Fim do Windows 10 e elitismo no Software Livre: Aliança para tornar seu PC em sucata
Por Bruno Bicalho
Vivemos tempos de aprofundamento da barbárie capitalista, onde a tecnologia, longe de servir à emancipação humana, é utilizada como ferramenta de segregação.
Enquanto a classe trabalhadora luta para sobreviver e recicla tecnologia para ter acesso à informação, uma casta privilegiada de desenvolvedores decide, do alto de seus escritórios climatizados e equipados com supermáquinas, quem merece ou não entrar na “nova era” da computação.
Outubro de 2025 entrou para a história não como um marco de evolução tecnológica, mas como a data de um crime contra usuários de centenas de milhões de computadores ativos. Ao decretar o fim do suporte ao Windows 10, e exigir chips TPM 2.0 e processadores recentes para o Windows 11, a Microsoft transformou artificialmente milhões de computadores operacionais em potencial lixo. O objetivo é claro: forçar a compra de novas licenças e novos computadores, alimentando a indústria de hardware em um ciclo vicioso de consumo e descarte, enquanto deixa quem não tem acesso às novas tecnologias desprotegidos contra ameaças digitais.

500 milhões de computadores não possuem o hardware necessário para o Windows 11, de acordo com declarações de um executivo da Dell
Essas máquinas que rodam perfeitamente navegadores, editores de texto, vídeos e jogos tornaram-se “ilegais” aos olhos do mercado simplesmente por não possuírem um chip de segurança TPM 2.0 ou processadores de última geração.
Se a Microsoft decreta a morte do hardware, empresas como a NVIDIA garantem que ele não possa ser ressuscitado. Historicamente, a NVIDIA opera como um inimigo do software livre, mantendo seus drivers e documentações como segredos industriais (código fechado).
Ao negar à comunidade o acesso ao funcionamento interno de suas placas (especialmente as mais antigas, que equipam os PCs da classe trabalhadora), a NVIDIA pratica uma sabotagem ativa. Ela impede que desenvolvedores independentes criem soluções para manter essas placas funcionando nos novos sistemas. Enquanto lucram trilhões com a Inteligência Artificial e a venda de chips para data centers, abandonam o consumidor final à própria sorte, forçando a substituição de componentes que ainda poderiam servir por anos.
Essas empresas das potências imperialistas operam em cartel para destruir a autonomia do usuário. Assim como vemos a cumplicidade empresarial em genocídios e exploração de recursos naturais em outras partes do mundo, aqui vemos a cumplicidade na destruição do direito ao acesso à tecnologia. Elas controlam o hardware, fecham o software e, agora, cooptam partes do ecossistema Linux* para validar suas práticas excludentes. É o imperialismo tecnológico ditando que, se você não pode pagar o preço de monopólio das novas gerações de hardware, você não merece fazer parte do mundo digital.

Linus Torvalds, criador do Kernel Linux: Fuck NVIDIA
Traição à filosofia do Software Livre
Historicamente, tínhamos um refúgio contra esse descarte forçado: o Linux. O sistema do pinguim sempre foi o “hospital” que acolhia as máquinas rejeitadas pelo capital, devolvendo-lhes vida e utilidade. Mas, num ato de traição histórica, uma “aristocracia do software” decidiu fechar as portas desse hospital justamente quando a comunidade de software livre mais precisava dele.
Há uma movimentação no mundo do software livre, com o projeto GNOME e outras interfaces abandonando o suporte ao Xorg em favor do Wayland, e isso não é apenas uma mudança técnica: é um reflexo da lógica de seleção artificial imposta pelas grandes corporações e absorvida acriticamente por elites tecnocráticas. O GNOME é o ambiente de trabalho mais usado como padrão pelas distribuições de sistema operacional com kernel Linux.
Estamos diante de uma eugenia eletrônica que elimina quem não consegue pagar a nova geração de hardware. Querem sistemas limpos, rápidos e seguros, mas apenas para quem pode pagar o ingresso caro do hardware de última geração.
Essa elite do desenvolvimento vive em uma bolha, financiada por grandes corporações e com acesso a hardware de ponta. Para eles, descartar tecnologias antigas é “evolução”. Para nós, é uma obsolescência imposta. Eles criam sistemas para rodar em máquinas que custam uma fortuna, ignorando que, na periferia do capitalismo, o computador é um bem durável que precisa durar pelo menos 10 anos.
A desconexão da “aristocracia digital” não é apenas técnica, é ideológica. Ela encontra sua expressão máxima quando desenvolvedores do Sul Global reproduzem, sem crítica, a lógica de descarte imposta pelo Norte. Um brasileiro que é figura proeminente do projeto GNOME tornou-se o porta-voz dessa mentalidade ao declarar publicamente que, para o Linux avançar, é necessário “quebrar o passado para evoluir”.
E essa frase, que soa como um slogan de inovação nos corredores do Vale do Silício, ecoa como uma sentença de morte para os equipamentos da maioria na periferia do capitalismo.
Quando falam em “quebrar o passado”, se referem a eliminar códigos antigos (como o Xorg) que consideram “feios” ou “difíceis de manter”. Eles olham apenas para a pureza da engenharia de software.
Porém, a cegueira os impede de ver o óbvio: o “passado” que eles querem quebrar é o presente de milhões de pessoas. Para a elite do código, o passado é um protocolo de software obsoleto que precisa ser enterrado.
Evolução para Quem?
Ao advogar pelo fim da compatibilidade em nome da evolução, essa elite assume uma postura higienista. Eles preferem um sistema operacional “limpo” e “moderno”, mesmo que isso signifique expulsar a base de usuários que não pode acompanhar o ritmo frenético das atualizações de hardware.
Essa é a confissão final de que o projeto GNOME, sob essa liderança ideológica, escolheu seu lado: o lado da modernidade excludente, virando as costas para a missão histórica do software livre de acolher e libertar, independentemente do poder de compra do usuário. Quebrar o passado, nesse contexto, é quebrar as pernas de quem não pode comprar o futuro.
Não podemos ser ingênuos: a exclusão digital que enfrentamos não é um “acidente” da evolução, mas um projeto deliberado de lucro e dominação. Por trás da “purificação técnica” do software, estão os interesses vorazes das Big Techs, os grandes monopólios imperialistas que controlam a infraestrutura digital global e impõem uma obsolescência programada criminosa.
A filosofia do software livre nasceu para ser uma ferramenta de emancipação. Centrada nas quatro liberdades essenciais, ela promove o compartilhamento de conhecimento e a autonomia do usuário, defendendo que qualquer pessoa tem o direito de executar, estudar, modificar e redistribuir software. O objetivo sempre foi garantir o controle sobre a tecnologia e fomentar a colaboração e a evolução social, focando na liberdade, e não no preço.
No entanto, essa “aristocracia digital” está rasgando esses princípios. Como podemos exercer a liberdade de executar o programa se o software impõe barreiras artificiais de hardware que a classe trabalhadora não pode comprar?
Ao invés de inclusão e autonomia, o que vemos é uma seleção artificial onde a liberdade se torna um privilégio de quem pode pagar pelo hardware mais recente.
A Hipocrisia Verde e a Montanha de Silício
Enquanto as Big Techs e as fundações enchem a boca para falar de sustentabilidade e metas de carbono zero, suas decisões de engenharia impulsionam silenciosamente um desastre ambiental sem precedentes. Ao tornarem obsoleto um parque de meio bilhão de computadores funcionais, seja por travas artificiais ou pelo purismo técnico, essas entidades condenam toneladas de plástico, metais pesados e silício aos aterros sanitários. O “código limpo” que eles celebram em seus escritórios assépticos resulta diretamente em solo contaminado e águas envenenadas na periferia do mundo, expondo a mentira fundamental do “capitalismo verde”: não existe sustentabilidade baseada no descarte programado.
A verdadeira conta ambiental não é paga na hora da compilação do software, mas na extração brutal necessária para substituir o que foi descartado. Ignora-se que fabricar um único novo notebook exige milhares de litros de água e a mineração agressiva de terras raras, gerando um passivo ecológico que a suposta “eficiência energética” de um processador moderno jamais compensará. Portanto, a defesa do suporte ao hardware legado é a única postura ecologicamente honesta. O computador mais verde não é aquele que acabou de sair da fábrica com um selo de marketing, mas aquele que já existe, já foi produzido e que, com o software adequado, pode continuar servindo à humanidade sem exigir que sangremos a Terra por novos recursos.
A realidade brasileira não permite o luxo do descarte
Mais de 67% dos trabalhadores ganham menos de 2 salários mínimos e o custo médio de um computador intermediário de tecnologia mais recente varia entre R$ 5000 e R$ 7000, diante disso o trabalhador brasileiro não compra apenas os “queridos Kit Xeon” de alto desempenho (uma reciclagem de servidores, que custam ao total entre R$ 1000 e R$ 2500). Ele vai além.
Existe uma verdadeira cultura de sobrevivência do hardware antigo: jovens e trabalhadores pegam placas-mãe de 10 anos atrás, misturam pentes de memória de marcas e frequências diferentes, instalam SSDs baratos comprados na China e ressuscitam máquinas que a indústria condenou à morte. É a mistura de gerações para garantir o acesso ao lazer, a estudar e a trabalhar.
Mas para a “aristocracia do software”, esses computadores “Frankenstein”, fruto do suor e da engenhosidade no sul global, é “lixo” ou “inseguro”. A purificação técnica que eles promovem elimina quem não consegue pagar a nova geração de hardware, transformando equipamentos perfeitos em sucata inutilizável. Ao decretar o fim do suporte ao Xorg, o GNOME ignora que milhões dessas máquinas dependem de placas de vídeo antigas (especialmente NVIDIA) que jamais terão suporte decente no Wayland devido ao boicote do fabricante.


Enquanto isso os preços de hardware ficam cada vez mais caros, porque as grandes corporações decidiram que vender superprocessadores e memórias de altíssimo desempenho para data centers de IA é infinitamente mais lucrativo do que fornecer peças para o computador do jovem estudante, do pequeno profissional ou do trabalhador.
Vale a pena ter um Linux ‘geneticamente perfeito’ e seguro, se o preço for excluir uma grande parte da comunidade que ainda depende do hardware legado?
Não podemos negar que as comunidades ao redor do XFCE e do MATE constroem verdadeiras trincheiras de resistência, mantendo vivo o espírito do Software Livre onde ele é mais necessário. Mas depender dessas alternativas revela o abismo da nossa condição: somos forçados a abrir mão do refinamento visual e das inovações de usabilidade que definem a computação moderna. O problema não é a competência desses projetos, mas a segregação tecnológica que se estabelece: aceitaríamos que interfaces modernas, polidas e altamente integradas sejam um privilégio de quem tem hardware novo, enquanto a “plebe” do silício deve se contentar com a austeridade espartana. Isso normaliza a ideia de que o conforto digital e a beleza da interface não são direitos universais, mas luxos de classe.
O software livre deve se adaptar à realidade material da classe trabalhadora, e não o contrário! Contra o higienismo digital, exigimos suporte ao hardware real que usamos, e não ao hardware imaginário que a elite deseja. A tecnologia deve servir para a emancipação, não para aprofundar o abismo da desigualdade.
Essa luta é fundamentalmente uma questão de poder, buscando a democratização do acesso e do controle sobre as ferramentas tecnológicas para garantir que a liberdade do software livre contribua para a autonomia e o desenvolvimento social, especialmente das comunidades marginalizadas pelo capitalismo.
Fazemos um chamado para uma ruptura com a lógica consumista que contaminou o Software Livre. É hora de abraçar a computação ecológica como política de Estado e de Comunidade. O computador mais ecológico não é aquele novo com selo verde, mas aquele que já existe e continua a funcionar.
