

	{"id":14870,"date":"2023-12-31T18:58:28","date_gmt":"2023-12-31T21:58:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=14870"},"modified":"2024-05-09T19:00:35","modified_gmt":"2024-05-09T22:00:35","slug":"texto-5-o-pcb-apos-1935-a-politica-de-frente-popular-no-brasil-e-a-dissidencia-no-cr-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2023\/12\/31\/texto-5-o-pcb-apos-1935-a-politica-de-frente-popular-no-brasil-e-a-dissidencia-no-cr-sp\/","title":{"rendered":"Texto 5 &#8211; O PCB ap\u00f3s 1935 \u2013 A pol\u00edtica de Frente Popular no Brasil e a dissid\u00eancia no CR-SP"},"content":{"rendered":"<p><em>Henrique Lignani, Historiador e militante da CST <\/em><\/p>\n<p><em>O contexto repressivo<\/em><\/p>\n<p>Em 1935, guiado pela orienta\u00e7\u00e3o ultraesquerdista do chamado \u201cterceiro per\u00edodo\u201d, o PCB stalinista realizou uma tentativa de levante armado. Sem qualquer apoio na classe trabalhadora, o levante foi rapidamente derrotado. Por outro lado, suas consequ\u00eancias foram gravemente sentidas nos anos que se seguiram.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, uma forte repress\u00e3o foi levada \u00e0 cabo por parte do governo e da burguesia contra os militantes de esquerda. O PCB, sendo o maior partido vinculado \u00e0 classe trabalhadora no per\u00edodo, se tornou o principal alvo, com diversos militantes presos e perseguidos. Al\u00e9m disso, o governo de Get\u00falio Vargas se aproveitou das repercuss\u00f5es do levante para intensificar o seu curso autorit\u00e1rio: ainda em 1935, decretou estado de s\u00edtio; em 1937, com base em um documento forjado, propagandeou a amea\u00e7a de um novo \u201cgolpe comunista\u201d e ganhou apoio de parte da burguesia para a imposi\u00e7\u00e3o de uma ditadura, o Estado Novo.<\/p>\n<p>A conjuntura repressiva posterior a 1935 tamb\u00e9m imp\u00f4s mudan\u00e7as no funcionamento do PCB. A dire\u00e7\u00e3o nacional do partido teve que ser transferida do Rio para Salvador, al\u00e9m do fato da comunica\u00e7\u00e3o entre os diferentes Comit\u00eas Regionais do partido ficar muito debilitada. Dessa forma, o partido passou a funcionar de forma praticamente aut\u00f4noma em cada estado onde estava presente, provocando algumas confus\u00f5es e diverg\u00eancias quanto \u00e0 linha pol\u00edtica que seguiam.<\/p>\n<p><em>O stalinismo brasileiro e a pol\u00edtica da IC<\/em><\/p>\n<p>A desorienta\u00e7\u00e3o vivida no PCB na \u00e9poca em quest\u00e3o n\u00e3o era observada apenas internamente, nos fr\u00e1geis v\u00ednculos entre as regionais do partido. A rela\u00e7\u00e3o entre o partido, representante do stalinismo no Brasil, e a pol\u00edtica geral da Internacional Comunista (IC) stalinista tamb\u00e9m apresentava alguns descompassos.<\/p>\n<p>Em 1935, o VII Congresso da IC operou uma importante mudan\u00e7a de rumo com a ado\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de Frentes Populares. Justificando-se pela recente ascens\u00e3o do nazismo na Alemanha, tal pol\u00edtica consistia, resumidamente, na ado\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as com setores da burguesia considerados \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, \u201cprogressistas\u201d ou, no caso dos pa\u00edses semicoloniais, \u201canti-imperialistas\u201d. O stalinismo considerava essas alian\u00e7as necess\u00e1rias para a concretiza\u00e7\u00e3o de uma \u201cprimeira etapa\u201d da revolu\u00e7\u00e3o socialista, na qual tais setores burgueses teriam um papel a cumprir. Na pr\u00e1tica, as Frentes Populares representaram o abandono da independ\u00eancia de classe por parte da IC e dos PC\u2019s stalinistas. Naquele momento, significaram tamb\u00e9m uma brusca guinada, pois a pol\u00edtica ultraesquerdista do Congresso anterior, que propugnava a imin\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o socialista, foi abandonada sem a realiza\u00e7\u00e3o de qualquer balan\u00e7o ou autocr\u00edtica.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 poss\u00edvel perceber as contradi\u00e7\u00f5es presentes no PCB naqueles anos de 1935 e 1936. A tentativa de insurrei\u00e7\u00e3o armada no Brasil ocorreu em novembro de 1935, meses ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o do VII Congresso da IC. Portanto, apesar das novas orienta\u00e7\u00f5es da Internacional, os stalinistas brasileiros seguiam com uma pol\u00edtica ultraesquerdista. Por outro lado, evidenciando ainda mais as contradi\u00e7\u00f5es, o PCB entendia que, apesar de iminente, a revolu\u00e7\u00e3o brasileira deveria ser realizada em alian\u00e7a com setores \u201canti-imperialistas\u201d da burguesia, o que j\u00e1 expressava a estrat\u00e9gia de Frentes Populares.<\/p>\n<p>Apenas no final de 1936, chegaram ao Brasil orienta\u00e7\u00f5es diretas da IC, defendendo o enquadramento do PCB nas diretrizes do VII Congresso da IC. Passou-se a adotar decisivamente a pol\u00edtica de Frente Popular, considerando o papel hegem\u00f4nico da burguesia nacional na revolu\u00e7\u00e3o brasileira e a perspectiva de uma revolu\u00e7\u00e3o por etapas (a primeira delas, nacional, democr\u00e1tica, anti-imperialista e antifeudal). \u00c9 importante ressaltar que tal virada pol\u00edtica foi concretizada sem que se realizasse uma autocr\u00edtica quanto \u00e0s posi\u00e7\u00f5es anteriores que haviam conduzido ao desastre do levante de 1935.<\/p>\n<p><em>A crise interna e as consequ\u00eancias da virada pol\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>O contexto de mudan\u00e7as na pol\u00edtica do PCB n\u00e3o passou sem que diferen\u00e7as surgissem no interior do partido. No in\u00edcio de 1937, um grupo de militantes nucleado no Comit\u00ea Regional da S\u00e3o Paulo (CR-SP), liderado por Herm\u00ednio Sacchetta, come\u00e7ou a manifestar abertamente suas diverg\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s posi\u00e7\u00f5es do Secretariado Nacional (SN), que tinha Bangu \u00e0 frente.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, os debates eram travados ao redor de dois pontos principais. Primeiramente, quanto \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais que ocorreriam em 1938 (caso n\u00e3o tivesse ocorrido o golpe e o in\u00edcio da ditadura de Vargas). Duas candidaturas burguesas se apresentavam para a disputa: a de Jos\u00e9 Am\u00e9rico, apoiada por Vargas, e a de Armando Sales. Ap\u00f3s alguma hesita\u00e7\u00e3o, o SN do PCB decidiu-se pelo apoio \u00e0 Jos\u00e9 Am\u00e9rico, enquanto o grupo ligado ao CR-SP defendia que o partido se mantivesse equidistante de ambos os candidatos, buscando que se comprometessem com algumas de suas pautas [1].<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o CR-SP apontava diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linha do PCB quanto \u00e0 alian\u00e7a de classes entre o proletariado e a burguesia nacional para a realiza\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o no Brasil. Embora n\u00e3o rejeitassem completamente essa colabora\u00e7\u00e3o de classes, tais militantes enfatizavam a hegemonia que o proletariado deveria ter no seu interior. Nesse sentido, \u00e9 importante ressaltar que as diferen\u00e7as entre os grupos se desenvolviam dentro dos marcos da pol\u00edtica stalinista de Frente Popular. Ambos reivindicavam a IC e buscavam o ter o seu respaldo, inclusive acusando os seus advers\u00e1rios de \u201cfracionistas\u201d e \u201ctrotskistas\u201d.<\/p>\n<p>O grupo ligado a Sacchetta chegou a ter o apoio da maioria dos demais comit\u00eas regionais do PCB, formando um Comit\u00ea Central Provis\u00f3rio e defendendo a realiza\u00e7\u00e3o de uma confer\u00eancia nacional do partido na qual pudessem ser debatidas as quest\u00f5es de diverg\u00eancias. Por sua vez, a dire\u00e7\u00e3o do partido organizou um novo comit\u00ea regional em SP, expulsando os principais militantes da oposi\u00e7\u00e3o em processos repletos de cal\u00fanias e acusa\u00e7\u00f5es infundadas. A situa\u00e7\u00e3o foi resolvida apenas com a interven\u00e7\u00e3o direta da IC em favor do grupo de Bangu.<\/p>\n<p><em>A evolu\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao trotskismo<\/em><\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, os militantes trotskistas brasileiros, naquele momento organizados no Partido Oper\u00e1rio Leninista, acompanharam o processo de cis\u00e3o dentro do PCB, buscando influenciar os debates. Como visto acima, as cr\u00edticas por parte do CR-SP come\u00e7aram a ser desenvolvidas de dentro do stalinismo, algo que era considerado pelos militantes do POL que as caracterizavam como centristas. Dessa forma, em seu di\u00e1logo, os trotskistas buscavam apontar as contradi\u00e7\u00f5es presentes naquela cis\u00e3o do PCB.<\/p>\n<p>O principal aspecto indicado nesse sentido era o fato de que os militantes do CR-SP restringiam as suas cr\u00edticas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do PCB, ao mesmo tempo em que seguiam reivindicando a IC, onde se originava a pol\u00edtica levada \u00e0 cabo pelos stalinistas brasileiros. O entendimento da burguesia nacional como for\u00e7a motriz da \u201crevolu\u00e7\u00e3o nacional-libertadora\u201d no Brasil, assim como a divis\u00e3o e a hierarquiza\u00e7\u00e3o do imperialismo em um \u201cimperialismo melhor\u201d e outro \u201cpior\u201d, alvo das cr\u00edticas dos cisionistas dentro do PCB, n\u00e3o eram aspectos restritos a este pa\u00eds. Ao contr\u00e1rio, tratava-se do eixo da pol\u00edtica stalinista de Frente Popular, orientada a partir da IC para os PC\u2019s de todo o mundo. Portanto, os textos escritos pelo POL no contexto da crise interna no PCB apontavam no sentido da corre\u00e7\u00e3o das cr\u00edticas elaboradas pelo grupo de Sacchetta. Por\u00e9m, caso fossem coerentes e levassem tais cr\u00edticas \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, elas resultariam no rompimento n\u00e3o apenas com a dire\u00e7\u00e3o do partido brasileiro, mas tamb\u00e9m com a IC e com o stalinismo.<\/p>\n<p>Dessa forma, os trotskistas conseguiram estabelecer o contato e influenciar parte daquele grupo, que, ap\u00f3s a expuls\u00e3o do PCB, formou a Dissid\u00eancia Pr\u00f3-Reagrupamento da Vanguarda Revolucion\u00e1ria. Al\u00e9m de Herm\u00ednio Sacchetta, estavam presentes nesse grupo militantes como Heitor Ferreira Lima, Alberto Moniz da Rocha Barros e Jos\u00e9 Stacchini. Em abril de 1939, tal grupo se juntou ao POL, formando o Comit\u00ea Pr\u00f3-Reagrupamento da Vanguarda Revolucion\u00e1ria, que em agosto daquele mesmo ano originou o Partido Socialista Revolucion\u00e1rio. A unifica\u00e7\u00e3o ocorreu com base no programa da IV Internacional, sendo o PSR reconhecido como sua se\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] Nesse contexto, os trotskistas brasileiros, organizados no Partido Oper\u00e1rio Leninista, defenderam que o PCB lan\u00e7asse para a disputa, simbolicamente, o nome de Luiz Carlos Prestes, que ent\u00e3o se encontrava preso.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>&#8211; KAREPOVS, Dainis. <em>Luta subterr\u00e2nea<\/em> &#8211; o PCB em 1937-1938. S\u00e3o Paulo: Hucitec, Unesp, 2003.<\/p>\n<p>&#8211; ANDRADE [Febus Gikovate]. A crise do stalinismo no Brasil. <em>A Luta de Classe<\/em>. N\u00ba 37 (II), 25\/01\/1938, p. 1-5.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Henrique Lignani, Historiador e militante da CST O contexto repressivo Em 1935, guiado pela orienta\u00e7\u00e3o ultraesquerdista do chamado \u201cterceiro per\u00edodo\u201d, o PCB stalinista realizou uma tentativa de levante armado. Sem qualquer apoio na classe trabalhadora, o levante foi rapidamente derrotado. 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