

	{"id":113,"date":"2012-03-27T09:10:00","date_gmt":"2012-03-27T09:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2012\/03\/27\/arquivoid-9148\/"},"modified":"2012-03-27T09:10:00","modified_gmt":"2012-03-27T09:10:00","slug":"arquivoid-9148","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2012\/03\/27\/arquivoid-9148\/","title":{"rendered":"AJUSTE A CUBANA"},"content":{"rendered":"<p>Por Mercedes Petit \u2013 Correspond\u00eancia internacional | Novembro de 2010<\/p>\n<p>A melhor prova do que dizemos a deu Che Guevara, quem em todo momento combateu a burocratiza\u00e7\u00e3o e a denunciou publicamente, com seu visceral e genu\u00edno igualitarismo.<\/p>\n<p>Repetindo a liturgia habitual sobre a \u201cdefesa da revolu\u00e7\u00e3o\u201d e do \u201csocialismo\u201d, dia 1\u00ba de agosto o Parlamento cubano aprovou a amplia\u00e7\u00e3o do trabalho por conta pr\u00f3pria, negociar a constru\u00e7\u00e3o de 16 campos de golfe e descongelar a venda de casas aos estrangeiros, reduzir as reten\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias \u00e0s multinacionais, entre outras medidas, e anunciou o objetivo de suprimir mais de um milh\u00e3o de empregos estatais. \u00c9 verdade que assim \u201catualiza o socialismo\u201d? N\u00e3o. A m\u00e1 not\u00edcia \u00e9 que, pelo contr\u00e1rio, estas medidas s\u00e3o parte de um plano de ajuste capitalista para que os trabalhadores cubanos paguem pela crise.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es de pessoas no mundo simpatizam com a revolu\u00e7\u00e3o cubana e repudiam o bloqueio yanqui. As not\u00edcias sobre quedas na economia, fracassos na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, furac\u00f5es e outras pen\u00farias para o povo cubano s\u00e3o motivo de preocupa\u00e7\u00e3o e solidariedade para muit\u00edssimos lutadores. Neste contexto, os recentes an\u00fancios do Parlamento e de Ra\u00fal Castro s\u00e3o parte de um debate de longa data. S\u00e3o medidas de emerg\u00eancia, em defesa do \u201csocialismo\u201d, ante a crise econ\u00f4mica mundial e o bloqueio, como diz a dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista (PC) cubano? Em nossa opini\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, estas m\u00e9dias s\u00e3o continuidade e conseq\u00fc\u00eancia de uma pol\u00edtica de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em Cuba. Por isso se reinstalou a desigualdade social e a mis\u00e9ria que tinham sido desterradas pela revolu\u00e7\u00e3o socialista. Os recentes an\u00fancios antecipam um plano de ajuste em benef\u00edcio das milhares de empresas privadas estrangeiras estabelecidas h\u00e1 pouco tempo na ilha.<\/p>\n<p>Uma rede de mentiras<\/p>\n<p>No Parlamento, Ra\u00fal Castro repetiu uma vez mais a frase de sempre: \u201co socialismo \u00e9 irrevog\u00e1vel\u201d (Granma, 2\/8). O ministro de Economia afirmou que n\u00e3o est\u00e3o copiando nem a China nem a Vietn\u00e3: \u201cO modelo econ\u00f4mico cubano tem que ter uma caracter\u00edstica, a defesa da revolu\u00e7\u00e3o e a ratifica\u00e7\u00e3o do socialismo\u201d, e que \u201cse descartou qualquer reforma capitalista\u201d (P\u00e1gina 12, 2\/8).<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o mentiras que v\u00eam sustentando os irm\u00e3os Castro e o PC cubano desde quase duas d\u00e9cadas. Seu duplo discurso \u00e9 aben\u00e7oado sem problemas pelos governos da Espanha ou do Brasil, e inclusive por altos servidores p\u00fablicos norte-americanos. Vejamos alguns exemplos recentes.<\/p>\n<p>O chanceler espanhol fez pedidos junto \u00e0 c\u00fapula da igreja cubana ante o governo, que culminaram com a liberta\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos em julho. Ent\u00e3o declarou que \u201cele n\u00e3o lhe sugeriu a Ra\u00fal Castro avan\u00e7ar num processo de reformas sociais, sen\u00e3o que foi o pr\u00f3prio presidente cubano quem mencionou sua vontade de seguir avan\u00e7ando num processo de reformas econ\u00f4micas e sociais, e tem as id\u00e9ias muito claras a respeito\u201d (Clar\u00edn, 9\/7).<br \/>\nO chanceler do Brasil, Celso Amor\u00edn, dizia numa reportagem pouco depois: \u201cCuba \u00e9 um estado em evolu\u00e7\u00e3o, e seu sistema pol\u00edtico tamb\u00e9m ir\u00e1 evoluir para acompanhar as mudan\u00e7as econ\u00f4micas que j\u00e1 est\u00e3o em marcha segundo testemunham nossas empresas que fazem investimentos nesse pa\u00eds.\u201d (Clar\u00edn, 1\/8).<\/p>\n<p>A estadounidense Sarah Stephens, diretora do Centro para a Democracia nas Am\u00e9ricas, estava em Havana em julho com um grupo de legisladores e especialistas yanquis, para falar de energia e problemas ambientais. Criticando o bloqueio de seu pa\u00eds contra Cuba, assinalou que n\u00e3o se v\u00ea o \u201cpanorama mais geral\u201d. Segundo ela, ao liberar aos presos, e com a media\u00e7\u00e3o da Igreja, Ra\u00fal Castro est\u00e1 enviando uma mensagem ao governo dos EE.UU. Sobre como vai seguir avan\u00e7ando nas mudan\u00e7as, e que est\u00e1 decidido a fazer as reformas econ\u00f4micas (Clar\u00edn, 22\/7).<\/p>\n<p>A C\u00e2mara de Com\u00e9rcio dos EE.UU. e outros grupos que v\u00eam exigindo o levantamento total do bloqueio (com representantes como The New York Times e o Washington Post) redobraram sua press\u00e3o. O vice-presidente Myron Brillant disse no Congresso: \u201cO isolamento n\u00e3o ajuda \u00e0 renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O caminho mais r\u00e1pido para melhorar a forma de vida na ilha \u00e9 ter rela\u00e7\u00f5es comerciais, tur\u00edsticas e pol\u00edticas\u201d (La Naci\u00f3n, 9\/7). Acrescentou dramaticamente: \u201cEstamos perdendo fontes de trabalho\u201d, pelos neg\u00f3cios perdidos com empres\u00e1rios canadenses e brasileiros. E com a insol\u00eancia pr\u00f3pria do imp\u00e9rio, disse: \u201cO governo cubano \u00e9 uma rel\u00edquia\u201d (Clar\u00edn, 11\/7).<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, enquanto nos discursos nunca faltam os juramentos pelo socialismo (que s\u00e3o repetidos pelos castro-chavistas de todos lados), a vida real transcorre por outros caminhos. Governos e empres\u00e1rios discutem com naturalidade a marcha de suas rela\u00e7\u00f5es comerciais e investimentos em Cuba. E muitos empres\u00e1rios e parlamentares yanquis cobram de Obama poder participar amplamente nesses neg\u00f3cios. Nenhum questiona nem se preocupa pelas declara\u00e7\u00f5es oficiais de rejei\u00e7\u00e3o ao capitalismo e reafirma\u00e7\u00e3o do \u201csocialismo\u201d.<\/p>\n<p>Por que ocultar do povo cubano e da vanguarda lutadora e de esquerda de todo mundo a rede de mentiras montada desde o PC cubano e reafirmada pelos governos e empres\u00e1rios com os quais fazem neg\u00f3cios? Porque o governo de Fidel e Ra\u00fal Castro, essa ditadura estalinista de partido \u00fanico, fez um giro de 180 graus desde a d\u00e9cada dos noventa, restaurando o capitalismo que se tinha desterrado com o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u201cmodelo econ\u00f4mico cubano\u201d \u00e9, h\u00e1 certo tempo, um capitalismo de multinacionais, empresas mistas e super explora\u00e7\u00e3o de seus trabalhadores, controlado por uma burocracia corrupta, ditatorial e mentirosa. Por isso o povo cubano vem perdendo suas conquistas, e apareceu uma galopante desigualdade social e os flagelos do ajuste, desemprego e sal\u00e1rios miser\u00e1veis caracter\u00edsticos do capitalismo. Enquanto as novas medidas anunciam demiss\u00f5es de empregados p\u00fablicos e a amplia\u00e7\u00e3o do trabalho por conta , n\u00e3o devemos esquecer que os grandes neg\u00f3cios est\u00e3o, h\u00e1 tempos, nas m\u00e3os das multinacionais e das empresas mistas com os burocratas. E que todos eles mentem para escond\u00ea-los.<\/p>\n<p>Trabalho por conta e ajuste<\/p>\n<p>Nos dias pr\u00e9vios vinham-se instalando questionamentos e expectativas pela reuni\u00e3o semestral do Parlamento, ligadas ao deterioro da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de Cuba desde 2008. Uma queda do turismo pela crise mundial, a queda do pre\u00e7o do n\u00edquel, assim como o fracasso da safra do a\u00e7\u00facar e do plano de desenvolvimento agr\u00edcola (ver \u2018A crise de\u2026\u2019), agravaram as pen\u00farias pelos sal\u00e1rios de fome (em m\u00e9dia, dez ou quinze d\u00f3lares por m\u00eas) da maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Ra\u00fal Castro, foram aprovadas \u201cimportantes decis\u00f5es que constituem em si mesmas uma mudan\u00e7a estrutural e de conceito na inten\u00e7\u00e3o de preservar e desenvolver nosso sistema social e fazer dele sustent\u00e1vel no futuro\u201d. Como sempre, n\u00e3o se esqueceu de agregar que \u201co socialismo \u00e9 irrevog\u00e1vel\u201d (Granma, 2\/8).<\/p>\n<p>Os titulares dos di\u00e1rios destacam a amplia\u00e7\u00e3o dos pequenos neg\u00f3cios por conta pr\u00f3pria, que j\u00e1 existiam faz tempo, por exemplo, na gastronomia (os \u201cpaladares\u201d), as feiras artesanais para o turismo ou as quitandas que vendem diretamente seus produtos vegetais. Tamb\u00e9m num estendido mercado negro ou atividades clandestinas de todo tipo (t\u00e1xis ilegais, compra e venda de repostos, grava\u00e7\u00e3o de CDs ou filmes, e um longo etc\u00e9tera). Agora se legalizam mais atividades que poder\u00e3o contratar empregados e lhes pagar seus sal\u00e1rios, pagando um aluguel e impostos ao Estado. Autorizou-se o funcionamento de t\u00e1xis privados. Neste ano j\u00e1 se tinha legalizado os cabeleireiros.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se anunciou o in\u00edcio de negocia\u00e7\u00f5es para construir 16 campos de golfe (agora h\u00e1 s\u00f3 duas) com capitais internacionais e para retomar a venda de casas a estrangeiros, aberta nos anos 90 e depois congelada (ver \u201cMais golfe\u2026\u201d). Isto est\u00e1 acompanhado por uma renegocia\u00e7\u00e3o das obriga\u00e7\u00f5es da d\u00edvida externa com credores internacionais (que somam entre 600 e 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares) e a redu\u00e7\u00e3o das reten\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias \u00e0 empresas estrangeiras.<\/p>\n<p>Mas, sem d\u00favida, o mais chamativo foi o an\u00fancio de que ter\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o paulatina do emprego p\u00fablico a mais de um milh\u00e3o de trabalhadores (dados Granma, P\u00e1gina 12, Clar\u00edn, A Na\u00e7\u00e3o, 2\/8). A reapari\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Fidel Castro desde os dias pr\u00e9vios serviu para instalar com firmeza seu apoio a Ra\u00fal, quem descartou que haja qualquer luta entre ortodoxos e reformistas, e que \u201csua unidade \u00e9 mais s\u00f3lida que nunca\u201d (Granma, 2\/8).<\/p>\n<p>Suprimir mais de um milh\u00e3o de postos de trabalho<\/p>\n<p>Desde abril de 2009, o governo revisou o or\u00e7amento e come\u00e7ou uma pol\u00edtica de ajuste. Atrasaram-se ou suspenderam pagamentos a provedores, voltaram medidas de racionamento de energia (que n\u00e3o se davam desde o \u201cper\u00edodo especial\u201d, depois da queda da URSS). Em rela\u00e7\u00e3o aos empregados do Estado, Ra\u00fal Castro tinha feito em mar\u00e7o de 2010 um importante alerta em seu discurso no Congresso da Uni\u00e3o das Juventudes Comunistas, pronunciado dia 4 de abril deste ano. Disse ent\u00e3o que havia um \u201cexcesso de empregos\u201d de mais de um milh\u00e3o e que \u201ceste \u00e9 um assunto muito sens\u00edvel que estamos no dever de enfrentar com firmeza e sentido pol\u00edtico\u201d. Ao mesmo tempo, se queixou de que existia uma falta cr\u00f4nica de \u201cconstrutores, oper\u00e1rios agr\u00edcolas e industriais, professores, policiais e outros of\u00edcios indispens\u00e1veis que pouco a pouco v\u00e3o desaparecendo\u201d.<\/p>\n<p>No Parlamento, Ra\u00fal Castro disse que \u201cdepois de meses de estudo no marco da atualiza\u00e7\u00e3o do modelo econ\u00f4mico cubano, o Conselho de Ministros em sua \u00faltima reuni\u00e3o [\u2026] acordou um conjunto de medidas para acometer, por etapas, a redu\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios consideravelmente excessivos no setor estatal\u201d. Ser\u00e1 um processo paulatino, cuja primeira fase concluir\u00e1 no primeiro trimestre de 2011, para despedir mais de um milh\u00e3o de trabalhadores estatais \u201cdesnecess\u00e1rios\u201d ou \u201cimprodutivos\u201d.<\/p>\n<p>A fundamenta\u00e7\u00e3o de Ra\u00fal foi brutal: \u201cH\u00e1 que apagar para sempre a no\u00e7\u00e3o de que Cuba \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo no qual se pode viver sem trabalhar\u201d (Granma, 2\/8). \u00c9 outra de suas c\u00ednicas mentiras. Cuba \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo onde se trabalha quase de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Trabalhadores especialistas, m\u00e9dicos, professores ou enfermeiras recebem sal\u00e1rios que oscilam entre 10 ou 15 d\u00f3lares (a maioria) e 35 ou 40 (os mais altos postos de dire\u00e7\u00e3o nos hospitais ou escolas). S\u00e3o os dados oficiais, e por isso cada vez h\u00e1 menos \u201cempregos indispens\u00e1veis\u201d, como se queixava Ra\u00fal Castro em seu discurso de abril. Para ministrar as aulas apelaram para que os professores aposentados retornem. Os m\u00e9dicos saem para trabalhar no estrangeiro, para enviar dinheiro para suas fam\u00edlias e economizar algo, enquanto se esvaziam os hospitais e os pacientes, para ser atendidos, t\u00eam que dar dinheiro ao pessoal mal remunerado.<\/p>\n<p>A prova mais contundente de que em Cuba se instalou a mis\u00e9ria capitalista a expressa o economista oficial Omar Everleny P\u00e9rez Villanueva, que diz: \u201cn\u00e3o se consegue dar a solu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0s receitas da maioria das fam\u00edlias cubanas (existem segmentos da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chegam a cobrir seus gastos com os ingressos formais que recebem, o que os obriga a recorrer a fontes alternativas ou dispensar de um conjunto de bens e\/ou servi\u00e7os)\u201d e que, \u201cno final de 2008, o sal\u00e1rio real equivalia a 45 pesos do ano de 1989, quer dizer, representava 24%.\u201dDito de outra maneira, os trabalhadores cubanos perderam em 20 anos 76% do valor de seus sal\u00e1rios. Esse \u00e9 o verdadeiro rosto da Cuba capitalista dos irm\u00e3os Castro.<\/p>\n<p>O Estado cubano, ag\u00eancia de trabalho para as multinacionais<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m p\u00f5e em d\u00favida que aproximadamente 95% dos assalariados s\u00e3o empregados p\u00fablicos. S\u00e3o dados oficiais. Mas, significa isto que 95% dos meios de produ\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os s\u00e3o estatais? N\u00e3o, tudo o contr\u00e1rio. Esta \u00e9 uma das perversas particularidades do capitalismo cubano, onde quase o \u00fanico que resta estatal \u00e9 o emprego.<\/p>\n<p>A maior parte da produ\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os e o turismo s\u00e3o privados, sob a forma de empresas mistas (ver \u2018As empresas mistas\u2026\u2019). Os empres\u00e1rios se associam com o Estado, que lhes brinda essa m\u00e3o de obra estatal, qualificada e super explorada, e assim garante altos lucros a espanh\u00f3is, canadenses, chineses, russos, brasileiros ou venezuelanos.<\/p>\n<p>A todos esses trabalhadores lhes paga sal\u00e1rios miser\u00e1veis, como dissemos antes, na desvalorizada moeda nacional, enquanto que a maior parte dos produtos se compra em cucs, equivalentes a um d\u00f3lar (24 pesos = 1 cuc = 1 d\u00f3lar).<\/p>\n<p>No turismo e em La Habana h\u00e1 mais rebusques. No interior, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito pior. Por isso, se generaliza o roubo, a corrup\u00e7\u00e3o e o mercado negro, que s\u00e3o formas de resist\u00eancia a mis\u00e9ria. Vejamos um exemplo pr\u00e1tico. Um guia bil\u00edng\u00fce de turismo, que trabalha 12 ou 14 horas por dia, recebe um sal\u00e1rio estatal mensal de 400 pesos (17 d\u00f3lares). A multinacional que o usa lhe paga ao estado cubano 150 d\u00f3lares, que embolsa a diferen\u00e7a. Por isso o povo cubano vive \u201cinventando\u201d como conseguir um pouco mais de cucs, para conseguir uma receita apenas digna.<\/p>\n<p>Agora, desses mais de quatro milh\u00f5es de trabalhadores estatais com sal\u00e1rios miser\u00e1veis, pretende \u201crelocalizar\u201d, como dizem os funcion\u00e1rios e os sindicalistas corruptos, a mais de um milh\u00e3o, quer dizer, entre 20 e 30 por cento. S\u00e3o demiss\u00f5es encobertas, j\u00e1 que lhes obrigaria a relocalizar-se na agricultura ou na constru\u00e7\u00e3o, setores j\u00e1 em crises e que n\u00e3o conseguem decolar (na constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 planos de moradias populares, s\u00f3 se constroem hot\u00e9is de luxo). E j\u00e1 antes se anunciou a limita\u00e7\u00e3o do seguro de desemprego, reduzido a s\u00f3 seis semanas.<\/p>\n<p>H\u00e1 dados de que esta reforma trabalhista j\u00e1 arrancou este ano de forma incipiente, ao calor das dificuldades econ\u00f4micas. No turismo, j\u00e1 houve trabalhadores que perderam seus empregos na temporada baixa ou foram transladados a granjas ainda administradas pelo Estado. Na verdade houve den\u00fancias de empregados suspensos sem sal\u00e1rios por v\u00e1rios meses. Enquanto tudo isso ocorre, a ministra do Trabalho e Seguran\u00e7a Social, Margarita Gonz\u00e1lez, com rabo preso, recitava sua mentira correspondente: \u201cCuba n\u00e3o aplicar\u00e1 demiss\u00f5es massivas ao estilo dos ajustes neoliberais\u201d (Clar\u00edn, 19\/8).<\/p>\n<p>Ofensiva capitalista sem direito de greve nem liberdade sindical<\/p>\n<p>O projeto de redu\u00e7\u00e3o de mais de um milh\u00e3o de empregos estatais \u00e9 totalmente funcional a favorecer os lucros do esquema capitalista que pratica o governo de Ra\u00fal Castro e o PC cubano. \u00c9 parte de outras medidas que v\u00eam implementando, como a redu\u00e7\u00e3o ou diretamente o fechamento  de restaurantes oper\u00e1rios, a revis\u00e3o e retirada de subs\u00eddios e gratuidades nas atividades da cultura, do esporte ou da alimenta\u00e7\u00e3o de estudantes (que j\u00e1 se mobilizaram protestando pela p\u00e9ssima qualidade da comida). E vem se anunciando a desapari\u00e7\u00e3o definitiva da tradicional \u201ccarteira de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos \u201d, que h\u00e1 tempo j\u00e1 quase deixou de ser efetiva.<\/p>\n<p>Estes ajustes v\u00eam provocando um crescente mal-estar popular. Mas em Cuba os trabalhadores n\u00e3o t\u00eam para se defender o elementar direito de greve que existe na maior parte dos pa\u00edses capitalistas. Os sindicatos n\u00e3o s\u00e3o outra coisa que \u201cescrit\u00f3rios\u201d do minist\u00e9rio do Trabalho, sucursais da ditadura do partido \u00fanico.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe o direito de se organizar, discutir, fazer assembl\u00e9ias que debatam livremente toda esta situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 atravessando o povo cubano e como enfrentar as demiss\u00f5es e os baixos sal\u00e1rios. Com o argumento mentiroso de n\u00e3o servir \u201ca contrarrevolu\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cn\u00e3o fazer o jogo do inimigo\u201d, se impede a democracia obreira, \u00e9 proibido fazer greve ou simplesmente uma mobiliza\u00e7\u00e3o de rua pedindo aumento de sal\u00e1rio. Enquanto isso, opositores que s\u00e3o acusados de \u201ccontrarrevolucion\u00e1rios\u201d pelo governo, como por exemplo o economista dissidente (do grupo dos 75) Omar Espinoza Chepe, sa\u00fadam como positivos os an\u00fancios econ\u00f4micos do Parlamento (Clar\u00edn, 3\/8) <\/p>\n<p>Uma panela de press\u00e3o<\/p>\n<p>Em fevereiro deste ano, a morte do preso em greve de fome Orlando Zapata foi um terremoto que instalou uma crise pol\u00edtica no pa\u00eds. No dia seguinte, um jornalista tamb\u00e9m dissidente, Guillermo Fari\u00f1as, come\u00e7ou em sua casa outra greve de fome. Houve express\u00f5es de artistas e intelectuais de outros pa\u00edses que repudiam o bloqueio e se solidarizam com o povo cubano. Pablo Milan\u00e9s atreveu-se a dizer que \u201ch\u00e1 que condenar a Fidel Castro, desde o ponto de vista humano, se o dissidente Fari\u00f1as morre de fome\u201d, e qualificou de \u201cfarsa\u201d as elei\u00e7\u00f5es que se fizeram em abril. A escritora Luzia Portela, integrante da Uni\u00e3o Nacional de Escritores e Artistas de Cuba, al\u00e7ou sua voz solit\u00e1ria e cr\u00edtica, dizendo \u201cBasta j\u00e1\u2026 que venha o que venha\u201d. O mal-estar social \u00e9 crescente, n\u00e3o s\u00f3 pela falta de liberdades, mas tamb\u00e9m pelo n\u00edvel de vida cada vez mais baixo, ainda que a repress\u00e3o sufoca a express\u00e3o de protestos. Mas em outubro de 2009 foram vistos protestos e reivindica\u00e7\u00f5es estudantis no Instituto Superior de Arte de La Habana, pela p\u00e9ssima comida e a falta de higiene. Antes se haviam surgido den\u00fancias pela falta de direitos de viajar livremente ao exterior. E a cada vez mais se v\u00e3o dando express\u00f5es de rebeldia juvenil, em grande parte clandestinas. Como grupos musicais do tipo do roqueiro Gorki Aguila, os rapeiros Los Aldeanos, Escuadr\u00f3n Patriota, entre outros, com can\u00e7\u00f5es contra o regime, a burocracia, de den\u00fancia social e por liberdades. Correm escondidas milhares e milhares de c\u00f3pias de CDs que se v\u00e3o reproduzindo. Um acesso um pouco maior na internet (os cubanos foram autorizados a us\u00e1-la nos hot\u00e9is, mas \u00e9 muito cara), tamb\u00e9m amplia a difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e reivindica\u00e7\u00f5es. Assim surgiu a agora famosa blogueira Yoani S\u00e1nchez, que comenta criticamente as dificuldades cotidianas e o burocratismo, mantendo certa dist\u00e2ncia com a gusaner\u00eda.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o marco no qual no m\u00eas de julho o governo aceitou a media\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica e o chanceller espanhol para come\u00e7ar a liberar 52 presos pol\u00edticos, dos quais j\u00e1 v\u00e1rios viajaram para Espanha. \u00c9 uma conquista importante no terreno dos direitos humanos. Mas n\u00e3o esque\u00e7amos que o espanhol e outros governos que reclamam por liberdades, s\u00e3o os representantes das multinacionais que est\u00e3o fazendo suculentos neg\u00f3cios com a atual ditadura, que consegue o milagre de que milh\u00f5es de pessoas trabalhem quase gr\u00e1tis.<\/p>\n<p>Tanto prova que depois dos an\u00fancios do Parlamento, quase todos os comentaristas, incluindo aos yanquis, fizeram quest\u00e3o de insistir que s\u00e3o passos encaminhados a fortalecer o investimento de capitais na ilha. E, agregamos, tamb\u00e9m s\u00e3o parte do grande objetivo do governo: fortalecer seu controle pol\u00edtico da situa\u00e7\u00e3o, que lhes complica pelas dificuldades econ\u00f4micas e sociais que lhes vem acumulando.<\/p>\n<p>Por uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista<\/p>\n<p>Numa de suas can\u00e7\u00f5es, Viva Cuba Libre, os rapeiros Los Aldeanos dizem que \u201ccom Ernesto Che Guevara, comandante de verdade, estou firme\u201d. Nunca mais oportuna e necess\u00e1ria a apela\u00e7\u00e3o a Guevara. Recordar a batalha contra a burocracia e os privil\u00e9gios que caracterizava sua gest\u00e3o dentro dos primeiros anos de governo. Suas cr\u00edticas a crescente subordina\u00e7\u00e3o de Cuba e do castrismo a burocracia do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E sua frase t\u00e3o c\u00e9lebre: \u201crevolu\u00e7\u00e3o socialista ou caricatura de revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Fidel a foi negando nos fatos e nas palavras. Recordemos, por exemplo, quando disse aos sandinistas em 1979 que n\u00e3o fizessem de Nicaragua outra Cuba, que n\u00e3o avan\u00e7assem rumo a ruptura com a burguesia e a revolu\u00e7\u00e3o socialista. E a negou definitivamente quando, na d\u00e9cada de noventa, iniciou o caminho direto da restaura\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Por isso, j\u00e1 n\u00e3o basta somente o recha\u00e7o ao bloqueio e com a imprescind\u00edvel solidariedade com o povo cubano. \u00c9 necess\u00e1ria a luta por uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista, para reverter a transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social rumo ao capitalismo imposto pelos Castro, junto a luta pol\u00edtica, a uma revolu\u00e7\u00e3o contra o regime ditatorial para impor liberdades pol\u00edticas para todo o povo.<\/p>\n<p>Apoiamos a mobiliza\u00e7\u00e3o obreira, popular, estudantil e campesina para exigir um sal\u00e1rio digno, terminando com os 10 ou 15 d\u00f3lares do atual sal\u00e1rio estatal. Por um m\u00ednimo de 250 ou 300 cucs, abolindo o sistema perverso da dupla moeda. Basta de lojas e mercados para ricos e outros para pobres. Basta de sal\u00e1rios especiais e privil\u00e9gios para a burocracia governante. Mais investimento em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o as empresas capitalistas, sejam mistas ou totalmente privadas. Pela reestatiza\u00e7\u00e3o das empresas sob controle e administra\u00e7\u00e3o obreiras, no marco de um plano \u00fanico centralizado.<\/p>\n<p>Plenos direitos para a mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores, os campesinos e estudantes. Direito a discordar, protestar e fazer greve. Plena independ\u00eancia dos sindicatos em rela\u00e7\u00e3o ao Estado e ao governo. Pela democracia oper\u00e1ria, para fazer suas reivindica\u00e7\u00f5es e trocar os dirigentes e formar novos sindicatos.<\/p>\n<p>Plenas liberdades para o povo cubano, nada para os gusanos de Miami. Basta de presos pol\u00edticos; contra o regime de partido \u00fanico e pela livre forma\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos. Total liberdade para entrar e sair do pa\u00eds a todos os cubanos. Livre uso da Internet, n\u00e3o a censura \u00e0 m\u00fasica, a arte e a informa\u00e7\u00e3o. Liberdade para os jovens, com direito a organizar centros estudantis e exigir livremente suas reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por um plano econ\u00f4mico nacional que comece por recuperar o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior, elimine o sistema bi monet\u00e1rio atual e d\u00ea aumento imediato e substancial de sal\u00e1rios. Por uma nova planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com democracia oper\u00e1ria, que ataque a diferencia\u00e7\u00e3o social, a corrup\u00e7\u00e3o dos de cima e reverta a restaura\u00e7\u00e3o capitalista. Recuperar as conquista na sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o conquistadas nos primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o. O governo dos Castros e o PC n\u00e3o est\u00e3o a servi\u00e7o do povo cubano, h\u00e1 que super\u00e1-los com a mobiliza\u00e7\u00e3o, por um governo dos trabalhadores, para alcan\u00e7ar o verdadeiro socialismo com democracia oper\u00e1ria. Para isso, chamamos a constru\u00e7\u00e3o de uma nova dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, um novo partido socialista que retome as bandeiras de Che e da primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>1. Para ampliar dados, veja Correspond\u00eancia internacional N\u00ba 27, junio-set. 2009: \u201c\u00bfSe viene el fin del bloqueo?\u201d, en www.uit-ci.org<\/p>\n<p>2. Omar Everleny P\u00e9rez Everleny y otros: Miradas a la econom\u00eda cubana. Edit. Caminos, La Habana, 2009.<\/p>\n<p>3. V\u00e9ase declaraci\u00f3n de la UIT-CI en El Socialista N\u00ba 163, 7\/4\/2010 en www.izquierdasocialista.org.ar<\/p>\n<p>As empresas mistas em Cuba<\/p>\n<p>A vanguarda em fazer neg\u00f3cios tem sido as multinacionais espanholas e as canadenses. Os yanquis ficaram relegados pelo bloqueio. Na \u00faltima d\u00e9cada, Venezuela cumpriu tamb\u00e9m um papel importante, junto com a China.<\/p>\n<p>\u2022 Em n\u00edquel e cobalto (Cuba ocupa o primeiro e segundo lugar mundial em reservas), se destaca a empresa cubana-canadense Metal\u00fargica de Moa, com a multinacional Sherritt, que inclui as opera\u00e7\u00f5es de extra\u00e7\u00e3o e processamento do n\u00edquel, a refinaria em Alberta (Canad\u00e1) e a empresa que comercializa em Bahamas. Come\u00e7ou em 1992, quando j\u00e1 n\u00e3o se refinava o mineral na antiga URSS, e supera os 40% da exporta\u00e7\u00e3o total do n\u00edquel.<\/p>\n<p>\u2022 O turismo foi um dos ramos mais din\u00e2micos e em crescimento, a partir de sua reestrutura\u00e7\u00e3o nos anos noventa com as empresas estrangeiras. Destacam-se as grandes corpora\u00e7\u00f5es Cubanacan e Gaviota, com participa\u00e7\u00f5es de capitais cubanos, privados e estatais, em primeiro lugar do ex\u00e9rcito (FAR) e as redes Gran Caribe, Horizonte, entre outras. Cerca de 48% das aproximadamente 42.000 habita\u00e7\u00f5es s\u00e3o administradas por empresas estrangeiras. Entre as empresas espanholas mais importantes est\u00e3o Sol-Meli\u00e1 e o grupo Barcel\u00f3. Empres\u00e1rios privados cubanos abastecem 68% dos insumos das instala\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas. Neste ramo h\u00e1 grande expectativa para a abertura ao turismo estadunidense. Em fevereiro de 2010 se reuniram em Canc\u00fan empres\u00e1rios yanquis com o ministro cubano de Turismo, Manuel Marrero, para intercambiar planos ante uma futura mudan\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es. O estadunidense Kirby Jones, presidente da companhia Alamar, destacou: \u201cN\u00e3o h\u00e1 limitantes para que redes hoteleiras estrangeiras, incluindo as dos Estados Unidos, possam administrar um hotel em Cuba\u201d, disse Marrero (adn.es, mar\u00e7o 2010).<\/p>\n<p>\u2022 Em explora\u00e7\u00e3o petroleira, em 1999 abriram-se 112.000 km2 de sua zona de exclus\u00e3o no Golfo de M\u00e9xico para empresas estrangeiras. Participam Repsol- YPF, Petrobr\u00e1s, Ocean Rig (Noruega), Petrobr\u00e1s com Sherritt Gordon (Canad\u00e1, primeira em petr\u00f3leo e g\u00e1s). Energas (cubana-canadense) produz eletricidade com o g\u00e1s dos po\u00e7os da zona norte de La Habana. Al\u00e9m disso, interv\u00eam empresas da Fran\u00e7a, Reino Unido, Espanha e China.<\/p>\n<p>\u2022 Em telecomunica\u00e7\u00f5es, a primeira empresa mista come\u00e7ou em 1994 com a mexicana CITEL. Depois entrou a italiana STET, que se foi transformando no principal s\u00f3cio estrangeiro, com 28%. Em 1997 entrou a Sherritt em telecomunica\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u2022 Em tabaco e produ\u00e7\u00e3o de habanos, existe Habanos SA, fundada em 1994. Empresa mista em partes iguais, entre a estatal Cubatabaco e Altadis, empresa espanhola, propriedade do grupo ingl\u00eas Imperial Tobacco Group. \u00c9 uma multinacional que tem 80% do mercado mundial de charutos. Est\u00e1 em 5 continentes e em 150 pa\u00edses (dados do portal da empresa).<br \/>\n\u2022 Na constru\u00e7\u00e3o se destaca a participa\u00e7\u00e3o de capitais israelense, por exemplo, a empresa mista entre a cubana Cubalse SA e a empresa israelense Grupo GM. Al\u00e9m disso, desde 1992, a empresa de Israel Waknine e Beresousky controla 68% da comercializa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria citr\u00edcola cubana.<br \/>\n\u2022 P\u00e9rez Villanueva proporciona dados bastante precisos sobre os empres\u00e1rios privados cubanos. Vejamos dois casos. Em 1993 formou-se a Corpora\u00e7\u00e3o Cuba Rum SA, para a produ\u00e7\u00e3o, comercializa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o do tradicional Havana Clube, formada por empres\u00e1rios cubanos e a francesa Pernod Ricard (a do whisky Chivas Regal). Hoje, Havana Club chega a 100 pa\u00edses e a empresa est\u00e1 entre as 20 de maior venda no mundo no ramo.<br \/>\nA cerveja mais popular, Bucanero, pertence a Coralsa, Corpora\u00e7\u00e3o Aliment\u00edcia SA, s\u00f3cia da canadense Cerbuco. A mesma empresa privada cubana est\u00e1 nas ind\u00fastrias da cerne com a espanhola Porvalca, de Val\u00eancia. A produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o dos mais importantes refrescos e \u00e1guas minerais as possuem Coralsa, associada com a multinacional su\u00ed\u00e7a Nestl\u00e9. Al\u00e9m de abastecer ao turismo e consumo popular locais, est\u00e1 exportando ao Caribe e ao Mercosul.<\/p>\n<p>Mais golfe e neg\u00f3cios<\/p>\n<p>O grupo brit\u00e2nico Esencia Hotels&#038;Resorts, com a empresa cubana Palmares S.A., v\u00e3o ampliar seus campos de golf. Esencia Hotels&#038;Resorts \u00e9 parte de Havana Holding, que tem o controle da marca Floridita (um dos bares s\u00edmbolos da Habana, onde se serve o daiquir\u00ed) em toda Europa. Dia 1\u00ba de agosto foram anunciadas negocia\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de 16 campos de golf novos, vendendo nessas \u00e1reas casas de luxo aos estrangeiros. Quatro estariam muito avan\u00e7ados e se localizam assim: dois entre La Habana e o balne\u00e1rio de Varadero (a 140 kil\u00f3metros dal\u00ed), na costa noroeste; em Pinar do Rio (ocidente) e outro em Holgu\u00edn (oriente). Esencia Hotels&#038;Resorts j\u00e1 tinha anunciado em 2008 seu projeto Carbonera Country Clube Resort, pr\u00f3ximo de Varadero, com um investimento de 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares para levantar 730 casas entorno de uma marina e um campo de golfe de 18 buracos.<\/p>\n<p>Outros projetos conhecidos s\u00e3o os de uma sociedade brit\u00e2nico-espanhola na Bahia Honda, Pinar do Rio, uma empresa canadense em Jibacoa (pr\u00f3ximo de La Habana) e uma companhia privada vietnamita, tamb\u00e9m numa zona pr\u00f3xima a capital. Este turismo de luxo tem grandes expectativas para o mercado yanqui.<\/p>\n<p>A crise da agricultura<\/p>\n<p>Cerca de 80% dos produtos aliment\u00edcios que se consomem em Cuba s\u00e3o importados (quase a metade vem dos EE.UU.). A reabertura do capitalismo come\u00e7ou no campo em 1994, com a entrega de terras a cooperativas e pessoas privadas. Como era previs\u00edvel, n\u00e3o reverteu a baixa ou quase nula produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria que existia sob a condu\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e subsidiada da economia dos tempos do \u201csocialismo real\u201d, que permitia ao governo cubano abastecer-se de alimentos relativamente baratos.<\/p>\n<p>Com o correr dos anos se foi agravando a crise do campo e a vulnerabilidade do setor externo. Desde 2008, Ra\u00fal Castro pretendeu atacar-las com uma campanha para aumentar a produtividade agr\u00edcola impulsionando a fundo a entrega de terras em usufruto \u00e0 propriet\u00e1rios privados, de maneira individual ou como cooperativas (que j\u00e1 havia come\u00e7ado em 1994-5).<\/p>\n<p>Em dois anos entregaram-se um milh\u00e3o de hectares de terras ociosas, de um fundo de 1.763.000 selecionadas para cultivar, que s\u00e3o aproximadamente a metade da terra n\u00e3o utilizada. Os resultados foram m\u00ednimos e o minist\u00e9rio amea\u00e7ou com retroagir as concess\u00f5es a quem n\u00e3o cumprissem com as metas fixadas. Mas teve camponeses que denunciaram que n\u00e3o contam com o imprescind\u00edvel apoio para maquinarias ou insumos b\u00e1sicos, como fertilizantes ou sementes. Quer dizer, est\u00e3o descrevendo o c\u00edrculo vicioso que forma o capitalismo para sufocar o campesino. Obviamente, o ministro Olivera qualificou as medidas de \u201crevolucion\u00e1rias\u201d, opostas a qualquer \u201cabertura capitalista\u201d (Clar\u00edn, 27\/6\/10). Ra\u00fal Castro e seus analistas econ\u00f4micos, para justificar a crise de produtividade agr\u00edcola -que se soma a da ind\u00fastria-, falam de \u201cvac\u00e2ncia\u201d e do costume das \u201cgratuidades\u201d. Na realidade, n\u00e3o h\u00e1 produtividade porque o povo trabalhador em Cuba nunca participou dos planos da produ\u00e7\u00e3o, sofreu o burocratismo e a falta de liberdades, nunca pode discutir democraticamente suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, nem na cidade e nem no campo. Agora, a isto se soma a explora\u00e7\u00e3o capitalista, os sal\u00e1rios de fome, a falta de apoios e incentivos. A baixa produ\u00e7\u00e3o, o roubo e o mercado negro s\u00e3o formas de resist\u00eancia das massas.<\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o passo a passo<\/p>\n<p>O governo cubano repete constantemente que \u201co socialismo \u00e9 irrevog\u00e1vel\u201d. \u00c9 a mentira oficial que tenta cobrir a superexplor\u00e7\u00e3o capitalista do povo cubano. H\u00e1 uma enorme desigualdade social, surgida desde que, nos anos 90, os Castro puseram marcha em caminho da restaura\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesde a d\u00e9cada de 70 tinha elementos de abertura capitalista em Cuba Socialista, seguindo os passos da dire\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica. A dissolu\u00e7\u00e3o da antiga URSS e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista na R\u00fassia e em todo o Leste europeu no in\u00edcio dos anos noventa levou ao PC cubano a tomar o mesmo caminho1.<\/p>\n<p>Cuba sofreu o \u201cper\u00edodo especial\u201d, que foram as enormes pen\u00farias vividas pelo povo cubano como conseq\u00fc\u00eancia do fim dos generosos subs\u00eddios e vantagens comerciais que haviam recebido por quase tr\u00eas d\u00e9cadas por parte da burocracia sovi\u00e9tica. Nesse per\u00edodo come\u00e7aram a introduzir as grandes transforma\u00e7\u00f5es a caminho da restaura\u00e7\u00e3o. Mantendo as caracter\u00edsticas monol\u00edticas e repressivas do regime estalinista imperante, foram demolidos os pilares de uma economia socialista que haviam sido impulsionadas durante 30 anos, a partir da expropria\u00e7\u00e3o da burguesia, quando o pa\u00eds era o que chamamos de \u201cum Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico\u201d. Cuba tamb\u00e9m come\u00e7ou o regresso ao capitalismo, com caracter\u00edsticas comuns com os processos da China e Vietnam.<\/p>\n<p>Repassemos os tr\u00eas passos fundamentais.<\/p>\n<p>1. Em 1991, o Quarto Congresso do PC Cubano, resolveu abandonar o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior. Ratificaram na reforma constitucional 1992. As empresas estatais come\u00e7aram a importar e exportar de forma direta e individual, e as empresas privadas ou mistas foram autorizadas para que fizesse tamb\u00e9m. O economista oficial Omar Everleny P\u00e9rez Villanueva dizia: \u201cA elimina\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio da gest\u00e3o do com\u00e9rcio exterior de conjunto com a abertura para investimento estrangeiro, constituiu a premissa principal da gradual descentraliza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o comercial externa\u201d2.<\/p>\n<p>2. Essa \u201cdescentraliza\u00e7\u00e3o\u201d foi a liquida\u00e7\u00e3o da planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, estabelecida pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1992, que substituiu \u201co plano \u00fanico de desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d por \u201cum plano que garanta o desenvolvimento programado do pa\u00eds\u201d. Com ambas medidas, o mercado come\u00e7ava a ser o principal mecanismo de funcionamento do interc\u00e2mbio econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>3. Foi restabelecida a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, base fundamental do capitalismo. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1992 suprimiu o \u201ccar\u00e1ter irrevers\u00edvel\u201d que tinham \u201cos bens de propriedade estatal socialista\u201d. A lei N\u00ba 77 de investimentos estrangeiros de 1995 garantiu a n\u00e3o expropria\u00e7\u00e3o, a livre remessa de lucros e outras medidas que dinamizaram ou inauguraram a penetra\u00e7\u00e3o capitalista em \u00e1reas chaves como o turismo, o n\u00edquel, petr\u00f3leo e g\u00e1s, telecomunica\u00e7\u00f5es, alimenta\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o. S\u00f3 ficaram de fora, como monop\u00f3lio estatal, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e defesa no aspecto militar. A desestatiza\u00e7\u00e3o da terra come\u00e7ou e 1994, atrav\u00e9s da UBPC (Unidade B\u00e1sica de Propiedade Cooperativa). Desde ent\u00e3o, com ida e vindas, com o apoio direto do imperialismo europeu, fundamentalmente Espanha e Canad\u00e1, e crescentes expectativas de setores burgueses yanquis, vem-se reconstruindo o capitalismo em Cuba. Isso significou uma mudan\u00e7a colossal no pa\u00eds. Quem, pela direita ou pela esquerda, sustenta que segue o \u201cmesmo modelo econ\u00f4mico\u201d, que continua aquele \u201csocialismo real\u201d inaugurado pela Revolu\u00e7\u00e3o com mais ou menos reformas e transforma\u00e7\u00f5es, se equivoca. Na Cuba capitalista atual, o que n\u00e3o \u00e9 mudado \u00e9 a ditadura do partido \u00fanico.<\/p>\n<p>1. Uma excelente pesquisa do processo cubano \u00e9 De Mart\u00ed a Fidel \u2013 La Revoluci\u00f3n Cubana y Am\u00e9rica Latina, por Luiz Alberto Moniz Bandeira, Norma, 2008.<\/p>\n<p>2. Reflexiones sobre la econom\u00eda cubana. Edit. de Ciencias Sociales, La Habana, 2006.<\/p>\n<p>\u201cTudo \u00e9 estatal\u201d<\/p>\n<p>Estranhamente, ainda que n\u00e3o seja assim, desde os mais diversos setores se diz que em Cuba \u201ctudo \u00e9 estatal\u201d. Para os Castros e seu governo, \u00e9 parte da l\u00f3gica de mentiras cotidianas de que o \u201csocialismo \u00e9 irrevers\u00edvel\u201d e n\u00e3o h\u00e1 \u201capertura\u201d ou reformas capitalistas. Intelectuais e acad\u00eamicos castro\/chavistas o repetem ou o deixam correr.<\/p>\n<p>Desde a direita e os setores \u201ccr\u00edticos\u201d do pr\u00f3prio PC, que levantam uma op\u00e7\u00e3o explicitamente social-democrata, se somam. Nesse caso, \u00e9 funcional a seu programa de abertura total, para que avance ainda mais a propriedade privada, para que as empresas mistas deixem a cada vez mais lugar \u00e0s empresas privadas cubanas ou das multinacionais\t.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 outra colossal mentira. O \u00fanico que atualmente se aproxima de ser \u201ctudo estatal\u201d \u00e9 o emprego dos trabalhadores cubanos. J\u00e1 descrevemos o papel do empregador absoluto do Estado, para beneficio dos empres\u00e1rios capitalistas. Mas esta mentira tem conseq\u00fc\u00eancias nefastas para os trabalhadores. Como eles sentem na pr\u00f3pria carne seus miser\u00e1veis sal\u00e1rios p\u00fablicos, ainda que trabalhem no meio dos luxos do turismo em Varadero, renegam cada vez mais a propriedade estatal e crescem suas expectativas de que seja melhor que haja cada vez mais empres\u00e1rios e propriet\u00e1rios privados de todo tipo na ilha. A crescente desigualdade social que existe em todos os lados \u00e9 atribu\u00edda por muitos cubanos a essa suposta presen\u00e7a generalizada do \u201cestado\u201d, e caem na armadilha mortal de depositar esperan\u00e7as nas privatiza\u00e7\u00f5es. A mentira oficial de que vivem no \u201csocialismo\u201d aponta no mesmo sentido. Obviamente, os burocratas e todos os empres\u00e1rios, agradecem.<\/p>\n<p>Fracassou o \u201cestatismo\u201d ou a \u201cutopia igualit\u00e1ria\u201d?<br \/>\nO castrismo, da revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 trai\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>A cr\u00edtica situa\u00e7\u00e3o que vive o povo cubano reabre velhos debates ou instala outros novos sobre o que foi e o que \u00e9 o castrismo.<\/p>\n<p>Defensores atuais do governo cubano, em primeiro lugar o castro-chavismo, somam-se \u00e0s vers\u00f5es de direita e social-democratas dizendo que em Cuba, como na ex URSS, teria fracassado o \u201cestatismo\u201d. S\u00e3o os que abandonaram o ponto chave do triunfo de 1959-60: a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia. S\u00e3o os que seguem apoiando a ditadura estalinista dos Castro e escondem com mentiras a transforma\u00e7\u00e3o capitalista que impuseram em Cuba. Na Venezuela defendem o capitalismo de economia mista com as multinacionais que proclama o presidente Ch\u00e1vez com seu falso \u201cSocialismo do S\u00e9culo XXI\u201d.<\/p>\n<p>Outra vers\u00e3o a d\u00e3o alguns \u201cprogressistas\u201d  ex castristas. H\u00e1 meio s\u00e9culo eram fan\u00e1ticos incondicionais de Fidel e acusavam de \u201ccontra revolucion\u00e1rio\u201d todo aquele que, como nossa corrente morenista, pretendiam apontar qualquer cr\u00edtica desde a esquerda. Tardiamente foram descobrindo que em Cuba n\u00e3o havia liberdades, tudo era monol\u00edtico, havia problemas. Alguns, inclusive, definem corretamente agora que existe uma ditadura estalinista, mas reescrevem falsamente a hist\u00f3ria1. Reconhecem que houve um longo per\u00edodo de avan\u00e7os da revolu\u00e7\u00e3o e grande melhoramento das condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores (este \u00e9 um fato que nunca ningu\u00e9m pode negar, reconhecido at\u00e9 pela Madre Teresa de Calcuta). Mas desenham-no como uma \u201cutopia igualit\u00e1ria\u201d, condenada a fracassar porque j\u00e1 continha uma fatal centraliza\u00e7\u00e3o, unida ao estatismo, que a condenava a ser repressiva. Quando eram castristas, n\u00e3o detectaram que existia uma ditadura que controlava monoliticamente aquele Estado.<\/p>\n<p>A verdadeira hist\u00f3ria \u00e9 que Cuba Socialista nunca foi \u201cigualit\u00e1ria\u201d, porque nasceu com um aparato burocr\u00e1tico totalit\u00e1rio, seu partido-ex\u00e9rcito, que deu lugar ao PC cubano e as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias, dirigidos pelos irm\u00e3os Castro. Eram burocratas privilegiados, ao estilo estalinista, com a diferen\u00e7a que encabe\u00e7aram uma revolu\u00e7\u00e3o e tinham recursos infinitamente menores, inclusive para os privil\u00e9gios. Sempre tiveram melhores sal\u00e1rios, mercados especiais, nunca tiveram que usar a carteira de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n<p>Estes ex castristas agora fazem campanha pol\u00edtica dizendo que n\u00e3o pode ser tudo estatal, que n\u00e3o h\u00e1 que expropriar, que h\u00e1 que privatizar tudo. Em rela\u00e7\u00e3o a Cuba atual, n\u00e3o questionam para nada o retorno ao capitalismo. Pelo contr\u00e1rio, querem liberar a fundo, rumo a um \u201cnovo socialismo democr\u00e1tico\u201d, que se conseguiria se se incorporasse um \u201cdi\u00e1logo de transi\u00e7\u00e3o\u201d com a gusaner\u00eda de Miami. Equivocaram-se na d\u00e9cada de 60, sendo furibundos castristas, e se equivocam na atualidade, criticando pela direita o curso capitalista protagonizado pelos Castros.<\/p>\n<p>O grande da revolu\u00e7\u00e3o cubana foi seu avan\u00e7o para a ruptura com a burguesia e o imperialismo, ao calor da mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e do povo. Foi essa revolu\u00e7\u00e3o que empurrou aos Castro a radicalizar a reforma agr\u00e1ria, congelar tarifas e alugu\u00e9is, expropriar as destilarias, engenhos a\u00e7ucareiros e bancos e romper com os yanquis. Aquela \u201ccentraliza\u00e7\u00e3o\u201d foi uma conquista hist\u00f3rica: a posta em marcha do plano econ\u00f4mico nacional baseado na propiedade estatal, com o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior e as nacionaliza\u00e7\u00f5es. E assim se conquistaram sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o que puseram Cuba Socialista num dos primeiros lugares da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Aquelas conquistas se alcan\u00e7aram apesar de que existia a burocracia privilegiada e repressiva. A melhor prova do que dizemos a deu Che Guevara, quien em todo momento combateu a burocratiza\u00e7\u00e3o e a denunciou publicamente com seu visceral e genu\u00edno igualitarismo.<\/p>\n<p>Os Castros se subordinaram a burocracia maior, o colossal aparato do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Da sua m\u00e3o, foram-se apartando do caminho revolucion\u00e1rio e internacionalista dos primeiros anos e do Che. <\/p>\n<p>Nunca mais impulsionaram novos triunfos socialistas na Am\u00e9rica latina, apoiando a \u201ccoexist\u00eancia pac\u00edfica\u201d e o pacto dos burocratas russos com o imperialismo. Apoiaram a derrota da revolu\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios checos em 1968. Somaram-se a reacion\u00e1ria e suicida \u201cvia pac\u00edfica ao socialismo\u201d dos partidos comunista e socialista do Chile, que abriu caminho a Pinochet em 1972. Em 1979, Castro chamou aos sandinistas a n\u00e3o fazer em Nicaragua uma nova Cuba. Em 1981 apoiaram o golpe de Jaruselsky contra os oper\u00e1rios polacos.<\/p>\n<p>Outra seria a realidade de Cuba e da Am\u00e9rica Latina se todo o prest\u00edgio e poderio do castrismo tivesse estado a servi\u00e7o de conquistar novos pa\u00edses socialistas no continente. Pondo a riqueza latinoamericana ao servi\u00e7o de seus povos, n\u00e3o das multinacionais e do imperialismo. E sem monolitismo e partido \u00fanico, com democracia e liberdades para que as massas na luta se organizassem, discutissem, retificassem erros e fortalecessem os acertos.<\/p>\n<p>Inclusive a\u00ed, ante golpes ou retrocessos, a moral e consci\u00eancia dos povos poderia ter seguido avan\u00e7ando, construindo uma alternativa socialista e revolucion\u00e1ria. Houve muitas oportunidades arruinadas. Por tudo isso, nossa corrente, a para de defender incondicionalmente Cuba Socialista, denunciou sempre as trai\u00e7\u00f5es de Fidel Castro.<\/p>\n<p>Hoje em Cuba cresce a bronca e o desencanto no povo. E assim se instala o perigo de que se reproduza os retrocessos na consci\u00eancia que se deram na ex URSS e Leste Europeu, onde os avan\u00e7os restauracionistas, da m\u00e3o da pr\u00f3pria burocracia, n\u00e3o fizeram outra coisa que criar entre as massas fatais ilus\u00f5es no capitalismo. O grande desafio \u00e9 lutar por uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>1. Veja, por exemplo, o estudo da ex castrista e atual radical de \u201cesquerda\u201d Claudia Hilb: La izquierda democr\u00e1tica frente al r\u00e9gimen de la Revoluci\u00f3n Cubana. Edhasa, Buenos Aires, 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mercedes Petit \u2013 Correspond\u00eancia internacional | Novembro de 2010 A melhor prova do que dizemos a deu Che Guevara, quem em todo momento combateu a burocratiza\u00e7\u00e3o e a denunciou publicamente, com seu visceral e genu\u00edno igualitarismo. 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