

	{"id":10430,"date":"2023-05-24T18:29:46","date_gmt":"2023-05-24T18:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=10430"},"modified":"2023-06-24T18:34:42","modified_gmt":"2023-06-24T18:34:42","slug":"bolivia-crise-economica-e-politica-e-resistencia-do-povo-trabalhador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2023\/05\/24\/bolivia-crise-economica-e-politica-e-resistencia-do-povo-trabalhador\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica e resist\u00eancia do povo trabalhador"},"content":{"rendered":"<p>Por Miguel Lamas, dirigente da UIT-QI<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, a Bol\u00edvia mergulhou numa crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Como acontece em outros pa\u00edses, a crise do capitalismo est\u00e1 sendo descarregada sobre os trabalhadores. Diante disso, come\u00e7aram importantes mobiliza\u00e7\u00f5es de professores e de outros setores. E tamb\u00e9m se agravou a crise e a divis\u00e3o do governante MAS, entre a ala \u201crenovadora\u201d, que apoia o presidente Arce, e a ala \u201cradical\u201d, ligada a Evo Morales.<\/p>\n<p>O presidente Luis Arce tem afirmado que est\u00e1 tudo bem na Bol\u00edvia e que \u00e9 &#8220;o pa\u00eds mais est\u00e1vel do mundo&#8221;. Para defender tal posi\u00e7\u00e3o, apoia-se na paridade fixa do peso boliviano com o d\u00f3lar, que j\u00e1 dura quatorze anos, e na baixa infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Visto da Argentina, isso pode parecer quase milagroso. No entanto, ainda h\u00e1 muita pobreza. E a estabilidade do d\u00f3lar e a baixa infla\u00e7\u00e3o est\u00e3o hoje amea\u00e7adas, dado que o Estado ficou sem reservas em d\u00f3lares; h\u00e1 fuga de capitais; importam-se mais hidrocarbonetos em nafta e \u00f3leo diesel do que se exportam em g\u00e1s; os bancos n\u00e3o disponibilizam d\u00f3lares; e j\u00e1 existem um &#8220;d\u00f3lar paralelo&#8221; e aumentos de pre\u00e7os de produtos de primeira necessidade.<\/p>\n<p>O principal produto de exporta\u00e7\u00e3o atual \u00e9 o ouro, mas sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 comandada por empresas disfar\u00e7adas de \u201ccooperativas\u201d, associadas a multinacionais chinesas, que quase n\u00e3o pagam impostos e est\u00e3o envenenando os rios com merc\u00fario. A outra exporta\u00e7\u00e3o importante \u00e9 a de soja e demais produtos da agroind\u00fastria, que tamb\u00e9m n\u00e3o paga impostos, \u00e9 subsidiada pelo Estado &#8211; com diesel importado comprado pela metade do pre\u00e7o -, est\u00e1 destruindo as florestas e leva seus lucros para fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A \u201cAgenda de Outubro\u201d foi tra\u00edda<\/strong><\/p>\n<p>O MAS assumiu o governo em janeiro de 2006, ap\u00f3s vencer as elei\u00e7\u00f5es prometendo aplicar a \u201cAgenda de Outubro\u201d, programa de reivindica\u00e7\u00f5es da insurrei\u00e7\u00e3o popular de outubro de 2003. Tal agenda exigia a expuls\u00e3o das multinacionais; a nacionaliza\u00e7\u00e3o do g\u00e1s; uma revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, entregando as terras do latif\u00fandio aos camponeses; e a industrializa\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, era um programa para acabar com o saque hist\u00f3rico da Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Mas o governo do MAS, presidido por Evo Morales e tendo como ministro da fazenda Luis Arce, agora presidente, nunca aplicou a \u201cAgenda de Outubro\u201d. Apenas aumentou os impostos cobrados das empresas multinacionais de g\u00e1s, numa \u00e9poca em que o pre\u00e7o internacional do produto dobrou, e pactuou com os latifundi\u00e1rios a manuten\u00e7\u00e3o de suas terras.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o governo de Evo Morales e do MAS fez \u2013 e o de Arce ainda faz \u2013 parte dos governos de centro-esquerda e de concilia\u00e7\u00e3o de classes, como o de Ch\u00e1vez-Maduro, de Lula, de Correa ou do peronismo, que continuaram governando para os patr\u00f5es e as multinacionais, com um falso discurso anti-imperialista ou de \u201cesquerda\u201d.<\/p>\n<p>As altas receitas estatais dos primeiros anos do governo do MAS, provenientes dos impostos sobre o g\u00e1s, desapareceram. A maior parte da riqueza foi abocanhada pelas transnacionais, com investimentos m\u00ednimos. Tampouco houve um importante processo de industrializa\u00e7\u00e3o por parte do Estado. E o g\u00e1s, que era o que mais sobrava para o Estado, agora est\u00e1 acabando.<\/p>\n<p>Hoje, o sistema continua a ser de explora\u00e7\u00e3o para o povo trabalhador. Apenas 20% dos trabalhadores t\u00eam emprego formal. A maioria dos demais, e quase todos os jovens, tem empregos assalariados informais, sem direitos trabalhistas e sem estabilidade, com sal\u00e1rios miser\u00e1veis; ou s\u00e3o pequenos agricultores ou pequenos comerciantes, que muitas vezes vendem produtos contrabandeados.<\/p>\n<p><strong>Continua o entreguismo<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, o governo Arce continua a pol\u00edtica de rendi\u00e7\u00e3o \u00e0s multinacionais e aos capitalistas. Mesmo com diferen\u00e7as por conta de interesses particulares, os governos de Arce, de Morales e da direita tradicional de Santa Cruz coincidem no essencial. Nenhum deles prop\u00f5e uma mudan\u00e7a de fundo. Morales s\u00f3 usa a crise, pela qual tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel por conta de seu governo anterior junto com Arce, para tentar voltar \u00e0 presid\u00eancia em 2025, derrotando o antigo aliado.<\/p>\n<p>Diante da crise, a oposi\u00e7\u00e3o de direita fala em privatizar, incentivar investimentos estrangeiros, diminuir gastos p\u00fablicos e desvalorizar a moeda. Dizem que isso seria &#8220;sanear&#8221; a economia. Evo Morales e a velha direita defendem &#8220;libertar as exporta\u00e7\u00f5es&#8221;. Isso significa retirar restri\u00e7\u00f5es e impostos para favorecer os exportadores, que levam seus lucros para fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ou seja, tanto Evo Morales quanto a direita tradicional se prop\u00f5em a jogar a crise nas costas do povo trabalhador. Embora diga que n\u00e3o vai desvalorizar a moeda, Arce est\u00e1 cortando os gastos com necessidades populares b\u00e1sicas, como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. E diz que vai resolver a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com a exporta\u00e7\u00e3o de l\u00edtio, acertada com as multinacionais chinesas, algo que ainda vai demorar v\u00e1rios anos para ocorrer, repetindo a hist\u00f3ria boliviana de saque das riquezas naturais por parte das multinacionais, que deixam migalhas para o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Dois meses de luta dos professores<\/strong><\/p>\n<p>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 importantes lutas sociais. Atualmente a maior \u00e9 a dos professores urbanos (que inclui professores prim\u00e1rios e secund\u00e1rios), que est\u00e3o mobilizados h\u00e1 dois meses, exigindo mais verbas para a educa\u00e7\u00e3o, a contrata\u00e7\u00e3o de mais docentes e aposentadoria digna. Nesta semana os professores rurais tamb\u00e9m est\u00e3o se mobilizando. Al\u00e9m disso, houve grandes marchas de pequenos comerciantes (chamados \u201cgremiales\u201d na Bol\u00edvia) contra os impostos que os afetam.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o da Central Oper\u00e1ria Boliviana, que est\u00e1 subordinada ao governo, j\u00e1 prorrogou seu mandato por duas vezes, sem a realiza\u00e7\u00e3o de Congresso, e n\u00e3o est\u00e1 apoiando essas lutas.<\/p>\n<p><strong>Por um plano econ\u00f4mico do povo trabalhador<\/strong><\/p>\n<p>Acabar com este desastre significa agora lutar pelo triunfo das reivindica\u00e7\u00f5es dos professores e dos pequenos comerciantes e por solu\u00e7\u00f5es de fundo, que passam pela aplica\u00e7\u00e3o do programa que o povo trabalhador levantou em 2003 e tamb\u00e9m do que foi votado no Congresso da Central Oper\u00e1ria Boliviana que fundou o Partido dos Trabalhadores (PT) em 2013.<\/p>\n<p>A Alternativa Revolucionaria do Povo Trabalhador, se\u00e7\u00e3o da UIT-QI e parte do PT, defende a constru\u00e7\u00e3o de uma ferramenta pol\u00edtica dos trabalhadores, uma alternativa para governar e impulsionar a luta por uma verdadeira nacionaliza\u00e7\u00e3o, sem indeniza\u00e7\u00e3o e sob o controle democr\u00e1tico dos trabalhadores, da minera\u00e7\u00e3o, dos hidrocarbonetos, do l\u00edtio e do ouro, assim como de todo o sistema banc\u00e1rio; para expropriar as terras dos patr\u00f5es do agroneg\u00f3cio e entreg\u00e1-las aos camponeses, que as cultivar\u00e3o pessoalmente; para apoiar a produ\u00e7\u00e3o de alimentos dos camponeses ind\u00edgenas, que alimentam o pa\u00eds. Isso permitir\u00e1 a industrializa\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de empregos decentes para a maioria, acabar\u00e1 com a mis\u00e9ria no campo e nas cidades, impedir\u00e1 a destrui\u00e7\u00e3o ambiental e garantir\u00e1 sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o gratuitas e de qualidade para todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Miguel Lamas, dirigente da UIT-QI Nos \u00faltimos meses, a Bol\u00edvia mergulhou numa crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Como acontece em outros pa\u00edses, a crise do capitalismo est\u00e1 sendo descarregada sobre os trabalhadores. Diante disso, come\u00e7aram importantes mobiliza\u00e7\u00f5es de professores e de outros setores. 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