

	{"id":14881,"date":"2023-12-31T19:30:22","date_gmt":"2023-12-31T22:30:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=14881"},"modified":"2024-05-09T19:32:42","modified_gmt":"2024-05-09T22:32:42","slug":"texto-10-as-rupturas-do-pcb-nos-anos-60-pc-do-b-aln-pcbr-mr-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2023\/12\/31\/texto-10-as-rupturas-do-pcb-nos-anos-60-pc-do-b-aln-pcbr-mr-8\/","title":{"rendered":"Texto 10 &#8211; As rupturas do\u00a0PCB\u00a0nos anos 60: PC do B, ALN, PCBR, MR-8"},"content":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Santiago, da coordena\u00e7\u00e3o da CST Par\u00e1<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do PCB a partir do XX Congresso do PCUS da ex-URSS, em fevereiro de 1956, onde Kruschev denunciou para todo o mundo os crimes de St\u00e1lin, foi uma hist\u00f3ria de rachas e divis\u00f5es. Essa foi a principal for\u00e7a centr\u00edfuga que ocasionou a primeira e mais importante divis\u00e3o no partido com o surgimento do PC do B(1962).<\/p>\n<p>N\u00e3o menos importantes vieram as divis\u00f5es impostas por outras conjunturas internacionais como a ruptura de M\u00e3o Tse-Tung com Moscou, onde este desaprovou a \u201cdesestaliniza\u00e7\u00e3o\u201d da URSS, assim como a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana comandada pelos guerrilheiros de Sierra Maestra, igualmente as lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional da Arg\u00e9lia e do Vietn\u00e3, aliado a uma conjuntura nacional que foi o golpe militar de 31 de mar\u00e7o de 1964. Essa combina\u00e7\u00e3o de fatos deu origem ao surgimento de grupos guerrilheiros como a ALN, PCBR, MR-8, todos inspirados na teoria do foquismo cubano ou na guerra popular prolongada do mao\u00edsmo ou na guerrilha urbana.<\/p>\n<p><strong>PC do B, 1962: em defesa da pol\u00edtica e estrat\u00e9gia stalinista<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 assinalamos acima, o surgimento do PC do B est\u00e1 diretamente ligado com as pol\u00eamicas envolvendo as den\u00fancias de Kruschev no XX Congresso do PCUS, os famosos \u201ccrimes de St\u00e1lin\u201d. N\u00e3o que Kruschev, como membro da burocracia stalinista que era, tenha dado um giro \u201c\u00e0 esquerda\u201d na pol\u00edtica do PCUS ao denunciar os \u201ccrimes\u201d de St\u00e1lin, muito pelo contr\u00e1rio, o alinhamento com o imperialismo norte-americano, com a pol\u00edtica da \u201ccoexist\u00eancia pac\u00edfica\u201d estava bem mais \u00e0 direita, assim como a interven\u00e7\u00e3o com tanques na Hungria, Pol\u00f4nia e Tchecoslov\u00e1quia para esmagar as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. O alinhamento com o imperialismo foi o\u00a0 que mais incomodou velhos quadros e militantes do PCB \u00e0 \u00e9poca, nem tanto a repress\u00e3o aos processos revolucion\u00e1rios no leste europeu.<\/p>\n<p>O fato da dire\u00e7\u00e3o central do PCB \u201cesconder\u201d a crise por 8 meses (fevereiro a outubro de 1956) foi um fator importante tamb\u00e9m para o surgimento de diverg\u00eancias no interior do partido. Enquanto o Comit\u00ea Central do PCB \u201cescondia\u201d a crise aberta no XX Congresso, a grande imprensa publicava as mat\u00e9rias que chegavam dos correspondentes internacionais; a <em>Voz Oper\u00e1ria<\/em>, o jornal oficioso do partido, publicava entre mar\u00e7o e julho deste ano, tr\u00eas mat\u00e9rias oriundas de outros partidos comunistas, como o italiano, o norte-americano, que atestavam a veracidade das den\u00fancias e faziam cr\u00edticas \u201cao culto da personalidade\u201d de St\u00e1lin. Eugene Dennis, secret\u00e1rio-geral do PC norte-americano, inclusive chega a detalhar os \u201ccrimes de St\u00e1lin\u201d (torturas, processos-farsa contra os velhos l\u00edderes bolcheviques) e chega at\u00e9 a propor \u201ca populariza\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es do XX Congresso para melhorar a imagem do socialismo no mundo\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dessas pol\u00eamicas \u2013 e \u00a0contra a pol\u00edtica \u201crevisionista\u201d que a dire\u00e7\u00e3o central do PCB, com Prestes \u00e0 frente, vai implementar nos Plenos de abril e mar\u00e7o de 1957,\u00a0 na Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o de 1958 e no V Congresso do partido em agosto de 1960 \u2013 que surgir\u00e1 um n\u00facleo dissidente no interior do partido, formado por Di\u00f3genes Arruda, Maur\u00edcio Grabois, Jo\u00e3o Amazonas Pedro Pomar, Chade e Daniellie.<\/p>\n<p>Um fato interessante e que vai determinar a nomenclatura do novo partido dissidente ocorre em agosto de 1961, quando o novo Comit\u00ea Central eleito no V Congresso modifica os estatutos partid\u00e1rios para facilitar o registro no TSE, passando o mesmo a se chamar Partido Comunista Brasileiro, mas mantendo a mesma sigla; tamb\u00e9m foram retirados do programa as refer\u00eancias ao marxismo-leninismo. A partir desse fato, o grupo oposicionista organiza um manifesto ao partido, que ficaria conhecido como\u00a0 a \u201cCarta dos cem\u201d, onde declaram que o documento da dire\u00e7\u00e3o central publicado no jornal Novos Rumos era \u201cuma nega\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio\u201d. S\u00e3o acusados ent\u00e3o de querer dividir o partido e s\u00e3o expulsos pelos dirigentes do PCB nesse mesmo m\u00eas<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Finalmente, em fevereiro de 1962, o grupo que foi expulso convoca uma Confer\u00eancia Nacional Extraordin\u00e1ria, e segundo Jean Rodrigues Sales \u201celege um Comit\u00ea Central, aprova novos estatutos, declara a reorganiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e reivindica ser o verdadeiro partido comunista em atua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds adotando como diferencial a sigla PC do B\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>As defini\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas: mao\u00edsmo e guerra popular prolongada<\/strong><\/p>\n<p>Tendo sido despachado pelo PCUS, ao qual haviam pedido reconhecimento, os dirigentes do PC do B estabelecem rela\u00e7\u00f5es com o Partido Comunista Chin\u00eas (PCC) e com sua linha mao\u00edsta. At\u00e9 meados dos anos 70 pelo menos, os dirigentes afirmavam publicamente que o PC do B seguia as orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos chineses. E uma das quest\u00f5es que seria fundamental para o alinhamento com o PCC, segundo Jean R. Sales, era justamente a diferen\u00e7a do mao\u00edsmo em rela\u00e7\u00e3o ao foquismo. Se havia alguns \u00b4pontos em comum entre os dois modelos, como o privil\u00e9gio dado aos camponeses e \u00e0 guerrilha rural, a \u00eanfase nos povos do Terceiro Mundo e o conte\u00fado militarista de suas estrat\u00e9gias revolucion\u00e1rias, o que foi decisivo para a vincula\u00e7\u00e3o do PC do B com o mao\u00edsmo no primeiro momento foi justamente o fato\u00a0 de subordinar o fator militar ao fator pol\u00edtico, ou seja, o partido deveria preceder a guerrilha, o que \u00e9 o oposto do foquismo. Outro aspecto dessa aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 que os chineses n\u00e3o romperam com a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o por etapas. A op\u00e7\u00e3o pelo mao\u00edsmo, em s\u00edntese, se deram por quest\u00f5es te\u00f3ricas (defesa da doutrina stalinista, teoria do bloco das quatro classes, revolu\u00e7\u00e3o por etapas e a id\u00e9ia da guerra popular prolongada) e por raz\u00f5es pol\u00edticas pr\u00e1ticas )recusa do PCUS em aceitar a filia\u00e7\u00e3o na III Internacional e a necessidade da luta armada, contrapondo-se a atra\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio foquista)<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>No que tange ao programa, o PC do B segue \u00e0 risca a estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o por etapas do mao\u00edsmo e propunha em primeiro lugar a implanta\u00e7\u00e3o de um governo popular revolucion\u00e1rio e de um regime anti-imperialista, antilatifundi\u00e1rio e antimonopolista, nos moldes da Internacional Comunista stalinista, o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o se daria nos marcos democr\u00e1tico-burgueses, com a burguesia avan\u00e7ada dirigindo este processo, rompendo com o imperialismo e fazendo uma reforma agr\u00e1ria radical, anti-feudal. Com o capitalismo desenvolvido se pensaria numa \u201csegunda etapa socialista\u201d. Essas ideias foram sintetizadas no <em>Manifesto-Programa<\/em>, lan\u00e7ado antes do golpe militar de 1964, mas no documento intitulado \u201co golpe de 64 e seus ensinamentos\u201d, a proposta de uma frente \u00fanica revolucion\u00e1ria se amplia para a conservadora Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional (UDN), o que j\u00e1 \u00e9 o extremo da proposta anterior.<\/p>\n<p>Com o golpe de 64 e sua radicaliza\u00e7\u00e3o com o Ato Institucional n\u00ba 5 (AI-5) de 1969, o PC do B muda radicalmente de t\u00e1tica e passa a defender a luta armada como o caminho para a derrubada da ditadura militar no Brasil. \u00c9 no documento \u201cGuerra popular \u2013 caminho da luta armada no Brasil\u201d que pela primeira vez o PC do B defende de forma aberta a luta armada. Nesse documento h\u00e1 uma clara condena\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos guerrilheiros foquistas isolados das massas, sem a presen\u00e7a de um partido pol\u00edtico que oriente as a\u00e7\u00f5es das massas e da estrat\u00e9gia militar\u201d. A teoria do &#8220;foco&#8221; conduz \u00e0 ren\u00fancia do trabalho entre as massas e n\u00e3o confia na capacidade destas de assimilar as ideias revolucion\u00e1rias e de lan\u00e7ar-se \u00e0 luta. Por isso, a guerrilha baseada no &#8220;foco&#8221; \u00e9 alheia \u00e0s massas e dedica-se quase exclusivamente \u00e0s a\u00e7\u00f5es armadas\u201d.<\/p>\n<p>Iniciada em abril de 1972,a Guerrilha do Araguaia, como ficou conhecida, foi praticamente dizimida em 1973 pelo Ex\u00e9rcito comandado pelo Major Curi\u00f3 e todos os militantes e as militantes mortos(as) na opera\u00e7\u00e3o Marajoara;\u00a0 os \u00faltimos militantes-guerrilheiros foram ca\u00e7ados pelo Ex\u00e9rcito durante todo\u00a0 ano de 1974. Cerca de 68 foram massacrados.\u00a0 V\u00e1rios balan\u00e7os pol\u00edticos foram feitos pelo Comit\u00ea Central do PC do B ap\u00f3s a dizima\u00e7\u00e3o da guerrilha, uns exaltando a bravura dos militantes, como o de \u00c2ngelo Arroio e outros destacando o erro estrat\u00e9gico, pol\u00edtico e militar, como fez Pedro Pomar. O fato \u00e9 que no documento \u201cGuerra Popular \u2013 caminho da luta armada no Brasil\u201d, quando elencados os nove aspectos (favor\u00e1veis e contra o caminho da luta armada), a pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o do PC do B armava os militantes de que a vit\u00f3ria seria poss\u00edvel, que a guerra popular prolongada traria o apoio do campo e das cidades para o movimento, que as for\u00e7as armadas seriam enfraquecidas por esse movimento que ganharia as massas. \u201cA luta armada em que se empenhar\u00e1 o povo brasileiro ter\u00e1 um profundo conte\u00fado popular, englobando as mais amplas massas da popula\u00e7\u00e3o. O fato de ser o Brasil um pa\u00eds dependente e de a terra estar monopolizada por uma pequena minoria de latifundi\u00e1rios imprime \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter nacional e democr\u00e1tico, o que permite a mobiliza\u00e7\u00e3o de imensas for\u00e7as sociais para derrubar o atual regime reacion\u00e1rio\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>ALN, PCBR, MR-8: a teoria foquista de Che Guevara e do castrismo<\/p>\n<p>Se o surgimento do PC do B se deve \u00e0 defesa do stalinismo e ao alinhamento com o mao\u00edsmo e a t\u00e1tica da guerra popular prolongada, o aparecimento da Alian\u00e7a Libertadora Nacional (ALN), do Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio (PCBR) e do Movimento Revolucion\u00e1rio 8 de Outubro (MR-8), est\u00e1 diretamente ligado \u00e0s pol\u00eamicas dentro do PCB envolvendo a revolu\u00e7\u00e3o cubana, o m\u00e9todo da guerrilha cubana e o foco guerrilheiro.<\/p>\n<p>Em 1967, por conta do <em>Informe do Balan\u00e7o do CC ao VI Congresso<\/em>, expressa-se toda a diverg\u00eancia entre a maioria da dire\u00e7\u00e3o do partido e os grupos dissidentes que defendem que o partido adote as teses da guerrilha e da luta armada para o Brasil. Segundo Carlos Alberto Bar\u00e3o(2003), a dire\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria do PCB defende a solidariedade \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cubana mas est\u00e1 contra as teses para a expans\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o cubana na Am\u00e9rica Latina atrav\u00e9s da luta armada e feita por pequenos focos, bem como o car\u00e1ter socialista da luta armada<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. Formou-se ent\u00e3o, a Corrente Revolucion\u00e1ria, dissid\u00eancia no interior do PCB que defendia a luta armada para combater a ditadura contra a orienta\u00e7\u00e3o da maioria, que defendia uma luta de massas pac\u00edfica. Da Corrente Revolucion\u00e1ria surgiram dois grupos: a ALN, dirigida por Carlos Marighella e Joaquim C\u00e2mara Ferreira, que defendiam a guerrilha como nova organiza\u00e7\u00e3o de vanguarda e o PCBR, dirigido por M\u00e1rio Alves, Jacob Gorender e Apol\u00f4nio de Carvalho, que continuavam defendendo a necessidade do partido marxista-leninista.<\/p>\n<p>As origens do MR-8, tem um cap\u00edtulo \u00e0 parte, pois surgiu antes da ALN e do PCBR, entre os anos de 1965 e 1966, a partir da ruptura das bases universit\u00e1rias com o PCB em todos os cantos do Brasil, com as chamadas Dissid\u00eancias Estudantis (DIs). As mais importantes surgiram no Rio de Janeiro, com a DI-RJ e a DI-Guanabara. A DI-RJ tinha base entre os estudantes e trabalhadores de Niter\u00f3i; rompeu com o PCB em 1966 aderindo \u00e0s teses da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Este grupo chegou a participar de a\u00e7\u00f5es armadas urbanas e se preparava para lan\u00e7ar um \u201cfoco\u201d rural no sudoeste do Paran\u00e1, mas nunca prosperou, pois foi descoberto pela pol\u00edcia e totalmente desestruturado. Em meados de 1969, a organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido desestruturada pela repress\u00e3o no campo e na cidade. A publica\u00e7\u00e3o, com a qual o nome ficou conhecido se chamava <em>8 de Outubro<\/em>, em homenagem a Che Guevara, que foi capturado na Bol\u00edvia nesta mesma data de 1967. Segundo Marcelo Ridenti (2007), a Dissid\u00eancia da Guanabara decidiu assumir o nome MR-8 para desmoralizar a repress\u00e3o, em setembro de 1969.<\/p>\n<p>De acordo ainda com Ridenti, a DI-GB j\u00e1 existia dentro do PCB desde 1964, na cidade do Rio de Janeiro e no fim de 1966 foi consumada a cis\u00e3o com o partido, realizando sua confer\u00eancia no in\u00edcio de 1967. No transcorrer do ano de 1968 houve um crescimento muito grande da DI-GB, estando \u00e0 frente das entidades estudantis cariocas e dos movimentos de ruas que abalaram a ditadura, liderados por Vladimir Palmeira e outros companheiros<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Com o refluxo do movimento estudantil em 1969 e o aumento da repress\u00e3o a DI-GB passou a tomar parte nas a\u00e7\u00f5es armadas no RJ, ficando conhecida pelo sequestro do embaixador norte-americano, que foi trocado por prisioneiros das organiza\u00e7\u00f5es. Essa a\u00e7\u00e3o atraiu muitos quadros para a organiza\u00e7\u00e3o, inclusive o capit\u00e3o Lamarca, que trocou a VPR pelo MR-8 na \u00e9poca.<\/p>\n<p>De todos estes grupos, o principal representante da linha castro-guevarista no Brasil foi, sem d\u00favida, a ALN. O livro de Carlos Marighella, <em>Minimanual do guerrilheiro urbano<\/em> foi o livro de orienta\u00e7\u00e3o da luta armada mais conhecido no mundo. Sua inspira\u00e7\u00e3o direta foram as obras de Che Guevara \u201cGuerra de Guerrilhas\u201d (1960) e E\u00a0 \u201cGuerra de Guerrilhas: um m\u00e9todo\u201d (1963). Na primeira obra Che tentava sistematizar alguns ensinamentos da revolu\u00e7\u00e3o cubana e suas tr\u00eas conclus\u00f5es centrais: 1.as for\u00e7as populares podem ganhar uma guerra contra o ex\u00e9rcito; 2.nem sempre tem que se esperar que se d\u00eaem todas as condi\u00e7\u00f5es para a revolu\u00e7\u00e3o, pois o foco insurrecional pode cria-las e, 3. na Am\u00e9rica Latina, o terreno da luta armada deve ser fundamentalmente o campo. J\u00e1 na segunda obra defende mais categoricamente a teoria do foco, que resumindo seria: \u201cprimeiro organiza-se um grupo armado, de forma conspirativa, isolado da a\u00e7\u00e3o do povo e reduzido a um pequeno n\u00famero de iniciados\u201d; depois esse grupo realiza um ataque bem-sucedido que faz com que sua fama cres\u00e7a, atraindo alguns camponeses sem terra e jovens de outras classes para suas fileiras; o grupo realiza novos ataques e continua incorporando novas pessoas; nas \u00e1reas libertadas constr\u00f3i instala\u00e7\u00f5es, onde passa a elaborar meios para sua a\u00e7\u00e3o e avan\u00e7ar sobre o territ\u00f3rio controlado pelo governo; de sucesso em sucesso, a guerrilha passa a se organizar em \u201cex\u00e9rcito popular\u201d, capaz de derrotar as for\u00e7as da opress\u00e3o; seria a etapa inicial da revolu\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p><strong><em>Conclus\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Vimos que mesmo rompendo com a pol\u00edtica pacifista do PCB, que condenou o uso da luta armada no Brasil, tanto as organiza\u00e7\u00f5es que defendiam a t\u00e1tica da \u201cguerra popular prolongada\u201d, como o PC do B, quanto as que sustentavam a teoria do foco guerrilheiro inspiradas no castro-guevarismo e na revolu\u00e7\u00e3o cubana, como a ALN, PCBR e MR-8, defendiam a concep\u00e7\u00e3o etapista da revolu\u00e7\u00e3o brasileira, onde caberia alian\u00e7as com organiza\u00e7\u00f5es burguesas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vimos que nenhuma das organiza\u00e7\u00f5es conseguiu cumprir na pr\u00e1tica as t\u00e1ticas presentes nos livros e manuais da guerrilha cubana ou da guerra popular de Mao-Tse-Tung. A ALN, PCBR e MR-8 acabaram ficando somente na guerrilha urbana e nos sequestros e nunca conseguiram instaurar nenhum foco no campo, na zona rural; o PC do B, acabou na pr\u00e1tica, instaurando na \u201cGuerrilha do Araguaia\u201d, a t\u00e1tica de um \u201cfoco\u201d guerrilheiro, sem nunca chegar a uma guerra popular prolongada para destruir a ditadura militar.<\/p>\n<p>O saldo das a\u00e7\u00f5es guerrilheiras isoladas das massas foi o assassinato e massacre de jovens militantes pelo Ex\u00e9rcito e for\u00e7as armadas, como vimos no Araguaia e nas grandes cidades como RJ, SP e outras capitais. O erro fatal dessas organiza\u00e7\u00f5es foi transportar simplesmente o m\u00e9todo de fazer guerrilhas sem avaliar profundamente as condi\u00e7\u00f5es objetivas. No caso da China de Mao-Tse-Tung houve uma combina\u00e7\u00e3o de ascenso campon\u00eas e popular contra a invas\u00e3o japonesa, que empurrou e animou a luta contra a burguesia chinesa encabe\u00e7ada por Chiang-Kai-Chek, que depois da guerra contra a invas\u00e3o japonesa tentou dizimar o movimento revolucion\u00e1rio; na \u201cGrande Marcha\u201d, o ex\u00e9rcito vermelho de Mao-Tse-Tung, praticamente havia sido exterminado nos combates, pela fome, chegando ao final apenas dez mil combatentes, dos cem mil. No caso de Cuba, Fidel Castro e Che Guevara admitiram que quando desceram a Sierra Maestra n\u00e3o passavam de um punhado de vinte combatentes; foi gra\u00e7as \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular nas cidades que eles puderam entrar em Havana com moral e como a \u00fanica for\u00e7a pol\u00edtica reconhecida ao regime do ditador Batista.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, inclusive, o impacto da revolu\u00e7\u00e3o cubana foi t\u00e3o forte que levou muitas organiza\u00e7\u00f5es por fora do stalinismo, como foi o caso de corrente trotsquistas ligadas ao Secretariado Unificado (SU), dirigidas por Ernest Mandel a capitularem ao m\u00e9todo do foco guerrilheiro<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, levando toda uma gera\u00e7\u00e3o \u00e0 morte e \u00e0 desmoraliza\u00e7\u00e3o, ao se alistarem nos diversos grupos guerrilheiros que se formaram nos diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, como Peru, Col\u00f4mbia, dentre outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> . Raimundo Santos. Crise e Pensamento Moderno no PCB dos anos 50. In: Jo\u00e3o Quartim de Moraes e Daniel Aar\u00e3o Reis (Orgs.). <em>Hist\u00f3ria do Marxismo no Brasil<\/em>, Vol I, O impacto das Revolu\u00e7\u00f5es, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o revista, Campinas: SP, Editora da Unicamp, 2003, pp 234.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> . Jean Rodrigues Sales. Partido Comunista do Brasil: defini\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e trajet\u00f3ria pol\u00edtica. In: <em>Hist\u00f3ria do Marxismo no Brasil<\/em>, Vol 6, Partidos e Movimentos ap\u00f3s os anos 1960, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Campinas: SP, Editora da Unicamp, 2007, p. 67.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> . Idem ibidem, p. 69<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> . Idem ibidem, p. 75.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> . Idem ibidem. Parte II, O Caminho da Luta Armada, item 1.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> . Carlos Aberto Bar\u00e3o. A Influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana Sobre a esquerda brasileira nos anos 60, pp 290-291. In: MORAES, Jo\u00e3o Quartim de e REIS FILHO, Daniel Aar\u00e3o. <em>Hist\u00f3ria do Marxismo no Brasil,<\/em> vol. 1, O impacto das revolu\u00e7\u00f5es, 2\u00aa ed. Revista, Campinas: SP, 2003,<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> . Marcelo Ridenti. Esquerdas Armadas Urbanas: 1964-1974. Pp.112-116. In: RIDENTI, Marcelo, REIS, Daniel Aar\u00e3o. <em>Hist\u00f3ria do Marxismo No Brasil<\/em>, vol.6, Partidos e Movimentos Ap\u00f3s os Anos de 1960. Campinas: SP, Editora da Unicamp, 2007.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> . Carlos Aberto Bar\u00e3o, obra citada, pp.\u00a0 273-275.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> . Nahuel Moreno, Eugenio Greco e Alberto Franceschi, Tesis sobre el Guerrillerismo, 1973. In: <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/guerriller\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/guerriller<\/a>; acesso em 18\/02\/23.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jo\u00e3o Santiago, da coordena\u00e7\u00e3o da CST Par\u00e1 A hist\u00f3ria do PCB a partir do XX Congresso do PCUS da ex-URSS, em fevereiro de 1956, onde Kruschev denunciou para todo o mundo os crimes de St\u00e1lin, foi uma hist\u00f3ria de rachas e divis\u00f5es. 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