Construir um bloco da esquerda independente. Entrevista com Vera Lúcia

Nosso jornal realiza entrevistas com lideranças independentes e das organizações socialistas e comunistas que não integram a frente ampla. Uma iniciativa da CST que visa explorar a possibilidade de construir um bloco da esquerda independente. nas edições anteriores entrevistamos Plinio Arruda Sampaio Jr do Contrapoder e Gabriel Lazzari secretario geral do PCBR. A seguir confira a entrevista com Vera Lúcia, da direção nacional do PSTU.

 

1 – Qual o papel da esquerda socialista e comunista na atual conjuntura?

Vivemos um período de acirramento das contradições do capitalismo e das disputas interimperialistas pela redefinição da ordem mundial. A crise do neoliberalismo, somada à quarta revolução tecnológica e à catástrofe ambiental, empurra a humanidade para a miséria. Enquanto potências disputam matérias-primas e mercados, a classe trabalhadora é lançada ao desemprego, à precarização e à violência. Milhões fogem de guerras e da fome, como na Palestina e na Ucrânia, expressões extremas da barbárie capitalista.

A classe trabalhadora e a juventude demonstram vitalidade. A resistência palestina, a luta ucraniana, mobilizações que derrubaram governos no Nepal e Madagascar, o enfrentamento à ditadura em Angola e greves operárias no Brasil expressam uma mesma energia que brota do interior da classe empobrecida.

Cabe aos socialistas disputar ativamente estas lutas e apresentar um programa que parta dessa realidade e demonstre que não há solução real vinda das alas burguesas – sejam as “progressistas”, como o governo Lula-Alckmin, sejam as da extrema direita. O desafio é reconstruir a consciência e a unidade da classe, hoje fragmentada entre empregados formais, terceirizados, pejotizados, uberizados e informais. Essa divisão favorece individualismo e concorrência entre explorados.

Não há atalhos: a tarefa central dos revolucionários é, desde a luta da nossa classe, promover uma forte luta ideológica para disputar corações e mentes para uma saída socialista, enfrentando ideologias burguesas e reformistas que desviam as lutas da superação do capitalismo e construir partidos revolucionários com raízes em cada país.

 

 

2 – Qual sua visão sobre os três anos do governo da frente ampla Lula/Alckmin?

Como toda frente ampla de colaboração de classes, o governo Lula-Alckmin é burguês e pró-imperialista a serviço dos interesses burgueses. A presença de lideranças de movimentos sociais, mulheres, negros, indígenas e ambientalistas não se traduziu em ações concretas em defesa dos oprimidos. As poucas concessões são insuficientes diante da crise social.

A isenção do IR até R$ 5 mil não eleva a faixa, apenas fixa um valor corroído pela inflação. O governo mantém a estrutura regressiva de impostos, sem taxar bilionários e sobrecarregando os pobres. Embora alardeie que tirou o Brasil do “Mapa da Fome”, ainda há 28 milhões em insegurança alimentar e nenhuma medida estrutural contra a desigualdade.

Enquanto isso, é generoso com a burguesia. O “arcabouço fiscal” é nova versão do teto de gastos, garantindo lucros aos bancos e pagamento da dívida pública, enquanto corta educação e saúde. Reforça também a privatização e submissão da Petrobras ao capital e à exploração predatória.

Lula denuncia o genocídio em Gaza, mas mantém relações comerciais com Israel. Diante das sanções dos EUA, recusa medidas soberanas como nacionalizar multinacionais ou controlar remessa de lucros. Para além do discurso ambiental, o agronegócio segue devastando biomas e atacando povos originários impunemente.

Mesmo assim, direções de movimentos sociais seguem apoiando o governo, alegando “governabilidade” e o risco da extrema direita. Mas essa conciliação alimenta o avanço reacionário, ao frustrar esperanças e desmobilizar trabalhadores.

O papel dos socialistas é se apresentar como oposição de esquerda, de classe e socialista contra o governo e sua política econômica, sem se confundir com a direita, apresentando um programa alternativo e estimulando a organização independente dos trabalhadores e a unidade de ação para lutar contra seus projetos.

 

3 – Como combater a extrema direita? Devemos lutar para colocar Bolsonaro e os generais na cadeia?

A extrema direita não é “anti-sistema”, mas expressão brutal do capitalismo. É articulada e financiada internacionalmente. O capitalismo em decomposição vem gerando regimes mais autoritários, que recorrem à repressão para conter revoltas. Combatê-la exige mobilização de massas, denúncia constante e formação política da classe trabalhadora.

No Brasil, a impunidade histórica dos militares e golpistas é uma ferida aberta. Bolsonaro, seus generais e apoiadores devem ser presos e responsabilizados por seus crimes, não porque confiamos no Estado burguês, mas porque a luta pela punição destes crimes faz parte da defesa das liberdades democráticas conquistadas com tanto custo. Essa é uma tarefa central da luta socialista.

Enquanto isso, Lula, em nome da “governabilidade”, alia-se ao Centrão e a setores bolsonaristas, rifando as necessidades da classe trabalhadora. Essa política, somada à ausência de soluções reais, alimenta e fortalece a extrema direita.

 

4 – Qual sua visão sobre um bloco ou campo da esquerda independente, que não está na frente ampla?

A tarefa da esquerda socialista é apresentar seu programa e disputar a consciência da classe trabalhadora, partindo da independência de classe como princípio e apontando uma alternativa socialista e revolucionária. Toda iniciativa de unidade política precisa ser analisada a partir do conteúdo político que expressa, assim como das tarefas que são colocadas pelo momento. O fundamental é definir com qual programa e quais princípios o orientam.

Ao mesmo tempo, é necessário construir unidade de ação classista nas ruas, promover o debate político e fortalecer as lutas.

Diante desse desafio e de uma esquerda cada vez mais adaptada ao capitalismo, o PSTU e a LIT atualizam seu programa sobre temas como o papel da China, a crise ambiental, a ditadura do proletariado e o combate ao economicismo, colocando agitação e propaganda no centro da atuação do partido e um programa que parta da realidade nacional e das tarefas imediatas da classe, da juventude e dos oprimidos – rumo à revolução socialista brasileira como parte da revolução mundial. Buscamos fazer o que Moreno, à sua época, fez: apoiar-nos no marxismo para explicar os desafios colocados por uma realidade complexa e cheia de mudanças.

O confronto de ideias e a unidade na luta são aspectos fundamentais da construção das organizações e do programa das organizações socialistas, nos colocamos a disposição dessa construção.

 

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