular um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de bets vinculado ao tráfico internacional de drogas.

O que fazer com as casas de apostas?

Diante de todo esse quadro, surge a questão: o que fazer com as casas de aposta? A proposta mais radical da Frente Ampla é aumentar a tributação de 12% para 18%, projeto rejeitado pela Câmara.

Nós propomos outra coisa. As casas de aposta, bets e afins são uma nova forma de enganar a classe trabalhadora. Além da retirada de direitos, reformas trabalhista e da Previdência, arrocho salarial, aumento do preço dos alimentos, a burguesia e os bilionários investem pesado nas bets para arrancarem nosso suado dinheiro. O governo Lula-Alckmin permitiu a operação de grandes conglomerados de casas de apostas dentro do Brasil, que nada trazem de bom para o povo brasileiro.

Sentados em nossas costas, eles mantêm as bets amarradas na vara e no anzol, com a promessa de superação da crise financeira individual. A taxação das casas de apostas é pouco.

Até alguns anos atrás, elas quase não existiam e foram um presente que começou a ser embrulhado por Michel Temer e está se alastrando como um câncer na empobrecida classe trabalhadora brasileira.

Defendemos a proibição das casas de apostas e outros jogos de azar, bem como a proibição de sua divulgação. Investigação dos divulgadores das bets e confisco de todos os valores adquiridos com a desgraça alheia. Reverter a reforma da Previdência e a trabalhista! Fim do arcabouço fiscal e pelo não pagamento da dívida pública! Aumento geral dos salários e investimentos em saúde, educação e lazer de verdade para nosso povo! Por um plano nacional de habitação, fim da especulação imobiliária! Reforma agrária já para garantir alimentos acessíveis e de qualidade para os trabalhadores.

Por um governo das trabalhadoras e trabalhadores, sem bilionários!

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