

	{"id":13957,"date":"2024-02-29T13:59:08","date_gmt":"2024-02-29T16:59:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=13957"},"modified":"2024-02-29T13:59:08","modified_gmt":"2024-02-29T16:59:08","slug":"lenin-por-nahuel-moreno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/02\/29\/lenin-por-nahuel-moreno\/","title":{"rendered":"Lenin por Nahuel Moreno"},"content":{"rendered":"<p>Por Imprensa UIT-QI<\/p>\n<p>Este artigo (Quatro conselhos de Lenin) foi escrito por Nahuel Moreno em 1986 para a revista da juventude do partido argentino. Refere-se a tr\u00eas aspectos centrais da experi\u00eancia hist\u00f3rica e das caracter\u00edsticas dos partidos leninistas. E o desenvolve em pol\u00eamica com as lamenta\u00e7\u00f5es e supostas \u201cautocr\u00edticas\u201d do ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Argentino, Athos Fava. E, num quarto ponto, aborda o significado das pol\u00edticas anti-oper\u00e1rias e anti-revolucion\u00e1rias dos PCs nos diferentes pa\u00edses, defendendo os interesses pol\u00edticos da burocracia do aparelho central do Kremlin e dos seus pr\u00f3prios aparelhos.<\/p>\n<p>O artigo procura contrastar o leninismo aut\u00eantico com as mentiras do aparato stalinista que, desde a d\u00e9cada de 1920, se apoderou falsamente das bandeiras revolucion\u00e1rias defendidas por Lenin at\u00e9 sua morte, em 1924, e por Leon Trotsky e os trotskistas, que continuaram tal defesa. Uma das mentiras mais colossais difundidas durante um s\u00e9culo entre os trabalhadores, os lutadores, a esquerda e todo o mundo foi de que o stalinismo era uma continuidade do leninismo. Muito pelo contr\u00e1rio. Desde a d\u00e9cada de 1920, os partidos comunistas encarnaram uma pervers\u00e3o, uma degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do marxismo revolucion\u00e1rio e do leninismo. Foram aparatos de funcion\u00e1rios inimigos da revolu\u00e7\u00e3o socialista em cada pa\u00eds e no mundo. Promoveram pol\u00edticas e m\u00e9todos opostos aos do Partido Bolchevique, que tomou o poder com os sovietes democr\u00e1ticos de oper\u00e1rios e camponeses na R\u00fassia em 1917. E tamb\u00e9m opostos aos dos primeiros anos do PCUS (Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) e da Terceira Internacional Comunista dirigida por Lenin e Trotsky. Tais aparatos mantiveram o nome \u201ccomunista\u201d, mas defenderam os interesses econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais de uma casta privilegiada, de uma elite anti-oper\u00e1ria que capitulou ao dom\u00ednio mundial do capitalismo imperialista. Um exemplo com longa hist\u00f3ria foi o PC argentino, que a partir dos anos 30 e durante muitas d\u00e9cadas foi uma importante organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Foi um aparelho burocr\u00e1tico, fantoche das \u201cordens\u201d de Moscou, pr\u00f3-imperialista, gorila [direitista] e um longo etc. Faz anos que o PC argentino praticamente desapareceu, dissolvendo finalmente as suas escassas for\u00e7as no apoio ao peronismo e na alian\u00e7a eleitoral Unidos por la Patria.<\/p>\n<p>Segue abaixo o artigo completo.<\/p>\n<p><strong>Quatro conselhos de Lenin<\/strong><\/p>\n<p>Mais uma vez, o Partido Comunista Argentino (PCA) publicou uma interven\u00e7\u00e3o do seu secret\u00e1rio-geral, Athos Fava, referindo-se aos problemas que afligem aquela organiza\u00e7\u00e3o. E novamente vemos uma autocr\u00edtica que toca em problemas de grande profundidade, de grande significado.<\/p>\n<p>Fava \u2013 no seu discurso perante o Comit\u00ea Central do PCA, publicado por Qu\u00e9 Pasa, n\u00ba 287, em 10 de Setembro de 1986 \u2013 salienta que \u201co exerc\u00edcio da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 em si mesmo um grande problema, mas nos \u00faltimos meses surgiram com for\u00e7a preocupa\u00e7\u00f5es que se acumularam ao longo de d\u00e9cadas.\u201d Fava explica que agora \u201ccome\u00e7aram a ser expostos os nossos velhos defeitos de forma\u00e7\u00e3o, as viola\u00e7\u00f5es do centralismo democr\u00e1tico e a persist\u00eancia de resqu\u00edcios de culto \u00e0 personalidade, em diferentes n\u00edveis, o que \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, uma das origens daquilo que chamamos de crit\u00e9rio de \u2018infalibilidade\u2019, de arrog\u00e2ncia e de mecanismos de autocr\u00edtica &#8216;\u2018para baixo\u2019&#8217;, ou seja, para os subordinados. E isso causou muitos danos ao Partido.\u201d<\/p>\n<p>E o dirigente do PCA continua dizendo: \u201cCarregamos, e s\u00e3o essas as preocupa\u00e7\u00f5es que surgem no debate, um elevado grau de administrativismo, com uma parte do partido virada para dentro, com dirigentes desligados das massas e dos problemas dos filiados; mais como administradores do que como revolucion\u00e1rios.\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 tamb\u00e9m uma rejei\u00e7\u00e3o da maior parte do partido ao que se chama de \u2018aparatismo\u2019, ou seja, aparatos superdimensionados, que geram a sua pr\u00f3pria pol\u00edtica, com um certo grau de burocracia, que estamos redirecionando para despejar toda essa for\u00e7a em pol\u00edtica de concentra\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cUm desvio metodol\u00f3gico n\u00e3o menos importante \u00e9 o formalismo, que desnaturaliza a pol\u00edtica de quadros ao encorajar o personalismo e a promo\u00e7\u00e3o dos camaradas pela sua aceita\u00e7\u00e3o da &#8216;\u2018ordem e comando\u2019&#8217; e n\u00e3o pela sua capacidade, independ\u00eancia de julgamento, aud\u00e1cia e criatividade. \u00c9 uma atitude que, ao mesmo tempo, desumaniza a vida partid\u00e1ria, rebaixa a moral comunista e cobre tudo com uma fachada de ordem aparente, com n\u00fameros que escondem a realidade e a deformam com informa\u00e7\u00f5es falsas, ufanistas, n\u00e3o cient\u00edficas, tanto de cima para baixo quanto de baixo para cima.\u201d<\/p>\n<p><strong>Em todos os partidos, mesmo nos revolucion\u00e1rios, existe burocracia<\/strong><\/p>\n<p>Os problemas apontados hoje por Fava \u2013 que ele pr\u00f3prio afirma serem provenientes de d\u00e9cadas de deforma\u00e7\u00f5es dentro do PCA \u2013 n\u00e3o s\u00e3o novos para os marxistas.<\/p>\n<p>Em todos os partidos \u2013 mesmo nos mais revolucion\u00e1rios, inclusive o Partido Bolchevique de Lenin \u2013 sempre houve burocracia. Sempre existiram e continuar\u00e3o a existir funcion\u00e1rios, profissionais do partido, que cuidam de tarefas organizativas e administrativas. E necessariamente o partido tem que dar um sal\u00e1rio a esses funcion\u00e1rios, para que possam viver.<\/p>\n<p>N\u00f3s, revolucion\u00e1rios marxistas, sempre levamos tal quest\u00e3o em considera\u00e7\u00e3o. Lenin, que lan\u00e7ou as bases te\u00f3ricas para a constru\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio, sempre deu grande import\u00e2ncia \u00e0 quest\u00e3o da burocracia.<\/p>\n<p>A grande preocupa\u00e7\u00e3o de Lenin era como evitar que os funcion\u00e1rios, a burocracia, assumissem a dire\u00e7\u00e3o do partido, como garantir o controle dos militantes sobre a burocracia.<\/p>\n<p><strong>O sal\u00e1rio dos funcion\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, Lenin disse: \u201cA remunera\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios (\u2026) n\u00e3o deve exceder o sal\u00e1rio m\u00e9dio de um trabalhador qualificado.\u201d [1]<\/p>\n<p>No Partido Bolchevique, todos os empregados, todos os dirigentes, tinham uma remunera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era superior ao sal\u00e1rio m\u00e9dio de um oper\u00e1rio qualificado. E a mesma coisa aconteceu quando os bolcheviques tomaram o poder: funcion\u00e1rios e dirigentes ganhavam sal\u00e1rios nunca superiores ao sal\u00e1rio m\u00e9dio de um oper\u00e1rio qualificado.<\/p>\n<p>A mesma coisa acontece hoje no Movimento ao Socialismo. Em nosso partido, desde os mais altos dirigentes at\u00e9 os funcion\u00e1rios administrativos ganham o mesmo sal\u00e1rio, que \u00e9 definido com base na m\u00e9dia do que ganham os oper\u00e1rios qualificados na Argentina.<\/p>\n<p>O que acontece no Partido Comunista Argentino? O que acontece na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em Cuba e nos outros Estados oper\u00e1rios? Os dirigentes do PCA, Gorbachov e Castro vivem com um sal\u00e1rio igual ao sal\u00e1rio m\u00e9dio de um oper\u00e1rio qualificado? A primeira norma leninista para funcion\u00e1rios \u00e9 cumprida nos partidos comunistas e nos Estados oper\u00e1rios?<\/p>\n<p>Todo militante que quer construir um partido para fazer a revolu\u00e7\u00e3o tem que saber que, se na sua organiza\u00e7\u00e3o existem funcion\u00e1rios privilegiados, com rendimentos muito superiores ao sal\u00e1rio m\u00e9dio de um oper\u00e1rio qualificado, tais funcion\u00e1rios ser\u00e3o o germe da burocracia, do surgimento de uma casta privilegiada, com interesses diferentes dos interesses dos trabalhadores. E que tais funcion\u00e1rios privilegiados tentar\u00e3o inevitavelmente usar o aparelho partid\u00e1rio para defender os seus privil\u00e9gios, passando por cima das necessidades dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Foi por isso que Lenin insistiu que os funcion\u00e1rios deveriam ter sal\u00e1rios que n\u00e3o excedessem o sal\u00e1rio m\u00e9dio de um oper\u00e1rio qualificado; que os funcion\u00e1rios do partido (ou, com a tomada do poder, do Estado) deveriam viver nas mesmas condi\u00e7\u00f5es que os trabalhadores comuns e ter as mesmas necessidades que os trabalhadores comuns, sem privil\u00e9gios especiais.<\/p>\n<p><strong>O controle das bases sobre os dirigentes do partido<\/strong><\/p>\n<p>A segunda norma-chave definida por Lenin para evitar que a burocracia se imponha no partido foi o controle das bases sobre os dirigentes e funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em 1902, na sua \u201cCarta a um camarada: sobre as nossas tarefas de organiza\u00e7\u00e3o\u201d, Lenin prop\u00f4s uma forma de evitar os abusos dos maus dirigentes, mesmo na milit\u00e2ncia mais clandestina, sob o czar, quando por raz\u00f5es de seguran\u00e7a a base n\u00e3o podia conhecer todos os dirigentes e nem votar em todos eles ou tomar conhecimento e votar em muitas quest\u00f5es decisivas. Lenin disse: \u201cO rem\u00e9dio contra isso n\u00e3o se encontra em nenhum estatuto. Somente podem nos fornecer par\u00e2metros \u2018cr\u00edticas fraternas\u2019 come\u00e7ando com resolu\u00e7\u00f5es de todos os grupos e subgrupos, seguidas de conclama\u00e7\u00f5es ao OC [Organismo Central ou Comit\u00ea Executivo, NM] e CC e terminando, \u2018na pior das hip\u00f3teses\u2019, com a destitui\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o completamente incapaz.\u201d [2]<\/p>\n<p>Ou seja, face \u00e0s \u201cviola\u00e7\u00f5es do centralismo democr\u00e1tico e a persist\u00eancia de resqu\u00edcios de culto \u00e0 personalidade\u201d, face \u00e0 \u201carrog\u00e2ncia\u201d e aos \u201cmecanismos de autocr\u00edtica para baixo, ou seja, para os subordinados\u201d de que fala Athos Fava, Lenin prop\u00f5e um controle estrito dos dirigentes pela base.<\/p>\n<p>Lenin \u2013 mesmo nas condi\u00e7\u00f5es de maior clandestinidade, que exigiam um grande centralismo \u2013 encorajou as c\u00e9lulas (os grupos ou subgrupos) a controlar e criticar os dirigentes e, inclusive, a exigir \u201ca destitui\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o completamente incapaz\u201d.<\/p>\n<p>Estamos orgulhosos de que, seguindo Lenin, no nosso partido encorajamos os militantes a serem rebeldes em todos os sentidos, incluindo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sustentar uma atitude revolucion\u00e1ria, de rebeli\u00e3o intransigente contra a burguesia e os seus lacaios, e ao mesmo tempo manter uma atitude submissa, de subordina\u00e7\u00e3o, de \u201cculto \u00e0 personalidade\u201d para com os dirigentes do partido. Estimulamos nossos militantes a serem rebeldes em rela\u00e7\u00e3o aos dirigentes, criticando-os, controlando-os e exigindo que demonstrem todos os dias sua capacidade, sem aceitar nenhuma autoridade imposta, mas s\u00f3 aquela que surge da compet\u00eancia demonstrada pelos quadros. E que, \u201cna pior das hip\u00f3teses\u201d, exijam \u201ca destitui\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o completamente incapaz\u201d.<\/p>\n<p>Diante de tal conselho de Lenin, os militantes comunistas preocupados com os problemas apontados por Athos Fava em rela\u00e7\u00e3o ao regime da sua organiza\u00e7\u00e3o devem se fazer a seguinte pergunta chave: existe um controle rigoroso das bases sobre os dirigentes e funcion\u00e1rios dentro do PCA?<\/p>\n<p><strong>O direito de tend\u00eancia ou fra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O Partido Bolchevique de Lenin desenvolveu-se num processo de cont\u00ednuos debates internos, converg\u00eancias e rupturas entre diferentes tend\u00eancias. Mesmo nos piores momentos de repress\u00e3o sob o czar, o Partido Bolchevique foi palco de pol\u00eamicas.<\/p>\n<p>Tal como insistiu na necessidade de centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na a\u00e7\u00e3o, de uma disciplina f\u00e9rrea para a interven\u00e7\u00e3o do partido na luta de classes, Lenin tamb\u00e9m defendeu a necessidade de uma discuss\u00e3o livre, ampla e democr\u00e1tica entre todas as tend\u00eancias que pudessem surgir no interior do partido, como a melhor forma de educar os militantes e desenvolver uma pol\u00edtica correta.<\/p>\n<p>Assim, em resposta a um artigo publicado em 1903 no jornal bolchevique Iskra (A Centelha), intitulado \u201cO que n\u00e3o fazer?\u201d, Lenin escreveu uma carta aos editores (25 de novembro de 1903):<\/p>\n<p>\u201cAnatematizar ou expulsar do partido n\u00e3o s\u00f3 os velhos economicistas, mas tamb\u00e9m os pequenos grupos de social-democratas que sofrem de uma &#8216;\u2018certa inconsequ\u00eancia\u2019&#8217;, seria absolutamente absurdo\u2026. mas vamos ainda mais longe: quando temos um programa e uma organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, n\u00e3o devemos apenas abrir as p\u00e1ginas do \u00f3rg\u00e3o partid\u00e1rio \u00e0 troca de opini\u00f5es, mas tamb\u00e9m expor sistematicamente as nossas diverg\u00eancias, por menores que sejam esses grupos ou panelinhas, como o autor os chama, que defendem, at\u00e9 cair na incoer\u00eancia, certos dogmas do revisionismo e que, por uma raz\u00e3o ou outra, insistem no seu particularismo e identidade de grupos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cPrecisamente para n\u00e3o cairmos em atitudes bruscas\u2026. em rela\u00e7\u00e3o ao &#8216;\u2018individualismo anarquista\u2019&#8217;, devemos fazer, em nossa opini\u00e3o, todo o poss\u00edvel \u2013 chegando mesmo a fazer certas concess\u00f5es que nos afastem do belo dogma do centralismo democr\u00e1tico e da submiss\u00e3o incondicional \u00e0 disciplina \u2013 para deixar tais pequenos grupos livres para se expressarem, dar a todo o partido a possibilidade de medir a profundidade ou a falta de import\u00e2ncia das diverg\u00eancias, para poder determinar, concretamente, onde e em qu\u00ea aspectos definidos a inconsequ\u00eancia se manifesta.\u201d [3]<\/p>\n<p>E, treze anos depois, em 1916, no seu artigo \u201cTarefas dos Zimmerwaldistas de Esquerda no Partido Social-Democrata su\u00ed\u00e7o\u201d, Lenin defendia: \u201c\u00c9 precisamente para evitar que a inevit\u00e1vel e necess\u00e1ria luta de tend\u00eancias degenere na rivalidade de &#8216;favoritos\u2019, nos conflitos pessoais, nas suspeitas m\u00fatuas e nos pequenos esc\u00e2ndalos que todos os membros do Partido Social-Democrata s\u00e3o obrigados a promover uma luta aberta com base nos princ\u00edpios das v\u00e1rias tend\u00eancias da pol\u00edtica social-democrata.&#8221; [4]<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que tal liberdade de cr\u00edtica e de debate, de discuss\u00e3o entre tend\u00eancias, sem o recurso a expuls\u00f5es ou san\u00e7\u00f5es, que Lenin aconselhava, existe dentro do PCA?<\/p>\n<p><strong>A atitude dos partidos comunistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 URSS<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a tomada do poder pelo Partido Bolchevique em 1917 e a constitui\u00e7\u00e3o da Terceira Internacional, que reuniu partidos comunistas de todo o mundo, Lenin alertou sobre o perigo de que o enorme prest\u00edgio da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e dos seus l\u00edderes levasse os dirigentes e militantes revolucion\u00e1rios de outros pa\u00edses a adotar uma atitude de espera por ordens, atuando como meros agentes do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores russo.<\/p>\n<p>O Estado sovi\u00e9tico tinha (e ainda tem) que, inevitavelmente, negociar com os governantes burgueses de outros pa\u00edses, fazer acordos diplom\u00e1ticos, econ\u00f4micos etc. O perigo era (e ainda \u00e9) que, porque a URSS tinha feito um acordo com um governo de um pa\u00eds capitalista, o partido comunista desse pa\u00eds decidisse parar de lutar contra o \u201cseu\u201d governo burgu\u00eas para n\u00e3o comprometer o pacto diplom\u00e1tico alcan\u00e7ado pela R\u00fassia.<\/p>\n<p>Um caso famoso ocorreu assim que os bolcheviques tomaram o poder, tr\u00eas anos ap\u00f3s o in\u00edcio da Primeira Guerra Mundial. Instados pela press\u00e3o militar do ex\u00e9rcito alem\u00e3o e pela exig\u00eancia de paz por parte do povo russo, que tinha sofrido terr\u00edveis dificuldades durante a guerra, os bolcheviques assinaram o Tratado de Brest-Litovsk, pelo qual foram for\u00e7ados a permitir que os imperialistas alem\u00e3es tomassem muitos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Lenin e Trotsky (que esteva encarregado da negocia\u00e7\u00e3o) criticaram duramente os dirigentes socialistas alem\u00e3es, que n\u00e3o denunciaram o tratado como uma inf\u00e2mia imposta pelo \u201cseu\u201d governo burgu\u00eas e que o ratificaram no parlamento, usando como justificativa o fato de Lenin t\u00ea-lo assinado.<\/p>\n<p>Os bolcheviques salientaram que o primeiro dever dos dirigentes alem\u00e3es era lutar contra o \u201cseu\u201d governo burgu\u00eas e os seus tratados, incluindo aqueles assinados por Lenin. \u00c9 algo semelhante \u00e0 pol\u00edtica que os revolucion\u00e1rios devem ter num acordo sindical ou dentro de uma empresa. Suponhamos que uma greve dirigida por Lenin seja derrotada e que sejamos for\u00e7ados a assinar um acordo que deixe duzentos oper\u00e1rios fora da f\u00e1brica. Se os dirigentes sindicais de outra f\u00e1brica disserem \u201cQue formid\u00e1vel \u00e9 aquele acordo que Lenin assinou, deixando 200 oper\u00e1rios nas ruas!\u201d, isso ser\u00e1 uma trai\u00e7\u00e3o e provocar\u00e1 uma decep\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Devido ao bloqueio de gr\u00e3os que os Estados Unidos impuseram, sob o governo Carter, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi for\u00e7ada a buscar fornecedores para cobrir as suas necessidades de trigo. Por conta de tal situa\u00e7\u00e3o, imposta pela agress\u00e3o ianque, a URSS fez um acordo com a ditadura de Videla e Mart\u00ednez de Hoz, pelo qual o governo argentino se comprometeu a vender trigo \u00e0 R\u00fassia, rompendo o cerco estadunidense. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a URSS tinha todo o direito de celebrar esse acordo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, e seguindo a orienta\u00e7\u00e3o de Lenin, o Partido Comunista Argentino deveria enfrentar a ditadura argentina e exigir a sua derrubada. O PCA n\u00e3o deveria, de forma alguma, apoiar Videla ou amenizar as suas den\u00fancias ap\u00f3s a assinatura do acordo econ\u00f4mico entre a ditadura argentina e a URSS.<\/p>\n<p>No entanto, como os pr\u00f3prios dirigentes do PCA reconheceram na sua autocr\u00edtica, a falta de uma caracteriza\u00e7\u00e3o justa dos tra\u00e7os \u201cfascistas\u201d do regime militar e a proposta de uma \u201cconverg\u00eancia civil-militar\u201d com Videla significaram um desvio \u201coportunista\u201d e uma capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>Qual foi o motivo dessa capitula\u00e7\u00e3o? Os dirigentes do PCA propuseram uma \u201cconverg\u00eancia civil-militar\u201d para n\u00e3o prejudicar as negocia\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas da URSS? Os dirigentes do PCA agiram como militantes do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da URSS, contrariando o conselho de Lenin? Ou, pelo contr\u00e1rio, tal capitula\u00e7\u00e3o nada teve a ver com o acordo econ\u00f4mico entre a URSS e Videla?<\/p>\n<p>Tal como j\u00e1 assinal\u00e1mos num artigo anterior, ao resgatar os conselhos de Lenin e levantar tais pondera\u00e7\u00f5es, queremos convidar os militantes comunistas a uma reflex\u00e3o conjunta, para respondermos juntos \u00e0s quest\u00f5es que hoje intrigam a milit\u00e2ncia: qual a origem das d\u00e9cadas de desvios do Partido Comunista Argentino? Qual \u00e9 o caminho para construir um partido revolucion\u00e1rio, com um regime e uma pol\u00edtica que lhe permitam liderar a revolu\u00e7\u00e3o? Esperamos que os militantes comunistas contribuam com as suas ideias para o debate, que \u00e9 t\u00e3o educativo para os combatentes revolucion\u00e1rios da Argentina.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] V. I. Lenin.: \u201cAs tarefas do proletariado na revolu\u00e7\u00e3o atual\u201d (7 de abril de 1917), extra\u00eddo da compila\u00e7\u00e3o Sobre a incorpora\u00e7\u00e3o das massas na Administra\u00e7\u00e3o do Estado, Editorial Progreso, Moscou (sem data), p. 3.<\/p>\n<p>[2] V. I. Lenin: Obras Completas, Editorial Cartago. Buenos Aires. 1959. Tomo VI, p. 237-238.<\/p>\n<p>[3] V.I. Lenin: Obras Completas, ob. cit., tomo VII. p. 110-111.<\/p>\n<p>[4] V.I. Lenin: Obras Completas, ob. cit., tomo XXIII, p. 145.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Imprensa UIT-QI Este artigo (Quatro conselhos de Lenin) foi escrito por Nahuel Moreno em 1986 para a revista da juventude do partido argentino. Refere-se a tr\u00eas aspectos centrais da experi\u00eancia hist\u00f3rica e das caracter\u00edsticas dos partidos leninistas. 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