

	{"id":118,"date":"2012-04-04T17:14:00","date_gmt":"2012-04-04T17:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2012\/04\/04\/arquivoid-9153\/"},"modified":"2012-04-04T17:14:00","modified_gmt":"2012-04-04T17:14:00","slug":"arquivoid-9153","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2012\/04\/04\/arquivoid-9153\/","title":{"rendered":"Cuba, simplesmente"},"content":{"rendered":"<p>| Tom\u00e1s Villa, de Havana<\/p>\n<p>Quando a gente enfrenta a possibilidade de ser lido em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, assume uma responsabilidade muito grande. Pois, tem que ser fiel \u00e0 verdade do que vivencia, verdade que se confrontar\u00e1 com as ideias que t\u00eam do pa\u00eds \u2013 dos seus l\u00edderes, de sua gente, de nossa vida &#8211; os amigos que est\u00e3o em outras latitudes.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, a melhor forma de come\u00e7ar a nos entender, seria comentando que, ao barco Granma com o passar dos anos, tiveram que substituir pe\u00e7as para poder conser\u00acv\u00e1-lo. Passado meio s\u00e9culo, j\u00e1 n\u00e3o restam pe\u00e7as do original, somente o nome ficou. Mas todos aqueles que o visitam, acreditam que \u00e9 o mesmo barco.<\/p>\n<p>Substitui\u00e7\u00f5es que na vida pr\u00e1tica aparecem com certa l\u00f3gica, quando falamos de conceitos \u2013 essas palavras que tem um conte\u00fado conhecido- se se mant\u00eam as palavras, mas se muda o conte\u00fado ent\u00e3o as coisas, ainda quando sejam igualmente denomina\u00acdas, n\u00e3o o s\u00e3o. Da forma que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o mesmo barco ainda quando seja denominado Granma<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 \u201crevolu\u00e7\u00e3o dos humildes\u201d<br \/>\nPelo fato de cham\u00e1-la igual, mui\u00actos acreditam que esta continua sendo a revolu\u00e7\u00e3o dos humildes, dos prolet\u00e1rios. No entanto, quando con\u00achecem que todos os sindicatos foram aniquilados &#8211; somente um foi permi\u00actido e controlado pelo governo, pelo qual os trabalhadores ficaram sem voz \u2013 compreendem que a revolu\u00e7\u00e3o deixou de ser para eles, porque n\u00e3o foi com eles. <\/p>\n<p>Assim, tamb\u00e9m se compreender\u00e1 como \u00e9 poss\u00edvel que o pr\u00f3prio sindi\u00accato CTC que deveria defender os oper\u00e1rios, \u00e9 quem encabe\u00e7a a demis\u00acs\u00e3o de meio milh\u00e3o de trabalhadores \u2013 necess\u00e1ria, de acordo com o Gover\u00acno, para sustentar o pr\u00f3prio Governo. E se compreende o pior, quando se sabe que o ministro do Trabalho \u00e9 o Presidente da CTC . <\/p>\n<p>N\u00e3o existe sequer a possibilidade de fazer um balan\u00e7o da situa\u00e7\u00e3o, de propor outra sa\u00edda. Ou, ao menos, de saber com detalhe o porqu\u00ea da necessidade das demiss\u00f5es \u2013 porque existem pessoas \u00e0s quais n\u00e3o basta a resposta: \u201c\u00e9 necess\u00e1rio\u201d sem nenhu\u00acma outra explica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Neste ponto \u00e9 evidente que o conceito Revolu\u00e7\u00e3o, aquela que leva entre par\u00eanteses \u201cdos humildes\u201d j\u00e1 n\u00e3o tem o mesmo conte\u00fado. Da mes\u00acma forma, entre as pessoas comuns, Revolu\u00e7\u00e3o virou um conceito alheio. E por sua vez, quando falamos em Ditadura, n\u00e3o se pode maquiar com \u201cdo proletariado\u201d &#8211; que n\u00e3o existe dentro do governo.<\/p>\n<p>Em que pese o que dissemos, participamos das esperan\u00e7as que o governo de Raul deu a este pa\u00eds, gra\u00e7as \u00e0 racionalidade de suas pri\u00acmeiras medidas econ\u00f4micas. Por exemplo, um litro de leite deixou de viajar em um caminh\u00e3o refrigerado 35 km at\u00e9 o local de armazenamento, e outros tantos km de volta para ser vendido no povoado de origem, pois permitiram aos produtores vender a melhores pre\u00e7os o leite diretamente nos mercados. <\/p>\n<p>Isto sugeria que o objetivo do governo j\u00e1 n\u00e3o seria o controle total da sociedade, e que a racionalidade econ\u00f4mica teria um peso maior. Mas, foi somente uma amea\u00e7a de senso comum, pois pronto chegaram as medidas neoliberais e as demiss\u00f5es massivas. E nos seus discursos o General voltou a acusar o povo de ser respons\u00e1vel pelos problemas econ\u00f4micos, como antes fazia seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>O VI Congresso, uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o de pal\u00e1cio\u201d<br \/>\nO principal motivo pelo qual poucas pessoas se interessaram pelas not\u00edcias do VI Congresso do Partido Comunista Cubano (PCC) foi por\u00acque se tratava de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o de pal\u00e1cio\u201d, que se limitaria a ratificar as medidas tomadas pelo Governo antes, e sem consultar. Acaso poderia ser diferente?<\/p>\n<p>Os participantes e o sistema que n\u00e3o funciona n\u00e3o foram surpresa. Inclusive o Comandante em Chefe escrevia na sua obrigada Reflex\u00e3o: \u201cN\u00e3o me importa tanto o que di\u00acziam, mas a forma como era dito\u201d N\u00e3o havia nada novo para dizer&#8230; <\/p>\n<p>\u00c9 obvio que n\u00e3o se pode atuali\u00aczar a pol\u00edtica econ\u00f4mica \u2013 este era o lema do Congresso \u2013 sem atualizar na mesma propor\u00e7\u00e3o, a \u201cpol\u00edtica &#8211; pol\u00edtica\u201d, \u00eanfase na pol\u00edtica interna. O que levaria a mudar nomes, para poder mudar os m\u00e9todos. <\/p>\n<p>O oficialismo falou que este era o Congresso da renova\u00e7\u00e3o. Palavras vazias. Se olharmos as idades \u2013 nos nomes n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7as \u2013 pode\u00acmos verificar que somente duas pessoas, das treze que conformam o Bur\u00f4 Pol\u00edtico, tem menos de 60 anos. Somadas as idades tem quase mil (944 anos) e n\u00e3o precisamente de sabedoria popular. O Primeiro Secret\u00e1rio do PCC, Raul Castro tem 79 anos e Machado Ventura, o Segundo Secret\u00e1rio, 80 anos. Onde est\u00e3o as novas gera\u00e7\u00f5es, aquelas que garantir\u00e3o a sobreviv\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Foi o Congresso do \u201ccontinu\u00edsmo\u201d, dos anci\u00e3os aferrados ao poder. E resulta ris\u00edvel que se dissera que o Pr\u00f3ximo Primeiro Secret\u00e1rio n\u00e3o poder\u00e1 ter mais que dois mandatos. Pois o afirma aquele que provavelmente n\u00e3o sobreviver\u00e1 ao pr\u00f3ximo quinqu\u00eanio; que teve cinco mandatos como Segundo Secret\u00e1rio, sendo que o \u00faltimo devia terminar em 1998 e simples\u00acmente se passaram mais 13 anos, ap\u00f3s terem vencidos os cinco anos estabelecidos, sem que se realizasse o Congresso seguinte. <\/p>\n<p>Cinco d\u00e9cadas vivendo em man\u00acs\u00f5es enormes e isoladas, com piscina, climatiza\u00e7\u00e3o; viajando em Mercedes Benz, acompanhado por um s\u00e9quito de serventes, n\u00e3o ajudam ao desen\u00acvolvimento do pensamento revolu\u00accion\u00e1rio. \u201cPensamos como vivemos\u201d, assegura Marx, ent\u00e3o perguntamos: S\u00e3o eles modelos de l\u00edderes da Revo\u00aclu\u00e7\u00e3o (dos humildes)?<\/p>\n<p>A privatiza\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o<br \/>\nA revolu\u00e7\u00e3o era para que os humildes chegassem ao poder, para terminar com a explora\u00e7\u00e3o dos tra\u00acbalhadores. No entanto, de acordo com o Congresso \u201cComunista\u201d, a solu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica, ou so\u00accial, n\u00e3o passa pela coletiviza\u00e7\u00e3o da economia, da pol\u00edtica, mas pela pri\u00acvatiza\u00e7\u00e3o capitalista. Como pode ser isso Socialismo ou Revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>S\u00e3o essas terapias de choque as que tirar\u00e3o o pa\u00eds da bancarrota? N\u00e3o acredito. A causa, para que o capita\u00aclismo pare\u00e7a \u201cA Solu\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o deve ser outra que a forma de viver \u2013 e de pensar \u2013 de \u201cnossos\u201d l\u00edderes. <\/p>\n<p>Claro que existem as conquistas da revolu\u00e7\u00e3o, em mat\u00e9ria de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura, que para muitas pessoas \u2013 e nenhuma delas vive aqui- parecem ser suficientes, acham que n\u00e3o devemos aspirar a mais. Aceite\u00acmos que isso est\u00e1 bem, e depois, o qu\u00ea? Se n\u00e3o posso pensar, perguntar, propor, escolher. Se pode viver em uma gaiola dourada (que n\u00e3o \u00e9 o caso cubano), mas mesmo dourada, ainda \u00e9 uma gaiola. <\/p>\n<p>Prefiro viver na mais pobre das democracias a viver no mais rico dos imp\u00e9rios, disse S\u00f3crates frente \u00e0 in\u00accita\u00e7\u00e3o a emigrar. Quando os jovens daqui emigram, se assegura que \u00e9 por causas econ\u00f4micas. Mas, n\u00e3o \u00e9 pela pobreza que padecemos a causa primeira do \u00eaxodo, pois o que falta \u00e9 democracia, a dos trabalhadores, n\u00e3o a dos burgueses \u2013 que \u00e9 o que eterniza nossa mis\u00e9ria. <\/p>\n<p>Mis\u00e9ria necess\u00e1ria ao poder. Por isso a \u201criqueza\u201d foi t\u00e3o combatida, dizendo que era sin\u00f4nimo de ca\u00ac\u00acpitalismo e pior, que permitiria a independ\u00eancia ideol\u00f3gica. Quando o Socialismo e a Revolu\u00e7\u00e3o, nem autori\u00act\u00e1rios, nem miser\u00e1veis, podem ser!<\/p>\n<p>O Governo sempre achou melhor se endividar, gastar 500 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano comprando comida dos ianques. em vez de produzir co\u00acmida no pa\u00eds. Pois, isso faria \u201cricos\u201d nossos camponeses. E para o regime, se as pessoas n\u00e3o vivem na mis\u00e9ria n\u00e3o defendem \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, como assegurou Raul Castro no discurso de encerramento do Congresso. Como se fosse uma virtude que a mis\u00e9ria condene os pobres \u00e0 obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel outra Cuba melhor<br \/>\nA Revolu\u00e7\u00e3o (dos humildes) foi tra\u00edda faz muito tempo. \u00c9 um fato. Isso foi poss\u00edvel porque confundiram o povo para que tra\u00edsse com eles a melhor das causas. Falavam da neces\u00acsidade da revolu\u00e7\u00e3o. Mas, onde n\u00f3s l\u00edamos \u201cdos humildes\u201d eles pensavam \u201cdos de cima\u201d. Assim, temos hoje l\u00edderes infal\u00edveis, e todos os demais s\u00e3o considerados equivocados. <\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que explica porque os trabalhadores t\u00eam que ser fi\u00e9is aos l\u00edderes, e n\u00e3o o inverso. Tamb\u00e9m, ex\u00acplica porque ser marxista \u00e9 um delito neste \u201csocialismo\u201d, e porque, ap\u00f3s 50 anos de ser guiado por um aclamado \u201cg\u00eanio\u201d, o resultado \u00e9 um edif\u00edcio social a ponto de colapsar.<br \/>\nEsta \u00e9 a Cuba de hoje, simplesmen\u00acte. \u00c9 melhor assim. Pois demonstra que o autoritarismo \u2013 de Fidel, de Ra\u00fal \u2013 \u00e9 revers\u00edvel, porque \u00e9 insustent\u00e1vel. \u00c9 melhor assim, pois faz poss\u00edvel um amanh\u00e3 de revolu\u00e7\u00e3o verdadeira. Dos trabalhadores e das trabalhadoras. Coletiva. Sem classes imprevistas, sem l\u00edderes iluminados mais importantes que a nossa causa. Outra Cuba melhor \u2013sem ret\u00f3ricas \u2013 \u00e9 poss\u00edvel. Por esse futuro lutamos.<\/p>\n<p>notas:<\/p>\n<p>1. Iate Granma, usado pelos expedicion\u00e1rios do Movi\u00acmento 26 de Julho, encabe\u00e7ados por Fidel Castro, para come\u00e7ar a luta nas montanhas do oriente do pa\u00eds (Sierra Maestra). Hoje, est\u00e1 no Museu da Revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\n2. CTC \u2013 Central de Trabalhadores de Cuba.<br \/>\n3. Salvador Vald\u00e9s Mesa.<br \/>\n4. Pelo litro de leite pagava-se o pre\u00e7o de U$S 0,01 USD e passou a U$S 0,15<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Tom\u00e1s Villa, de Havana Quando a gente enfrenta a possibilidade de ser lido em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, assume uma responsabilidade muito grande. 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