

	{"id":14386,"date":"2024-04-02T15:09:32","date_gmt":"2024-04-02T18:09:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=14386"},"modified":"2024-04-02T15:09:32","modified_gmt":"2024-04-02T18:09:32","slug":"02-de-abril-de-1982-malvinas-uma-guerra-justa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/04\/02\/02-de-abril-de-1982-malvinas-uma-guerra-justa\/","title":{"rendered":"02 de abril de 1982: Malvinas, uma guerra justa"},"content":{"rendered":"<p><em>H\u00e1 42 anos, a ditadura chefiada por Galtieri invadiu de surpresa as Ilhas Malvinas, territ\u00f3rio roubado da Argentina pela Inglaterra no s\u00e9culo XIX. O PST, que foi duramente reprimido e estava na clandestinidade, manifestou apoio \u00e0 guerra contra \u201cos piratas anglo-ianques\u201d. Os militares genocidas se renderam e o povo expulsou-os do poder. A recupera\u00e7\u00e3o das ilhas ainda est\u00e1 pendente.<\/em><\/p>\n<p>As Malvinas e outras ilhas foram usurpadas pelos ingleses em 1833. Desde ent\u00e3o, existe uma reivindica\u00e7\u00e3o bem arraigada, fomentada desde a inf\u00e2ncia nas escolas: \u201cas Malvinas s\u00e3o argentinas\u201d. As iniciativas diplom\u00e1ticas para recuperar tais ilhas t\u00eam sido muitas e infrut\u00edferas.<\/p>\n<p>Em 1982, os genocidas j\u00e1 se encontravam numa crise profunda, ap\u00f3s seis anos de repress\u00e3o brutal, ataques aos trabalhadores e rendi\u00e7\u00e3o ao imperialismo e \u00e0s grandes empresas. No dia 30 de mar\u00e7o daquele ano, houve uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o da CGT \u2013 reprimida \u2013 mostrando a crescente agita\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular.<\/p>\n<p>Galtieri e a c\u00fapula das tr\u00eas for\u00e7as armadas decidiram ocupar as ilhas, apostando numa vit\u00f3ria r\u00e1pida, que lhes permitiria fortalecer-se e permanecer no poder. No seu del\u00edrio, especialmente o b\u00eabado Galtieri, esperavam ter o apoio do governo ianque e contar com a retirada dos ingleses das ilhas. Obviamente, n\u00e3o foi assim. Os imperialistas reagiram como esperado, fortes e unidos. Poucos dias depois, a frota brit\u00e2nica partiu rumo \u00e0 guerra. Por sua vez, o povo argentino levou a s\u00e9rio a iniciativa, saindo \u00e0s ruas e apoiando massivamente, em todo o pa\u00eds, um verdadeiro esfor\u00e7o de guerra para recuperar as ilhas. A Argentina poderia ter vencido.<\/p>\n<p><strong>Por que perdemos a guerra?<\/strong><\/p>\n<p>Os militares ocuparam as ilhas de uma forma totalmente irrespons\u00e1vel e aventureira. Mesmo assim, a capacidade e o hero\u00edsmo de muitos oficiais e soldados, multiplicados pela mobiliza\u00e7\u00e3o popular em todo o pa\u00eds, teriam permitido a vit\u00f3ria. Os pr\u00f3prios ingleses reconheceram isso publicamente. O General Juli\u00e1n Thompson, segundo chefe das for\u00e7as terrestres desembarcadas nas ilhas, disse: \u201cCada for\u00e7a argentina estava travando a sua pr\u00f3pria guerra. Se as tr\u00eas for\u00e7as tivessem agido em coordena\u00e7\u00e3o, a Gr\u00e3-Bretanha poderia ter perdido a guerra.\u201d E acrescentou: \u201cA Argentina [leia-se Galtieri e companhia] n\u00e3o acreditava que a Inglaterra fosse atacar. As seis semanas decorridas entre 02 de abril e 21 de maio, quando desembarcamos em San Carlos, n\u00e3o foram utilizadas de forma adequada para fortalecer suas pr\u00f3prias posi\u00e7\u00f5es\u201d (P\u00e1gina 12, 06\/11\/1996).<\/p>\n<p>O deputado conservador, escritor e especialista militar Rupert Simon Allason disse algo semelhante. Ressaltou que as a\u00e7\u00f5es argentinas careciam de l\u00f3gica militar e que, exceto em um caso, n\u00e3o atacaram os cruciais navios de abastecimento. \u201cQuando afundaram o Atlantic Conveyor, estavam prestes a vencer a guerra. Se eles tivessem atacado mais um ou dois navios da marinha mercante, estar\u00edamos liquidados. \u00c9 por isso que s\u00f3 posso pensar em duas explica\u00e7\u00f5es: uma \u00e9 que as for\u00e7as argentinas eram lideradas por pessoas analfabetas em termos estrat\u00e9gicos. A segunda \u00e9 que procuravam apenas algo com valor propagand\u00edstico.\u201d (La Naci\u00f3n, 19\/10\/1997. Dados do livro \u201cMalvinas, Prueba de Fuego\u201d, Edi\u00e7\u00f5es El Socialista, abril de 2007).<\/p>\n<p>A raz\u00e3o de fundo foi que os genocidas preferiram capitular. N\u00e3o queriam vencer a guerra, porque temiam ser totalmente atropelados pela mobiliza\u00e7\u00e3o popular. Foi por isso que mantiveram os seus m\u00e9todos repressivos e a corrup\u00e7\u00e3o. Mesmo nas ilhas, os soldados sofreram torturas e maus-tratos por parte de setores do oficialato. Alguns personagens abjetos, como Astiz, se renderam sem disparar um \u00fanico tiro.<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es massivas ocorridas durante os mais de dois meses em que durou o conflito agravaram a crise da ditadura. Na Pra\u00e7a de Maio, no dia 10 de abril, mais de 150 mil pessoas hostilizaram o enviado do imperialismo ianque, Alexander Haig, e o pr\u00f3prio Galtieri. Por isso, como diria claramente o especialista inimigo que mencionamos, \u201cem termos estrat\u00e9gicos\u201d os genocidas escolheram a rendi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi f\u00e1cil. Chegaram at\u00e9 a apelar ao Papa Jo\u00e3o Paulo II, que chegou no dia 11 de junho ao pa\u00eds. O PST divulgou um panfleto denunciando que tal visita tinha como objetivo impor a rendi\u00e7\u00e3o. Na missa na catedral metropolitana, os militares assassinos se ajoelharam diante do papa e, dois dias depois, se curvaram em Porto Argentino diante dos brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p><strong>Os milicos pagaram caro pela trai\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Galtieri e companhia optaram pelo \u201cmal menor\u201d, a capitula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o conseguiram evitar a pr\u00f3pria queda. A Argentina perdeu a guerra (as ilhas continuaram com os ingleses e, desde ent\u00e3o, foi instalada uma base militar brit\u00e2nica l\u00e1) e o povo derrubou a ditadura.<\/p>\n<p>Em 14 de junho, o general genocida Mario Benjam\u00edn Men\u00e9ndez apresentou a rendi\u00e7\u00e3o em Puerto Argentino. No dia seguinte, a popula\u00e7\u00e3o foi convocada, em cadeia nacional, \u00e0 Pra\u00e7a de Maio para ouvir as explica\u00e7\u00f5es de Galtieri. Uma forte for\u00e7a policial foi colocada para vigiar a Casa Rosada. Uma multid\u00e3o se reuniu, inicialmente silenciosamente. Depois, come\u00e7ou a expressar sua f\u00faria e frustra\u00e7\u00e3o com gritos. Tomou corpo a can\u00e7\u00e3o, murmurada no ano anterior: \u201ca ditadura militar vai acabar\u201d. Tal can\u00e7\u00e3o havia sido entoada bem alto no dia 30 de mar\u00e7o, \u00e0s v\u00e9speras da ocupa\u00e7\u00e3o das ilhas. A multid\u00e3o derrubou as cercas da pra\u00e7a e foram lan\u00e7adas as primeiras bombas de g\u00e1s. As primeiras pedras foram lan\u00e7adas como resposta.<\/p>\n<p>Alguns policiais hesitaram e discutiram com as pessoas nas esquinas. Os ve\u00edculos militares de assalto apareceram. Houve confrontos e barricadas foram erguidas. Uma viatura e dois \u00f4nibus foram queimados. Logo mais outros ve\u00edculos queimaram. A pol\u00edcia foi perdendo for\u00e7a. Na madrugada de 16 de junho, Galtieri assinou sua ren\u00fancia e a sangrenta junta militar foi dissolvida. Uma mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria p\u00f4s fim ao cap\u00edtulo mais obscuro da nossa hist\u00f3ria e, sob a fraca presid\u00eancia de Bignone, come\u00e7aram a ser recuperadas as liberdades suprimidas durante aqueles anos.<\/p>\n<p>O povo n\u00e3o perdoou nem esqueceu os crimes da ditadura. Aos gritos de \u201cpared\u00e3o, pared\u00e3o, a todos os soldados que venderam a na\u00e7\u00e3o!\u201d juntaram-se os gritos de \u201cfora, fora e nunca mais voltem!\u201d. A mobiliza\u00e7\u00e3o imp\u00f4s o julgamento e a puni\u00e7\u00e3o a muitos dos genocidas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os radicais, os peronistas, a Igreja Cat\u00f3lica e todas as for\u00e7as patronais foram impondo a \u201cdesmalviniza\u00e7\u00e3o\u201d. Ela foi inaugurada por Alfons\u00edn [UCR] em dezembro de 1983, que descreveu aquela guerra justa como uma \u201ccortina de fuma\u00e7a\u201d. O peronista Menem deu continuidade com suas rela\u00e7\u00f5es carnais com os ianques e com a nomea\u00e7\u00e3o de um chanceler que enviou ursinhos de pel\u00facia aos brit\u00e2nicos nas ilhas. O kirchnerismo manteve tal pol\u00edtica, para al\u00e9m do seu t\u00edpico discurso duplo e das frases de efeito nas Na\u00e7\u00f5es Unidas. Os governos de Macri e de Alberto-Cristina Fern\u00e1ndez tamb\u00e9m participaram da \u201cdesmalviniza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>E segue agora, com o governo de extrema-direita de Milei, que manifestou a sua admira\u00e7\u00e3o por Margaret Thatcher (primeira-ministra da Inglaterra durante a guerra) e apoia um plano de rendi\u00e7\u00e3o, pilhagem e depend\u00eancia sem precedentes em 40 anos. Permanece \u2013 e continuar\u00e1 assim \u2013 nas m\u00e3os da classe trabalhadora e dos setores populares a grande tarefa pendente de recupera\u00e7\u00e3o das nossas ilhas.<\/p>\n<p><strong> O PST diante da guerra<\/strong><\/p>\n<p>Desde 1976, o PST estava proibido e operava de forma totalmente clandestina. Teve quase uma centena de militantes assassinados (v\u00e1rios no governo de Isabel) e desaparecidos, dezenas de presos e exilados*.<\/p>\n<p>No dia 30 de mar\u00e7o, a milit\u00e2ncia do PST participou da mobiliza\u00e7\u00e3o da CGT, compartilhando com entusiasmo o grito \u201cvai acabar a ditadura militar\u201d e tamb\u00e9m sofrendo com as bombas de g\u00e1s. Dois dias depois, no fechamento da edi\u00e7\u00e3o de abril do jornal Palabra Socialista [Palavra Socialista], que tinha como eixo a exig\u00eancia de um plano de luta da CGT para dar continuidade \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o, foi conhecida a not\u00edcia da ocupa\u00e7\u00e3o militar das ilhas. Rapidamente o partido definiu uma pol\u00edtica: desenvolver todo o esfor\u00e7o militar para derrotar os imperialistas ingleses, mas a partir de uma posi\u00e7\u00e3o independente e sem dar qualquer apoio pol\u00edtico \u00e0 junta genocida. A corrente do trotskismo liderada por Nahuel Moreno passou a promover a mobiliza\u00e7\u00e3o em torno das Malvinas no pa\u00eds e uma campanha de solidariedade na Col\u00f4mbia, no Peru, na Venezuela, no Brasil e em outros pa\u00edses. Na Am\u00e9rica Latina, a simpatia pela Argentina crescia dia a dia.<\/p>\n<p>Apelando \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da CGT para liderar a unidade de a\u00e7\u00e3o anti-imperialista, o PST denunciou as medidas repressivas e inconsequentes dos militares e prop\u00f4s uma s\u00e9rie de medidas, a serem impostas com a mobiliza\u00e7\u00e3o, para vencer a guerra. Exigiu \u2013 entre outras medidas \u2013 liberdades plenas, acabando com a repress\u00e3o ditatorial; suspender o pagamento da d\u00edvida externa e expropriar todas as empresas inglesas, bem como as empresas do seu aliado, o imperialismo ianque; apelar ao apoio dos povos irm\u00e3os latino-americanos que, como os peruanos, se mobilizavam nas ruas em solidariedade com a Argentina (Palabra Socialista, 15\/05\/1982).<\/p>\n<p>Para mostrar, atrav\u00e9s dos fatos, o significado do apoio ao esfor\u00e7o de guerra, tanto Jos\u00e9 Francisco P\u00e1ez quanto \u201cPelado Matosas\u201d, que esteve preso durante anos e foi libertado pouco antes do in\u00edcio do conflito, apresentaram-se como volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>*Seu principal dirigente, Nahuel Moreno, estava exilado em Bogot\u00e1. Veja seu texto sobre a guerra das Malvinas e a queda da ditadura, \u201c1982: comienza la revoluci\u00f3n\u201d, em www.nahuelmoreno.org<\/p>\n<p>** Capa do livro \u201cMalvinas, Prueba de Fuego\u201d, edi\u00e7\u00e3o El Socialista, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 42 anos, a ditadura chefiada por Galtieri invadiu de surpresa as Ilhas Malvinas, territ\u00f3rio roubado da Argentina pela Inglaterra no s\u00e9culo XIX. O PST, que foi duramente reprimido e estava na clandestinidade, manifestou apoio \u00e0 guerra contra \u201cos piratas anglo-ianques\u201d. Os militares genocidas se<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14387,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-14386","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-e-formacao-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14386"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14386\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14387"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}