Irã, o pântano de Trump.

Por Miguel Sorans, dirigente da UIT-QI e da Izquierda Socialista/FIT Unidad

26/03/2026. A guerra de agressão imperialista contra o Irã – que, segundo Trump, estava ganha desde o início – já dura um mês. Trump diz uma coisa num dia e outra no outro. Há uma semana, deu ao Irã um “ultimato” de 48 horas, após o qual lançaria um “ataque total”. No dia seguinte, anunciou que suspenderia os ataques por cinco dias, porque estava em negociações “produtivas” com as autoridades iranianas, algo negado pelo Irã. O fim da guerra permanece incerto.

Nada é certo nas mãos de Trump. Tudo pode acontecer. A guerra pode se intensificar, fuzileiros navais podem ser mobilizados ou negociações podem de fato começar. Netanyahu e Israel, por outro lado, já alertaram que, independentemente de quaisquer negociações, não pretendem interromper as ações militares contra o Irã e o Líbano (veja o quadro abaixo).

Mas uma coisa é certa: é Trump quem está recuando. Em meio à sua fanfarronice, na qual anunciou repetidamente que “as forças armadas iranianas deixaram de existir”, que “elas não têm mais capacidade de lançar mísseis” ou que “nós as aniquilamos”, ele teve que se retratar enviando uma proposta de quinze pontos, que foi rejeitada pelo Irã.

Sempre se diz que quem pede para negociar numa guerra é quem está perdendo. E é exatamente isso que está acontecendo com Trump e sua agressão criminosa e genocida. Apesar da evidente superioridade militar dos Estados Unidos e de seu aliado Israel, Trump está atolado política e militarmente no Irã.

As razões pelas quais Trump quer sair da guerra

O primeiro motivo é que a resistência do Irã foi muito maior do que Trump e Netanyahu previram.

O Irã é um país grande, com 93 milhões de habitantes, que está desafiando todos os prognósticos militares. Nos primeiros dias, assassinaram o Aiatolá Supremo e parte da liderança militar iraniana, acreditando que isso marcaria o início do fim, incitando a população a sair às ruas.

Porém, aconteceu o contrário: a televisão iraniana mostrou manifestações massivas no Irã, em meio aos bombardeios, em apoio ao governo e em condenação à agressão. Isso porque, embora grande parte da classe trabalhadora, da juventude e das mulheres odeie o regime teocrático, odeia ainda mais a agressão imperialista e israelense. Por outro lado, o Irã confirma, mesmo enfraquecido, que possui capacidade de atingir alvos israelenses com mísseis, chegando a lançar dois mísseis contra a base militar na ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico, a 4.000 quilômetros do Irã. O Domo de Ferro de Israel não entrou em colapso, mas está parcialmente comprometido. Como nunca antes, cidades israelenses estão sendo atingidas por mísseis e as sirenes de ataque aéreo soam constantemente. Pensava-se que seria uma “guerra relâmpago”, muito curta, mas não foi. Tudo indica que foi Netanyahu quem convenceu Trump a lançar o ataque. Enquanto isso, Trump não consegue explicar por que a agressão está acontecendo. Primeiro, disse que continuaria até o fim do regime; depois, disse que isso não é necessário.

O ponto fraco de Trump não é militar, mas político

A guerra aprofunda a desordem e o caos político tanto dentro como fora dos Estados Unidos. Esta é mais uma razão para a tentativa de Trump de recuar, a começar pelo fato de não existir apoio para a guerra no seu próprio país.

O diretor do Centro de Contraterrorismo, Joseph Kent, renunciou, alegando que os EUA estão na guerra devido à pressão de Israel e que “o Irã não representa uma ameaça à segurança dos Estados Unidos”. Isso representa um grande golpe político para Trump.

As pesquisas mostram que 59% da população desaprova a ação, enquanto apenas 27% a aprova. Há uma oposição particular por parte de sua base eleitoral e do movimento Make America Great Again (MAGA), visto que Trump fez campanha com a promessa de acabar com os gastos militares dos EUA em guerras e de priorizar os interesses dos EUA.

Os conflitos inter-burgueses estão aumentando em todo o mundo. Trump lançou a guerra sem sequer notificar seus antigos aliados imperialistas europeus. Exigiu uma aliança com a Europa e a OTAN para uma intervenção naval conjunta no Estreito de Ormuz. A resposta que recebeu foi: “Esta não é a nossa guerra”. Trump respondeu chamando a OTAN de “estúpida”.

Em meio à crise, Trump autorizou a compra de petróleo da Rússia, que estava sob sanções devido à guerra na Ucrânia. Isso favoreceu Putin, que precisa desesperadamente de milhões de dólares para sua economia e para o esforço de guerra. Como resultado, Trump irritou Zelensky, que chamou a ação de “traição”. Em resumo, o caos político é total.

A guerra está aprofundando a crise da economia capitalista mundial

A revista The Economist, por exemplo, publicou um editorial afirmando que “a guerra é um ataque à economia mundial”. E esse desastre recai sobre Trump.

O ponto forte do Irã é o controle do Estreito de Ormuz. Com apenas 40 quilômetros de largura, ele é crucial; 20% do petróleo bruto mundial passa por ali. Estima-se que entre 20 e 21 milhões de barris passem diariamente pelo estreito. 25% do gás natural liquefeito e 35% dos fertilizantes agrícolas também passam por ali. Somente nos Estados Unidos, os preços dos fertilizantes aumentaram 30%.

O petróleo está atualmente cotado entre US$ 90 e US$ 100 o barril, enquanto antes dessa ação estava em US$ 70. Chegou a bater US$ 120, podendo subir ainda mais; ninguém sabe ao certo. As consequências são uma inflação mais alta nos Estados Unidos, com efeito será global.

É claro que os maiores beneficiados são as multinacionais do petróleo e do setor bélico. O cenário global é incerto, pois não se sabe quando e como essa guerra terminará. É possível que a crise econômica do capitalismo se agrave, impulsionando o movimento de massas. A queda do padrão de vida vai piorar, devido ao aumento do custo dos bens de primeira necessidade em todo o mundo.

Ampliar a mobilização contra a agressão ao Irã e ao Líbano

Nós, da UIT-QI, defendemos a continuidade da condenação à agressão criminosa de Trump e de Israel e a mobilização em apoio aos povos do Irã e do Líbano. Repudiamos a agressão imperialista contra o Irã, sem oferecer qualquer apoio à ditadura teocrática. Promovemos uma campanha anti-imperialista de unidade de ação contra a extrema-direita trumpista e sionista com os seguintes slogans: Basta de bombardeios e da agressão imperialista de Trump e Netanyahu no Oriente Médio! Os governos do mundo devem romper relações com Israel! Os povos árabes devem exigir que seus governos rompam com os Estados Unidos e cessem a colaboração com a agressão. Todo apoio à Gaza e ao povo palestino. Palestina livre, do rio ao mar!

Há manifestações previstas contra a guerra nos Estados Unidos, assim como em Berlim, Londres e Madri, com o lema “Não à guerra!”. Este é o caminho para derrotar Trump e a guerra de agressão imperialista.

 

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Israel já avisou que não pretende interromper a agressão militar

Tudo indica que Trump não sabe como sair da guerra. Ele continua dizendo que a guerra terminará “quando eu disser”. Porém, enfrenta a oposição de Netanyahu, que tem uma posição diferente. O líder israelense já declarou que o Estado sionista continuará a proteger “a sua segurança” e que nenhuma negociação os limitará na sua “defesa”.

Israel não tem interesse em negociar ou chegar a um acordo com o Irã. Não é uma estratégia compartilhada. Netanyahu se beneficia de uma guerra prolongada, porque ela unifica o país em torno de seu governo. Toda a oposição e todo o movimento sionista pseudoprogressista de esquerda apoiam a guerra. Israel continua bombardeando o Irã e o Líbano, além de realizar uma invasão no sul do território libanês, que pretende anexar. E está se aproveitando da situação para continuar a limpeza étnica na Cisjordânia e em Gaza.

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