

	{"id":14848,"date":"2024-05-08T18:39:38","date_gmt":"2024-05-08T21:39:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=14848"},"modified":"2024-05-08T18:39:38","modified_gmt":"2024-05-08T21:39:38","slug":"sudao-guerra-civil-multinacionais-e-9-milhoes-de-deslocados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/05\/08\/sudao-guerra-civil-multinacionais-e-9-milhoes-de-deslocados\/","title":{"rendered":"Sud\u00e3o: guerra civil, multinacionais e 9 milh\u00f5es de deslocados"},"content":{"rendered":"<p>Por Miguel Lamas, dirigente da UIT-QI<\/p>\n<p>20\/04\/2024. Passou-se um ano, em 15 de abril, da luta armada entre os dois grupos militares que disputam o Sud\u00e3o e suas riquezas, principalmente o ouro. Ambos os lados lutam entre si, mas reprimem selvagemente a maioria do povo trabalhador do Sud\u00e3o.<\/p>\n<p>O conflito \u2013 que op\u00f5e as For\u00e7as Armadas Sudanesas (FAS), chefiadas pelo general Abdelfatah al Burhan, ao grupo paramilitar For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (FAR), liderado pelo general Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti \u2013 produziu mais de 9 milh\u00f5es de deslocados e in\u00fameros civis mortos ou gravemente feridos.<\/p>\n<p>Na realidade, a maior parte dos deslocamentos e da fome que sofre metade da popula\u00e7\u00e3o de 45 milh\u00f5es de habitantes do Sud\u00e3o \u00e9, em grande medida, causada pela repress\u00e3o brutal da popula\u00e7\u00e3o civil por ambos os grupos militares. A grande maioria n\u00e3o est\u00e1 envolvida no conflito, mas \u00e9 expulsa por soldados \u2013 que invadem suas casas, roubam os seus pertences e violam as mulheres \u2013 ou sofre com bombardeios a\u00e9reos.<\/p>\n<p>Como diz uma nota publicada no jornal espanhol El Salto: \u201cO confronto entre o ex\u00e9rcito e as mil\u00edcias no Sud\u00e3o implica numa guerra contra a popula\u00e7\u00e3o, que se levantou por democracia e que agora luta pela sobreviv\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p><strong>A rebeli\u00e3o popular de 2019 e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em 2019, houve uma revolta popular no Sud\u00e3o, que p\u00f4s fim ao regime militar isl\u00e2mico de 30 anos do ditador Omar Al Bashir. Houve promessas de democracia e elei\u00e7\u00f5es livres. Por\u00e9m, em 2021 houve outro golpe militar e foi desencadeada a repress\u00e3o contra a popula\u00e7\u00e3o. E, desde abril de 2023, o caos deixou grande parte da popula\u00e7\u00e3o sem alimentos, devido \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o das colheitas, sem quaisquer cuidados sanit\u00e1rios e quase sem nenhuma escola ou universidade funcionando. Milhares de trabalhadores da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o foram demitidos, porque foram a vanguarda, junto com os jovens dos \u201ccomit\u00eas revolucion\u00e1rios de resist\u00eancia\u201d, das grandes lutas contra a ditadura.<\/p>\n<p>Os \u201ccomit\u00eas revolucion\u00e1rios de resist\u00eancia\u201d existiram durante todos esses anos e ainda existem. Eles conseguiram \u2013 junto com organiza\u00e7\u00f5es populares de base nos bairros, que tamb\u00e9m lideraram a rebeli\u00e3o de 2019 \u2013 derrubar a ditadura de 30 anos. Hoje persistem em grande parte do pa\u00eds como redes locais de sobreviv\u00eancia e de ajuda m\u00fatua, canalizando esfor\u00e7os para a arrecada\u00e7\u00e3o de alimentos, dinheiro e medicamentos para ajudar aqueles que mais necessitam. Tais comit\u00eas s\u00e3o atacados e perseguidos igualmente pelas duas fac\u00e7\u00f5es militares, FAS e FAR, nos territ\u00f3rios dominados por cada uma.<\/p>\n<p><strong>Minera\u00e7\u00e3o de ouro e pilhagem imperialista<\/strong><\/p>\n<p>O desastre social enfrentado pelo Sud\u00e3o, um pa\u00eds de origem e l\u00edngua \u00e1rabes como a Palestina, n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade. Muitos pa\u00edses africanos, que foram col\u00f4nias europeias at\u00e9 a d\u00e9cada de 1950 e que historicamente foram pilhados pelos colonizadores, est\u00e3o passando pela mesma situa\u00e7\u00e3o. Agora, todos eles sofrem uma semi-coloniza\u00e7\u00e3o por parte de empresas estrangeiras e imperialistas, que se apoderam das suas riquezas atrav\u00e9s de organiza\u00e7\u00f5es locais associadas, subordinadas e armadas. Al\u00e9m das pot\u00eancias europ\u00e9ias, h\u00e1 a penetra\u00e7\u00e3o de empresas ianques, israelenses, \u00e1rabes, chinesas e russas, que disputam as riquezas naturais do Sud\u00e3o.<\/p>\n<p>O Sud\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds \u00e1rabe, que foi col\u00f4nia brit\u00e2nica at\u00e9 1956. Em 2011, a sua regi\u00e3o sul tornou-se independente, com uma popula\u00e7\u00e3o diversificada, com etnias e l\u00ednguas semelhantes \u00e0s das popula\u00e7\u00f5es do sul e do centro da \u00c1frica, e cerca de 11 milh\u00f5es de habitantes. A maior parte da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, que era a principal riqueza do Sud\u00e3o, concentrava-se no sul independente. Por\u00e9m, na regi\u00e3o norte, que hoje \u00e9 o Sud\u00e3o, foi descoberta a riqueza do ouro h\u00e1 cerca de 20 anos.<\/p>\n<p>Apesar dos n\u00fameros divergentes e de n\u00e3o existir um controle estatal sobre a extra\u00e7\u00e3o de ouro, fala-se em 233 toneladas de ouro exportadas no \u00faltimo ano. Isso coloca o Sud\u00e3o entre os principais produtores e exportadores de ouro do mundo. Por\u00e9m, resta pouco ou nada dessa riqueza para a sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ouro est\u00e1 sendo levado, em grande parte, por empresas como o grupo paramilitar russo Wagner, agora convertido em African Corps, atrav\u00e9s da empresa M-Invest, que pertencia ao seu l\u00edder, Yevgeni Preghozin, falecido na R\u00fassia, aparentemente assassinado por Putin. Essa empresa continua tendo um papel muito importante na extra\u00e7\u00e3o do ouro do Sud\u00e3o, levando-o para a R\u00fassia. Os paramilitares das FAR, que dominam os territ\u00f3rios com as principais jazidas de ouro, s\u00e3o aliados da empresa russa. As empresas dos Emirados \u00c1rabes tamb\u00e9m t\u00eam alian\u00e7a com as FAR. Entretanto, o governo da FAS, que domina outras \u00e1reas do pa\u00eds, \u00e9 aliado de Israel e dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da repress\u00e3o antipopular e dos confrontos b\u00e9licos entre setores militares, a minera\u00e7\u00e3o de ouro, com uso massivo de merc\u00fario, est\u00e1 destruindo a agricultura e levando 25 milh\u00f5es de pessoas, mais de metade da popula\u00e7\u00e3o do Sud\u00e3o, \u00e0 fome. Antes de tudo, os 9 milh\u00f5es de deslocados, devido \u00e0 invas\u00e3o de uma das fac\u00e7\u00f5es militares \u00e0s suas casas, sa\u00edram quase todos sem nada: dinheiro, comida e trabalho. Os deslocados chegam muitas vezes aos locais de ref\u00fagio, seja nos pa\u00edses vizinhos ou no pr\u00f3prio Sud\u00e3o, apenas com a roupa do corpo. E quase n\u00e3o recebem ajuda, porque s\u00e3o acolhidos por popula\u00e7\u00f5es muito pobres.<\/p>\n<p><strong>A necessidade de solidariedade internacional com o povo do Sud\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A grande experi\u00eancia de luta do levante popular de 2019 a 2021 mostrou, por um lado, a enorme for\u00e7a do povo trabalhador quando esse se organiza, se une e se mobiliza, mas tamb\u00e9m que os partidos burgueses e as fac\u00e7\u00f5es militares procuram fazer acordos com os imperialismos europeus, \u00e1rabes ou russos para preservar a ordem capitalista e a pilhagem do pa\u00eds, da qual tamb\u00e9m s\u00e3o benefici\u00e1rios. As promessas de democratiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o repetidamente desprezadas. Esse capitalismo semicolonial \u2013 que est\u00e1 destruindo o pa\u00eds e causando uma terr\u00edvel mis\u00e9ria e fome \u2013, com um povo muito pobre, est\u00e1 hoje em grande parte assentado no ouro. Face \u00e0 crise hist\u00f3rica cr\u00f4nica do pa\u00eds, as reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas populares e uma verdadeira solu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica tornam necess\u00e1ria uma alternativa de dire\u00e7\u00e3o do povo trabalhador e da juventude, reorganizando os comit\u00eas revolucion\u00e1rios de resist\u00eancia, para conseguir no futuro derrotar as duas facetas da ditadura militar; expulsar as transnacionais mineiras russas, europeias, sionistas ou \u00e1rabes, que est\u00e3o pilhando o pa\u00eds; e conquistar uma sa\u00edda e um governo dos trabalhadores, da juventude e das mulheres do povo.<\/p>\n<p>N\u00f3s, da Unidade Internacional de Trabalhadoras e Trabalhadores \u2013 Quarta Internacional (UIT-QI), apelamos \u00e0 solidariedade internacional com a luta atual do povo sudan\u00eas pela sobreviv\u00eancia. Isso ao mesmo tempo em que apoiamos a luta dos trabalhadores e jovens \u00e1rabes e africanos para acabar com o capitalismo imperialista, os governos patronais e as ditaduras da \u00c1frica, bem como com o colonialismo sionista genocida de Israel no Oriente M\u00e9dio. Desde as suas origens, o capitalismo imperialista, com o escravismo e o colonialismo, conduziu o continente africano, incluindo o norte \u00e1rabe, ao pior quadro de pobreza, pilhagem e opress\u00e3o do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Miguel Lamas, dirigente da UIT-QI 20\/04\/2024. Passou-se um ano, em 15 de abril, da luta armada entre os dois grupos militares que disputam o Sud\u00e3o e suas riquezas, principalmente o ouro. 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