Construir um bloco da esquerda independente
Nosso jornal inicia uma série de entrevistas com lideranças independentes e das organizações socialista e comunistas que não integram a frente ampla. Uma iniciativa da CST que visa explorar a possibilidade de construir um bloco da esquerda independente. Confira aqui a entrevista com Plínio de Arruda Sampaio, do Contrapoder. Boa leitura.
“é urgente que as organizações comprometidas com a revolução abandonem a autoconstrução e o sectarismo”
1- Qual o papel da esquerda socialista e comunista na atual conjuntura?
Vivemos no capitalismo do desatino. O modo de produção do capital perdeu todo e qualquer caráter civilizatório, entendido como um progressivo controle do ser humano sobre seu destino. Sem possibilidade de superar suas contradições sem repô-las de maneira agravada logo em seguida, o regime burguês tornou-se particularmente destrutivo. Na crise estrutural do capital, a busca do lucro implica progressivo rebaixamento do nível tradicional de vida dos trabalhadores e crescente devastação ambiental. Nessas circunstâncias, o Estado burguês fica esvaziado de todo conteúdo democrático e republicano. Assim, o capitalismo fica destituído de toda sua razão de ser e justificativa histórica. A situação não poderia ser mais grave. Se a tendência irrefreável à expansão do capital não for detida, será impossível reverter o colapso ambiental.
Nessas circunstâncias, à burguesia só resta o expediente de naturalizar a catástrofe e administrar a barbárie. É o que vemos todos os dias em Gaza. Cabe aos comunistas a tarefa de colocar na ordem do dia a urgência da revolução contra o capital como único antídoto ao desatino do capital. À sociedade da mercantilização, da concorrência, do lucro e do consumismo, os comunistas devem contrapor a necessidade e a possibilidade de um modo de vida baseado na igualdade substantiva de todos os seres humanos e numa ética da frugalidade fundada numa relação harmônica entre o ser humano e o meio ambiente. Passou a hora de ir além do capital.
2- Qual sua visão sobre os 3 anos do governo da frente ampla de Lula/Alckmin?
Quando se ganha com a direita é a direita que ganha. Ao não revogar as contrarreformas de Temer e Bolsonaro, o governo Lula ficou enquadrado aos parâmetros do neoliberalismo 3.0 instituído pela “Ponte para o Futuro”. Tornou-se o terceiro governo do golpe contra os trabalhadores, golpe iniciado com a famigerada operação Lava Jato e consumado com as reformas constitucionais que eliminaram o que ainda restava de conteúdo democrático, republicano e nacional na Constituição de 1988.
Vistas com objetividade, as diferenças entre os governos Lula e Bolsonaro ficam restritas, basicamente: (i) às políticas de costumes, com o incentivo a medidas identitárias de inclusão institucional e reforço à capacidade de consumo; (ii) à mudança na política externa, com o abandono do alinhamento incondicional com a extrema direita internacional; e (iii) à intenção de estabilizar o padrão de dominação autocrático burguês respeitando minimamente a formalidade do Estado de direito. São mudanças relevantes, mas muito insuficientes para aplacar o profundo mal-estar social que envenena a sociedade.
Ao aceitar os parâmetros reacionários de um simulacro de República Nova que se ergueu dos escombros na Nova República, o governo Lula não cumpriu (nem teria como cumprir) as duas promessas fundamentais de sua campanha eleitoral: colocar o pobre no orçamento; e afastar o risco da ameaça autoritária.
A substituição do Teto de Gasto pelo Novo Arcabouço Fiscal – a principal mudança na política econômica – manteve o espírito da política de Estado mínimo implantado por Temer. O regime fiscal de Haddad funciona como uma bomba relógio que compromete inexoravelmente o que ainda resta de política social de caráter universal. Não surpreende que o Ministério da Economia conspire dia e noite para derrubar o piso de gasto constitucional da saúde e da educação e que patrocine tenazmente a construção de um consenso partidário em torno uma nova reforma administrativa neoliberal.
Mesmas políticas, mesmos efeitos. O enriquecimento galopante dos 1% mais ricos da população contrasta com a situação lamentável de 85% dos brasileiros. A expansão do emprego, a modesta recuperação do salário real, o arrefecimento da inflação e a redução na pobreza – fatos exaltados pela propaganda oficial do governo federal – foram determinados fundamentalmente pela mudança na conjuntura econômica mundial e pelo significativo aumento dos gastos dos estados e municípios. Não surpreende o crescente cansaço da população com o discurso da “miséria do possível” e sua busca desesperada por uma alternativa antissistêmica. Na ausência de uma esquerda contra a ordem, a frustração da população é capitalizada pela direita contra a ordem.
Donde a força da ultradireita. Ainda que o clã Bolsonaro tenha sofrido reveses, a extrema direita encontra-se em plena ofensiva política e ideológica. O fato fica evidente no surpreendente desempenho de Pablo Marçal nas eleições municipais de São Paulo. Enquanto a esquerda contra a ordem não entrar em cena, outros marçais aparecerão.
3- Como combater a extrema direita? Devemos lutar para colocar Bolsonaro e generais na cadeia?
O combate à extrema direita exige como ponto de partida a organização dos trabalhadores para a resistência aos ataques a seus direitos, bem como para o enfrentamento das catástrofes ambientais que tendem a ser cada vez mais frequentes e mais intensas. Os trabalhadores não devem, em hipótese alguma, ceder terreno sem luta. Mas, a resistência apenas não basta. Sem a construção de uma alternativa sistêmica ao neoliberalismo, não é possível superar o apelo da ultradireita sobre quem está desesperançado e indignado com o status quo. Junto com a luta de resistência, é preciso construir condições para uma ofensiva do trabalho contra o capital.
A mediação entre o objetivo estratégico – a revolução comunista – e as necessidades imediatas – a barbárie do dia a dia – coloca em pauta a urgência de uma agenda que responda de maneira radical às premências do trabalho – o fim da escala 6×1, o aumento dos salários, a começar pelo salário-mínimo, a elevação substancial dos gastos com políticas públicas, a reforma agrária, o combate à devastação do meio ambiente, a reforma urbana, etc. Tal inversão de prioridades exigiria uma completa transformação na arquitetura da política econômica, a começar pelo fim do Novo Arcabouço Fiscal e da independência do Banco Central, o não pagamento da dívida pública, o controle sobre os movimentos de capitais, a taxação dos ricos e a estatização das empresas estratégicas e do sistema financeiro.
A luta contra a ofensiva reacionária da burguesia passa não apenas pela prisão de Bolsonaro e dos generais que conspiraram para erradicar o Estado de direito. Também é importante prender os plutocratas que financiaram a conspiração golpista e promover uma verdadeira refundação das Forças Armadas, da Polícia Militar e de todo o aparelho repressivo do Estado que existe única e exclusivamente como instrumento de opressão da população pobre.
4- Qual sua visão sobre um bloco ou campo da esquerda independente, que não está na frente ampla?
Os trabalhadores encontram-se completamente desarmados para enfrentar uma conjuntura particularmente adversa. Não é um problema exclusivo dos brasileiros. As organizações sociais, sindicais e políticas construídas no último período, sob a égide do programa democrático popular, não estão à altura dos desafios históricos que é preciso enfrentar para fazer face ao capitalismo da catástrofe. A construção de tais instrumentos deve ser a primeira prioridade da esquerda contra a ordem. Eles surgirão da fusão entre a luta contra a barbárie e a crítica radical ao reino do capital.
É importante que o bloco da esquerda contra a ordem tenha uma clara demarcação com a esquerda da ordem. Não por sectarismo, mas porque a esquerda institucionalizada é hoje um dos principais obstáculos à emergência da classe trabalhadora como sujeito político, cumprindo a perversa função de: criar ilusão sobre a possibilidade de solução para os problemas da sociedade por dentro da institucionalidade; legitimar o status quo; desmobilizar a luta dos trabalhadores; e bloquear o aparecimento de uma contestação pela esquerda do sistema. O PT e o PSOL cumprem a tarefa com muito afinco.
A luta da esquerda socialista por dentro da institucionalidade resultou no beco sem saída de sua total incorporação ao regime burguês. Para não ser capturada pela falsa polarização que separa os dois braços da ordem, a Frente de Esquerda Socialista deve ter como principal objetivo o combate ao sistema como um todo. O desafio consiste em construir instrumentos políticos para acumular força extra institucional – poder popular – único meio de fugir aos tentáculos do Estado burguês. Sem unidade da classe trabalhadora em torno de um programa revolucionário, os trabalhadores continuarão desarmados. Para estar à altura dos desafios históricos, é urgente que as organizações políticas comprometidas com a revolução contra o capital abandonem definitivamente o horizonte canhestro da autoconstrução e do sectarismo e se comprometam de corpo e alma com a tarefa de encarnar a consciência comunista em escala de massa.
Entrevista para o Jornal da CST. 26.09.25