

	{"id":14398,"date":"2024-04-04T12:01:42","date_gmt":"2024-04-04T15:01:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=14398"},"modified":"2024-04-04T12:01:42","modified_gmt":"2024-04-04T15:01:42","slug":"cuba-fome-e-crise-de-eletricidade-desencadeiam-novos-protestos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/04\/04\/cuba-fome-e-crise-de-eletricidade-desencadeiam-novos-protestos\/","title":{"rendered":"Cuba: Fome e crise de eletricidade desencadeiam novos protestos"},"content":{"rendered":"<p>Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores &#8211; Quarta Internacional<\/p>\n<p>Os protestos eclodiram em Santiago de Cuba, a segunda maior cidade do pa\u00eds, no domingo, 17 de mar\u00e7o, e foram replicados noutras cidades como Granma e Bayamo.<\/p>\n<p>Milhares de cubanos sa\u00edram \u00e0s ruas nos maiores protestos desde os que ocorreram a 11 de julho de 2021; ap\u00f3s o in\u00edcio da implementa\u00e7\u00e3o de um plano de ajuste que o governo de partido \u00fanico de Cuba chamou de &#8220;Tarea de Ordenamiento&#8221; (Tarefa de Ordenamento). Durante 2022 e 2023 tamb\u00e9m houve protestos em algumas zonas do pa\u00eds, mas sem o alcance dos registados h\u00e1 uma semana.<\/p>\n<p>Aos gritos de &#8220;corrente e comida&#8221;, centenas de mulheres com os seus filhos sa\u00edram para as ruas de Santiago, fartas da falta de alimentos nos armaz\u00e9ns e dos longos per\u00edodos sem eletricidade. Progressivamente, muitos jovens e outras pessoas das comunidades juntaram-se a elas, \u00e0 medida que os protestos se estendiam a outras partes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, a crise de eletricidade, que j\u00e1 era um problema end\u00e9mico em Cuba, agravou-se, exacerbada com uma grave escassez de alimentos, medicamentos e outros bens de primeira necessidade. No caso da eletricidade, a situa\u00e7\u00e3o complicou-se devido \u00e0 falta de combust\u00edvel para abastecer as centrais termoel\u00e9ctricas, provocando apag\u00f5es de 8 a 10 horas em quase toda a ilha. A tudo isto acresce uma infla\u00e7\u00e3o galopante, que destruiu o poder de compra do povo cubano.<\/p>\n<p>O sistema el\u00e9trico de Cuba est\u00e1 em colapso h\u00e1 anos. Das 8 centrais termoel\u00e9ctricas terrestres, 7 t\u00eam mais de 40 anos e est\u00e3o gravemente deterioradas, n\u00e3o s\u00f3 como consequ\u00eancia do bloqueio imperialista, mas principalmente devido \u00e0 falta de investimento e manuten\u00e7\u00e3o, uma vez que o regime cubano privilegiou a constru\u00e7\u00e3o de hot\u00e9is de luxo e o investimento no turismo ao servi\u00e7o de neg\u00f3cios com multinacionais, em detrimento dos servi\u00e7os p\u00fablicos e dos sal\u00e1rios dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Em resposta aos protestos, o governo colocou a cidade de Havana sob cust\u00f3dia policial como medida preventiva contra a possibilidade de o protesto se estender \u00e0 capital. Cortou tamb\u00e9m a liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Internet, o que n\u00e3o impediu a divulga\u00e7\u00e3o de imagens e v\u00eddeos dos protestos.<\/p>\n<p><strong>As verdadeiras causas da crise social<\/strong><\/p>\n<p>O Presidente Miguel D\u00edaz Canel, atrav\u00e9s da rede social X (antigo Twitter), atribuiu os protestos a &#8220;terroristas&#8221; sediados em Miami e, minimizando a sua import\u00e2ncia, afirmou que: &#8220;V\u00e1rias pessoas manifestaram a sua insatisfa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de eletricidade e com a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos. Este contexto est\u00e1 a ser explorado pelos inimigos da Revolu\u00e7\u00e3o para fins desestabilizadores&#8221;.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 completamente falso e est\u00e1 longe da realidade. A verdade \u00e9 que os protestos s\u00e3o uma express\u00e3o genu\u00edna do cansa\u00e7o do povo cubano face \u00e0 fome, aos pre\u00e7os elevados dos bens de primeira necessidade, \u00e0s enormes car\u00eancias e \u00e0 repress\u00e3o do governo de partido \u00fanico.<\/p>\n<p>O regime cubano tamb\u00e9m atribui frequentemente a culpa dos males sociais e econ\u00f3micos que afligem o povo ao bloqueio imposto pelo imperialismo norte-americano desde a d\u00e9cada de 1960. Este bloqueio criminoso teve consequ\u00eancias graves na economia do pa\u00eds, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica causa dos problemas que Cuba enfrenta.<\/p>\n<p>A causa fundamental da agita\u00e7\u00e3o social e dos protestos que tiveram lugar tem a ver com o facto de, h\u00e1 mais de 30 anos, o regime cubano estar a abrir a economia ao investimento privado estrangeiro, especialmente \u00e0s grandes transnacionais do turismo e de outros sectores, restaurando assim a explora\u00e7\u00e3o capitalista em Cuba.<\/p>\n<p>Este facto \u00e9 ocultado pelo regime do Partido Comunista Cubano, mas tamb\u00e9m pela imprensa mundial dos patr\u00f5es, para dizer que esta situa\u00e7\u00e3o &#8220;\u00e9 a que conduz o socialismo&#8221;. Isto \u00e9 repetido ad nauseam por Trump, Milei, Bolsonaro e assim por diante.<\/p>\n<p>Muitos combatentes podem ainda acreditar que Cuba \u00e9 um pa\u00eds socialista, mas isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 verdade. Em Cuba n\u00e3o h\u00e1 socialismo algum. \u00c9 um regime repressivo de partido \u00fanico que, tal como a China, governa para os novos ricos e as suas alian\u00e7as com as transnacionais.<\/p>\n<p>Em Cuba, a economia \u00e9 dominada pelas chamadas empresas mistas, nas quais o governo cubano est\u00e1 associado \u00e0s transnacionais e permite que as pessoas trabalhem por sal\u00e1rios de 20 a 30 d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Na produ\u00e7\u00e3o de rum, destaca-se a Corporaci\u00f3n Cuba Ron S.A., formada por empres\u00e1rios cubanos e a empresa francesa Ricard Pernod (propriet\u00e1ria do whisky Chivas Regal). No sector do turismo, est\u00e3o envolvidas as multinacionais espanholas Sol-Meli\u00e1 e Barcel\u00f3, associadas \u00e0s empresas Cubacan e Gaviota, capitais privados e estatais cubanos (nomeadamente das for\u00e7as armadas). No n\u00edquel e no cobalto, a empresa canadiana cubana Metal\u00fargica de Moa, com a multinacional Sherritt, opera desde 1992. No tabaco, existe desde 1994 a Habanos S.A., associada \u00e0 estatal Cubatabaco e \u00e0 empresa espanhola Altadis, propriedade de um grupo ingl\u00eas, que det\u00e9m 80% do mercado mundial de charutos. Esta \u00e9 a realidade capitalista em Cuba.<\/p>\n<p>Tudo isto tem tido consequ\u00eancias sociais nefastas, aprofundando a pobreza e a desigualdade. Os trabalhadores recebem sal\u00e1rios miser\u00e1veis, os servi\u00e7os p\u00fablicos est\u00e3o cada vez mais deteriorados, num contexto geral de restri\u00e7\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas, enquanto os militares e os altos funcion\u00e1rios do governo e do partido gozam de todo o tipo de privil\u00e9gios &#8211; Sal\u00e1rios elevados, casas de luxo em bairros exclusivos, acesso a d\u00f3lares e \u00e0s lojas do chamado Mercado Livre de Convertibilidade (MLC), onde compram todo o tipo de produtos, muitos deles importados, e aos quais a maioria dos trabalhadores cubanos t\u00eam pouco acesso. Apenas aqueles que recebem remessas de familiares ou amigos no estrangeiro t\u00eam acesso a eles.<\/p>\n<p><strong>Um t\u00edpico plano de austeridade capitalista<\/strong><\/p>\n<p>Em Cuba, foi anunciado um duro ajustamento para este ano, o mais severo das \u00faltimas d\u00e9cadas, que inclui medidas como um aumento de 25% nas tarifas de eletricidade residencial, a triplica\u00e7\u00e3o do custo do abastecimento de \u00e1gua, um aumento de 25% no pre\u00e7o das garrafas de g\u00e1s liquefeito dom\u00e9stico e um aumento de 500% nos combust\u00edveis. As tarifas dos transportes p\u00fablicos ser\u00e3o aumentadas, os subs\u00eddios aos g\u00e9neros aliment\u00edcios de base inclu\u00eddos no cart\u00e3o de abastecimento alimentar ser\u00e3o eliminados; um sistema de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos que existe em Cuba desde os anos 60 est\u00e1 a tornar-se cada vez mais escasso. Por exemplo, em 2003, os cidad\u00e3os recebiam 207 gramas de caf\u00e9 por m\u00eas e, no ano passado, apenas 20 gramas. O a\u00e7\u00facar refinado passou de 1,6 quilos em 2003 para menos de um quilo em 2023.<\/p>\n<p>Por outro lado, haver\u00e1 uma nova desvaloriza\u00e7\u00e3o do peso em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar; al\u00e9m disso, ser\u00e1 congelada a entrada de trabalhadores na for\u00e7a de trabalho do Estado e ser\u00e1 aumentado o imposto sobre a compra e venda de bens, uma esp\u00e9cie de IVA, afetando diretamente o pre\u00e7o dos produtos de consumo popular que prejudicar\u00e1 os que menos t\u00eam.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 mais do que um t\u00edpico ajustamento capitalista, semelhante aos aplicados noutros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. As suas consequ\u00eancias ser\u00e3o uma profunda deteriora\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida do povo cubano, tendo como pano de fundo um regime repressivo e autorit\u00e1rio, sem direito ao protesto, \u00e0 greve ou \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma do povo e dos trabalhadores.<\/p>\n<p>O povo cubano voltou a sair \u00e0 rua porque n\u00e3o suporta mais a mis\u00e9ria, o elevado custo dos alimentos, a escassez de medicamentos, os apag\u00f5es e as restri\u00e7\u00f5es impostas pelo regime de partido \u00fanico ao seu leg\u00edtimo direito de protesto.<\/p>\n<p>O que se passou em Cuba \u00e9 semelhante \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es noutros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina contra os planos de ajustamento contra o povo trabalhador.<\/p>\n<p>Como socialistas revolucion\u00e1rios, que sempre estiveram na linha da frente contra o bloqueio dos EUA e contra qualquer tipo de agress\u00e3o contra Cuba, apelamos \u00e0 solidariedade com os trabalhadores, a juventude e todo o povo cubano.<\/p>\n<p>Defendemos o seu direito \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, \u00e0 liberdade de greve e de manifesta\u00e7\u00e3o. No caminho para acabar com o regime de partido \u00fanico e alcan\u00e7ar o verdadeiro socialismo, com democracia para os trabalhadores, a juventude e o povo cubano.<\/p>\n<p>Desde a UIT-CI damos todo o nosso apoio aos protestos que continuam a desenvolver-se em Cuba. Propomos que no calor dos protestos a juventude, os trabalhadores, as mulheres, se organizem para continuar a enfrentar o ajuste e continuar a formar uma alternativa de esquerda revolucion\u00e1ria que enfrente o governo e se distinga dos sectores da direita e pr\u00f3-imperialistas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores &#8211; Quarta Internacional Os protestos eclodiram em Santiago de Cuba, a segunda maior cidade do pa\u00eds, no domingo, 17 de mar\u00e7o, e foram replicados noutras cidades como Granma e Bayamo. 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