Dirigente do Partido Socialismo e Liberdade da Venezuela: “todo o continente deve resistir unido”

Apresentamos a tradução de uma entrevista com o nosso companheiro Miguel Angel Hernández, conduzida pelo jornalista Umut Can Firtina para o periódico turco BirGün.

08 de janeiro de 2026. Segundo Hernández, dirigente do Partido Socialismo e Liberdade da Venezuela, Trump está tentando apresentar os Estados Unidos como uma grande superpotência, que recuperou seu prestígio. Ao afirmar que a situação na Venezuela permanece incerta, Hernández diz: “Os dirigentes devem lançar uma mobilização continental contra a agressão estadunidense”.

Enquanto as repercussões do ataque imperialista dos EUA persistem na Venezuela, Trump continua a ameaçar toda a região.

Miguel Ángel Hernández, secretário-geral do Partido Socialismo e Liberdade (PSL) da Venezuela, seção da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), e professor da Universidade Central da Venezuela, respondeu às nossas perguntas.

O que estamos testemunhando agora na América, com as últimas ações do imperialismo estadunidense?

O que está acontecendo na Venezuela é um novo ataque contra os povos da América Latina. Trata-se de uma intervenção armada inaceitável por parte dos Estados Unidos, a maior potência imperialista do mundo. Isso, sem dúvida, terá graves consequências para os povos do continente. Trump está ameaçando a Colômbia e o México, e até mesmo países de fora da região.

No entanto, o futuro permanece incerto. Há muitas contradições dentro do establishment político estadunidense. As diferenças entre Trump e Rubio são claramente visíveis. Grande parte da opinião pública estadunidense se opõe a intervenções militares no exterior. A base do MAGA não compartilha dessa posição. Tanto deputados e senadores democratas quanto republicanos iniciaram uma investigação no Congresso, que declara como ilegais os bombardeios no Caribe e no Pacífico.

O POVO DEVE DETERMINAR SEU PRÓPRIO DESTINO

Como PSL, condenamos categoricamente este ataque criminoso e covarde contra o povo venezuelano. Defendemos que o povo trabalhador venezuelano decida seu próprio destino, e não o imperialismo assassino dos EUA. No entanto, adotamos esta postura a partir de uma perspectiva de oposição de esquerda ao governo Maduro. Maduro governou com uma falsa retórica socialista. Na realidade, foi um regime repressivo, que implementou uma política brutal de ajuste capitalista, condenando os trabalhadores a salários de miséria e serviços públicos precários, com centenas de presos políticos.

O regime chavista entregou a indústria petrolífera a corporações multinacionais por meio das chamadas empresas mistas. A multinacional estadunidense Chevron é a principal exportadora do petróleo venezuelano. Atuam na Venezuela multinacionais petrolíferas como Shell, Total e ENI, além de empresas japonesas, chinesas e russas. Porém, Trump quer que o petróleo venezuelano seja controlado principalmente pelas empresas petrolíferas estadunidenses, secundarizando assim os investimentos da China e de outros países imperialistas. Ele nem se deu ao trabalho de esconder isso.

O que a intervenção dos EUA na Venezuela, o sequestro do presidente de um Estado soberano e a tomada do poder no país significam para o futuro do mundo? O que vai mudar?

Isso, sem dúvida, cria um precedente muito perigoso. Não só sequestraram Maduro, como Trump também afirmou que governaria o país até que uma transição “segura, adequada e razoável” ocorresse, deixando claro que a Casa Branca determinaria quando e sob quais condições. Chegaram ao ponto de descartar a ultra-direitista María Corina Machado como líder dessa transição. Ameaçaram com um segundo ataque militar e disseram que as empresas petrolíferas estadunidenses assumiriam o controle da indústria do petróleo em sintonia com os interesses dos EUA. Ficou evidente que o pretexto do narcotráfico era uma farsa e que o verdadeiro objetivo dos Estados Unidos sempre foi se apoderar do petróleo e de outros recursos naturais do país. Nessa intervenção militar, nem se deram ao trabalho de disfarçar ou buscar uma resolução da ONU, como em invasões anteriores. Como em outras questões, Trump está desmantelando a ordem política estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Ele pretende tomar medidas unilaterais para atingir seus objetivos. Porém, isso também está se mostrando difícil. Ele não cumpriu tudo o que prometeu; ainda enfrenta contradições e limitações.

Essa política agressiva do imperialismo estadunidense busca intensificar a pilhagem dos recursos naturais, com o falso argumento da “guerra às drogas”; aumentar a exploração extrema dos povos; e freiar os movimentos de massa, que estão questionando o sistema capitalista/imperialista em sua crise mais profunda.

Todos esses ataques fazem parte da contraofensiva global lançada por Trump. Essa contraofensiva busca reverter a crise da hegemonia estadunidense e a crise econômica; tal crise, por sua vez, faz parte da crise global do imperialismo capitalista.

Como Trump afirmou ao assumir o cargo em janeiro, ele está tentando “tornar a América grande novamente”, embora ainda não tenha conseguido. Isso também se reflete no apoio inabalável ao genocídio e à limpeza étnica promovidos por Netanyahu em Gaza e em toda a Palestina; também nesses casos, eles não conseguiram obter uma vitória decisiva.

O que podemos esperar agora que Trump declarou que consolidará o domínio estadunidense no hemisfério ocidental? Como ele fará isso? Quais são seus objetivos?

 O Documento de Segurança Nacional dos EUA, publicado recentemente, estabelece o objetivo de “revisar” a Doutrina Monroe de 1826: “América para os estadunidenses”. O controle do hemisfério ocidental é a meta principal. A intervenção militar na Venezuela seria a primeira expressão concreta da “interpretação de Trump” mencionada no documento.

Trump declarou que controla a Venezuela, que seu objetivo é garantir o petróleo e os investimentos estadunidenses nesse setor, e ameaçou com uma segunda intervenção militar. Ele afirmou ter se reunido com a presidente interina do país, Delcy Rodríguez, e que ela está disposta a cooperar. No entanto, essa informação permanece incerta.

O chavismo segue no poder na Venezuela. Não é coincidência que Trump tenha ameaçado Rodríguez com uma segunda intervenção, muito mais forte, caso ela não atenda às exigências dos EUA, principalmente a abertura da indústria petrolífera às multinacionais estadunidenses. Portanto, a situação na Venezuela permanece indefinida. Uma nova intervenção é uma possibilidade, mas não é simples; invadir e controlar o país com tropas estadunidenses não é fácil. A situação é incerta e indefinida. Isso reflete tanto a fragilidade do imperialismo estadunidense na execução de seus objetivos quanto as enormes contradições dentro do establishment político dos EUA.

Trump está tentando apresentar os Estados Unidos como uma grande superpotência, que recuperou seu prestígio. Ele afirma que esta é a maior operação militar desde a Segunda Guerra Mundial, ameaçando abertamente a Colômbia e o México. Porém, ele sequer resolveu completamente a situação na Venezuela.

Como o povo venezuelano está reagindo e se comportando diante desta mais recente intervenção imperialista dos EUA?

 O maior problema na Venezuela neste momento é a falta de mobilização de massas contra a invasão dos EUA. Tirando pequenas ações convocadas pelo governo — envolvendo principalmente membros do partido governista, milícias e funcionários públicos —, as cidades, especialmente a capital, Caracas, estão silenciosas.

No sábado e no domingo, a atividade social e econômica praticamente parou. As ruas de Caracas ficaram desertas nos dois dias. Essa falta de mobilização de massas contrasta fortemente com as grandes marchas e manifestações que ocorreram em resposta à tentativa de golpe contra Chávez em 2002. Foram justamente essas mobilizações de massas que derrotaram o golpe e garantiram o retorno de Chávez ao poder.

As grandes expectativas que existiam durante a era Chávez, a consciência política e anti-imperialista adquirida na luta contra o golpe e a sabotagem do petróleo, foram se dissipando gradualmente à medida que o chavismo não conseguiu avançar rumo ao socialismo, atolando-se em meras reformas e praticamente desaparecendo em meio à burocracia e à corrupção.

O país vivenciou uma profunda crise na última década. As sanções imperialistas, iniciadas em 2017 e 2019, e as brutais políticas de ajuste capitalista implementadas pelo governo Maduro exacerbaram a crise, fazendo com que o povo e a classe trabalhadora pagassem o preço. Empresas multinacionais de petróleo e outras empresas estrangeiras de diversos setores econômicos mantiveram sua presença na Venezuela; as duras políticas de ajuste reduziram o salário-mínimo para menos de um dólar; os gastos sociais diminuíram drasticamente e isso, somado à corrupção generalizada nas instituições estatais, fez com que os serviços públicos, a indústria petrolífera, a eletricidade e indústrias essenciais, como a de ferro, aço e alumínio, entrassem em colapso.

Por outro lado, o governo começou a se tornar mais autoritário a partir de 2016. No ano antepassado, cometeu uma fraude eleitoral gritante. Hoje, existem centenas de presos políticos, muitos dos quais foram detidos durante os protestos contra a fraude eleitoral de 2024. Tudo isso levou à emigração de milhões de pessoas; aproximadamente 7 milhões de venezuelanos deixaram o país na última década. Tudo isso ocorreu enquanto o governo se autodenominava “socialista”, criando uma grande confusão.

Esse contexto social, econômico e político explica por que uma parcela significativa da população venezuelana apoia ou aceita passivamente a intervenção dos EUA. É precisamente por isso que não há mobilizações de massa hoje em rejeição à intervenção imperialista.

DIRIGENTES CONTINENTAIS DEVEM SE UNIR

O que os dirigentes e o povo devem fazer?

O importante neste momento é que governos como o de Petro, na Colômbia, o de Sheinbaum, no México, e o de Lula, no Brasil, convoquem uma grande mobilização continental contra a agressão militar dos EUA à Venezuela. Ações nesse sentido já começaram nos Estados Unidos, na Espanha, na Argentina, no México e em outros países.

Originalmente publicado em:

https://www.birgun.net/haber/venezuela-ozgurluk-ve-sosyalizm-partisi-lideri-tum-kita-birlikte-direnmeli-682435

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