

	{"id":15086,"date":"2022-05-17T17:25:36","date_gmt":"2022-05-17T20:25:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=15086"},"modified":"2024-05-17T18:23:56","modified_gmt":"2024-05-17T21:23:56","slug":"a-proposito-de-um-sequestro-grupo-ponto-de-partida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2022\/05\/17\/a-proposito-de-um-sequestro-grupo-ponto-de-partida\/","title":{"rendered":"&#8220;A proposito de um sequestro&#8221;, grupo Ponto de Partida"},"content":{"rendered":"<p>O texto &#8220;A proposito de um sequestro&#8221;, do grupo Ponto de Partida \u00e9 uma critica marxista das concep\u00e7\u00f5es \u201cvanguardistas\u201d da esquerda guerrilheira brasileira.<\/p>\n<p>Um n\u00facleo de militantes oriundos de distintas organiza\u00e7\u00f5es, exilados no Chile, <span style=\"font-family: inherit; font-style: inherit; font-weight: inherit;\">chegam a conclus\u00e3o de que as esquerdas guerrilheiras estava equivocadas. Tomam contato com o trotskismo e passam a defender a teoria e programa da revolu\u00e7\u00e3o permanente e a estrat\u00e9gia transicional. Eles\u00a0<\/span><span style=\"font-family: inherit; font-style: inherit; font-weight: inherit;\">escrevem esse extenso artigo em fevereiro de 1971, sendo publicado na Revista da Am\u00e9rica 8-9 de maio\/agosto de 1972.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Sua conclus\u00f5es fundamentais seguem vitais para um balan\u00e7o da esquerda dos anos 60 e 70, o combate a concep\u00e7\u00f5es vanguardistas e elitistas e para uma estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Trata-se de uma bagagem program\u00e1tica que esta na origem da corrente Morenista no Brasil, cuja trajet\u00f3ria a CST reivindica.<\/p>\n<p>Boa leitura<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A PROP\u00d3SITO DE UM SEQUESTRO<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Grupo \u201cPonto de Partida\u201d \u2013 Brasil<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>(Apresenta\u00e7\u00e3o escrita para a publica\u00e7\u00e3o na Revista da Am\u00e9rica)<\/p>\n<p>Passado um ano, as linhas b\u00e1sicas do documento \u201cA prop\u00f3sito de um sequestro\u201d, conservam sua validade. No entanto, algumas explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias. Em primeiro lugar, deve ser levado em considera\u00e7\u00e3o o momento pol\u00edtico em que foi escrito.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1971, toda a col\u00f4nia de brasileiros residentes no Chile estava sob o impacto do sequestro do embaixador su\u00ed\u00e7o, realizado por grupos de guerrilheiros urbanos, que buscavam libertar presos pol\u00edticos das m\u00e3os dos carrascos da ditadura militar do Brasil. Havia um clima de justificada euforia, quando, depois de delicadas negocia\u00e7\u00f5es, a ditadura libertou os 70 companheiros, enviando-os a Santiago do Chile.<\/p>\n<p>Toda a alegria e solidariedade, que despertou a chegada dos companheiros, n\u00e3o favoreceram, no entanto, as discuss\u00f5es objetivas para avaliar as concep\u00e7\u00f5es mais gerais em que estavam localizadas estas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, n\u00f3s, do grupo \u201cPonto de Partida\u201d \u2013 pequena tend\u00eancia de exilados brasileiros dedicados \u00e0 tarefa pol\u00edtica de ajudar a constru\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio no Brasil \u2013 sab\u00edamos que poderia se desencadear uma forte barreira cr\u00edtica, e at\u00e9 de insultos, quando este documento fosse publicado.<\/p>\n<p>No entanto, para lan\u00e7ar uma cr\u00edtica te\u00f3rica e pol\u00edtica sobre as concep\u00e7\u00f5es ultraesquerdistas que dominam a vanguarda revolucion\u00e1ria no Brasil, aquele era o momento indicado, apesar do risco de ficarmos isolados. Toda esta situa\u00e7\u00e3o explica o tom, \u00e0s vezes exageradamente pol\u00eamico do documento.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos, portanto, fazer algumas retifica\u00e7\u00f5es formais, que n\u00e3o alteram em nada a argumenta\u00e7\u00e3o. Mas, como o documento foi amplamente divulgado, inclusive na imprensa trotskista mundial (\u201cIntercontinental Press\u201d, \u201cInternational Socialist Review\u201d, etc.), decidimos manter sua forma original para sua publica\u00e7\u00e3o na \u201cRevista de Am\u00e9rica\u201d.<\/p>\n<p>Faremos uma s\u00f3 retifica\u00e7\u00e3o, que implica tamb\u00e9m uma autocritica parcial. No cap\u00edtulo VI (\u201cUm autor infeliz\u201d), criticamos duramente o companheiro Ruy Mauro Marini por suas opini\u00f5es a respeito do sequestro do embaixador norte-americano no Brasil. Continuamos considerando reiteradamente equivocadas e ultraesquerdistas as opini\u00f5es que o autor de \u201cSubdesenvolvimento e Revolu\u00e7\u00e3o\u201d tem sobre essa quest\u00e3o. Por\u00e9m, nos autocriticamos pela afirma\u00e7\u00e3o: \u201cCaso Marini fosse um marxista saberia entender o que Trotsky procurou demonstrar\u2026\u201d, contida no cap\u00edtulo citado. Mesmo que agora, atrav\u00e9s do seman\u00e1rio \u201cChile Hoy\u201d, o mesmo autor exalte o governo de Allende com ardentes paneg\u00edricos das \u201ct\u00e1ticas\u201d negociadoras da Unidade Popular com a Democracia Crist\u00e3, consideramos que, todavia, n\u00e3o devemos julg\u00e1-lo definitivamente, como fazemos neste documento.<\/p>\n<p>Por outro lado, como um exemplo de cr\u00edtica sect\u00e1ria a nosso documento, registraremos os coment\u00e1rios feitos pelo companheiro Stein (Partido Oper\u00e1rio Comunista, membro individual da IV Internacional) e que foram publicados no \u201cInternacional Information Bulletin\u201d de novembro de 1971. Um estudo objetivo de nosso texto responde por si s\u00f3 \u00e0s cr\u00edticas formuladas. Nos deteremos a estas cr\u00edticas somente porque prov\u00eam de um companheiro da IV Internacional, com a qual temos as melhores rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Citaremos textualmente os pontos fundamentais de sua cr\u00edtica, n\u00e3o nos responsabilizando pela tradu\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cEste discurso de um estudante de filosofia \u00e9, de fato, dif\u00edcil de engolir para qualquer pessoa que tenha experi\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es da luta revolucion\u00e1ria no Brasil, sob a ditadura militar. \u00c9 evidente que as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias mais importantes podem e devem ser criticadas desde o ponto de vista do marxismo revolucion\u00e1rio. Mas, todo o racioc\u00ednio do documento do \u2018Ponto de Partida\u2019 se baseia na argumenta\u00e7\u00e3o de que os sequestros produzem uma repress\u00e3o mais intensa. Esse \u00e9 um argumento do mais puro estilo social-democrata, que sustenta que a a\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios \u00e9 a respons\u00e1vel pela repress\u00e3o das classes dominantes. \u00c9 uma vergonhosa posi\u00e7\u00e3o socialdemocrata, e \u00e9 lament\u00e1vel ler isto na imprensa trotskista\u201d<\/p>\n<p>\u201cAs outras cr\u00edticas do documento com rela\u00e7\u00e3o aos sequestros s\u00e3o totalmente abstratas. O autor parece n\u00e3o ser consciente de que o principal objetivo dos sequestros \u00e9 libertar os prisioneiros pol\u00edticos das pris\u00f5es da Ditadura\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAssim, o \u201cPonto de Partida\u201d, do qual ningu\u00e9m escutou falar antes, parte a dar li\u00e7\u00f5es de forma tal que jamais influenciar\u00e1 um s\u00f3 militante brasileiro. E que autocomplac\u00eancia, que arrog\u00e2ncia ao querer julgar o que \u00e9 marxista e o que n\u00e3o \u00e9.\u201d (P\u00e1g. 24, edi\u00e7\u00e3o citada)<\/p>\n<p>Depois de citar os principais argumentos do companheiro Stein, convidamos o leitor a verificar por si mesmo, o sectarismo das cr\u00edticas e a incompreensibilidade de uma s\u00f3 linha do documento.<\/p>\n<p>Transcorrido um ano, as posi\u00e7\u00f5es ultraesquerdistas no Brasil aprofundaram seu isolamento pol\u00edtico e org\u00e2nico das massas, al\u00e9m de sua pr\u00f3pria derrota militar. Uma autocritica profunda dos grupos vanguardistas nos parece prov\u00e1vel em prazos previs\u00edveis e, pouco a pouco, amadurecem e se desenvolvem nas novas vanguardas as concep\u00e7\u00f5es marxistas da constru\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0Santiago, mar\u00e7o de 1972.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>PONTO DE PARTIDA.<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A prop\u00f3sito de um sequestro<\/strong><\/p>\n<p>Uma redescoberta do marxismo parece ser a tarefa n\u00famero um da vanguarda revolucion\u00e1ria brasileira. Como diz Debray em Ponto Final, longos e profundos debates te\u00f3ricos levantados pelos marxistas no in\u00edcio do s\u00e9culo s\u00e3o ainda atuais em nossa \u00e9poca. Esta declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o traz nada novo em si mesma, a n\u00e3o ser o fato de ter sido pronunciada por Debray. Com o livro \u201cRevolu\u00e7\u00e3o na Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, o jovem revolucion\u00e1rio franc\u00eas polarizou os debates te\u00f3ricos sobre a revolu\u00e7\u00e3o latino-americana. Cinco ou seis anos depois de editada a obra, o autor declara, humilde e subitamente, que desconhecia a import\u00e2ncia e a atualidade das conquistas te\u00f3ricas do marxismo de todo um per\u00edodo hist\u00f3rico. Abandonemos, por um instante, a humildade subjacente na declara\u00e7\u00e3o, que mostra um revolucion\u00e1rio com vontade de avan\u00e7ar no dom\u00ednio do marxismo, para ater-nos a um aspecto importante: como foi poss\u00edvel a um jovem revolucion\u00e1rio carente de teoria revolucion\u00e1ria, arrastar toda uma gera\u00e7\u00e3o de militantes pol\u00edticos a uma pr\u00e1tica que as experi\u00eancias hist\u00f3ricas do passado j\u00e1 haviam condenado? Seria uma simplifica\u00e7\u00e3o inadmiss\u00edvel imaginar Debray como respons\u00e1vel e causador do fen\u00f4meno conhecido na Am\u00e9rica Latina como foquismo. Mais razo\u00e1vel \u00e9 v\u00ea-lo como produto de uma situa\u00e7\u00e3o, em uma rela\u00e7\u00e3o de causa-efeito-causa. Ao fazer esta confiss\u00e3o, Debray nos induz a pensar que ele desconhecia, at\u00e9 bem pouco tempo, o papel que o Iskra teve no desenvolvimento do marxismo na R\u00fassia. Trotsky disse, em seu livro Em defesa do Marxismo, que \u201co Iskra come\u00e7ou com a luta contra o chamado \u2018economicismo\u2019 dentro do movimento oper\u00e1rio e contra os narodnikis (Partido dos Socialistas Revolucion\u00e1rios)\u201d. O principal argumento dos \u201ceconomicistas\u201d era que o Iskra vagava no reino da teoria, enquanto eles se propunham dirigir o movimento oper\u00e1rio concreto. O principal argumento dos socialistas revolucion\u00e1rios era: \u201co Iskra quer fundar uma escola de materialismo dial\u00e9tico, enquanto n\u00f3s queremos derrotar a autocracia czarista\u201d. Deve-se destacar que os narodnikis interpretavam literalmente suas palavras: de bombas nas m\u00e3os, sacrificavam suas vidas. Os editores e redatores do Iskra respondiam: \u201cem certas circunst\u00e2ncias, uma bomba \u00e9 uma coisa excelente, mas antes devemos elucidar nossas mentes\u201d. Pertence \u00e0 experi\u00eancia hist\u00f3rica que a maior revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria da hist\u00f3ria n\u00e3o foi dirigida pelo partido que come\u00e7ou com bombas e sim pelo partido que come\u00e7ou com o materialismo dial\u00e9tico.<\/p>\n<p>Essa digress\u00e3o nos \u00e9 imposta quando olhamos o quadro da Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira. N\u00e3o se deve esconder a surpresa que provoca a falta de perspectivas de valentes revolucion\u00e1rios que parecem ter perdido o norte hist\u00f3rico. Como se o marxismo, h\u00e1 muito tempo, n\u00e3o houvesse assinalado o papel determinante das massas no avan\u00e7o hist\u00f3rico, um setor da esquerda brasileira procura substituir essas verdades pela vontade de algumas d\u00fazias de homens. Lenin dizia que os narodnikis eram a pequena burguesia armada de bombas e rev\u00f3lveres. N\u00e3o \u00e9 preciso esclarecer que a express\u00e3o \u201cpequena burguesia\u201d, para Lenin era, antes de mais nada, uma categoria sociol\u00f3gica e n\u00e3o uma simples adjetiva\u00e7\u00e3o como em nossos dias. Seria arbitr\u00e1rio empregar esta mesma caracteriza\u00e7\u00e3o para o punhado de homens que \u201carmados de bombas e rev\u00f3lveres\u201d, sequestram embaixadores na Am\u00e9rica Latina, certos de que est\u00e3o dando o melhor de si mesmos \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o? Antes de responder a esta pergunta, devemos formular outra: Ser\u00e1 poss\u00edvel que os revolucion\u00e1rios brasileiros, que assaltam bancos e sequestram embaixadores, falando de uma certa revolu\u00e7\u00e3o ideal, que nada tem a ver com a pr\u00e1tica social, nunca tenham se perguntado por que no Brasil o governo est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de manter milhares de revolucion\u00e1rios na pris\u00e3o sem que as massas exploradas possam opor qualquer tipo de resist\u00eancia? Busque em todos os documentos e publica\u00e7\u00f5es dos chamados grupos armados brasileiros e n\u00e3o se encontrar\u00e1 nada a respeito desta quest\u00e3o. Com a carga pesada de adjetivos, pr\u00f3pria de uma linguagem n\u00e3o cient\u00edfica, a literatura pol\u00edtica revolucion\u00e1ria no Brasil se viu reduzida a um n\u00e3o dizer nada, a um afirmar moral-voluntarista-abstrato.<\/p>\n<p>A filosofia idealista se cansou de acusar os marxistas de terem uma vis\u00e3o fatalista da hist\u00f3ria. Apoiavam-se no princ\u00edpio marxista de que a hist\u00f3ria \u00e9 regida por leis inerentes a seu pr\u00f3prio desenvolvimento. Acreditavam, assim, que o homem, para Marx, era um simples objeto da hist\u00f3ria, incapaz de dirigi-la segundo seus ideais. Detr\u00e1s destes argumentos se escondia a inten\u00e7\u00e3o de encobrir o verdadeiro car\u00e1ter atuante do pensamento marxista. Para Marx, a hist\u00f3ria \u00e9 regida por leis que lhe s\u00e3o inerentes. Ao homem cabe a tarefa de descobrir estas leis para assim poder atuar sobre a hist\u00f3ria, com liberdade superior aos que simplesmente negam as leis hist\u00f3ricas. Veremos, mais abaixo, que o fatalismo \u00e9 mais pr\u00f3prio do pensamento idealista ou daquelas pessoas que, sem dizerem-se idealistas, subestimam, na pr\u00e1tica, a concep\u00e7\u00e3o marxista da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Com esta r\u00e1pida incurs\u00e3o no terreno filos\u00f3fico, procuramos apenas apontar os riscos e as consequ\u00eancias a que est\u00e3o condenados todos os que querem negar as leis hist\u00f3ricas, ou esquecer o m\u00e9todo dial\u00e9tico atrav\u00e9s do qual se busca uma dada realidade. A jovem vanguarda brasileira que se lan\u00e7ou cegamente ao caminho da luta armada, cometeu um erro ainda maior, pois ignorou e negou a pr\u00f3pria realidade social, abandonando assim o pr\u00f3prio contexto das leis hist\u00f3ricas. Dizemos que o erro foi maior, na medida em que se sabe que mesmo o pr\u00f3prio fil\u00f3sofo idealista que v\u00ea o mundo como uma cria\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito n\u00e3o chegar\u00e1 nunca, em seu del\u00edrio, a colocar sua cabe\u00e7a sobre os trilhos por onde o trem passar\u00e1. N\u00e3o obstante, isso foi o que se fez no Brasil. Ignorando os princ\u00edpios b\u00e1sicos da luta de classes, e de sua pr\u00f3pria luta, incapaz de compreender o significado profundo das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as sociais, a vanguarda no Brasil se desprendeu das massas e reduziu a revolu\u00e7\u00e3o a uma disputa entre o aparato do Estado e algumas centenas de revolucion\u00e1rios. As consequ\u00eancias n\u00e3o podiam ser diferentes. A hist\u00f3ria parece ironizar aqueles que simplesmente passaram por cima de suas experi\u00eancias anteriores.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o de centenas de valorosos revolucion\u00e1rios e a desarticula\u00e7\u00e3o dos grupos armados exige uma profunda revis\u00e3o. Fa\u00e7amos como Debray, voltemos humildemente ao a-b-c do marxismo.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Uma tentativa de resposta<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O que permite ao governo atuar sem oposi\u00e7\u00e3o aparente no Brasil \u00e9 a aus\u00eancia de organismos atrav\u00e9s dos quais as massas exploradas possam expressar seu descontentamento. Se n\u00e3o se entende isso, n\u00e3o se entender\u00e1 porque 51% da popula\u00e7\u00e3o das grandes cidades votou em branco nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, sem que antes ou depois deste fato se tenha dado um movimento massivo de protesto contra o governo. As elei\u00e7\u00f5es revelaram em profundidade a defasagem que existe entre a repulsa de amplos setores de massas com respeito ao governo e a aus\u00eancia de uma organiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da qual se possa expressar esta repulsa. A ditadura militar no Brasil toma corpo e vida para o proletariado atrav\u00e9s das restri\u00e7\u00f5es salariais e da aus\u00eancia de liberdades sindicais. Somente irrespons\u00e1veis afirmariam que o proletariado est\u00e1 satisfeito em ter sal\u00e1rios baixos, forma atrav\u00e9s da qual a burguesia acumula capitais para o investimento. Atomizada e desorganizada, a classe oper\u00e1ria viu nas elei\u00e7\u00f5es uma oportunidade de aglutinar-se. No cintur\u00e3o prolet\u00e1rio de S\u00e3o Paulo, 51% dos votos foram brancos ou nulos, e 30% restante deu maioria aos candidatos do MDB. Este \u00faltimo n\u00famero expressa a oposi\u00e7\u00e3o dos setores mais atrasados do proletariado. A solidez do governo militar brasileiro guarda, ent\u00e3o, rela\u00e7\u00e3o direta com a impot\u00eancia das massas e est\u00e1 impot\u00eancia subsistir\u00e1 enquanto as massas permane\u00e7am desorganizadas. Esta \u00e9 a verdade cristalina que o foquismo foi incapaz de perceber.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta compreender o significado da organiza\u00e7\u00e3o de massas. \u00c9 necess\u00e1rio levar em conta que o descontentamento em si mesmo n\u00e3o conduz as massas \u00e0 luta. Este descontentamento pode subsistir latente por um longo per\u00edodo. No come\u00e7o se expressar\u00e1, ou se expressa de fato, em min\u00fasculos atritos de classes, que apenas podem ser considerados como pren\u00fancios de futuros grandes enfrentamentos.<\/p>\n<p>A partir destas pequenas lutas a classe vai forjando sua vanguarda. A dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deve unir-se a este processo e ir forjando a organiza\u00e7\u00e3o que permitir\u00e1 a interven\u00e7\u00e3o massiva da classe. Transformar um acontecimento isolado em experi\u00eancia que deve ser generalizada em temos organizativos, esta \u00e9 a tarefa da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Os presos pol\u00edticos e as massas<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Ao falar que o proletariado em suas lutas reivindicat\u00f3rias s\u00f3 \u00e9 capaz de produzir o fen\u00f4meno do sindicalismo, Lenin mostrava a diferen\u00e7a que existe entre a vanguarda pol\u00edtica e a social. A vanguarda social surge espontaneamente das lutas reivindicativas da classe e n\u00e3o do sindicalismo em si mesmo.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o interessar ao tema que se pretende tratar neste documento, n\u00e3o vamos aprofundar a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o da vanguarda pol\u00edtica. Por agora nos basta recordar que ela \u00e9 fruto de um processo complexo, cujos pontos de refer\u00eancias e laborat\u00f3rios s\u00e3o as sider\u00fargicas, as f\u00e1bricas etc.; em conclus\u00e3o: a classe oper\u00e1ria (um elemento novo para os vanguardistas), sua for\u00e7a social, suas lutas parciais.<\/p>\n<p>Quando os trabalhadores de uma empresa qualquer protestam contra as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, destacam-se os oper\u00e1rios que s\u00e3o porta-vozes da classe diante dos patr\u00f5es. Assim se inicia uma distin\u00e7\u00e3o social entre a \u201cmassa\u201d e a \u201cvanguarda\u201d. Geralmente estes oper\u00e1rios se distinguem do grupo caracterizando-se por uma intelig\u00eancia mais aguda e uma maior abnega\u00e7\u00e3o de classe. Ent\u00e3o, s\u00e3o vistos pelo conjunto dos trabalhadores como seus \u201crepresentantes\u201d enquanto os patr\u00f5es os veem como inimigos potenciais que devem ser isolados da \u201cconviv\u00eancia social\u201d. V\u00edtima inevit\u00e1vel de repres\u00e1lias, esta vanguarda recebe o respaldo dos companheiros de f\u00e1brica. Surge assim, uma rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia entre a vanguarda social e a classe. Abandonada \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte, fechada entre as paredes da empresa, essa vanguarda n\u00e3o poder\u00e1 ampliar seus horizontes e sentir a rela\u00e7\u00e3o que existe entre a luta reivindicativa na f\u00e1brica e o regime social como um todo. Entra aqui o papel da vanguarda pol\u00edtica. Localizar e educar esta camada de dirigentes fabris \u00e9 a tarefa dos revolucion\u00e1rios marxistas. Educando-os, se construir\u00e1 o canal atrav\u00e9s do qual chegar\u00e3o \u00e0 classe os elementos formativos de sua pr\u00f3pria consci\u00eancia. E este mesmo canal \u00e9 o que far\u00e1 com que as massas conhe\u00e7am e respeitem seus dirigentes pol\u00edticos regionais e nacionais.<\/p>\n<p>O instinto que levou os oper\u00e1rios a defenderem seus l\u00edderes na f\u00e1brica poder\u00e1 conduzir, na medida da profundidade dos la\u00e7os estabelecidos, a que estes mesmos oper\u00e1rios defendam os dirigentes pol\u00edticos da repress\u00e3o governamental. Ningu\u00e9m ignora a infinidade de fatores que interv\u00eam na forma\u00e7\u00e3o da vanguarda social, apressando ou retardando sua gesta\u00e7\u00e3o. A simplifica\u00e7\u00e3o do processo de enlace entre a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a vanguarda social e, por \u00faltimo, as massas, tem por finalidade apenas esbo\u00e7ar um esquema geral.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias os oper\u00e1rios da Fiat de C\u00f3rdoba, na Argentina, ocuparam a empresa e fizeram seus diretores de ref\u00e9ns para exigir a imediata reincorpora\u00e7\u00e3o ao trabalho de sete companheiros demitidos. O governo deu prazo de tr\u00eas horas para que os oper\u00e1rios abandonassem as instala\u00e7\u00f5es fabris. Imediatamente outras empresas vizinhas entraram em greve solidarizando-se. O governo retrocedeu e ordenou o retorno dos oper\u00e1rios demitidos. Este fato mostra o grau de compromisso entre as massas e suas vanguardas. Expressa tamb\u00e9m uma etapa especial das rela\u00e7\u00f5es entre as for\u00e7as sociais e revela, por \u00faltimo, a for\u00e7a das massas organizadas.<\/p>\n<p>A partir deste momento abandonaremos o termo \u201cfoquista\u201d. Tanto as duras derrotas impostas \u00e0 vanguarda revolucion\u00e1ria brasileira (pela tentativa de levar \u00e0 pr\u00e1tica estas concep\u00e7\u00f5es err\u00f4neas), como a pr\u00f3pria autocr\u00edtica do principal te\u00f3rico do foquismo \u2013 Regis Debray \u2013 transformaram o termo quase em um adjetivo pejorativo. Na verdade, todos aqueles que ainda n\u00e3o superaram as concep\u00e7\u00f5es foquistas fazem cr\u00edticas parciais e\/ou t\u00e9cnicas a esta vis\u00e3o e desejam escapar desta classifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Atendendo a estas peculiaridades e \u00e0s insufici\u00eancias do termo \u201cfoquismo\u201d, j\u00e1 que o foco guerrilheiro propriamente dito nunca chegou a materializar-se na pr\u00e1tica destas vanguardas, passaremos a chamar de \u201cvanguardista\u201d este desvio pol\u00edtico. Estamos certos, inclusive, de que o termo caracteriza muito mais precisamente o equ\u00edvoco essencial da concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>III. O sequestro e a liberdade de um preso pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez mais voltemos \u00e0s declara\u00e7\u00f5es do ex-teorico do foquismo, Regis Debray, feitas para a revista Punto Final (5 de janeiro de 1971). Nesta entrevista, Debray explica sua liberta\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o das press\u00f5es do movimento de massas: \u201c<em>Por algum motivo me enviaram a Camiri; por algum motivo fizeram esse c\u00e1rcere. Camiri \u00e9 um lugar sem universidade, sem organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria. H\u00e1 uma pequena aristocracia oper\u00e1ria petroleira, um sindicato controlado pelos barrientistas e os yankees, como muitos petroleiros do mundo, e esse sindicato nunca se interessou pelo problema. Se eu estivesse em Cochabamba, em Santa Cruz, ou em La Paz, no Pan\u00f3ptico dessa cidade, como todos os demais presos pol\u00edticos, eu teria sa\u00eddo antes. Quando se produziu o golpe que derrubou Ovando, se produziu, pelo lapso de algumas horas, um vazio de poder. Um grupo de universit\u00e1rios armados se apresentou no Pan\u00f3ptico e \u00e0 for\u00e7a p\u00f4s em liberdade os presos pol\u00edticos<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Se at\u00e9 os movimentos mais prim\u00e1rios de massas pressup\u00f5em certa organicidade, o que dizer das lutas pol\u00edticas que se prop\u00f5em a libertar dirigentes populares. O vanguardismo se caracteriza, principalmente, pela tend\u00eancia a simplificar a realidade din\u00e2mica, porque assim se consegue uma ilus\u00f3ria autonomia em rela\u00e7\u00e3o a esta mesma realidade. A \u00fanica \u201clente\u201d que a pequena-burguesia pode utilizar para apreender a realidade hist\u00f3rica \u00e9 aquela compar\u00e1vel a sua pr\u00f3pria autossufici\u00eancia.\u00a0 \u00c9 dif\u00edcil para um pequeno-burgu\u00eas captar o que Marx entendia ao afirmar que \u201co motor da hist\u00f3ria \u00e9 a luta de classes\u201d.<\/p>\n<p>Um pequeno-burgu\u00eas, invariavelmente, trata de separar os acontecimentos pol\u00edticos de seu fundamento social, j\u00e1 que existe uma contradi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre uma an\u00e1lise classista dos fatos e a posi\u00e7\u00e3o social e a educa\u00e7\u00e3o da pequena-burguesia.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um longo processo molecular marcado por avan\u00e7os e retrocessos sucessivos. Captar o significado profundo das lutas de classes em seus momentos agudos e, tamb\u00e9m, nos momentos de refluxo, \u00e9 a maneira como se constr\u00f3i uma vanguarda revolucion\u00e1ria e se preparam os novos saltos adiante.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o resultado obtido quando se sequestra um embaixador para obrigar o governo a libertar algumas d\u00fazias de revolucion\u00e1rios? No dia seguinte, esse mesmo governo poder\u00e1 impunemente encarcerar centenas de outros militantes pol\u00edticos, sem que as massas possam opor qualquer tipo de resist\u00eancia. N\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es de princ\u00edpios as que levam os marxistas a oporem-se aos sequestros. O que se discute \u2013 e aqui se encontra o ponto b\u00e1sico da quest\u00e3o -, \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o que se esconde atr\u00e1s destas a\u00e7\u00f5es. Quando os Narodnikis se armavam com bombas e rev\u00f3lveres para derrubar a autocracia russa tendiam, inconscientemente, a conseguir seu objetivo descartando as massas. A hist\u00f3ria os condenou.<\/p>\n<p>A ditadura militar no Brasil desarticulou e desorganizou o movimento de massas. Em consequ\u00eancia, e aproveitando-se de outros fatores conjunturais, conseguiu dinamizar o sistema, promovendo uma real acelera\u00e7\u00e3o do desenvolvimento econ\u00f4mico. Ao alcan\u00e7ar vit\u00f3rias reais neste campo, lhe foi poss\u00edvel neutralizar oposi\u00e7\u00f5es de amplos setores da pequena-burguesia, recuperando-os como base de apoio social do sistema. Assim, a burguesia brasileira ganhou para si um novo per\u00edodo hist\u00f3rico. N\u00e3o vamos tratar aqui das profundas contradi\u00e7\u00f5es que acompanham esta etapa do desenvolvimento capitalista do Brasil, que permitem prever crises em um tempo cronol\u00f3gico relativamente curto. Tampouco vamos tratar em profundidade outros fatores internacionais, como a crise geral do capitalismo mundial, que acelera o momento da crise e conspira contra a relativa estabilidade conseguida pelo capitalismo brasileiro. O que importa \u00e9 ter presente esta realidade, e saber que nenhum grupo revolucion\u00e1rio poder\u00e1 desconhec\u00ea-la impunemente. A pol\u00edtica do \u201cavestruz\u201d aqui \u00e9 t\u00e3o conden\u00e1vel como sempre.<\/p>\n<p>A ditadura militar conseguiu para si uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as sociais que a favorecem momentaneamente. Este \u00e9 o fator b\u00e1sico que lhe permite manter presos milhares de militantes revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os sequestros de embaixadores, as a\u00e7\u00f5es armadas da vanguarda, n\u00e3o alteram esta realidade. H\u00e1 mais de um s\u00e9culo Marx descobriu que o desenvolvimento capitalista traz consigo contradi\u00e7\u00f5es que o conduz a crises c\u00edclicas. O modelo brasileiro n\u00e3o escapa a esta lei. A brusca dinamiza\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o econ\u00f4mico far\u00e1 agudizar violentamente as contradi\u00e7\u00f5es e acelerar o passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 crise. Os marxistas que n\u00e3o ignoram a for\u00e7a da realidade social, atuam dentro desta perspectiva. Sabem que a aproxima\u00e7\u00e3o dos momentos de estrangulamento econ\u00f4mico, traz consigo profundos descontentamentos sociais que fazem sentir sua press\u00e3o a partir das camadas mais exploradas da popula\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s camadas intermedi\u00e1rias da sociedade. Que estes per\u00edodos, se caracterizam por profundos deslocamentos das massas pequeno-burguesas, que retiram seu apoio ao sistema. O n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o do proletariado e a lucidez pol\u00edtica de seu partido ser\u00e3o os fatores que poder\u00e3o determinar a transforma\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica e social em crise revolucion\u00e1ria. O acerto da t\u00e1tica pol\u00edtica do partido oper\u00e1rio est\u00e1 medido, por vezes, pela capacidade do proletariado em arrastas atr\u00e1s de si amplas massas pequeno-burguesas. Seria um grande erro imaginar mecanicamente que estas crises surgem sem que se manifestem sintomas pr\u00e9vios. Ao contr\u00e1rio, elas s\u00e3o fruto da soma de pequenas contradi\u00e7\u00f5es que se agudizam no tempo e no espa\u00e7o, traduzindo-se inicialmente em pequenos choques de classes. A prepara\u00e7\u00e3o do proletariado e a educa\u00e7\u00e3o de sua vanguarda pol\u00edtica come\u00e7am a partir das lutas moleculares que se desenvolvem na base das associa\u00e7\u00f5es, ainda que nos per\u00edodos de refluxo compar\u00e1veis ao que se vive hoje no Brasil. Integrar-se com as massas, crescer junto ao fluxo ascendente para depois emergir como o n\u00facleo consciente do processo, \u00e9 tarefa da vanguarda. Os que hoje pensam poder saltar toda esta etapa de prepara\u00e7\u00e3o receber\u00e3o mais de uma vez o veredicto da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por que as massas n\u00e3o protestam hoje contra as deten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas? Mesmo os mais inveterados vanguardistas n\u00e3o chegariam ao rid\u00edculo de afirmar que as massas s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0s a\u00e7\u00f5es repressivas da ditadura. Mas, ao acumular sucessivas derrotas e incapazes de compreender as causas que as determinam, n\u00e3o est\u00e1 longe o dia em que se ouvir\u00e1 o \u201crevolucion\u00e1rio\u201d pequeno-burgu\u00eas afirmar que a culpa \u00e9 das massas ignorantes ou atrasadas que n\u00e3o entendem o altru\u00edsmo dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Poucos oper\u00e1rios, talvez nenhum, estariam hoje dispostos a participar de uma greve pela liberdade dos presos pol\u00edticos no Brasil. Este fato, contudo, n\u00e3o permite que se conclua que entre as milhares de f\u00e1bricas do pa\u00eds, n\u00e3o haja, neste momento, movimentos da classe para impedir a demiss\u00e3o de um companheiro que teve participa\u00e7\u00e3o em uma luta reivindicat\u00f3ria qualquer. A a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria da classe \u00e9 fruto da pr\u00e1tica social. Quando um oper\u00e1rio presencia uma a\u00e7\u00e3o punitiva contra seu l\u00edder na f\u00e1brica, imediatamente sente que a medida \u00e9 contra ele mesmo e n\u00e3o s\u00f3 contra a v\u00edtima direta. Que haja protestos coletivos contra o patr\u00e3o, isso depender\u00e1 do grau de organiza\u00e7\u00e3o das massas a n\u00edvel da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Por outro lado, quando um jovem revolucion\u00e1rio, incutido da melhor inten\u00e7\u00e3o, assalta um banco, o mesmo oper\u00e1rio anterior, n\u00e3o tem como unir o assalto com os problemas trabalhistas de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Com o c\u00e9rebro cheio de concep\u00e7\u00f5es ou esquemas revolucion\u00e1rios que abstrai da realidade social, esse jovem pretende lutar contra o governo. Este modelo de pensamento e a\u00e7\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a vida do oper\u00e1rio, que se v\u00ea permanentemente submetido pela dura realidade que o rodeia.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Uma experi\u00eancia recente<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Quando os militares argentinos conseguiram a duras penas conter o levante de C\u00f3rdoba de 1969, as pris\u00f5es foram enchidas de l\u00edderes prolet\u00e1rios. \u00c9 uma lei hist\u00f3rica: se o impulso revolucion\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 suficientemente forte para varrer o poder das classes exploradoras, dar-se-\u00e1 claramente um per\u00edodo de refluxo, marcado pela contraofensiva reacion\u00e1ria. Abre-se, ent\u00e3o, uma etapa em que a vanguarda tem como tarefa principal retroceder com as massas organizando o retrocesso. Os partidos revolucion\u00e1rios exigem das massas uma grande concentra\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Todos os nervos ou m\u00fasculos s\u00e3o tensionados ao m\u00e1ximo. Se o movimento \u00e9 derrotado, o des\u00e2nimo predomina entre as massas, que tamb\u00e9m repercute sobre o partido revolucion\u00e1rio. Medir exatamente o alcance e a profundidade do retrocesso \u00e9 a primeira tarefa. O dom\u00ednio desses fatos permite estabelecer em que ponto a retirada pode ser detida. Ent\u00e3o, formulam-se as consignas defensivas, destinadas a preservar os organismos das massas: liberdades sindicais, imprensa oper\u00e1ria livre, etc. Apontando em dire\u00e7\u00e3o ao futuro das lutas, inicia-se a agita\u00e7\u00e3o entre as massas de \u201cslogans\u201d vinculados \u00e0 liberdade dos dirigentes pol\u00edticos presos.<\/p>\n<p>Esta pr\u00e1tica foi desenvolvida na Argentina. O movimento derrotado em maio de 1969 retomou seu curso nos \u00faltimos meses do ano, obrigando a ditadura militar a libertar os dirigentes oper\u00e1rios que estavam em seu poder, inclusive o principal deles nessa \u00e9poca, Ongaro.<\/p>\n<p>No caso argentino \u00e9 importante ressaltar que se o vigoroso movimento de massas teve suficiente impulso para que os militares se vissem obrigados a soltar a maioria dos presos pol\u00edticos, sempre se ressentiu pela aus\u00eancia de uma vanguarda pol\u00edtica definida, que se expressasse em um partido revolucion\u00e1rio da classe oper\u00e1ria. Esta aus\u00eancia nos parece o principal fator que explica o refluxo do movimento, que, se por um lado obteve grandes vit\u00f3rias parciais, n\u00e3o chegou a por em perigo o poder da burguesia argentina.<\/p>\n<p>Utilizamos este exemplo porque coincide no tempo com o primeiro sequestro do embaixador realizado no Brasil: o de Elbrick. A a\u00e7\u00e3o realizada em setembro obteve os resultados propostos: quinze revolucion\u00e1rios foram libertados. Contudo, ao final do ano, as pris\u00f5es brasileiras mantinham pelo menos duas centenas a mais de prisioneiros. Na Argentina, em per\u00edodo id\u00eantico, eles estavam sendo libertados. Pode-se citar uma infinidade de outros exemplos mais recentes: Bol\u00edvia, Peru e Chile em 1970. Todos eles confirmam a regra de que a \u00fanica for\u00e7a capaz de quebrar a resist\u00eancia reacion\u00e1ria de um governo \u00e9 aquela que se apoia no movimento de massas.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Argumentos que denunciam uma concep\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O \u00fanico agente ativo da hist\u00f3ria, para Marx, s\u00e3o as massas. Os vanguardistas, em momento algum, declaram o contr\u00e1rio. Basta ler, no entanto, as justificativas usadas para explicar os sequestros e imediatamente salta \u00e0 vista a concep\u00e7\u00e3o que se esconde por tr\u00e1s destas a\u00e7\u00f5es. A principal delas \u00e9 de que \u201cno Brasil n\u00e3o h\u00e1 outro meio de conseguir a liberdade dos presos da ditadura\u201d. Realmente n\u00e3o se pode contestar tal afirma\u00e7\u00e3o. Principalmente quando se sabe que o governo liberta quinze e prende mais de duzentos.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia do foquismo \u00e9 sua vis\u00e3o voluntarista da hist\u00f3ria. Acreditam s\u00f3 nos resultados de suas a\u00e7\u00f5es vanguardistas. Est\u00e3o convencidos de que sem os sequestros, os revolucion\u00e1rios presos no Brasil est\u00e3o condenados a sofrerem vinte ou trinta anos de pris\u00e3o. Os marxistas revolucion\u00e1rios, sabendo interpretar a realidade mundial e tendo confian\u00e7a nas massas, afirmam, sem o menor medo de errar, que a hist\u00f3ria, em nossa \u00e9poca, avan\u00e7a muito depressa para que se possa crer em duas outras d\u00e9cadas de aus\u00eancia de liberdades no Brasil. A justificativa usada pelos vanguardistas denota uma certa dose de fatalismo, que pode ser traduzida tamb\u00e9m por desprezo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s massas. S\u00e3o incapazes de apoiar-se na confian\u00e7a de que as massas participar\u00e3o em futuras jornadas de luta, que passar\u00e3o, inevitavelmente, pela exig\u00eancia de liberdades para todos os presos pol\u00edticos. Ent\u00e3o sim, teremos a certeza de que a ditadura ter\u00e1 que soltar todos e n\u00e3o s\u00f3 quinze em troca de duzentos.<\/p>\n<p>Um vanguardista pouco prevenido argumentaria: \u201cbem, os marxistas podem ter raz\u00e3o, mas se esquecem que quando sequestramos um embaixador, exigimos a liberta\u00e7\u00e3o dos melhores quadros revolucion\u00e1rios\u201d. Ningu\u00e9m por\u00e1 em d\u00favida o valor e a dedica\u00e7\u00e3o de todos os revolucion\u00e1rios trocados pelos embaixadores sequestrados. Muito menos levantar\u00e1 d\u00favidas sobre o valor daqueles que continuam detidos no Brasil. Contudo, ao empregar este crit\u00e9rio de valora\u00e7\u00f5es, nosso hipot\u00e9tico vanguardista desprevenido deve estar lamentando-se neste momento, depois do sequestro do embaixador su\u00ed\u00e7o. A ditadura militar brasileira foi quem, em \u00faltima inst\u00e2ncia, decidiu quais revolucion\u00e1rios poderiam ser libertados e quais n\u00e3o. (Quatro listas foram submetidas \u00e0 decis\u00e3o da ditadura)<\/p>\n<p>A partir destes acontecimentos, seria uma precipita\u00e7\u00e3o afirmar que os melhores revolucion\u00e1rios foram aqueles cujos nomes o governo vetou ou que entre os sessenta existiam muitos cuja dedica\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria poderia ser questionada. Um pensamento fechado pode transformar-se em um bumerangue e voltar-se contra o pr\u00f3prio autor.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Um autor infeliz<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A pobreza te\u00f3rica de certos autores de obras sobre economia e sociologia se manifesta acentuadamente quando se lan\u00e7am no terreno da pol\u00edtica. Ruy Mauro Marini em sua obra Subdesenvolvimento e Revolu\u00e7\u00e3o (M\u00e9xico, 1969), ao querer encontrar justificativas pol\u00edticas para o sequestro de Elbrick afirma: \u201cPor\u00e9m, a a\u00e7\u00e3o desmoralizou as for\u00e7as armadas, evidenciou a subordina\u00e7\u00e3o do governo brasileiro ao norte-americano; etc.\u201d (p\u00e1g. 157 da obra citada). Para o autor, a decis\u00e3o do governo brasileiro ao aceitar as imposi\u00e7\u00f5es dos sequestradores era uma confiss\u00e3o p\u00fablica de sua subordina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao imperialismo norte-americano. Agora, depois que se conhecem os resultados dos sequestros de outros diplomatas de diferentes nacionalidades, o racioc\u00ednio de Marini poderia conduzir \u00e0 conclus\u00e3o de que a chamada \u201csubordina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d se estende a tantos pa\u00edses quanto embaixadores foram sequestrados. Ou que o Uruguai \u00e9 um pa\u00eds \u201cindependente\u201d dos EUA.<\/p>\n<p>Caso Marini fosse um marxista saberia entender o que Trotsky procurou demonstrar quando dizia: \u201co marxismo parte da concep\u00e7\u00e3o da economia mundial, n\u00e3o como uma am\u00e1lgama de part\u00edculas nacionais, mas como uma realidade potente com vida pr\u00f3pria criada por uma divis\u00e3o internacional do trabalho e do mercado mundial, que impera nos tempos atuais sobre os mercados nacionais\u201d.<\/p>\n<p>Para os marxistas n\u00e3o existe uma \u201csubordina\u00e7\u00e3o\u201d pol\u00edtica, mas uma interdepend\u00eancia pol\u00edtico-econ\u00f4mica que abarca o mundo capitalista como um todo.<\/p>\n<p><strong>VII. Argumentos finais<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se costuma afirmar que os sequestros exp\u00f5em as fissuras do aparato do Estado, revelando as discuss\u00f5es entre os diferentes grupos de militares do governo. Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 incontest\u00e1vel. S\u00f3 deixa sem resposta a seguinte quest\u00e3o: De que adianta expor estas divis\u00f5es, se as massas nestes momentos n\u00e3o podem aproveitar-se delas para tomar o poder? N\u00e3o seria mais razo\u00e1vel romper de uma vez por todas com as concep\u00e7\u00f5es vanguardistas e retomar o marxismo? A tarefa da vanguarda revolucion\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 expor, ante os olhos das massas, fissuras do aparato do Estado. \u00c9, antes de tudo, construir o poder que poder\u00e1 ocupar o lugar do Estado burgu\u00eas. Poder que s\u00f3 pode basear-se nas massas organizadas; e o trabalho de organiz\u00e1-las se inicia a partir dos n\u00facleos de dire\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>Quando setores importantes do proletariado se lan\u00e7arem \u00e0 luta no Brasil, essas lutas se refletir\u00e3o no aparato do Estado, expondo muitas fissuras. Quanto mais profundas forem essas fissuras, maiores ser\u00e3o as possibilidades do proletariado de seguir golpeando o sistema.<\/p>\n<p>Quanto mais golpes receba o sistema, mais amplas e profundas ser\u00e3o as discuss\u00f5es inter-burguesas. Todas as institui\u00e7\u00f5es da sociedade capitalista ser\u00e3o abaladas pelos enfrentamentos de classe. O pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito ser\u00e1 corro\u00eddo desde baixo, e fraturado por cima.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi arbitr\u00e1ria a elei\u00e7\u00e3o da justificativa que debateremos. Se as concep\u00e7\u00f5es vanguardistas se mostram fragmentariamente em cada um dos argumentos antes discutidos, no que segue elas se apresentam de forma completa. Est\u00e1 na moda no meio pequeno-burgu\u00eas de esquerda, ouvir dizer que os sequestros causam \u201cimpacto sobre as massas\u201d ou que os sequestros s\u00e3o muito bons \u201ccomo ve\u00edculo de propaganda armada generalizada\u201d, ou que \u201cas massas aplaudem tais a\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Criar impacto sobre as massas, com que finalidade? O que se pretende exatamente com a propaganda armada? Ningu\u00e9m o explica! Ser\u00e1 que ignoram que a for\u00e7a do proletariado est\u00e1 justamente no fato de que est\u00e1 em suas m\u00e3os a alavanca principal do poder burgu\u00eas: as f\u00e1bricas? Ou ent\u00e3o teremos que admitir que a propaganda \u00e9 dirigida principalmente \u00e0 pequena-burguesia, sempre disposta a vibrar com a\u00e7\u00f5es espetaculares.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m afirma que as massas aplaudem as a\u00e7\u00f5es de sequestro, os marxistas aplaudem com uma sauda\u00e7\u00e3o de agradecimento.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1, por fim, a confiss\u00e3o total. De agentes da hist\u00f3ria, as massas foram reduzidas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de simples espectadoras. S\u00f3 nos resta imaginar as massas exploradas do Brasil concentradas em um superest\u00e1dio de futebol para ver uma partida decisiva entre algumas centenas de revolucion\u00e1rios e o Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Aos espectadores s\u00f3 lhes restam duas alternativas: aplaudir ou repudiar a equipe dos revolucion\u00e1rios. N\u00e3o haver\u00e1 rep\u00fadios, estejam certos todos aqueles que n\u00e3o confiam nas massas. O inimigo principal continua sendo a ditadura militar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto &#8220;A proposito de um sequestro&#8221;, do grupo Ponto de Partida \u00e9 uma critica marxista das concep\u00e7\u00f5es \u201cvanguardistas\u201d da esquerda guerrilheira brasileira. Um n\u00facleo de militantes oriundos de distintas organiza\u00e7\u00f5es, exilados no Chile, chegam a conclus\u00e3o de que as esquerdas guerrilheiras estava equivocadas. Tomam<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15088,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-15086","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-e-formacao-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15086","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15086"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15086\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15088"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}