Todo apoio às rebeliões estudantis e às greves na Europa!
Por Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional.
14/10/2026.
Desde meados de setembro, a Europa está sendo palco de mobilizações massivas, nas quais estudantes, trabalhadoras e trabalhadores e setores populares ocupam as ruas e enfrentam a política de ajustes dos governos. Do Estado Espanhol e da França, passando pela Alemanha, Bélgica e Itália, um efeito de contágio espalhou manifestações, acampamentos e ocupações por grande parte do continente europeu. As centrais sindicais da França e do Estado Espanhol convocaram greves gerais para os dias 5 e 11 de novembro, respectivamente. Uma verdadeira rebelião estudantil e uma onda de greves estão em curso.
No Estado Espanhol, o direito à moradia acendeu o estopim
A faísca acendeu-se de forma massiva em Madri, quando a Plaza del Sol foi tomada por um acampamento multitudinário em repúdio ao despejo de Maricarmen — vítima fatal de um dos 45 despejos que ocorrem diariamente no Estado Espanhol — e à política habitacional criminosa do governo de Pedro Sánchez, do PSOE e de seus aliados. Sánchez governa desde 2018 e é apontado como o responsável pelos custos de aluguel impagáveis, pela impossibilidade concreta de compra de um imóvel para a maioria trabalhadora e pelo crescimento desproporcional dos aluguéis temporários. A destruição dos salários impede que a maioria trabalhadora e a juventude tenham acesso a uma moradia digna, ao passo que os bancos realizam grandes negócios. Apenas entre 2021 e 2024, os salários cresceram 7,4%, enquanto o preço do aluguel aumentou 29,4%; já o aluguel de quartos registrou um crescimento de 85,4% desde 2022.
O massivo acampamento em Madri estendeu-se a Barcelona, Valência e outras cidades do Estado Espanhol. O governo de Pedro Sánchez tentou abafar a situação com a aprovação de um decreto, que contemplava parte das reivindicações, embora não resolvesse o problema de fundo; mas a tentativa fracassou. A direita, representada pelo Partido Popular (PP) e pelo VOX, votou contra, expondo o governo a uma crise que o obrigou a convocar eleições antecipadas para o dia 29 de novembro — uma medida com a qual Sánchez busca canalizar a crise política e salvar a si mesmo.
Apesar das manobras e das ameaças, os acampamentos resistiram e foram apoiados por mobilizações massivas, que enfrentaram as ações da ultradireita espanhola — a qual, em nome da “hispanidade”, buscou atacar os lutadores e lutadoras no último dia 12 de outubro. Longe de recuar, na quarta-feira, dia 14, teve início a greve da educação em Madri, na qual docentes exigem aumento salarial e estudantes reivindicam melhorias nas condições de estudo. Foram registrados confrontos na Universidade Complutense, quando a polícia tentou reprimir a manifestação.
Os acampamentos e as mobilizações apresentaram um plano de luta e uma pauta de reivindicações inegociável: que os custos dos aluguéis não superem 20% dos salários, para que ninguém fique sem moradia, e a expropriação — sem indenização — de grandes proprietários e fundos abutres, visando à criação de um parque habitacional 100% público e estatal.
França: milhares de estudantes do ensino médio nas ruas superam a repressão
O efeito contágio não tardou. A rebelião cruzou as fronteiras e chegou à França, onde estudantes do ensino médio e universitários protagonizaram uma verdadeira rebelião nacional contra os ajustes promovidos pelo governo Macron.
Em 29 de setembro, houve também uma greve de servidores públicos convocada para repudiar os baixos salários e o corte de 4,5 bilhões de euros que o governo pretende impor com o orçamento de 2027. No mesmo dia, estudantes secundaristas e universitários realizaram bloqueios e ocupações de instituições de ensino e promoveram mobilizações massivas, reunindo centenas de milhares de pessoas em grande parte das cidades do país. Os estudantes denunciam o descaso com a educação, que os obriga a estudar em condições precárias, com jornadas extensas, instalações em mau estado de conservação, salas de aula superlotadas e falta de professores.
A rebelião se espalhou pela maioria das escolas de ensino médio e universidades, que foram ocupadas nas últimas semanas. A resposta do governo Macron foi a repressão e a perseguição. O governo informou que, até 7 de outubro, mais de 6.800 pessoas haviam sido encarceradas, sendo 86% delas menores de idade. Um jovem de 15 anos perdeu a mão em decorrência de uma granada lançada pela polícia — muitos dos atingidos eram menores de idade. Além disso, o ministro da Justiça anunciou uma intensa perseguição e criminalização dos estudantes em luta.
Apesar da repressão e da perseguição, a juventude não se rende e enfrenta as forças de segurança, promovendo mobilizações massivas, a despeito da fracassada proibição de manifestações nas zonas escolares que o governo tentou impor. Na terça-feira, 13 de outubro — momento em que o parlamento iniciava o debate sobre o orçamento de 2027 —, ocorreu a maior mobilização desde o início das ações. Segundo organizações estudantis e de trabalhadores, cerca de 500 mil pessoas participaram da jornada, convocada como o “Quinto Ato”, demonstrando que o movimento continua a crescer e conquista a simpatia da maioria trabalhadora do país, contando ainda com novas e importantes adesões, como a de Greta Thunberg, que esteve em Paris prestando seu apoio.
Em novembro, greves gerais na França e no Estado Espanhol
Tanto no Estado Espanhol quanto na França, os movimentos juvenis, estudantis e de trabalhadores conseguiram impor às centrais sindicais a convocação de uma Greve Geral. Na França, a CGT convocou um dia de greve geral e mobilização nacional para 5 de novembro; no Estado Espanhol, a greve ocorrerá no dia 11 de novembro, conforme a convocação da CCOO e da UGT.
A convocação de greves gerais foi imposta de baixo para cima; não fazia parte dos planos das direções sindicais tradicionais. No Estado Espanhol, as grandes assembleias nas praças, junto com o Sindicato de Inquilinos, exigiam a ação desde os primeiros dias do acampamento. Na França, o movimento de estudantes e trabalhadores do setor público conseguiu tirar momentaneamente a CGT da letargia — a central sindical estava, na ocasião, negociando o orçamento com o governo.
Para conquistar as reivindicações, é fundamental preparar planos de luta para garantir a continuidade da mobilização. É preciso organizar assembleias unitárias de estudantes e trabalhadores nos locais de trabalho e estudo, bem como em cada bairro, formando comitês de greve, que promovam a unidade entre os estudantes e a classe trabalhadora com greves contundentes.
Os protestos se espalham pela Europa
O potente efeito de contágio começa a estender as mobilizações a outros países do continente. Na Alemanha, durante o mês de setembro, ocorreram importantes mobilizações operárias impulsionadas pela DGB (Confederação Alemã de Sindicatos) e pelo sindicato IG Metall, contra as reformas e cortes promovidos pelo governo de Friedrich Merz (CDU), bem como contra as ameaças de demissões e fechamentos de unidades industriais por parte de grandes multinacionais, como VW, Mercedes-Benz, Audi e BMW, entre outras. No dia 25 de setembro, milhares de estudantes mobilizaram-se para repudiar a nova lei de modernização do serviço militar, que visa recrutar — ainda que voluntariamente — jovens do sexo masculino nascidos a partir de 2008. Os estudantes temem que, diante da falta de adesões voluntárias, o governo busque impor a obrigatoriedade, tendo como pano de fundo o rearmamento promovido pelos governos dos países da União Europeia.
Na Bélgica, ocorreram 48 horas de paralisações — na sexta-feira, dia 9, e na segunda-feira, dia 12 — e grandes mobilizações contra os cortes orçamentários de 10 bilhões de euros que o governo de Bart de Wever pretende impor.
Na Itália, onde um grande movimento operário e popular esteve na vanguarda com greves gerais em apoio à Palestina, as mobilizações começam a retomar a iniciativa contra o governo Meloni. Nas últimas semanas, ocorreram diversas manifestações estudantis com a palavra de ordem “façamos como na França” — demonstrando que a indignação ultrapassa fronteiras —, ao passo que, ao longo do mês de outubro, têm sido realizadas uma série de greves parciais em diferentes setores, como a siderurgia e o transporte. O sindicato combativo USB convocou uma greve geral para o dia 30 de outubro.
Em Portugal, país que registra um dos menores parques habitacionais públicos da Europa — com apenas 2% —, o lema “vamos fazer como na Espanha” expressa que a situação da habitação é insustentável. Têm ocorrido assembleias e mobilizações no Porto e em outras cidades, nas quais se denuncia o governo social-democrata de Montenegro e a Aliança Democrática (AD) por promoverem uma lei que facilita os despejos e protege os interesses de grandes proprietários de terras e fundos imobiliários.
Todo apoio às lutas e greves na França e no Estado Espanhol!
As exemplares lutas na Europa não são fatos isolados. Todos os governos da União Europeia — sejam social-democratas, como o de Sánchez; de centro-direita, como o de Macron; ou de direita, como o de Meloni — buscam impor ajustes à classe trabalhadora e cortar gastos sociais para pagar a dívida externa e sustentar planos de rearmamento, visando competir na corrida armamentista e acatando as diretrizes de Trump. As mobilizações estudantis não estão isoladas. As lutas estendem-se por outros continentes: desde a juventude que, no Chile, se opõe aos cortes na educação e à repressão do ultradireitista Kast, até o “movimento das baratas” na Índia, que enfrenta os ataques antidemocráticos do governo Modi; passando, ainda, pela jornada de 15 de outubro na Argentina, com a nova Marcha Federal Universitária contra os cortes na educação promovidos pelo governo Milei.
Nós, da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI), apoiamos as mobilizações dos estudantes, da juventude e dos trabalhadores, e apostamos na solidariedade internacional para garantir o triunfo das lutas e das iminentes greves gerais. Repudiamos a repressão de Macron, exigimos a liberdade de todas as pessoas detidas e a anulação de qualquer perseguição judicial contra ativistas e organizações de esquerda que apoiam as mobilizações.
Em cada país, e contra cada governo, seguimos o exemplo dos estudantes da França, que nos mostram o caminho. Façamos como na França! Façamos como no Estado Espanhol! Vamos ocupar as ruas para conquistar nossas reivindicações, rumo ao fim da barbárie capitalista que nos condena à fome, à miséria e à repressão.
Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-QI)
14 de outubro de 2026