

	{"id":14562,"date":"2024-04-19T14:11:25","date_gmt":"2024-04-19T17:11:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=14562"},"modified":"2024-04-25T12:06:07","modified_gmt":"2024-04-25T15:06:07","slug":"nahuel-moreno-e-seu-legado-internacionalista-100-anos-apos-seu-nascimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/04\/19\/nahuel-moreno-e-seu-legado-internacionalista-100-anos-apos-seu-nascimento\/","title":{"rendered":"Nahuel Moreno e seu legado internacionalista, 100 anos ap\u00f3s seu nascimento"},"content":{"rendered":"<p>Por Federico Novo Foti, para o jornal El Socialista<\/p>\n<p><em>Em 24 de abril de 1924 nasceu, na Argentina, Nahuel Moreno, o dirigente trotskista mais consequente da segunda metade do s\u00e9culo XX. Moreno lutou no trotskismo contra oportunistas e sect\u00e1rios, defendendo a import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o de partidos revolucion\u00e1rios e da Quarta Internacional. No quadro das homenagens que a Izquierda Socialista e a UIT-QI est\u00e3o prestando cem anos ap\u00f3s o seu nascimento, nesse segundo artigo resgatamos as contribui\u00e7\u00f5es de Moreno na constru\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional.<\/em><\/p>\n<p>Na Argentina, em meados da d\u00e9cada de 1940, o Grupo Obrero Marxista (GOM) [Grupo Oper\u00e1rio Marxista], liderado por Nahuel Moreno, come\u00e7ava a dar os primeiros passos na tarefa de construir um partido revolucion\u00e1rio inserido na classe trabalhadora e nas suas lutas. Tarefa que enfrentou contra a corrente, com o peronismo no governo. [1] Em mar\u00e7o de 1948, Moreno zarpou no navio \u201cProvence\u201d em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Fran\u00e7a. Aos 24 anos, foi escolhido delegado do GOM para participar do segundo congresso da Quarta Internacional, em Paris. [2]<\/p>\n<p>Em sua primeira participa\u00e7\u00e3o num congresso da Quarta Internacional, Moreno abra\u00e7ou a causa internacionalista. Desde ent\u00e3o, acompanhou apaixonadamente a situa\u00e7\u00e3o mundial e os processos mais importantes da luta de classes internacional. Al\u00e9m disso, ele se envolveu em duras pol\u00eamicas contra os oportunistas e sect\u00e1rios no movimento trotskista. D\u00e9cadas mais tarde, ele ainda sustentava: \u201cse a economia [capitalista] \u00e9 global, deve haver uma pol\u00edtica mundial e uma organiza\u00e7\u00e3o mundial de trabalhadores para que cada revolu\u00e7\u00e3o, cada pa\u00eds que fa\u00e7a a sua revolu\u00e7\u00e3o, a estenda em escala global [\u2026] o socialismo n\u00e3o pode ser outra coisa sen\u00e3o mundial\u201d. [3]<\/p>\n<h3><strong>Pol\u00eamicas na Quarta Internacional<\/strong><\/h3>\n<p>A Quarta Internacional nasceu em 1938 para construir uma nova dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, que lutasse contra as dire\u00e7\u00f5es traidoras, lideradas por Joseph St\u00e1lin, que burocratizou o governo sovi\u00e9tico da URSS e abandonou o marxismo revolucion\u00e1rio em nome da falsa teoria do \u201csocialismo num s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Por\u00e9m, ao fim da Segunda Guerra Mundial, St\u00e1lin e os partidos comunistas desfrutaram de um enorme prest\u00edgio, conquistado ap\u00f3s a derrota de Hitler, a tomada de Berlim pelo Ex\u00e9rcito Vermelho, as transforma\u00e7\u00f5es na Europa do Leste e a revolu\u00e7\u00e3o chinesa. Tal autoridade foi usada pelo stalinismo para encorajar a reconstru\u00e7\u00e3o capitalista nos pa\u00edses da Europa Ocidental, como parte dos seus pactos (Yalta e Potsdam) com as pot\u00eancias imperialistas.<\/p>\n<p>No per\u00edodo do p\u00f3s-guerra, o trotskismo tinha uma dire\u00e7\u00e3o muito jovem, sem muita experi\u00eancia no movimento oper\u00e1rio e de massas. Leon Trotsky foi assassinado em 1940 por um agente stalinista. A falta de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria experimentada permitiu que uma orienta\u00e7\u00e3o oportunista, de capitula\u00e7\u00e3o ao stalinismo e ao nacionalismo burgu\u00eas, fosse imposta a partir do terceiro congresso da Quarta Internacional, em setembro de 1951. Tais posi\u00e7\u00f5es foram acompanhadas de m\u00e9todos burocr\u00e1ticos, com a expuls\u00e3o de dissidentes, acelerando o processo de ruptura e desintegra\u00e7\u00e3o do trotskismo. [4]<\/p>\n<p>Sob o clima da \u201cGuerra Fria\u201d, os dirigentes trotskistas Michel Raptis (Pablo) e Ernest Mandel afirmaram, erradamente, que a Terceira Guerra Mundial se aproximava e que isso obrigaria os partidos comunistas a assumirem posi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. O \u201cpablismo\u201d considerava que a tarefa do trotskismo era, ent\u00e3o, praticar o \u201centrismo\u201d permanente nos partidos comunistas, renunciando assim \u00e0 tarefa de construir partidos revolucion\u00e1rios. Uma pol\u00edtica que foi sustentada durante quase vinte anos, enfraquecendo o trotskismo europeu. Moreno se op\u00f4s \u00e0 teoria da \u201cguerra iminente\u201d e \u00e0 proposta revisionista de que os partidos comunistas se tornariam revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em 1952, uma revolu\u00e7\u00e3o eclodiu na Bol\u00edvia. A insurrei\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e camponesa destruiu o ex\u00e9rcito burgu\u00eas, mil\u00edcias foram organizadas e a Central Obrera Boliviana (COB) [Central Oper\u00e1ria Boliviana] come\u00e7ou a centralizar o movimento oper\u00e1rio. O trotskismo teve grande influ\u00eancia no processo, atrav\u00e9s do Partido Obrero Revolucionario (POR) [Partido Oper\u00e1rio Revolucion\u00e1rio]. Mas a burocracia da COB entregou o poder ao Movimento Nacionalista Revolucion\u00e1rio (MNR), um partido nacionalista burgu\u00eas liderado por Victor Paz Estenssoro. Pablo e Mandel, numa trai\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, ordenaram o apoio do POR ao MNR, em vez de combat\u00ea-lo e de defender a tomada do poder pelas mil\u00edcias e pela COB. Moreno sustentou que o POR deveria lutar pela bandeira \u201cTodo poder \u00e0 COB\u201d, para conquistar um governo oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mandel \u2013 o sucessor de Pablo \u2013 aprofundou essa pol\u00edtica oportunista e transformou-a num princ\u00edpio orientador: capitular a todas as dire\u00e7\u00f5es maiorit\u00e1rias do movimento de massas, encorajando a colabora\u00e7\u00e3o de classes. Em oposi\u00e7\u00e3o, Moreno alertou que tal orienta\u00e7\u00e3o levava \u00e0 ren\u00fancia \u00e0 tarefa de construir partidos revolucion\u00e1rios e ao abandono da luta por governos dos\/as trabalhadores\/as e pelo socialismo mundial. Apesar de estar em minoria, exigiu um debate honesto e democr\u00e1tico nas fileiras do trotskismo e lutou para organizar uma oposi\u00e7\u00e3o para disputar a dire\u00e7\u00e3o da Quarta.<\/p>\n<p>O triunfo da revolu\u00e7\u00e3o cubana, em 1959, reavivou os debates. Moreno defendeu tal revolu\u00e7\u00e3o, que colocou Cuba como o primeiro Estado socialista da Am\u00e9rica Latina. Fez isso contra os sect\u00e1rios, como a corrente de Pierre Lambert, posteriormente apoiada por Jorge Altamira, que definiu Cuba, nos tempos de Ernesto \u201cChe\u201d Guevara, como um pa\u00eds capitalista. Mas tamb\u00e9m polemizou com o mandelismo, que capitulou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o de Fidel Castro, ao guerrilheirismo e ao Partido Comunista Cubano. Moreno defendeu a import\u00e2ncia de construir em Cuba um partido revolucion\u00e1rio, que lutasse para implementar a democracia oper\u00e1ria e pela amplia\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista em escala internacional. [5] A realidade deu raz\u00e3o a Moreno. A burocracia cubana capitulou ao stalinismo e acabou por restaurar, ap\u00f3s a queda da URSS, o capitalismo, em nome de uma falsa \u201catualiza\u00e7\u00e3o do socialismo\u201d.<\/p>\n<p>Como eco da revolu\u00e7\u00e3o cubana, entre 1961 e 1963, ocorreu uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o camponesa no sul do Peru, em La Convencion y Lares (Vale de Cuzco), liderada por Hugo Blanco, ent\u00e3o militante ativo do movimento morenista. Inspirado por Moreno, Blanco organizou sindicatos camponeses e defendeu a tomada de terras, formando mil\u00edcias camponesas armadas para enfrentar a viol\u00eancia dos latifundi\u00e1rios. Moreno combateu ent\u00e3o, apoiando por Blanco, o desvio guerrilheirista. Anos mais tarde, o pr\u00f3prio Blanco lembraria que \u201co m\u00e9rito de ter reagido primeiro e iniciado uma luta s\u00e9ria contra esse desvio pertence ao camarada Nahuel Moreno, o principal te\u00f3rico do trotskismo latino-americano\u201d. [6]<\/p>\n<p>Em 1979, durante o ex\u00edlio na Col\u00f4mbia, Moreno impulsionou a cria\u00e7\u00e3o da Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar, para intervir na revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense, inspirado pelo exemplo das brigadas internacionalistas da Guerra Civil Espanhola. [7]<\/p>\n<h3><strong>Construir partidos revolucion\u00e1rios e reconstruir a Quarta Internacional<\/strong><\/h3>\n<p>Entre as li\u00e7\u00f5es que Moreno nos deixou, est\u00e1 a tarefa de construir uma organiza\u00e7\u00e3o internacional, mesmo que seja fraca e pequena, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma an\u00e1lise precisa da situa\u00e7\u00e3o internacional a partir de um partido nacional e porque, em diferentes pa\u00edses, a constru\u00e7\u00e3o partidos revolucion\u00e1rios s\u00f3 pode ser desenvolvida com a combina\u00e7\u00e3o das lutas locais com o acompanhamento dos principais processos revolucion\u00e1rios regionais e globais. N\u00f3s, da Izquierda Socialista na Argentina , a CST no Brasil e da UIT-QI, continuamos o legado de Nahuel Moreno e redobramos os esfor\u00e7os para seguir na tarefa de unir os revolucion\u00e1rios do mundo, na luta pela reconstru\u00e7\u00e3o da Quarta Internacional. Nesse sentido, travamos uma luta implac\u00e1vel contra as dire\u00e7\u00f5es traidoras do movimento de massas, que apoiam o capitalismo decadente, e o oportunismo e o sectarismo nas fileiras do trotskismo, que capitulam a tais setores. Lutamos, por exemplo, contra o novo oportunismo fomentado pelos mandelistas ao aderir, com o PSOL, ao governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes de Lula no Brasil. Al\u00e9m disso, defendemos a necessidade urgente, e ainda atual, de lutar por governos dos\/as trabalhadores\/as e pelo socialismo mundial.<\/p>\n<h5><strong>Notas:<\/strong><\/h5>\n<p>[1] Ver o artigo no jornal El Socialista, n\u00ba 579, de 20\/03\/2024, e o document\u00e1rio \u201cNahuel Moreno: una vida, infinitas luchas\u201d, de Mariano Manso (diretor), de 2017. Dispon\u00edvel em www.nahuelmoreno.org<\/p>\n<p>[2] Ernesto Gonz\u00e1lez (coord.). \u201cEl trotskismo obrero e internacionalista en la Argentina\u201d. Tomo 1, Editorial Ant\u00eddoto, Buenos Aires, 1995. Dispon\u00edvel em www.marxist.org<\/p>\n<p>[3] Nahuel Moreno. \u201cSer trotskista hoy\u201d. Editorial CEHuS, Buenos Aires, 2020. Dispon\u00edvel em www.nahuelmoreno.org<\/p>\n<p>[4] Mercedes Petit. \u201cApuntes para una historia del trotskismo (1938-1964)\u201d. Ediciones El Socialista, Buenos Aires, 2006.<\/p>\n<p>[5] Sobre las pol\u00e9micas con el guerrillerismo de Nahuel Moreno. \u201cPol\u00e9mica con el Che Guevara\u201d. Editorial CEHuS, Buenos Aires, 2017. E Mart\u00edn Mangiantini. \u201cEl trotskismo y el debate de la lucha armada\u201d. El Topo Blindado, Buenos Aires, 2014. Dispon\u00edvel em www.cehus.org<\/p>\n<p>[6] Hugo Blanco. \u201cTierra o muerte\u201d. Ediciones Siglo XXI, M\u00e9xico, 1972. E Nahuel Moreno. \u201cPer\u00fa: dos estrategias\u201d. CEHuS, Buenos Aires, 2015.<\/p>\n<p>[7] Ver \u201cLa Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar\u201d. Ediciones El Socialista, Buenos Aires, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Federico Novo Foti, para o jornal El Socialista Em 24 de abril de 1924 nasceu, na Argentina, Nahuel Moreno, o dirigente trotskista mais consequente da segunda metade do s\u00e9culo XX. 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