Carnaval 2026 – Arte e política na avenida
Nos últimos anos, o carnaval foi tomado por críticas sociais, seja nos blocos de rua com fantasias de laranja, fazendo referência a Queiroz e a rachadinha, e que provavelmente irá ocupar as ruas com a tornozeleira e o soldador Bolsonaro. Com as escolas de samba do Rio e São Paulo, não foi diferente, abordando em seus enredos temas políticos e críticos, para fazer algum tipo de denúncia através dos seus desfiles, temos como exemplos a Mangueira em 2019 com o enredo “História pra ninar gente grande” – que trocava os “herois dos quadros” por heróis indígenas, negros e mulheres, reescrevendo a história do Brasil. Tuiuti em 2025 com Xica manicongo e as travestis e transexuais brasileiras. Ou a Unidos de Vila Maria, que em 2025 teve como enredo “O planeta pede socorro. É tempo de renovar e preservar” – que chamava atenção para questões ambientais e de cuidado com o nosso planeta. Esses são alguns exemplos que demonstram essas conexões.
Em 2026 não é diferente, muitos temas da conjuntura política estão presentes, mas chamamos atenção para um enredo de São Paulo.
A escola de samba paulista, Gaviões da Fiel, tem como enredo para o carnaval 2026 – “Vozes ancestrais para um novo amanhã”, onde a agremiação desenvolverá no sambódromo do Anhembi os ensinamentos dos povos originários e como sua luta e resistência devem nos inspirar para um futuro melhor.
Esse enredo vem em um momento crucial para o debate que o nosso país está passando com relação a catástrofe ambiental, marco temporal, PL da devastação, a privatização dos nossos rios e a exploração de petróleo na foz do amazonas. A letra do samba anuncia “Xawara devora o sonho e a mata padece” xawara é a “fumaça da epidemia” da ganância e destruição na cosmologia Yanomami, como vem acontecendo desde 1500, e como a própria escola de samba afirma, o tema deste carnaval é “poético e político”.
Os povos indígenas protagonizaram lutas importantes no Brasil, nos acampamentos do Abril indígena contra o garimpo ilegal, que resultou na catastrofe yanomami durante o governo Bolsonaro, mas no inicio de 2025 foi a ocupação da secretaria de educação do Pará, em conjunto com os educadores, que tomou conta dos noticiarios e resultou na vitória, com a revogação da lei 10.820/24, lei que iria precarizar a educação indígena e de comunidades tradicionais. E posteriormente, a luta dos Munduruku e Arapiuns durante a COP 30 em Belém, denunciando os projetos que visam destruir as florestas, os rios e territórios indígenas.
“Quem sabe o sonho volte como vento
O marco do futuro é Pindorama!”
Contrapondo a tese do marco temporal, o samba clama que um marco do futuro é o solo antes da chegada dos exploradores na “Terra das Palmeiras” (pindó = palmeira + rama = terra, região), como o Brasil era chamado. Esse é um tema fundamental, que ainda não está superado e os movimentos sociais devem fortalecer nas ruas esse protesto que o samba expressa, pois frente a um congresso conservador e dominado pelo agronegócio não aceitarão que prevaleça os direitos indígenas, e seguirão suas tentativas de aumentar a exploração.
A voz da resistência indígena vai ecoar na avenida: é a arte e política caminhando junto, e que essa voz possa inspirar os/as lutadores Brasil afora para enfrentar as opressões e explorações. Desejamos um belíssimo desfile para a Gaviões da Fiel, que com seu enredo possa trazer reflexões para nossa sociedade e que a partir delas possamos buscar uma transformação social. A agremiação será a quarta escola a passar no sambódromo no dia 14 de fevereiro.
“Yandê, Yandê, vai tremer a terra
Eu sou de paz, mas tô pronto pra guerra
Flecha que aponta novas direções
Tenho lado nessa luta, sou Gaviões!” (samba-enredo / Gaviões da Fiel 2026)
Assista o clipe oficial
