

	{"id":10669,"date":"2023-08-25T15:28:27","date_gmt":"2023-08-25T18:28:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=10669"},"modified":"2023-08-26T22:45:10","modified_gmt":"2023-08-27T01:45:10","slug":"equador-as-eleicoes-antecipadas-e-a-crise-permanente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2023\/08\/25\/equador-as-eleicoes-antecipadas-e-a-crise-permanente\/","title":{"rendered":"Equador: as elei\u00e7\u00f5es antecipadas e a crise permanente"},"content":{"rendered":"<p>Por Miguel Lamas, dirigente da UIT-QI<\/p>\n<p>24\/08\/2023. A candidata correista Luisa Gonz\u00e1lez obteve a maioria dos votos no primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es antecipadas, alcan\u00e7ando 33,25% do total de votos. A surpresa veio do candidato e grande empres\u00e1rio Daniel Noboa, do Movimento ADN, de centro-direita, que ficou em segundo lugar com 23,73%. Isso faz de Noboa um poss\u00edvel vencedor no segundo turno, que s\u00f3 acontecer\u00e1 no dia 15 de outubro, j\u00e1 que poder\u00e1 agregar os votos anti-correistas.<\/p>\n<p>Numa vota\u00e7\u00e3o bastante dispersa, Christian Zurita, substituto de um candidato recentemente assassinado, ficou em terceiro lugar, com 16,51%. E o direitista Jan Topic ficou em quarto lugar, com 14,68%. O ambientalista de centro-esquerda e representante das organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e camponesas, Yaku P\u00e9rez, obteve 3,9% (obteve 19% nas elei\u00e7\u00f5es de dois anos atr\u00e1s, em fevereiro de 2021).<\/p>\n<p>Al\u00e9m das elei\u00e7\u00f5es presidenciais e legislativas antecipadas, tamb\u00e9m foram realizadas duas consultas populares. Uma sobre a explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera no Parque Nacional Yasun\u00ed, em que saiu triunfante o SIM, com 60% dos votos, para parar a explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera. E outra sobre o Choc\u00f3 Andino, em que ganhou a op\u00e7\u00e3o de proibir a minera\u00e7\u00e3o de metais. Paradoxalmente, estas vota\u00e7\u00f5es pela preserva\u00e7\u00e3o da natureza v\u00e3o totalmente na contra-m\u00e3o das propostas dos candidatos mais votados nas elei\u00e7\u00f5es e dos \u00faltimos governos, inclusive o de Correa, que promoveu a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo com uma empresa chinesa em Yasun\u00ed.<\/p>\n<p>Yaku P\u00e9rez foi o \u00fanico candidato que defendeu as propostas que triunfaram nas consultas. Apesar disso, a maioria dos que votaram em tais propostas n\u00e3o votou em Yaku P\u00e9rez, mostrando a grande confus\u00e3o pol\u00edtica existente. Yaku P\u00e9rez, com seu movimento Somos Agua, contou com o apoio eleitoral de Pachakuti, a maior organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ind\u00edgena do Equador. Mas, infelizmente, o movimento Somos Agua de Yaku P\u00e9rez tamb\u00e9m n\u00e3o apresentou propostas claras diante do conjunto de necessidades populares, contra as multinacionais, os banqueiros e as oligarquias, que saqueiam o pa\u00eds. Isso contribuiu para a confus\u00e3o. Muitos dos que votaram nele em 2021, das bases do mesmo movimento campon\u00eas ind\u00edgena, votaram agora em Noboa ou nos demais candidatos de direita.<\/p>\n<p><strong>A crise permanente do Equador<\/strong><\/p>\n<p>As recentes elei\u00e7\u00f5es \u201cantecipadas\u201d foram o produto da crise pol\u00edtica, que deixou o governo de direita do banqueiro Lasso &#8211; eleito em fevereiro de 2021, capitalizando o voto anti-correista &#8211; \u00e0 beira do colapso. Mas o seu governo, a servi\u00e7o das transnacionais e dos bancos, aprofundou enormemente a crise econ\u00f4mica e social.<\/p>\n<p>Em 2022, houve uma rebeli\u00e3o popular contra Lasso e, embora ele n\u00e3o tenha ca\u00eddo, a crise se aprofundou. Ele acabou sendo destitu\u00eddo pelo parlamento, em que estava em minoria, e decidiu dissolv\u00ea-lo. Isso deu origem \u00e0s elei\u00e7\u00f5es antecipadas. Os candidatos eleitos ter\u00e3o apenas um ano e meio de mandato. Em 2025, haver\u00e1 novas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, surgiu um novo fen\u00f4meno no Equador: as m\u00e1fias do tr\u00e1fico de drogas (com o transporte da coca\u00edna produzida na Col\u00f4mbia e no Peru), que empregam milhares de jovens desempregados. Isso provocou uma escalada da viol\u00eancia, com centenas de mortes, incluindo um prefeito de uma cidade portu\u00e1ria (usada no tr\u00e2nsito das drogas) e um candidato presidencial.<\/p>\n<p>Desde 1997, o Equador enfrenta uma crise econ\u00f4mica, experimentando sucessivas rebeli\u00f5es do povo trabalhador e de ind\u00edgenas, que derrubaram v\u00e1rios governos. Em 2000, a economia foi dolarizada, com a elimina\u00e7\u00e3o da moeda nacional, o sucre (a \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d que Milei prop\u00f5e hoje na Argentina). Isso aprofundou a pobreza e a crise, dando origem ao governo de Rafael Correa, que inicialmente contou com muito apoio popular e durou de 2007 a 2017. Por\u00e9m, como outros governos de centro-esquerda na Am\u00e9rica Latina, ele traiu as reivindica\u00e7\u00f5es populares e n\u00e3o resolveu a crise. Continuou com a dolariza\u00e7\u00e3o e fez neg\u00f3cios com transnacionais, entre elas as petrol\u00edferas chinesas, que n\u00e3o trouxeram progresso ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>O sucessor de Correa, Lenin Moreno, do seu pr\u00f3prio partido, rompeu com ele. Entretanto, liderou outro governo desastroso. E tamb\u00e9m enfrentou uma rebeli\u00e3o popular em 2019.<\/p>\n<p><strong>E agora?<\/strong><\/p>\n<p>O resultado eleitoral confuso indica que a crise dever\u00e1 se aprofundar. A campanha eleitoral n\u00e3o levou em conta as necessidades populares mais urgentes. Apenas a quest\u00e3o da inseguran\u00e7a, por conta das m\u00e1fias do narcotr\u00e1fico, foi discutida, com propostas da direita para fortalecer a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito, e at\u00e9 imitar Bukele de El Salvador. Mas sem solu\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de fundo.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica do Equador se aprofundou durante o governo de Lasso, que cumpriu as determina\u00e7\u00f5es do FMI, com o aumento dos pre\u00e7os dos produtos de primeira necessidade, o impacto da pilhagem da minera\u00e7\u00e3o e a polui\u00e7\u00e3o do meio-ambiente, provocada pelas transnacionais, que est\u00e3o destruindo as florestas e as fontes de \u00e1gua. Al\u00e9m disso, houve o aumento da pobreza; o descaso com a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o; o crescimento do desemprego, da flexibilidade e da informalidade do trabalho; e sal\u00e1rios miser\u00e1veis, num pa\u00eds que j\u00e1 n\u00e3o tem moeda pr\u00f3pria e em que os pre\u00e7os e os vencimentos s\u00e3o cotados em d\u00f3lares.<\/p>\n<p>O dois candidatos, independentemente de quem que seja o vencedor do segundo turno, continuar\u00e3o com essa pol\u00edtica. Al\u00e9m disso, poder\u00e3o aplicar uma pol\u00edtica ainda mais repressiva em rela\u00e7\u00e3o ao movimento popular.<\/p>\n<p>Nas rebeli\u00f5es de 2019 e 2021, al\u00e9m de se exigir a redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o dos combust\u00edveis, foi demandada a redu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos alimentos; o fim da minera\u00e7\u00e3o das multinacionais, que destr\u00f3i a natureza (ou seja, implementar e ampliar o que acaba de ser votado para Yasun\u00ed); a n\u00e3o privatiza\u00e7\u00e3o das empresas estatais; a morat\u00f3ria de um ano no sistema financeiro, para que as fam\u00edlias paguem as suas d\u00edvidas; uma pol\u00edtica de pre\u00e7os justos nos produtos agr\u00edcolas; a amplia\u00e7\u00e3o de empregos e direitos trabalhistas; a n\u00e3o privatiza\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos; a amplia\u00e7\u00e3o urgente do or\u00e7amento para a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o; a oferta de vagas para todos nas universidades p\u00fablicas; a supress\u00e3o do endividamento; a anula\u00e7\u00e3o do pagamento da d\u00edvida externa. Tamb\u00e9m foi reivindicado o fim das leis repressivas. Todas essas demandas seguem v\u00e1lidas. E devem andar de m\u00e3os dadas com a expuls\u00e3o das multinacionais, que saqueiam e envenenam os rios e o pa\u00eds; a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos; o fim da dolariza\u00e7\u00e3o; a ruptura com o FMI; e o controle do com\u00e9rcio exterior, atrav\u00e9s do qual escapam os capitais produzidos pelo saque do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que esta luta n\u00e3o pode avan\u00e7ar com o voto em nenhum dos dois candidatos, Luisa Gonz\u00e1lez ou Daniel Noboa, ambos lacaios de banqueiros, de grandes empres\u00e1rios e das multinacionais. Nem se pode acreditar no novo parlamento de direita e nos correistas eleitos. Com raz\u00e3o, o movimento Somos Agua, liderado por Yaku P\u00e9rez, est\u00e1 chamando voto nulo no segundo turno.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do voto nulo nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, com o qual concordamos, \u00e9 preciso reconstruir todo o poder do movimento do povo trabalhador equatoriano, que em cada crise criou o chamado Parlamento dos Povos &#8211; com representantes das organiza\u00e7\u00f5es camponesas, ind\u00edgenas, oper\u00e1rias e de professores &#8211; para unificar as lutas, as reivindica\u00e7\u00f5es e buscar uma sa\u00edda de fundo, a servi\u00e7o do povo trabalhador, para o pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Miguel Lamas, dirigente da UIT-QI 24\/08\/2023. A candidata correista Luisa Gonz\u00e1lez obteve a maioria dos votos no primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es antecipadas, alcan\u00e7ando 33,25% do total de votos. 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