

	{"id":14211,"date":"2024-03-10T13:05:02","date_gmt":"2024-03-10T16:05:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=14211"},"modified":"2024-03-10T13:05:02","modified_gmt":"2024-03-10T16:05:02","slug":"dirigentes-da-uit-qi-falam-sobre-a-atualidade-do-legado-de-lenin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/03\/10\/dirigentes-da-uit-qi-falam-sobre-a-atualidade-do-legado-de-lenin\/","title":{"rendered":"Dirigentes da UIT-QI falam sobre a atualidade do legado de Lenin"},"content":{"rendered":"<p>Por Imprensa UIT-QI<\/p>\n<p><strong>O legado de Lenin continua atual no s\u00e9culo 21<\/strong><\/p>\n<p>05\/03\/2024. Reproduzimos as interven\u00e7\u00f5es de Miguel Sorans, da Izquierda Socialista (Argentina), e de Josep Llu\u00eds de Alc\u00e1zar, da Lucha Internacionalista (Estado Espanhol), ambos dirigentes da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores \u2013 Quarta Internacional (UIT-QI) num evento em homenagem a Lenin, no 100\u00ba anivers\u00e1rio de sua morte (21 de janeiro de 1924). A atividade foi realizado na cidade de Barcelos, Portugal, no dia 21 de janeiro de 2024, na sede do MAS (Movimento Alternativa Socialista), se\u00e7\u00e3o portuguesa da UIT-QI.<\/p>\n<p><strong>\u201cLenin continua a ser uma das maiores figuras do marxismo e do socialismo revolucion\u00e1rio\u201d, disse Miguel Sorans.<\/strong><\/p>\n<p>Quero come\u00e7ar agradecendo, em nome de Josep Llu\u00eds e em meu nome, \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do MAS de Portugal pelo convite para proferir essa palestra, em homenagem e em mem\u00f3ria do grande dirigente socialista Lenin, 100 anos ap\u00f3s sua morte. No VIII Congresso Mundial da UIT-QI, realizado em dezembro, aprovamos uma campanha n\u00e3o s\u00f3 para tal data, mas para todo o ano, para relembrar e divulgar o seu legado. Hoje \u00e9 a primeira homenagem. Ent\u00e3o, aqui em Barcelos, o MAS de Portugal tem o privil\u00e9gio de dar o ponta p\u00e9 inicial na campanha. E isso no contexto da realiza\u00e7\u00e3o, ontem, do congresso extraordin\u00e1rio da se\u00e7\u00e3o portuguesa da UIT-QI, o MAS. Foi um congresso vitorioso e, para n\u00f3s, isso \u00e9, em parte, uma primeira homenagem positiva. Isso porque Lenin foi a lideran\u00e7a mais vis\u00edvel da luta pela constru\u00e7\u00e3o de partidos revolucion\u00e1rios internacionalistas, para fazer a revolu\u00e7\u00e3o, para promover a mobiliza\u00e7\u00e3o e alcan\u00e7ar o fim do capitalismo e do imperialismo.<\/p>\n<p>Precisamente, num dia como hoje, 21 de janeiro, mas h\u00e1 100 anos, em 1924, morreu Vladimir Lenin, o grande dirigente do Partido Bolchevique, que tomou o poder com os sovietes e que na \u00e9poca se chamava Partido Comunista da URSS. Ele foi o grande dirigente do primeiro Estado oper\u00e1rio revolucion\u00e1rio socialista do mundo e o fundador da Terceira Internacional.<\/p>\n<p>A morte de Lenin, muito prematura, foi um grande golpe para a URSS, para a Terceira Internacional e tamb\u00e9m para os revolucion\u00e1rios do mundo. Foi prematura, porque ele tinha apenas 54 anos, ou seja, poderia ter vivido muitos anos mais para seguir liderando o processo revolucion\u00e1rio. E foi um golpe, porque o seu peso pessoal, subjetivo, para al\u00e9m da import\u00e2ncia do partido, dos seus dirigentes e dos seus militantes, foi superlativo. Uma primeira quest\u00e3o sobre Lenin, sobre o alcance da sua personalidade e do seu legado, j\u00e1 que n\u00e3o estamos fazendo apenas uma recorda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, \u00e9 resgatar o seu aporte, pois para n\u00f3s as suas contribui\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o totalmente v\u00e1lidas. Muitos reverenciam a figura de Lenin como um personagem do passado ou ut\u00f3pico.<\/p>\n<p>Lenin continua a ser, depois dos g\u00eanios Karl Marx e de Frederick Engels, uma das maiores figuras do marxismo e do socialismo revolucion\u00e1rio, junto com Leon Trotsky. Suas contribui\u00e7\u00f5es foram muito importantes e ele as colocou em pr\u00e1tica, na realidade. Ele n\u00e3o foi apenas um grande intelectual, embora tenha produzido dezenas ou centenas de livros e artigos; suas obras completas abrangem 54 volumes. Mas o essencial sobre Lenin \u00e9 que as suas contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pol\u00edticas sempre foram voltadas para a a\u00e7\u00e3o, para impulsionar a revolu\u00e7\u00e3o e o progresso da humanidade.<\/p>\n<p>Ele acreditava, tal como Marx e Engels acreditavam numa etapa diferente daquela em que Lenin atuou, que s\u00f3 uma revolu\u00e7\u00e3o, s\u00f3 a mobiliza\u00e7\u00e3o dos\/as trabalhadores\/as e dos\/as setores oprimidos\/as, poderia mudar um pa\u00eds e a humanidade. A primeira atualiza\u00e7\u00e3o que ele fez foi sobre o car\u00e1ter do partido, que depois desenvolverei melhor, sobre o papel dos partidos socialistas ou oper\u00e1rios no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Isso porque conferiu ao partido o car\u00e1cter de um partido revolucion\u00e1rio para a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, perdoem-me a redund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A segunda contribui\u00e7\u00e3o fundamental de Lenin foi a defini\u00e7\u00e3o da nova etapa aberta no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. A mudan\u00e7a de \u00e9poca hist\u00f3rica, que ocorreu no mundo capitalista. Ele definiu-a como o in\u00edcio da etapa ou \u00e9poca de decad\u00eancia do capitalismo. E tal decad\u00eancia atingiu o seu ponto m\u00e1ximo de express\u00e3o, sendo aprofundada at\u00e9 os dias de hoje, com a eclos\u00e3o da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Algo que fez ele reafirmar o car\u00e1cter internacionalista do processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m rompeu definitivamente com o reformismo socialista e a concilia\u00e7\u00e3o de classes, com a pr\u00e1tica de governar dentro da democracia burguesa para os burgueses. Lenin foi capaz de fazer isso porque viveu num per\u00edodo hist\u00f3rico diferente de Marx e Engels. Os dois foram grandes revolucion\u00e1rios, mas n\u00e3o estavam colocadas as condi\u00e7\u00f5es para que uma mudan\u00e7a socialista fosse feita, pois era a \u00e9poca do desenvolvimento e ascens\u00e3o do capitalismo. Estamos falando do s\u00e9culo XIX e, em particular, da d\u00e9cada de 1870 e, em princ\u00edpio, esquematicamente, at\u00e9 1910. Uma etapa de grande desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, de saltos tecnol\u00f3gicos e de avan\u00e7o da grande ind\u00fastria, e tamb\u00e9m de grande explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o capitalismo, fundamentalmente nos grandes pa\u00edses europeus, devido a tal explora\u00e7\u00e3o, crescimento e lucro, fez muitas concess\u00f5es ao movimento oper\u00e1rio, tanto econ\u00f4micas quanto pol\u00edticas, mas principalmente com pol\u00edticas sociais. Portanto, n\u00e3o foi uma etapa, um per\u00edodo em que predominaram as revolu\u00e7\u00f5es, mas sim as reformas. E em que a classe oper\u00e1ria acreditava na possibilidade de uma evolu\u00e7\u00e3o mundial pac\u00edfica, com reformas e n\u00e3o com revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A burguesia fez muitas concess\u00f5es, incluindo o funcionamento jur\u00eddico e pol\u00edtico dos partidos. Os grandes partidos oper\u00e1rios foram formados. Os grandes partidos que ainda hoje persistem na Europa s\u00e3o origin\u00e1rios da Segunda Internacional Socialista. Foram liderados pelo Partido Social-Democrata Alem\u00e3o, um partido de massas, que participava das elei\u00e7\u00f5es. Por exemplo, o Partido Social-Democrata Alem\u00e3o tinha, em 1911, 173 deputados. Dirigia grandes sindicatos, tinha clubes oper\u00e1rios, imprensa e tamb\u00e9m arrecadava muito dinheiro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, foi a etapa em que se fortaleceu o que chamamos de reformismo: acreditar na reforma e que, se hoje temos 100 deputados, amanh\u00e3 teremos 300, e assim vamos avan\u00e7ar. De certa forma, isso aconteceu porque existiram governos de partidos oper\u00e1rios socialistas, mas governos \u201csocialistas\u201d com a burguesia, sem mudar o sistema. Foi por isso que a Alemanha \u2013 n\u00e3o vou me deter nisso, para n\u00e3o me alongar muito \u2013 terminou onde terminou, com Hitler no poder, depois de governos do Partido Social-Democrata em coaliz\u00e3o com a burguesia. Temos que lembrar que Rosa Luxemburgo, junto com Karl Liebknecht, foi assassinada em janeiro de 1919 por um governo \u201csocialista\u201d, por se opor ao reformismo e \u00e0 unidade com a burguesia imperialista.<\/p>\n<p>Assim, nessa altura, esgotou-se a etapa \u00e1urea do desenvolvimento capitalista e o seu decl\u00ednio irrevers\u00edvel come\u00e7ou. Acabou o livre mercado, a livre concorr\u00eancia do liberalismo, e come\u00e7ou o imperialismo, os monop\u00f3lios, a luta entre os pa\u00edses imperialistas para conquistar mercados, e as for\u00e7as produtivas deixaram de crescer. Lenin definiu isso no livro \u201cImperialismo, fase superior do capitalismo\u201d, escrito em 1916. Essa fase \u201csuperior\u201d n\u00e3o se referia ao fato de ser um progresso, mas \u00e0 decad\u00eancia, algo que j\u00e1 estava acontecendo, abrindo uma \u00e9poca de guerras, de crises, de revolu\u00e7\u00f5es, provocada pelo crescimento da desigualdade, da mis\u00e9ria e da opress\u00e3o. Ele reafirmou, ent\u00e3o, o conceito que j\u00e1 estava em Marx, Engels e no Manifesto Comunista, de que o socialismo deve ser uma mudan\u00e7a mundial, j\u00e1 que o sistema capitalista era um sistema mundial. Isso para al\u00e9m do fato de que o capitalismo explorava o mundo dividindo-o em fronteiras nacionais.<\/p>\n<p>Lenin tamb\u00e9m apontou que, dada a mudan\u00e7a de \u00e9poca, colocava-se a atualidade da revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria em diferentes pa\u00edses. Tendo em vista a abordagem herdada de Marx, que presumia que a revolu\u00e7\u00e3o deveria ocorrer primeiro nos grandes pa\u00edses imperialistas, mais avan\u00e7ados, acreditava-se que o ponto final, mais elevado, do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas provocaria uma crise e que s\u00f3 o proletariado poderia enfrent\u00e1-la. Isso, como conceito, estava correto, mas o imperialismo avan\u00e7ou no sentido de explorar mais col\u00f4nias e semi-col\u00f4nias e, dessa forma, fez importantes concess\u00f5es ao seu proletariado, melhorando as suas condi\u00e7\u00f5es de vida. Diante isso, Lenin defendeu que a revolu\u00e7\u00e3o poderia come\u00e7ar nos pa\u00edses atrasados, que a corrente imperialista poderia ser quebrada no \u201celo mais fraco\u201d. N\u00e3o \u00e9 que ele tenha dito, exatamente, que \u201ca revolu\u00e7\u00e3o vai acontecer\u201d primeiro na R\u00fassia. Mas foi isso que, de fato, aconteceu, pois a R\u00fassia era um dos pa\u00edses mais atrasados da Europa. Desenvolveu, ent\u00e3o, essa hip\u00f3tese. Como resultado, a sua outra inova\u00e7\u00e3o fundamental foi a defesa de que, dada essa situa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 uma revolu\u00e7\u00e3o poderia mudar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos oper\u00e1rios e camponeses explorados e oprimidos pelo czarismo.<\/p>\n<p>A \u00e9poca das reformas estava terminada e se abria a etapa das guerras e revolu\u00e7\u00f5es. Era necess\u00e1rio um partido socialista, mas um partido revolucion\u00e1rio, para a a\u00e7\u00e3o, algo oposto ao car\u00e1cter dos partidos que predominavam na social-democracia, que acreditavam que tudo se faria atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es, usando o parlamento, e em alian\u00e7a com a burguesia, superando de forma gradativa e pac\u00edfica a mis\u00e9ria e a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o me alongar nisso, o conceito que ele op\u00f4s ao do reformismo foi o da necessidade da luta revolucion\u00e1ria; de que a luta sindical era positiva e necess\u00e1ria, mas insuficiente; de que a classe oper\u00e1ria tinha que se envolver na pol\u00edtica, ter o seu partido revolucion\u00e1rio; de que tal partido tinha que ter car\u00e1ter pol\u00edtico e sem concilia\u00e7\u00e3o com a burguesia; e que tinha que tomar o poder, transformar o Estado de forma revolucion\u00e1ria. Era necess\u00e1ria a constru\u00e7\u00e3o de um Estado oper\u00e1rio e, para isso, era preciso um partido que dirigisse, que liderasse a tomada do poder da burguesia e a constru\u00e7\u00e3o de um novo poder. Ele prop\u00f4s um funcionamento centralizado, que foi chamado de centralismo democr\u00e1tico. Ou seja, um partido democr\u00e1tico nos seus debates, na elabora\u00e7\u00e3o das suas linhas, na sua vida interna, nas suas discuss\u00f5es, tal como continuamos a praticar como socialistas revolucion\u00e1rios, como trotskistas. Mas, ao definir a sua pol\u00edtica e as suas bandeiras, no momento da  a\u00e7\u00e3o, de uma greve, de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, tamb\u00e9m de uma elei\u00e7\u00e3o, todo o partido deveria atuar como um s\u00f3 punho.<\/p>\n<p>E, para al\u00e9m disso, se h\u00e1 um processo revolucion\u00e1rio, o partido tem que agir com uma pol\u00edtica \u00fanica, porque \u00e9 um partido que enfrenta os demais partidos pol\u00edticos, reformistas e burgueses, o aparelho policial e todo o poder do Estado burgu\u00eas. Tem que atuar na classe trabalhadora com uma linha \u00fanica e n\u00e3o como os partidos social-democratas, em que cada um diz uma coisa. Esses s\u00e3o partidos parlamentares.<\/p>\n<p>Lenin defendia que o Partido Revolucion\u00e1rio n\u00e3o pode agir assim, pois enfrenta os seus inimigos para liderar uma revolu\u00e7\u00e3o. Isso foi chamado de centralismo democr\u00e1tico. Infelizmente, mais tarde, pelas m\u00e3os de St\u00e1lin, isso foi transformado em centralismo burocr\u00e1tico. Com a ditadura de St\u00e1lin, a concep\u00e7\u00e3o de partido de Lenin foi distorcida. Foi feita uma caricatura de Lenin. A nova concep\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o de partidos revolucion\u00e1rios foi uma contribui\u00e7\u00e3o original de Lenin, sintetizada no famoso livro \u201cO que fazer?\u201d, de 1902, escrito muito antes de sua defini\u00e7\u00e3o da nova etapa, a \u00e9poca imperialista. Foi assim que ele desenvolveu a sua alternativa revolucion\u00e1ria, pol\u00edtica e organizativa, contra o reformismo da velha social-democracia.<\/p>\n<p>E isso culminou, em 1914, com a ruptura definitiva. At\u00e9 a eclos\u00e3o da guerra imperialista, Lenin e a sua fac\u00e7\u00e3o russa, o Partido Bolchevique, continuaram a atuar na Segunda Internacional. A trai\u00e7\u00e3o definitiva ocorreu quando as dire\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias de todos os partidos socialistas apoiaram as suas burguesias para endossar uma guerra inter-imperialista, uma carnificina. Isso as levou a defender cada burguesia nacional e os seus interesses e a confrontar a classe oper\u00e1ria e o povo de cada pa\u00eds, militarmente, numa guerra devastadora. O Partido Social-Democrata Alem\u00e3o apelou ao proletariado alem\u00e3o para travar a guerra contra o proletariado franc\u00eas e o Partido Socialista Franc\u00eas, aliado ao seu imperialismo, fez o mesmo contra o proletariado alem\u00e3o. E assim ocorreu no resto da Europa. Isso foi uma trai\u00e7\u00e3o total. A maioria da lideran\u00e7a da Segunda Internacional ultrapassou a linha de classe, algo que j\u00e1 amea\u00e7ava fazer com as suas pol\u00edticas reformistas. Assim, com a fal\u00eancia da Segunda Internacional apontada por Lenin, devido \u00e0 sua ruptura com o internacionalismo, ela tornou-se, digamos, um monstro.<\/p>\n<p>Foi por isso que, em 1915, Lenin, junto com outros revolucion\u00e1rios \u2013 incluindo Trotsky, que ainda n\u00e3o fazia parte do Partido Bolchevique \u2013 contr\u00e1rios \u00e0 guerra e que eram minoria, realizou uma reuni\u00e3o em Zimmerwald, na Su\u00ed\u00e7a. Se n\u00e3o me engano, foi relatado que todos os internacionalistas couberam em dois carros na viagem de Berna at\u00e9 tal cidade para realizar a reuni\u00e3o. Eles eram muito poucos.<\/p>\n<p>Assim ocorreu a primeira reuni\u00e3o. Os participantes concordaram, apesar disso n\u00e3o estar registrado num texto escrito, acerca da fal\u00eancia da Segunda Internacional e sobre a necessidade de construir algo novo, com um programa de ruptura com a burguesia. Isso rompendo com a concilia\u00e7\u00e3o de classes, com a participa\u00e7\u00e3o em governos com a burguesia ou para a burguesia, seja imperialista ou n\u00e3o-imperialista. L\u00e1 foi de fato delineado um programa revolucion\u00e1rio, que foi aplicado no ano seguinte na Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Foi o embri\u00e3o do que mais tarde se tornaria a Terceira Internacional, fundada em 1919, ap\u00f3s o triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Mesmo ap\u00f3s a tomada do poder, com o triunfo da revolu\u00e7\u00e3o socialista na R\u00fassia, e no meio da guerra civil, Lenin seguiu dizendo, com sua concep\u00e7\u00e3o internacionalista, \u201c\u00e9 necess\u00e1rio que a revolu\u00e7\u00e3o continue, se espalhe\u201d. A R\u00fassia era um pa\u00eds atrasado, mas Lenin n\u00e3o disse \u201cainda bem que \u00e9 um pa\u00eds atrasado\u201d. O fato de a primeira revolu\u00e7\u00e3o socialista ter acontecido num pa\u00eds capitalista atrasado provocou dificuldades. A R\u00fassia era um pa\u00eds predominantemente agr\u00e1rio e campon\u00eas, embora tivesse grandes ind\u00fastrias e um proletariado forte.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Lenin dizia que, para desenvolver o socialismo, era necess\u00e1rio que a revolu\u00e7\u00e3o fosse realizada, principalmente, na Alemanha, devido ao seu grande poder industrial, e tamb\u00e9m na Fran\u00e7a. E houve condi\u00e7\u00f5es para isso, j\u00e1 que, em 1918, ocorreu a revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3. \u00c9 \u00f3bvio que a revolu\u00e7\u00e3o tem que come\u00e7ar em um pa\u00eds. Lenin e Trotsky defendiam isso, e n\u00f3s seguimos defendendo. N\u00e3o \u00e9 que o socialismo internacionalista afirme que a revolu\u00e7\u00e3o tem de come\u00e7ar ao mesmo tempo em todo o lado. Come\u00e7a num pa\u00eds, mas tem que continuar, expandir-se para outros pa\u00edses, para avan\u00e7ar. E esse foi o progn\u00f3stico e a linha de Lenin e Trotsky.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia explodiu, como voc\u00eas sabem, uma guerra civil, porque, depois do triunfo da revolu\u00e7\u00e3o, catorze pa\u00edses imperialistas, apoiados pelos \u201crussos brancos\u201d, pelos reacion\u00e1rios e pelos contra-revolucion\u00e1rios, provocaram um conflito de tr\u00eas anos. E, no meio de tal situa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima para a revolu\u00e7\u00e3o, Lenin e Trotsky defenderam, em 1919, a funda\u00e7\u00e3o da Terceira Internacional. Os primeiros quatro congressos da Internacional, os seus textos e as suas resolu\u00e7\u00f5es, sintetizaram um comp\u00eandio de programa e de pol\u00edticas revolucion\u00e1rias, que ainda tem validade.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que n\u00f3s, para n\u00e3o nos alongarmos mais, consideramos, em primeiro lugar, que o legado de Lenin segue v\u00e1lido. Isso porque, 100 anos depois, pode-se ver na vida real que o decl\u00ednio do sistema capitalista-imperialista \u00e9 mais agudo do que nunca. Isso \u00e9 percept\u00edvel aqui mesmo, na Europa, em que h\u00e1 d\u00e9cadas atr\u00e1s a classe trabalhadora tinha um n\u00edvel de vida melhor, obviamente superior ao de outros pa\u00edses, da Am\u00e9rica Latina ou de \u00c1frica, sem falar na \u00c1sia. Isso j\u00e1 \u00e9 passado. Costumamos dizer que a Europa se \u201clatino-americanizou\u201d. H\u00e1 a infla\u00e7\u00e3o e a crise migrat\u00f3ria, que afeta os povos que emigram para cada pa\u00eds. \u00c9 uma tremenda explos\u00e3o social e humanit\u00e1ria, somada \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o ambiental capitalista. Mais do que nunca, est\u00e1 colocada a necessidade de uma mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>E, em segundo lugar, tamb\u00e9m foi confirmado o fracasso dos governos de concilia\u00e7\u00e3o de classes e dos governos da pseudo-esquerda, que em nome do falso socialismo governam contra a classe trabalhadora, contra as mulheres e contra os setores oprimidos. Como voc\u00eas setem na pr\u00f3pria pele em Portugal, quando dizem que os socialistas, o Partido Socialista, est\u00e3o governando. \u00c9 quase a mesma coisa que um governo liberal. No Estado espanhol h\u00e1 uma altern\u00e2ncia entre o Partido Socialista Oper\u00e1rio Espanhol, que tem o mesmo nome da \u00e9poca da revolu\u00e7\u00e3o espanhola, e o Partido Popular, da direita liberal. \u00c0s vezes, nem se percebe quais s\u00e3o as mudan\u00e7as, para al\u00e9m do linguajar, j\u00e1 que o primeiro fala em \u201csocialismo\u201d nos dias de festa e o outro n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou na Am\u00e9rica Latina, com Lula; na Argentina, com o peronismo. O fracasso do Syriza, na Gr\u00e9cia. O desastre causado por Ch\u00e1vez e Maduro, na Venezuela. Podemos, no Estado espanhol. Governos que, com seus duplos discursos e mentiras, acabam, como estamos vendo, favorecendo o perigoso ressurgimento da extrema direita, porque as massas est\u00e3o confusas. H\u00e1 um descr\u00e9dito dos partidos patronais tradicionais e at\u00e9 da pr\u00f3pria democracia burguesa, que tamb\u00e9m come\u00e7a a ser questionada. Tal descr\u00e9dito \u00e9 alimentado pelos l\u00edderes pol\u00edticos da esquerda tradicional, que comandam governos desastrosos e depois culpam o povo, dizendo que as pessoas \u201cn\u00e3o entendem nada\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o. A culpa do crescimento em Portugal de Ventura, de extrema-direita, \u00e9 deles. A do Vox, no Estado espanhol, tamb\u00e9m. Do mesmo modo, a da vit\u00f3ria sem precedente, na Argentina, de um maluco de extrema-direita como Milei. Le Pen, na Fran\u00e7a, Meloni, na It\u00e1lia, e Trump, nos Estados Unidos, fazem parte de um fen\u00f4meno que mostra, conforme a realidade de cada pa\u00eds, tal decad\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Pois bem, vou parar por aqui, para dar lugar \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do camarada Josep Lluis de Alc\u00e1zar, sobre o que poder\u00edamos chamar de \u00faltima batalha de Lenin. Ele come\u00e7ou a perceber, gra\u00e7as \u00e0 sua genialidade e \u00e0 sua capacidade de perceber a realidade, no quadro das suas concep\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, o perigoso avan\u00e7o da burocracia, principalmente no Partido Comunista, que governava a antiga URSS. Lenin, nos \u00faltimos dois anos, j\u00e1 muito doente, mal falando, come\u00e7ou a travar sua \u00faltima batalha contra a burocratiza\u00e7\u00e3o, liderada por Stalin.<\/p>\n<p>\u201cLenin identificou a possibilidade de continuar o processo revolucion\u00e1rio substituindo Stalin\u201d \u2013 disse Joseph Lluis de Alcazar<\/p>\n<p>Como disse Miguel Sorans, os dois \u00faltimos anos da vida de Lenin foram muito importantes, embora ele tenha sido repetidas vezes incapacitado pela doen\u00e7a, entre 1922 e 1923, e tenha falecido em janeiro do dia 24. Em 1922, fico praticamente seis meses afastado, pois n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de trabalhar. Por exemplo, n\u00e3o p\u00f4de participar nem do congresso de 1922 nem do congresso de 1923 do Partido Comunista.<\/p>\n<p>H\u00e1 um documento que sempre serve de refer\u00eancia, conhecido como seu testamento, ditado por ele em mar\u00e7o de 1923. Falaremos dele mais tarde. H\u00e1 tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de cartas e alguns artigos importantes, que confirmam quais foram as preocupa\u00e7\u00f5es que o levaram ao que chamamos de sua \u201c\u00faltima grande batalha\u201d.<\/p>\n<p>Tal batalha teve dois pilares. Um foi a forma como a quest\u00e3o nacional estava sendo tratada. E o segundo, como disse o Miguel, os alertas sobre a exist\u00eancia de um processo de burocratiza\u00e7\u00e3o dentro do Partido e do Estado. Ele dedicou seus esfor\u00e7os a tais quest\u00f5es nos \u00faltimos dois anos da sua vida. A partir de mar\u00e7o de 1923, por causa da doen\u00e7a, praticamente cessaram todos os tipos de escritos, cartas, etc.<\/p>\n<p>Damos grande import\u00e2ncia aos dois temas. A quest\u00e3o nacional est\u00e1 interligada com a quest\u00e3o da burocratiza\u00e7\u00e3o, porque coincidentemente o Comiss\u00e1rio para a Quest\u00e3o das Nacionalidades era Stalin, e o Secret\u00e1rio do partido era Stalin. Assim, tais temas iniciaram efetivamente um confronto pol\u00edtico, que acabou por provocar uma ruptura completa entre Lenin e Stalin.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica ocorreu no territ\u00f3rio de origem de Stalin, a Ge\u00f3rgia. Havia uma pol\u00edtica de centraliza\u00e7\u00e3o relativamente a essa nacionalidade, que levou a confrontos entre o Comiss\u00e1rio Pol\u00edtico e o seu enviado especial \u00e0 Ge\u00f3rgia e os dirigentes do antigo Partido Bolchevique, que j\u00e1 havia mudado de nome para Partido Comunista. Os dirigentes georgianos opuseram-se \u00e0 pol\u00edtica de centraliza\u00e7\u00e3o de Stalin e dos seus emiss\u00e1rios. Lenin interveio na pol\u00eamica e foi elevando o tom at\u00e9 enviar uma famosa carta diretamente contra Stalin, denunciando que \u201cesta \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o gran-russa\u201d, isto \u00e9, de opress\u00e3o russa do povo georgiano. Houve at\u00e9 confrontos f\u00edsicos entre os emiss\u00e1rios de Stalin e os dirigentes georgianos. Lenin denunciou tais acontecimentos e a falta de respeito entre os dirigentes. Tais m\u00e9todos chegaram ao extremo posteriormente com Stalin, que imp\u00f4s suas pol\u00edticas e eliminou as discuss\u00f5es e as diferen\u00e7as, atrav\u00e9s de procedimentos brutais de persegui\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o de dirigentes, etc. Tais antecedentes, ocorridos durante a vida de Lenin, t\u00eam import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lenin reivindicava a tradi\u00e7\u00e3o do Partido Bolchevique, ou seja, a defesa do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o das nacionalidades perante a R\u00fassia, muito maior e mais poderosa. O ditador Putin disse precisamente que o problema que hoje se vive na Ucr\u00e2nia prov\u00e9m da mania de Lenin de defender o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos. E que ele [Putin] estava pagando por isso um s\u00e9culo depois, tendo que resolver o problema \u00e0 sua maneira, invadindo a Ucr\u00e2nia, que segundo ele \u201csempre fez parte da R\u00fassia\u201d. Ele concordou com Stalin em negar o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nacional e desconsiderou a import\u00e2ncia dessa quest\u00e3o na luta para derrubar o czarismo e o legado de Lenin.<\/p>\n<p>N\u00f3s continuamos a defender e a utilizar os crit\u00e9rios de Lenin na an\u00e1lise dos conflitos que sempre existiram na luta de classes. Portanto, estamos com a classe trabalhadora e o povo, contra a burguesia e a opress\u00e3o. Estamos ao lado dos povos oprimidos contra os opressores. E, ao mesmo tempo, entendemos que, quando h\u00e1 confrontos inter-imperialistas, somos efectivamente a favor da derrota de ambos os campos.<\/p>\n<p>Eis o esbo\u00e7o do esquema que permitiu uma abordagem tanto da Primeira Guerra Mundial quanto de outros conflitos, do mesmo modo que possibilitou a solu\u00e7\u00e3o adotada pelo que mais tarde viria a ser a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a URSS \u2013 uma solu\u00e7\u00e3o ainda atual. E \u00e9 assim que analisamos hoje a quest\u00e3o palestina. Estamos com os povos oprimidos contra os opressores. \u00c9 assim que entendemos a quest\u00e3o ucraniana, em que h\u00e1, de fato, uma tentativa de ocupa\u00e7\u00e3o, uma tentativa de colocar o pa\u00eds sob o dom\u00ednio da R\u00fassia. Isso a partir da \u201cretifica\u00e7\u00e3o\u201d hist\u00f3rica, feita por Putin, do erro de Lenin &#8211; que teve a ideia de dar direitos ao povo ucraniano -, colocando o pa\u00eds novamente sob o dom\u00ednio russo. Isso independe de como os oprimidos fazem num caso ou noutro, tendo em conta os locais e as rela\u00e7\u00f5es internacionais que possam ou n\u00e3o ter. Com as quais n\u00e3o temos nada a ver. Continuamos a utilizar o mesmo m\u00e9todo que Lenin nos legou e que hoje continua a ser o que nos permite apoiar a revolta dos povos, como no Ir\u00e3 contra o regime dos aiatol\u00e1s. Ou seja, ter uma compreens\u00e3o que n\u00e3o divide o mundo em dois blocos, mas que faz uma an\u00e1lise a partir do proletariado. Em outras palavras, a partir da luta de classes, da luta dos oprimidos e das tens\u00f5es inter-imperialistas, identificando as quest\u00f5es em jogo.<\/p>\n<p>Naquele momento isso estava acontecendo. Sempre se diz que aconteceu a revolu\u00e7\u00e3o e que logo em seguida foi estabelecida a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Houve uma s\u00e9rie de etapas intermedi\u00e1rias e um enorme n\u00famero de composi\u00e7\u00f5es para encaixar o caldeir\u00e3o de povos que o czarismo havia misturado. Esse processo de constru\u00e7\u00e3o da \u201cUni\u00e3o\u201d era exatamente o que estava acontecendo quando a primeira batalha aconteceu. Ou seja, a \u201cUni\u00e3o\u201d foi finalizada em 1922. At\u00e9 ent\u00e3o, tentava-se construir uma federa\u00e7\u00e3o. Uma \u201cUni\u00e3o\u201d \u00e9 sempre mais forte. Foi preciso trabalhar em associa\u00e7\u00f5es, inclusive algumas que nem sequer eram comuns em cada rep\u00fablica sovi\u00e9tica em constru\u00e7\u00e3o. Isso em meio \u00e0 adapta\u00e7\u00f5es, composi\u00e7\u00f5es, respeitando o que Lenin dizia: \u201ccurvando um pouco o bast\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 hist\u00f3ria\u201d. Em outras palavras, se a hist\u00f3ria tinha empurrado os povos no sentido da opress\u00e3o russa por s\u00e9culos, devemos tentar fazer o movimento inverso, com paci\u00eancia, cada vez mais. Porque temos que mostrar que, de fato, n\u00e3o queremos continuar com qualquer opress\u00e3o sob o socialismo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, tais movimentos estavam ocorrendo naquele momento. Quando come\u00e7ou o primeiro confronto, a \u00faltima batalha de Lenin, estava sendo forjada a \u201cUni\u00e3o\u201d. O que mais tarde se tornaria a Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>E, como mencionei, o Comiss\u00e1rio das Nacionalidades era precisamente Stalin. Diante dessa quest\u00e3o, come\u00e7ou a primeira batalha.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma caracter\u00edstica desses \u00faltimos dois anos, que est\u00e1 expressa nas cartas e tamb\u00e9m no testamento, que abordaremos mais tarde: Lenin busca o apoio de Trotsky. Ele escreveu a Trotsky, buscando ganha-lo para travar tais batalhas juntos. E isso aconteceu nos dois casos: esse da luta pela quest\u00e3o nacional e depois o da quest\u00e3o da burocratiza\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m com outra quest\u00e3o que pode passar despercebida, em novembro de 1922. O Comit\u00ea Central \u2013 que naquela altura n\u00e3o contava nem com a presen\u00e7a de Lenin, porque estava doente, nem com a de Trotsky \u2013 adotou uma medida que enfraqueceu o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior. N\u00e3o quero me alongar. Lenine escreveu a Trotsky, dizendo-lhe: devemos reverter imediatamente tal medida.<\/p>\n<p>Em dezembro, o pr\u00f3prio Stalin, junto com o aparelho do partido, descartou a medida de novembro. Parou a\u00ed.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com a quest\u00e3o nacional, Lenin estabeleceu contato com a oposi\u00e7\u00e3o georgiana contra a pol\u00edtica centralista e \u201cgran-russa\u201d de Stalin. Ele pediu ajuda, dizendo aos dirigentes georgianos que n\u00e3o existia chance de um acordo. Assim, deveriam batalhar juntos no Congresso. Ele acreditava que estaria presente no Congresso. Por\u00e9m, devido \u00e0 doen\u00e7a, n\u00e3o p\u00f4de travar tal batalha diretamente.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um tema importante. Manifestava a preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de evitar que a opress\u00e3o nacional voltasse a ocorrer, mas tamb\u00e9m com o regime interno do partido. Isso porque, nas rela\u00e7\u00f5es no partido e nas rela\u00e7\u00f5es que se buscava construir numa sociedade sovi\u00e9tica, n\u00e3o havia espa\u00e7o para a deslealdade e para a falta de respeito no conv\u00edvio entre camaradas.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a hist\u00f3ria deu raz\u00e3o a Lenin, porque o avan\u00e7o do aparelho centralizador voltou a gerar press\u00e3o sobre as nacionalidades, que naquele momento tinham encontrado, pela primeira vez em s\u00e9culos, um espa\u00e7o de autodetermina\u00e7\u00e3o. Isso trouxe, de forma volunt\u00e1ria, aquilo pelo qual lutamos: a liberdade, a melhor garantia para encontrar rela\u00e7\u00f5es de unidade. N\u00e3o h\u00e1 unidade que seja firme se n\u00e3o estiver baseada na liberdade. \u00c9 a convic\u00e7\u00e3o do internacionalismo. N\u00e3o vamos impor um internacionalismo em que as fronteiras v\u00e3o cair. N\u00e3o. Isso ser\u00e1 feito com a liberdade do povo. N\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, essa \u00e9 a unidade que procuramos.<\/p>\n<p>Trotsky escreveu um livrinho que trata da \u00faltima grande batalha de Lenin. L\u00e1, ele diz que o problema n\u00e3o foram as diverg\u00eancias pol\u00edticas sobre a quest\u00e3o nacional. N\u00e3o foi uma pol\u00eamica sobre \u201cuma medida excessiva\u201d, mas o confronto de dois sistemas pol\u00edticos contrapostos. A posi\u00e7\u00e3o reivindicada por Lenin parte da necessidade hist\u00f3rica e do objetivo que queremos alcan\u00e7ar. A posi\u00e7\u00e3o de Stalin se baseia nas necessidades de um aparato e de como gerenci\u00e1-lo melhor, mais facilmente, e em sintonia com as demandas de controle do territ\u00f3rio. Trotsky diz: \u201cn\u00e3o \u00e9 que tenhamos uma diferen\u00e7a, temos duas maneiras opostas de ver o mesmo problema\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, parece-me que isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um detalhe, porque pode parecer que a posi\u00e7\u00e3o de Stalin representava um \u201csocialismo\u201d errado. N\u00e3o, n\u00e3o foi isso. N\u00e3o foi um socialismo errado em alguns pontos, em determinadas coisas. Foi efetivamente gerado um sistema, uma racionalidade, que nada tinha a ver com o marxismo, que nada tinha a ver com a tradi\u00e7\u00e3o leninista.<\/p>\n<p>A segunda parte. No ano 1922, Stalin concentrou tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es muito importantes dentro do partido. At\u00e9 1919, o Secret\u00e1rio de Organiza\u00e7\u00e3o era Sverdlov, e o papel que desempenhou foi muito importante dentro do partido. Ap\u00f3s a sua morte, Lenin n\u00e3o queria sua substitui\u00e7\u00e3o por uma \u00fanica pessoa, mas sim por tr\u00eas membros, que foram nomeados em uma esp\u00e9cie de comiss\u00e3o que trabalharia com as quest\u00f5es organizativas do partido.<\/p>\n<p>At\u00e9 aquele momento, n\u00e3o havia Secret\u00e1rio-Geral. Mas existiam uma s\u00e9rie de interesses internos dentro do partido, que levaram Stalin a ser nomeado Secret\u00e1rio-Geral em 1922. E, naquela altura, ele era o Secret\u00e1rio-Geral, era o Comiss\u00e1rio para as Nacionalidades. E tamb\u00e9m ocupava outro cargo, de Comiss\u00e1rio de Inspe\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria e Camponesa, que deveria evitar a acumula\u00e7\u00e3o de poder, de gest\u00e3o. Em outras palavras, tinha que proteger as pessoas. A Inspe\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria e Camponesa tinha esse prop\u00f3sito. N\u00e3o havia instrumentos de gest\u00e3o fabril. E depois houve um contrapoder, que efetivamente tentou garantir as condi\u00e7\u00f5es de vida do povo, para que houvesse um ajuste, um controle. Os tr\u00eas cargos permaneceram com Stalin.<\/p>\n<p>O coment\u00e1rio de Lenin, no momento da nomea\u00e7\u00e3o de Stalin, foi: \u201cele \u00e9 um cozinheiro que pode preparar pratos muito picantes\u201d. \u00c9 preciso um pouco mais de sensibilidade no preparo do prato, explicava.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed come\u00e7ou uma batalha. E tal batalha se deu porque se detectou efetivamente o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o, de distanciamento, de falta de controle. Em outras palavras, foi se desenvolvendo um poder aut\u00f4nomo dentro do partido, dentro do Estado, e que, efetivamente, o caminho para o socialismo n\u00e3o poderia passar a\u00ed.<\/p>\n<p>Nisso ele tamb\u00e9m teve acordo com Trotsky. Sobre como lutar para tentar criar contrapoderes, para evitar que tal acumula\u00e7\u00e3o de poder acelerasse o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o. Escreveu um artigo tentando avan\u00e7ar com propostas: ampliar o Comit\u00ea Central; criar no Comit\u00ea Central uma comiss\u00e3o de controle, com companheiros que nada tinham a ver com a estrutura administrativa, para compensar, para evitar, para fiscalizar. E a\u00ed o confronto com Stalin cresceu rapidamente. Ao ponto de, nesse confronto, impedirem ou tentarem impedir a publica\u00e7\u00e3o de artigos de Lenin no Pravda, o jornal do partido. Em outras palavras, todo o aparato come\u00e7ou a agir para tentar isolar Lenin. Isso porque ele empreendeu uma batalha, entrou em conflito direto com o n\u00facleo principal da dire\u00e7\u00e3o, que naquela altura n\u00e3o era formado apenas por Stalin. Todo o bureau de organiza\u00e7\u00e3o estava com Stalin. Acho que, naquele momento, inclusive, Kamenev.<\/p>\n<p>O bureau da organiza\u00e7\u00e3o e Stalin iniciaram uma campanha de deslegitima\u00e7\u00e3o das cr\u00edticas de Lenin, tentando at\u00e9 usar como justificativa a afirma\u00e7\u00e3o de que, supostamente, alguns artigos foram fruto da influ\u00eancia pessoal de Krupskaia, sua esposa. Que Lenin estava muito doente&#8230; A grosseria de Stalin com Krupskaia culmina com uma carta de Lenin, que marca uma ruptura concreta entre ambos. Lenin afirmou \u2013 num dos artigos \u2013 que n\u00e3o se tratava apenas da quest\u00e3o nacional, mas que a inspe\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o funcionava como uma garantia e que deveriam ser procurados novos recursos para restaurar a confian\u00e7a das pessoas nos sovietes, no regime sovi\u00e9tico e assim por diante. Isso porque a situa\u00e7\u00e3o estava se deteriorando e deveria ser recuperada. E expressou isso no testamento, em que levantou diretamente a necessidade de retirar Stalin do papel que ocupa. Nesse texto, fez uma caracteriza\u00e7\u00e3o dos dirigentes do Partido Bolchevique, particularmente de Trotsky. Ele apontou o fato de que Trotsky podia dar continuidade ao trabalho, apesar de, \u00e0s vezes, ter uma tend\u00eancia de resolver de forma administrativa as quest\u00f5es e assim por diante. De que, \u00e0s vezes, Trotsky tinha um excesso de confian\u00e7a em si mesmo, etc. Mas h\u00e1 algo como uma aposta em Trotsky.<\/p>\n<p>Lenin dirigiu a carta \u201ctestamento\u201d ao Congresso do partido, mas Stalin impediu o acesso dos delegados ao texto. A primeira leitura foi feita em maio, numa comiss\u00e3o restrita do Congresso. Lenin queria garantir, de toda forma, algo mais aberto, que o documento fosse lido para todo o Congresso. O aparato partid\u00e1rio proibiu e a leitura foi restrita a alguns militantes. E ent\u00e3o o documento foi guardado, n\u00e3o divulgado, para n\u00e3o enfraquecer a posi\u00e7\u00e3o de Stalin.<\/p>\n<p>Naquele momento, contou Trotsky, Radek, outro dirigente do partido, disse-lhe: \u201ccom o \u2018testamento\u2019, eles n\u00e3o poder\u00e3o mais vir atr\u00e1s de voc\u00ea\u201d (\u2026) \u201cde agora em diante, voc\u00ea ser\u00e1 apoiado por Lenin\u201d. E Trotsky respondeu: \u201cn\u00e3o, agora v\u00e3o atr\u00e1s de mim, sem nenhuma d\u00favida\u201d. E, de fato, a partir desse momento, construiu-se uma forte campanha contra Trotsky. As diverg\u00eancias que existiram no passado entre Trotsky e Lenin foram ressuscitadas. Stalin foi colocado como o sucessor natural de Lenin e Trotsky como o continuador das diverg\u00eancias anteriores. Tudo para derrotar Trotsky no seu confronto contra a burocracia.<\/p>\n<p>Naturalmente, houve um ponto de ruptura \u00f3bvio, que fez avan\u00e7ar o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o e controlo absoluto. Quando Kamenev e Zinoviev ca\u00edram em desgra\u00e7a e passaram para a oposi\u00e7\u00e3o, explicaram como havia sido constru\u00edda a ideia do trotskismo como um inimigo que deveria ser combatido, justamente para contrapor-se \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de Lenin, j\u00e1 que Lenin identificou a possibilidade de continuar o processo revolucion\u00e1rio substituindo Stalin e apostando em dirigentes como Trotsky.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, me parece que o tema \u00e9 importante, porque parte da leitura que se faz, a partir da m\u00eddia burguesa, \u00e9 de que h\u00e1 uma continuidade entre Stalin e Lenin. N\u00e3o foi assim. A revolu\u00e7\u00e3o teve um refluxo. Esse refluxo serviu, esse isolamento, para que surgisse com for\u00e7a, digamos, uma acomoda\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, apoiando-se nessa tend\u00eancia\u2026. Foi assim que surgiu um aparelho, que foi efetivamente capaz de construir um socialismo incompleto, uma for\u00e7a contrarrevolucion\u00e1ria no Estado oper\u00e1rio. Algo um pouco parecido com a nossa defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos 100 anos da morte de Lenin, os defensores do socialismo t\u00eam necessariamente de fornecer uma explica\u00e7\u00e3o e travar uma luta implac\u00e1vel contra o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o, de degenera\u00e7\u00e3o, que nada t\u00eam a ver com o socialismo que n\u00e3o s\u00f3 Marx e Engels defendiam, mas tamb\u00e9m Lenin, Trotsky, etc. E que n\u00f3s defendemos.<\/p>\n<p>No momento atual, no meio da crise do capitalismo e assim por diante, continuamos a acreditar que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o socialismo e que o socialismo s\u00f3 ser\u00e1 alcan\u00e7ado atrav\u00e9s de uma via revolucion\u00e1ria. Que fazemos parte de uma internacional, como a que tais dirigentes defenderam h\u00e1 100 anos, e que esse \u00e9 o caminho que pode dar uma perspectiva e uma solu\u00e7\u00e3o para a crise do capitalismo e para os sofrimentos da classe oper\u00e1ria e da humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Imprensa UIT-QI O legado de Lenin continua atual no s\u00e9culo 21 05\/03\/2024. Reproduzimos as interven\u00e7\u00f5es de Miguel Sorans, da Izquierda Socialista (Argentina), e de Josep Llu\u00eds de Alc\u00e1zar, da Lucha Internacionalista (Estado Espanhol), ambos dirigentes da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores \u2013 Quarta<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14212,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-14211","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-e-formacao-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14211","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14211"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14211\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}