Construir um bloco da esquerda independente. Entrevista com Renato Cinco.
Nosso jornal inicia uma série de entrevistas com lideranças independentes e das organizações socialista e comunistas que não integram a frente ampla. Uma iniciativa da CST que visa explorar a possibilidade de construir um bloco da esquerda independente. Confira a entrevista com Renato Cinco.
1- Qual o papel da esquerda socialista e comunista na atual conjuntura?
Colocar o pé na dividida. Demonstrar para a classe trabalhadora que a polarização atual é falsa porque se dá nos marcos de disputas entre a burguesia sobre a dose de neoliberalismo e de autoritarismo a adotar.
Também precisamos colaborar para o entendimento de que o colapso ambiental é grave, ameaça seriamente a vida no planeta e não pode ser superado sem a destruição do capitalismo e a construção de uma economia completamente diferente, onde as decisões sobre produção e consumo sejam tomadas em função do enfrentamento ao colapso e da superação da desigualdade.
E denunciar as ameaças cada vez mais claras de reversão neocolonial imposta pelo imperialismo aos países da periferia, como demonstrado no documento sobre política de segurança nacional do governo Trump, que mira na destruição do que resta de soberania nacional para os países da América Latina.
2- Qual sua visão sobre os 3 anos do governo da frente ampla de Lula/Alckmin?
Na prática Lula faz o terceiro governo do golpe: Não revoga nenhuma medida dos golpistas; Não impede o avanço legislativo nem eleitoral dos golpistas; Avança com os ajustes neoliberais, atacando os direitos dos trabalhadores; Mantém a política de ajuste fiscal e compromete cada vez mais a capacidade de funcionamento dos serviços públicos e, apesar de todas as bravatas, mantém a política externa golpista de submissão aos EUA.
O terceiro mandato de Lula surgiu de um acordão com setores do capital internacional e da burguesia brasileira para a reversão do golpe dentro do golpe representado pela vitória eleitoral de Bolsonaro em 2018. O objetivo, alcançado, era devolver o poder para os grupos dominantes da burguesia, ameaçados por setores do capital ligados ao bolsonarismo.
E, talvez o mais dramático, em nome da governabilidade, o lulismo impõe aos movimentos populares e sindicais uma duríssima política de desmobilização popular permanente. Nenhuma luta que enfrente as políticas neoliberais é permitida e são esvaziadas ou reprimidas quando se apresentam. Somente manifestações de defesa do atual regime são permitidas, como as lutas contra a anistia ou contra a PEC da blindagem.
3- Como combater a extrema direita? Devemos lutar para colocar Bolsonaro e generais na cadeia?
A história demonstra claramente que a prisão de lideranças políticas nem sempre é capaz de impedir que essas lideranças assumam o poder. Hitler e Mandela provavelmente são os mais conhecidos, mas até Lula viveu essa experiência, nem a prisão na ditadura, nem a prisão na Lava Jato o impediram de vencer eleições e chegar à presidência. O que vai definir de fato o tempo de prisão dos golpistas e a possibilidade deles retornarem ao poder é como a luta de classes vai se desenvolver nos próximos anos.
Portanto, defendo que o mais importante é avançarmos na mobilização e luta da classe trabalhadora como caminho para a construção de um poder popular capaz de disputar com a extrema-direita o justíssimo sentimento anti-sistema cada vez maior entre o povo.
Nos próximos anos, o colapso ambiental, a crise estrutural do capital e os conflitos interimperialistas levarão ao aumento exponencial da violência política e da utilização pelo capital da extrema-direita para implementar processos brutais de repressão. A violência do genocídio na Faixa de Gaza pode se tornar cada vez mais comum como resposta do capital às instabilidades politicas que virão. Precisamos preparar o melhor possível a classe trabalhadora para os tempos duríssimos que virão.
4- Qual sua visão sobre um bloco ou campo da esquerda independente, que não está na frente ampla?
Acredito que é absolutamente fundamental que as organizações, movimentos e coletivos que compõem a esquerda independente, anticapitalista e radical busquem o máximo de unidade possível para que tenhamos musculatura e visibilidade para apresentarmos para a classe trabalhadora um programa socialista e um plano de lutas capazes de romper com a muralha da política de desmobilização pela governabilidade tocada pelas frente Brasil Popular e Povo Sem Medo.
É comum vermos nos debates pela internet a defesa de que o governo precisa dar uma guinada à esquerda e mobilizar o povo para enfrentar o rentismo. Isso não acontecerá. Lula e seus aliados estão completamente comprometidos com a política neoliberal e planejam justamente o contrário, aprofundar o corte do financiamento dos serviços públicos na busca por superávit primário. Para que as mobilizações populares voltem a influenciar os rumos do país, precisamos da auto organização daqueles e daquelas com compromisso com o povo e não com o lulismo.