

	{"id":10177,"date":"2023-03-07T17:42:52","date_gmt":"2023-03-07T17:42:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=10177"},"modified":"2023-03-08T17:47:04","modified_gmt":"2023-03-08T17:47:04","slug":"nicaragua-entrevista-com-yader-parajon-um-dos-presos-libertados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2023\/03\/07\/nicaragua-entrevista-com-yader-parajon-um-dos-presos-libertados\/","title":{"rendered":"Nicar\u00e1gua: Entrevista com Yader Paraj\u00f3n, um dos presos libertados"},"content":{"rendered":"<p>Por Imprensa UIT-QI<\/p>\n<p><strong>\u201cA luta deve continuar\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Entrevistamos o jovem lutador nicaraguense Yader Paraj\u00f3n, um dos 222 presos libertados na Nicar\u00e1gua, em 9 de fevereiro, pela ditadura de Ortega-Murillo. Paraj\u00f3n foi libertado junto com a ex-comandante sandinista Dora Mar\u00eda T\u00e9llez, o l\u00edder estudantil Lester Aleman e o l\u00edder campon\u00eas Medardo Mairena, entre outras e outros presos por se oporem ao regime repressivo.<\/p>\n<p>Yader Paraj\u00f3n \u00e9 um renomado lutador de direitos humanos e membro da AMA (Associa\u00e7\u00e3o M\u00e3es de Abril). Ele tem 32 anos e foi preso em setembro de 2021, depois de ter se tornado defensor dos direitos humanos e da liberdade na Nicar\u00e1gua, ap\u00f3s a morte de seu irm\u00e3o Jimmy, como resultado da repress\u00e3o criminosa de Ortega na rebeli\u00e3o de abril de 2018. Jimmy tinha 35 anos de idade e foi assassinado em Man\u00e1gua, em 11 de maio daquele ano, com um tiro no peito, quando protestava nas proximidades da Universidade Polit\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, Yader levantou a bandeira contra a impunidade por esse crime, bem como o de outras 450 pessoas assassinadas, e pela liberdade de todos os presos pol\u00edticos. Ele fez parte de uma &#8220;caravana internacional&#8221;, que em julho-agosto de 2018 percorreu Peru, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil denunciando esses crimes. Na Argentina, os membros da caravana foram recebidos na sede da Izquierda Socialista, a se\u00e7\u00e3o argentina da UIT-QI. L\u00e1, foi coordenada a realiza\u00e7\u00e3o de uma palestra dos integrantes da caravana na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais, na qual falaram Yader e duas companheiras nicarag\u00fcenses. Tamb\u00e9m foi realizada, junto com outras organiza\u00e7\u00f5es, uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente \u00e0 embaixada da Nicar\u00e1gua. Desde ent\u00e3o, Yader continuou sua luta at\u00e9 ser preso em 2021.<\/p>\n<p>A entrevista foi conduzida por Pablo Almeida, l\u00edder da Izquierda Socialista e membro, em nome da UIT-QI, da Comiss\u00e3o Internacional pela Vida e Liberdade dos Presos Pol\u00edticos na Nicar\u00e1gua. A Comiss\u00e3o viajou para a Costa Rica, de 6 a 8 de julho de 2022, e foi at\u00e9 a fronteira com a Nicar\u00e1gua, onde Ortega impediu sua entrada no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Yader Paraj\u00f3n respondeu \u00e0s perguntas, via internet, dos Estados Unidos, pa\u00eds para o qual foi deportado.<\/p>\n<p><strong>Pablo Almeida: Voc\u00ea foi injustamente condenado a 10 anos de pris\u00e3o. Como foi sua pris\u00e3o e seu julgamento?<\/strong><\/p>\n<p>Yader Paraj\u00f3n: Fui detido na fronteira terrestre entre Nicar\u00e1gua e Honduras, no posto de imigra\u00e7\u00e3o de Guasaule. Fui detido em 4 de setembro de 2021, \u00e0s 5h26 da manh\u00e3, quando estava indo para o norte da Am\u00e9rica Central. Fui retirado do \u00f4nibus, questionado sobre minha participa\u00e7\u00e3o no ativismo pelos direitos humanos, o que estava estudando e qual era o meu envolvimento. E sem qualquer explica\u00e7\u00e3o, simplesmente me disseram, antes de tais questionamentos: &#8220;voc\u00ea n\u00e3o pode continuar sua jornada, \u00e9 uma ordem de cima&#8221;. E perguntei ao pessoal da imigra\u00e7\u00e3o de quem era a ordem de cima, e eles n\u00e3o souberam me responder. Ele simplesmente me disseram: \u201c&#8230;\u00e9 uma ordem de cima e voc\u00ea n\u00e3o pode continuar sua jornada\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, me apresentaram uma foto impressa de um protesto, publicada na m\u00eddia, e come\u00e7aram a me perguntar sobre minha participa\u00e7\u00e3o; me mandaram para uma sala e uma hora depois, quando o \u00f4nibus j\u00e1 havia partido para Honduras, outros quatro oficiais come\u00e7aram a me questionar e a me perguntar sobre a caravana no Cone Sul, que participei com outros companheiros em 2018. Eles me prenderam l\u00e1 por mais duas horas, come\u00e7aram a checar meu telefone, a revirar a minha mala. Disseram-me que iria ser transferido para o quartel de pol\u00edcia, para a pris\u00e3o de Somotillo, que fica no munic\u00edpio de Chinandega, na fronteira com Honduras.<\/p>\n<p>Uma vez l\u00e1, fui espancado pelo investigador Jos\u00e9 Vallecillo, que pertence \u00e0s for\u00e7as especiais. E ele me amea\u00e7ou com uma arma mec\u00e2nica, com a qual iria me quebrar e furar meu peito. Fui interrogado, amea\u00e7ado e espancado por esse inspetor em uma pequena sala, nas celas de Somotillo.<\/p>\n<p>Uma hora depois me transferiram de Somotillo para Man\u00e1gua, a capital, para ser novamente interrogado e levado para o distrito n\u00famero 3. E l\u00e1 passei por um novo interrogat\u00f3rio, nos 4 dias seguintes (s\u00e1bado, domingo e segunda), sendo espancado semi-nu por este mesmo oficial, fan\u00e1tico. Ele me perguntava quem estava nos financiando, por que contamos, segundo ele, mentiras. Por que est\u00e1vamos fazendo esse tipo de coisa, desestabilizando o pa\u00eds, se &#8220;era um governo t\u00e3o bom&#8221;? Ele ainda fez coment\u00e1rios homof\u00f3bicos, alegando que havia sido parceiro de outros ativistas jovens, pol\u00edticos e estudantis. Seguiram-se torturas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Depois desses quatro dias, me transferiram para o escrit\u00f3rio de assist\u00eancia judici\u00e1ria, mais conhecido como \u201cEl Chipote\u201d, e ali continuaram os interrogat\u00f3rios. Amea\u00e7aram-me de prender o meu pai. Disseram-me: \u201cSe n\u00e3o falar, vamos trazer o teu pai com p\u00e9s e m\u00e3os amarrados. O que voc\u00ea vai fazer se o trouxer? Eu simplesmente respondia: \u201cNada, porque nenhum de n\u00f3s fez nada de errado. Isso \u00e9 uma injusti\u00e7a.&#8221; E obviamente fui novamente humilhado pela quest\u00e3o da diversidade. E com a acusa\u00e7\u00e3o de que estava me fingindo de v\u00edtima, j\u00e1 que a morte do meu irm\u00e3o era mentira.<\/p>\n<p>Meu julgamento foi em 1\u00ba de fevereiro de 2022. Fui o primeiro, dos 222 prisioneiros, a ser levado a julgamento. Um julgamento fraudulento. Minha pris\u00e3o ocorreu em 4 de setembro e no registro policial consta que fui preso em 5 de fevereiro. Ent\u00e3o, houve at\u00e9 uma incoer\u00eancia jur\u00eddica de datas. Pelo princ\u00edpio da nulidade, todo o processo judicial foi viciado. E, perante essa incoer\u00eancia, a lei estabelece que o julgamento seja anulado e que eu seja libertado. Mas, como os mercen\u00e1rios da lei ignoraram as inconsist\u00eancias, isso n\u00e3o aconteceu. Meu julgamento durou mais de 8 horas (das 8 da manh\u00e3 \u00e0s 6 ou 7 da noite). Foi totalmente viciado. A incongru\u00eancia do discurso era vis\u00edvel. As testemunhas de acusa\u00e7\u00e3o eram policiais da \u00e1rea da assist\u00eancia judici\u00e1ria. Eles se entreolhavam nervosos, temerosos, porque mentiras atr\u00e1s de mentiras eram ditas. Existem at\u00e9 contradi\u00e7\u00f5es entre a fala da primeira testemunha, a fala da terceira e a fala da quarta.<\/p>\n<p>Demonizaram o fato de sermos ativistas dos direitos humanos, chamando-nos de terroristas; o fato de termos alguma afinidade com o socialismo, chamando-nos de traidores. Chamavam-me diretamente de traidor da p\u00e1tria e isso por eu ter um pensamento verdadeiramente voltado para o socialismo e a luta de DD.HH.<\/p>\n<p><strong>PA: Quais eram as condi\u00e7\u00f5es da pris\u00e3o em que voc\u00ea estava?<\/strong><\/p>\n<p>YP: As condi\u00e7\u00f5es t\u00eam nome e sobrenome. Fiquei numa cela de \u00f3dio por mais de um ano. Chamei-a assim, porque aquela cela media dois metros de frente por dois metros de profundidade. S\u00f3 cabia uma cama de concreto, separada por uma mureta do banheiro, que era um buraco onde t\u00ednhamos que fazer as necessidades. Uma cela completamente herm\u00e9tica, apenas com uma janela de ferro, um teto de concreto, todas as quatro paredes fechadas. A porta de entrada era de metal, herm\u00e9tica. Tinha apenas uma janela de 22 cent\u00edmetros de comprimento por 10 cent\u00edmetros de altura, por onde passava a comida. As condi\u00e7\u00f5es eram terr\u00edveis.<\/p>\n<p>Man\u00e1gua \u00e9 uma cidade tropical muito quente. Assim, o problema da desidrata\u00e7\u00e3o naquela cela era terr\u00edvel. Voc\u00ea n\u00e3o podia ver nada, n\u00e3o podia ver ningu\u00e9m. Fomos proibidos, especialmente aqueles de n\u00f3s que estavam em celas de castigo, de poder se referir a outros companheiros que estavam em celas abertas, celas com grades. Eram condi\u00e7\u00f5es desumanas, onde o \u00f3dio e o falso classismo eram impiedosos contra mim, pela diversidade sexual, e contra o l\u00edder campon\u00eas Medardo Mairena. Ele foi meu companheiro de cela por mais de um ano, naquela cela de castigo. Por que digo \u00f3dio e classismo? Porque eles deixavam isso claro. Eles me disseram: &#8220;voc\u00ea \u00e9 de classe baixa, eles te manipularam&#8230;&#8221;. Por causa da quest\u00e3o da diversidade, os interrogadores tamb\u00e9m tiravam sarro de mim, faziam bullying comigo.<\/p>\n<p>Ficamos mais tempo nessas celas. Obviamente, aqueles de n\u00f3s que estavam em celas de castigo, como Medardo e eu, n\u00e3o nos perguntavam se \u00edamos querer \u00e1gua. O classismo &#8211; econ\u00f4mico, religioso e sexual &#8211; foi evidenciado como \u00f3dio a mim, quando comentei que sofria de ansiedade e eles n\u00e3o se importaram. Eles s\u00f3 queriam nos manter dopados com ansiol\u00edticos e eu desisti dos ansiol\u00edticos. Porque os primeiros meses, em termos de sa\u00fade, foram muito duros, muito \u00e1cidos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es eram assim, naquela cela pequenininha. Eu dormia ali. A gente comia ali, com o cheiro do banheiro, e a gente tomava banho ali mesmo. Receb\u00edamos sol a cada 10 ou 12 dias. N\u00e3o sa\u00edamos ao sol todos os dias. \u00c0s vezes eles n\u00e3o davam \u00e1gua, embora tiv\u00e9ssemos acesso \u00e0 \u00e1gua da torneira. Eram celas permanentemente escuras. No meu caso, quando fazia muito calor, as coisas ficavam ainda mais insuport\u00e1veis. Ent\u00e3o, acab\u00e1vamos no colchonete no concreto sem quase nada. Embora exig\u00edssemos o banho de sol, simplesmente diziam que n\u00e3o era autorizado. N\u00e3o pod\u00edamos conversar. T\u00ednhamos que falar baixinho com os companheiros da mesma cela. E, como a minha cela era a \u00faltima, n\u00e3o tive intera\u00e7\u00e3o, nem de relance, com outras celas, nem mesmo com os camaradas que estavam nas celas com grades. Mesmo os companheiros que estavam nas celas com grades n\u00e3o podiam falar com outras celas. Era totalmente proibido. Eles te puniam se o encontrassem falando alto e suspendiam seu direito ao sol.<\/p>\n<p><strong>PA: Por que voc\u00ea acha que conseguiram a liberdade, mesmo com aberra\u00e7\u00f5es como a cassa\u00e7\u00e3o da cidadania nicaraguense?<\/strong><\/p>\n<p>YP: Em primeiro lugar, acho que o conseguimos devido \u00e0 insist\u00eancia e perseveran\u00e7a das fam\u00edlias, que reclamaram a nossa liberdade. N\u00e3o t\u00ednhamos d\u00favidas de que iam ser ativos nisso, embora n\u00e3o tiv\u00e9ssemos pleno conhecimento, porque est\u00e1vamos isolados nas celas. Acredit\u00e1vamos que, em algum momento, isso seria alcan\u00e7ado&#8230; Ou eu acreditava, porque a solidariedade latino-americana dos socialistas tamb\u00e9m fortaleceria nossas demandas internas e permitiria obter melhores condi\u00e7\u00f5es. Essa foi a minha impress\u00e3o enquanto estive l\u00e1.<\/p>\n<p>Acredito que foi por conta da press\u00e3o, mas tamb\u00e9m h\u00e1 outro fator, interno, que \u00e9 a poss\u00edvel mas lenta implos\u00e3o da milit\u00e2ncia orteguista, que est\u00e1 se encaminhando com cada vez mais for\u00e7a. Porque, social e economicamente, a ditadura de Ortega \u00e9 insustent\u00e1vel. H\u00e1 uma ca\u00e7a \u00e0s bruxas no interior do pa\u00eds, de forma aberrante, que est\u00e1 provocando uma grande onda migrat\u00f3ria em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica do Norte. E essa falta de sustentabilidade social, a falta de capital humano, est\u00e1 dificultando a ditadura. Mas, no aspecto pol\u00edtico, \u00e9 mesmo a implos\u00e3o, porque h\u00e1 figuras, mesmo da Suprema Corte de Justi\u00e7a, sendo processadas. E de alguns outros poderes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Acredito que enquanto crescem as complica\u00e7\u00f5es de Ortega, continuamos com a moral elevada que temos na luta pelo direito \u00e0 liberdade em nosso pa\u00eds, pelo direito \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 verdade. Essas coisas permitiram nossa liberdade, embora com a aberra\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio. Um ex\u00edlio que tenta inutilmente, de forma est\u00e9ril, disciplinar os poucos que restam para garantir sua perman\u00eancia no poder. E com isso conseguir a perman\u00eancia econ\u00f4mica e pol\u00edtica no poder. Porque desejam morrer no poder. Aspiram ficar mais 10 anos no poder e n\u00f3s sabemos que na Nicar\u00e1gua isso n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel para quem est\u00e1 dentro da Nicar\u00e1gua, nem para n\u00f3s que estamos fora e continuamos no ativismo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a ditadura se v\u00ea cada vez mais encurralada, porque n\u00e3o sabe mais, em sua paran\u00f3ia, em quem confiar e por que confiar. Pois, devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o nacional, isso muda a cada dia e at\u00e9 no seu c\u00edrculo familiar, seu c\u00edrculo de poder. E por conta dos dilemas enfrentados pelas duas aparentes fac\u00e7\u00f5es que exercem o poder: o poder de Do\u00f1a Rosario e seus associados, e o poder de Ortega e seus associados. E as aparentes lutas de que se ouvem rumores dentro do pa\u00eds. Isso tamb\u00e9m, penso eu, foi um fator determinante para sermos expulsos.<\/p>\n<p><strong>PA: Teve conhecimento na pris\u00e3o da atividade da nossa comiss\u00e3o internacional, composta por deputados, deputadas e dirigentes de v\u00e1rios pa\u00edses?<\/strong><\/p>\n<p>YP: Muito pouco. Devido ao isolamento total em que a ditadura nos mantinha em cada uma das celas, ainda que estiv\u00e9ssemos acompanhados, como no meu caso, pelo l\u00edder campon\u00eas Medardo Mairena. Naquele isolamento, obrigado a falar baixinho com colegas da mesma cela, o castigo era maior ainda para quem falasse com celas vizinhas, seja na frente ou nas laterais. Ent\u00e3o, naquele forte isolamento, que durou mais de um ano, fic\u00e1vamos sem saber das not\u00edcias internacionais. As visitas familiares foram irregulares; elas poderiam ocorrer dentro de 40 dias, ou 44 ou mesmo 55 dias.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a visita de agosto de 2022, n\u00e3o recebemos novas visitas at\u00e9 novembro de 2022. Ficamos quase 90 dias sem not\u00edcias de nossas fam\u00edlias. Portanto, a pouca informa\u00e7\u00e3o que nos foi fornecida por nossas fam\u00edlias estava centrada no ativismo e que est\u00e1vamos na arena p\u00fablica e pol\u00edtica em n\u00edvel internacional, em pa\u00edses como Chile e Argentina. Mas sem muitos detalhes, porque nossas fam\u00edlias, por medo, apenas mencionavam de maneira geral que continuavam falando sobre a Nicar\u00e1gua fora dela. Mas especificamente sobre a delega\u00e7\u00e3o que voc\u00eas, companheiros e companheiras, deputados, participaram, com diferentes a\u00e7\u00f5es, como chegar \u00e0 fronteira de Pe\u00f1as Blanca, foi muito pouco ouvido por n\u00f3s. Falo pessoalmente porque nossas fam\u00edlias em geral tamb\u00e9m tinham medo, porque nossas visitas ocorrriam em quartos muito isolados, com apenas dois parentes. Havia gravadores quando t\u00ednhamos visitas familiares.<\/p>\n<p>Muitas coisas n\u00e3o foram ditas por medo de serem presos ou de repres\u00e1lias contra n\u00f3s de forma f\u00edsica, al\u00e9m da tortura psicol\u00f3gica com a quest\u00e3o do isolamento. Ent\u00e3o, por conta desse tipo de coisa, a informa\u00e7\u00e3o internacional era muito breve ou muito pouco fornecida. Agora que sa\u00ed, estou percebendo quanto ativismo voc\u00eas fizeram, companheiros e companheiras.<\/p>\n<p><strong>PA: O camarada Miguel Sorans, que integrou a Brigada de Combatentes Sim\u00f3n Bol\u00edvar em 1979, nos disse que lhe pareceu que sua expuls\u00e3o do pa\u00eds foi semelhante a quando Daniel Ortega expulsou a Brigada h\u00e1 mais de 40 anos. Como foi? Eles te contaram o que ia acontecer?<\/strong><\/p>\n<p>YP: Foi de uma forma surpreendente, com muita incerteza, muito medo, j\u00e1 que est\u00e1vamos totalmente adormecidos, depois de 10\/11 da noite de quarta-feira, dia 8 de fevereiro. Absolutamente nada nos foi comunicado, nem na quarta-feira nem quando est\u00e1vamos no aeroporto. Nenhum policial nos contatou diretamente, nem as autoridades de Chipote, que tamb\u00e9m \u00e9 chamado de assist\u00eancia judici\u00e1ria. Eles apenas fizeram a log\u00edstica para chegarmos ao aeroporto, mas as autoridades, como no caso do subcomiss\u00e1rio ou do capit\u00e3o Romero, nunca nos forneceram essa informa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o isso gerou muita incerteza.<\/p>\n<p>Como foi? Eu dou o passo a passo. Passadas aproximadamente das 11 da noite, porque t\u00ednhamos uma ideia da hora aproximada, visto que n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1vamos proibidos de nos comunicar entre celas, como tamb\u00e9m de saber o dia e a hora. Ent\u00e3o, fazendo uma suposi\u00e7\u00e3o, depois das 11 da noite, fomos at\u00e9 as grades da cela e eles gritaram para n\u00f3s: &#8220;entreguem os uniformes e vistam estas roupas&#8230;&#8221;. Uma roupa de civil, que usamos na \u00faltima visita, na segunda-feira, 30 de janeiro, ao Chipote. Ent\u00e3o, eles nos chamaram e deixaram todos de prontid\u00e3o. Acordam todos e dizem de maneira r\u00e1pida: \u201cYader, entregue o uniforme e vista esta roupa\u2026\u201d. Eu me viro sonolento para a policial e digo: \u201cO que aconteceu?\u201d E ela me diz novamente para lhe entregar o uniforme e vestir minhas roupas. Obviamente, vejo que \u00e9 a roupa de segunda-feira, dia 30, da \u00faltima visita do meu pai. Assustado, vejo outros colegas que se vestem de civis, tiro o uniforme e coloco a roupa. E ent\u00e3o se passaram cerca de 40 minutos. O tempo foi passando. At\u00e9 que come\u00e7aram a nos chamar, a partir de uma lista, e fomos transferidos para celas maiores, de onde fomos encaminhados para o \u00f4nibus. N\u00e3o sab\u00edamos do nosso destino.<\/p>\n<p>Isso levou cerca de duas horas a mais, esperando em grupos de at\u00e9 17\/20 presos na mesma cela, todos aguardando em p\u00e9 vestidos \u00e0 paisana. Eles apenas nos disseram: \u201cs\u00e3o o grupo n\u00famero 3\u201d. A\u00ed, come\u00e7aram a nos chamar, uma hora depois, novamente a partir de uma lista, e com esse n\u00famero da lista voc\u00ea saia para um dos estacionamentos do pr\u00e9dio, onde percebia que havia um \u00f4nibus branco, todo lacrado nas laterais, nas janelas, e eles te embarcavam pelo nome. Um \u00f4nibus com as luzes completamente apagadas. Voc\u00ea n\u00e3o sabia com quem estava dividindo aquele \u00f4nibus, altamente vigiado por policiais da diretoria de opera\u00e7\u00f5es especiais, tanto por dentro quanto por fora. Havia um dispositivo de seguran\u00e7a, em que cada \u00f4nibus era acompanhado por cerca de 4 patrulhas policiais, compostas separadamente por 4 policiais motorizados. Isso era a guarda de cada \u00f4nibus. Seguimos em caravana at\u00e9 sairmos daquela zona. Pegamos a auto-estrada norte. H\u00e1 algum grau de incerteza, porque nunca nos disseram para onde \u00edamos. Tive muito medo. S\u00f3 pensei que iam nos colocar num avi\u00e3o ou helic\u00f3ptero e iam nos jogar no mar. A \u00fanica coisa que me veio \u00e0 mente foi aquele medo impressionante de que eles pudessem nos fazer desaparecer, como fizeram com muitos durante as ditaduras de Videla ou Augusto Pinochet. Ent\u00e3o isso foi um terror.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus avan\u00e7ava, com um dispositivo que deixava uma passagem livre na estrada. Era tarde da noite, por volta das 2 ou 3 da manh\u00e3. E n\u00e3o sab\u00edamos para onde \u00edamos, porque \u00e9 um caminho para o aeroporto, mas tamb\u00e9m \u00e9 um caminho para o sistema prisional, que \u00e9 o maior de Man\u00e1gua. Portanto, n\u00e3o sab\u00edamos para onde est\u00e1vamos indo at\u00e9 entrarmos em um dos port\u00f5es da For\u00e7a A\u00e9rea, que fica ao lado da estrada do aeroporto internacional. E l\u00e1 me virei para ver meus companheiros de pris\u00e3o que estavam no banco de tr\u00e1s, incluindo Max Jerez e Jos\u00e9 Ad\u00e1n Aguerri. E eu digo-lhes: \u201cJos\u00e9 Ad\u00e1n, Chano, Max, v\u00e3o nos deportar\u2026\u201d. Quando vejo que estamos na estrada do aeroporto e identifico um avi\u00e3o enorme. E \u00e9 a \u00fanica coisa que me vem \u00e0 cabe\u00e7a: \u201cMax, Jos\u00e9 Ad\u00e1n, v\u00e3o nos deportar\u2026\u201d, digo-lhes pela segunda vez. E todo mundo percebe e se entristece, porque est\u00e3o te expulsando de sua casa, de sua p\u00e1tria e isso d\u00f3i muito. E muitos companheiros e companheiras derramaram l\u00e1grimas naquele momento, mas permanecendo sempre muito firmes e dignos em suas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Repassaram, dentro da log\u00edstica deles, nome por nome, p\u00e1gina por p\u00e1gina, nos fazendo assinar um documento que afirmava que supostamente decidimos \u201clivremente\u201d sair do pa\u00eds, e que fazia refer\u00eancia aos Estados Unidos. N\u00e3o fomos consultados, apenas nos deram a orienta\u00e7\u00e3o: &#8220;assine aqui, n\u00e3o escreva nenhum slogan&#8230;&#8221; ou loucura segundo eles&#8230; &#8220;assine e desembarque do \u00f4nibus&#8221;. Foi assim. Assinamos e depois desembarcamos do \u00f4nibus, um a um. Havia autoridades diplom\u00e1ticas e pol\u00edticas dos EUA l\u00e1. Fomos recebidos por eles, com atendimento m\u00e9dico, medida da press\u00e3o arterial, ox\u00edmetro.<\/p>\n<p>E, a certa altura, tamb\u00e9m recebemos nosso passaporte nicaraguense, que \u00e9 nossa \u00fanica identidade hoje. Desde que fomos presos, nossa carteira de identidade foi tirada de n\u00f3s pela ditadura. Ent\u00e3o, subimos as escadas daquele avi\u00e3o. Foram emo\u00e7\u00f5es muito duras, muito presentes. Fomos sobrevoar e ver a capital de cima pela \u00faltima vez&#8230; ou pen\u00faltima vez, porque esperamos voltar.<\/p>\n<p>Lembro que subi, degrau por degrau, com os olhos para a frente e as costas eretas. Virei para ver, naquela madrugada escura, o aeroporto de Man\u00e1gua, de onde sou. E me vi com um mundo de emo\u00e7\u00f5es, que diziam \u201cvoc\u00ea est\u00e1 livre, Yader, possivelmente\u2026 mas voc\u00ea est\u00e1 saindo do seu pa\u00eds\u201d. E eu sabia que estava saindo do meu pa\u00eds, estava deixando meu pai e isso me doeu muito. E subi, andei pelo corredor do avi\u00e3o para encontrar um assento e um copo d&#8217;\u00e1gua. Foi assim. Nunca fomos avisados, \u200b\u200bat\u00e9 o momento em que assinamos e depois percebemos que \u00edamos para o avi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>PA: Imaginamos a alegria no avi\u00e3o, quando todos os libertados se encontraram. Como viu Dora T\u00e9llez, a hist\u00f3rica \u201ccomandante dois\u201d da revolu\u00e7\u00e3o de 1979?<\/strong><\/p>\n<p>YP: Como vi a comandante T\u00e9llez, comandante dois? J\u00e1 via com muito carinho quando consegui sair da cela de castigo, comecei a cumpriment\u00e1-la longamente em sil\u00eancio, apenas com gestos. Coloquei nela o pseud\u00f4nimo de \u201cMi Guapa\u201d (Minha Linda). Porque ela foi uma mulher corajosa tamb\u00e9m enquanto estava na pris\u00e3o. Ela resistiu a ser isolada na cela n\u00famero 1 do m\u00f3dulo masculino. Ela resistiu dia ap\u00f3s dia, e nunca perdeu sua identidade revolucion\u00e1ria, sua identidade de n\u00e3o ser submissa e de sempre desafiar mesmo que estivesse isolada, mesmo que recebesse pouca comida, mesmo que demorasse a receber algum rem\u00e9dio. Ela nunca rendeu homenagem \u00e0s autoridades. Nunca demonstrou rever\u00eancia.<\/p>\n<p>No avi\u00e3o, a primeira coisa que fiz foi procurar minhas companheiras como Suiyen, como Tamara, como Dora, como Ana Margarita Vigil. Quando a vi, a primeira coisa que fiz foi dizer: \u201cMinha Linda, que bom te ver, te amo muito e te dou um abra\u00e7o.\u201d E dei um abra\u00e7o nela\u2026 ambos euf\u00f3ricos. E olhei para ela, magoada e com olhinhos nost\u00e1lgicos, saindo de seu pa\u00eds. Feliz ao mesmo tempo por encontrar seus companheiros e seu parceiro. Em instantes voc\u00ea sente sua vibra\u00e7\u00e3o, sua aura. Uma mulher confiante, muito forte e digna, mesmo quando est\u00e1 na pris\u00e3o e isolada. E, mesmo naquele avi\u00e3o, aquela resist\u00eancia e aquela dignidade persistiram durante a viagem. Sem deixar de manter sua voz firme e digna, cr\u00edtica \u00e0 ditadura. E com muita, muita, muita convic\u00e7\u00e3o de que a Nicar\u00e1gua precisa ser livre. Precisa se livrar da ditadura, precisa se livrar da pol\u00edtica barata. E de que ela est\u00e1 a\u00ed, resistindo. E embora este olhar denotasse nostalgia por ter sa\u00eddo da sua p\u00e1tria, por ter sa\u00eddo da sua casa, tinha no fundo, na sua alma, muita convic\u00e7\u00e3o na democracia que temos exigido e defendido.<\/p>\n<p><strong>PA: Estamos entre aqueles que n\u00e3o consideram que o regime de Ortega-Murillo seja de esquerda. \u00c9 uma ditadura a servi\u00e7o dos exploradores, que acabar\u00e1 caindo. Como v\u00ea o futuro da luta do povo nicaraguense?<\/strong><\/p>\n<p>YP: O que posso dizer&#8230; Ortega n\u00e3o \u00e9 de esquerda. \u00c9 um governo que mente, que se rendeu aos grandes poderes econ\u00f4micos aliados para banir os camponeses, para banir a classe trabalhadora, para manipular atrav\u00e9s de pequenos aumentos salariais.<\/p>\n<p>Como vejo o futuro da luta do povo nicaraguense? Embora seja verdade que n\u00e3o se pode permitir que a ditadura continue, nem seus v\u00edcios pol\u00edticos nem seus atos a servi\u00e7o dos poderes de fato, econ\u00f4mico e pol\u00edtico, \u00e9 preciso pensar em um grande acordo nacional em que caibam todas as convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e religiosos para derrubar a ditadura. Hoje, mais que um discurso frontal, tem que ser um discurso que cerque Ortega por todos os lados para conseguir sua queda.<\/p>\n<p>Na quest\u00e3o do acordo nacional, \u00e9 vital uma agenda em que a primeira coisa que deve ser restaurada \u00e9 a institucionalidade do pa\u00eds. \u00c9 por isso que a luta deve continuar. Deve assumir o matiz de uma unidade verdadeira e sincera, em que est\u00e3o todos os atores pol\u00edticos, l\u00edderes sociais, ativistas de direitos humanos, l\u00edderes juvenis, simpatizantes, etc. Devemos ter o compromisso de acabar com o ego\u00edsmo e realizar uma a\u00e7\u00e3o e uma agenda propositiva, no marco desse acordo nacional, que possa dar esperan\u00e7a ao povo da Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p>Hoje, n\u00f3s, que estamos fora do pa\u00eds, temos que trabalhar por uma verdadeira unidade, que coloque sempre a Nicar\u00e1gua, sim ou sim, em primeiro, em segundo e em terceiro lugar. Isso por nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s, companheiros e companheiras, que est\u00e3o l\u00e1 dentro. Um verdadeiro interesse pela unidade, para devolver a esperan\u00e7a \u00e0 Nicar\u00e1gua, sem esquecer que ela deve estar de m\u00e3os dadas com o princ\u00edpio democr\u00e1tico, da representatividade, e assim continuar impulsionando a queda da ditadura. Porque a queda da ditadura est\u00e1 pr\u00f3xima e acredito que s\u00f3 seja poss\u00edvel com esse acordo nacional.<\/p>\n<p>Acredito e considero que o ativismo que voc\u00eas conseguiram articular pela reivindica\u00e7\u00e3o de nossa liberdade, tanto na Argentina quanto de camaradas de outras realidades, de outros pa\u00edses, tem sido fundamental para dar visibilidade \u00e0 realidade da Nicar\u00e1gua. Para exigir a nossa liberdade, que tamb\u00e9m devemos a esta delega\u00e7\u00e3o que foi \u00e0 Nicar\u00e1gua e quis entrar no pa\u00eds. Ao Miguel Sorans e demais companheiros e companheiras que promoveram a campanha. Devemos isso tamb\u00e9m \u00e0 resist\u00eancia do povo nicaraguense. Ent\u00e3o, seguir a linha do ativismo internacional e a participa\u00e7\u00e3o de voc\u00eas \u00e9 fundamental. E fa\u00e7o um apelo direto a toda comunidade internacional e \u00e0s pessoas que t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua para se definirem diante da alarmante viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos em nos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Imprensa UIT-QI \u201cA luta deve continuar\u201d Entrevistamos o jovem lutador nicaraguense Yader Paraj\u00f3n, um dos 222 presos libertados na Nicar\u00e1gua, em 9 de fevereiro, pela ditadura de Ortega-Murillo. 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