

	{"id":15448,"date":"2024-06-23T20:12:56","date_gmt":"2024-06-23T23:12:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=15448"},"modified":"2024-06-24T20:27:52","modified_gmt":"2024-06-24T23:27:52","slug":"brasil-10-anos-depois-rumo-a-um-bonapartismo-classico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/06\/23\/brasil-10-anos-depois-rumo-a-um-bonapartismo-classico\/","title":{"rendered":"Brasil \u2013 10 anos depois: rumo a um bonapartismo cl\u00e1ssico?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Brasil \u2013 10 anos depois: rumo a um bonapartismo cl\u00e1ssico?<\/strong><\/p>\n<p>A seguir publicamos o artigo \u201c<strong>10 anos depois: rumo a um bonapartismo cl\u00e1ssico?\u201d <\/strong>da Liga Oper\u00e1ria, organiza\u00e7\u00e3o trotskista que completa cinquenta anos agora. \u00c9 um trabalho de f\u00f4lego acerca do regime militar brasileiro. O texto foi originalmente publicado na <strong>Revista de Am\u00e9rica, n\u00ba 13, abril-maio\/1974, p. 43-50. <\/strong>At\u00e9 onde pudemos verificar a presente tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 pioneira. Assim disponibilizamos aos nossos leitores e leitoras um material de alta qualidade, hist\u00f3rica, pol\u00edtica e program\u00e1tica.<\/p>\n<p>A Liga Oper\u00e1ria \u00e9 antecessora da Converg\u00eancia Socialista, organiza\u00e7\u00e3o da qual a CST se originou. Nossa organiza\u00e7\u00e3o reivindica-se como parte integrante desse legado e dessa trajet\u00f3ria. A publica\u00e7\u00e3o dessa obra \u00e9 uma homenagem aos\u00a0 \u00a050 anos do texto e do inicio da corrente morenista no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Boa leitura!<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><strong>Brasil \u2013 10 anos depois: rumo a um bonapartismo cl\u00e1ssico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Liga Oper\u00e1ria, Revista de Am\u00e9rica, n\u00ba 13, abril-maio\/1974, p. 43-50<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em 1\u00ba de abril passado, a ditadura militar brasileira completou dez sangrentos anos. Para recordar esta brutal e gigantesca derrota da classe trabalhadora e do povo brasileiro, <\/em>Revista de Am\u00e9rica<em> escolheu um trabalho realizado por militantes da Liga Oper\u00e1ria. Nele se recapitula a hist\u00f3ria da ditadura e se analisam as perspectivas e as tarefas colocadas diante da vanguarda marxista daquele pa\u00eds. Constitu\u00edda por ativistas formados na luta contra o governo militar, a Liga Oper\u00e1ria se encontra hoje destinada \u00e0 tarefa de constituir no Brasil o partido marxista revolucion\u00e1rio, capaz de se colocar \u00e0 cabe\u00e7a das luta das massas.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O golpe de 1964 representa, no Brasil, o fracasso do nacionalismo burgu\u00eas, cuja pol\u00edtica trataram de aplicar os distintos governos, desde Get\u00falio Vargas em diante. Sendo a ideologia predominante na classe m\u00e9dia e no proletariado, e arrastando grandes setores das For\u00e7as Armadas, o nacionalismo burgu\u00eas possui uma longa trajet\u00f3ria, pois dominou o cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 50, quando Vargas assumiu a presid\u00eancia pela segunda vez, travando uma luta surda, mas sem maiores consequ\u00eancias, contra o imperialismo.<\/p>\n<p>A rivalidade com este aumenta de intensidade durante o governo de Juscelino Kubistcheck (1955-1960), e alcan\u00e7a seu ponto m\u00e1ximo no per\u00edodo de Goulart. Kubistcheck, para superar a depress\u00e3o econ\u00f4mica provocada principalmente pelo esgotamento da pol\u00edtica de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es aplicada no pa\u00eds desde a segunda guerra mundial, acaba abrindo o pa\u00eds aos investimentos estrangeiros nos setores em que a burguesia nacional n\u00e3o tinha influ\u00eancia (autom\u00f3veis, bens de capital). Essa penetra\u00e7\u00e3o estrangeira vai mudar, de certa forma, a correla\u00e7\u00e3o interna de for\u00e7as a favor do imperialismo ainda que n\u00e3o o suficiente para que este, por exemplo, tivesse \u00eaxito em sua tentativa de impedir a posse do governo por parte de J\u00e2nio Quadros (em 1961) e de Jo\u00e3o Goulart (sete meses depois). A for\u00e7a do nacionalismo burgu\u00eas nas For\u00e7as Armadas garantiu a subida de Goulart.<\/p>\n<p>Goulart representava fundamentalmente \u00e0 burguesia agr\u00e1ria do Rio Grande do Sul, aliada aos criados de gado e aos produtores de bens de consumo n\u00e3o dur\u00e1veis. Sua pol\u00edtica se baseava, portanto, na expans\u00e3o do mercado interno por meio de uma melhor distribui\u00e7\u00e3o da renda nacional, na prote\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria nacional e no desenvolvimento do setor agropecu\u00e1rio, principalmente a produ\u00e7\u00e3o de carnes para a exporta\u00e7\u00e3o. Esta pol\u00edtica prejudicava, de fato, \u00e0 burguesia ligada ao capital estrangeiro e assustava aos latifundi\u00e1rios do Nordeste, frente a possibilidade concreta de uma reforma agr\u00e1ria que distribu\u00edsse a terra entre os camponeses.<\/p>\n<p>O pa\u00eds passava por uma grave crise econ\u00f4mica que exigia solu\u00e7\u00f5es de fundo, estruturais, e n\u00e3o meramente conjunturais: a pol\u00edtica de substitui\u00e7\u00f5es de importa\u00e7\u00f5es j\u00e1 havia se esgotado, e esta situa\u00e7\u00e3o apresentava a necessidade de adotar um novo modelo de desenvolvimento da ind\u00fastria. O \u00edndice de crescimento econ\u00f4mico havia chegado a 5,3% em 1962, contra os 10,3% alcan\u00e7ados no ano anterior; a infla\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ava 81%; o d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio era de 504,6 bilh\u00f5es de cruzeiros; a d\u00edvida externa crescia a 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Apenas de juros, o Brasil deveria pagar em 1963-65 um total de 1,8 bilh\u00e3o de d\u00f3lares, o que representava 43% da receita de exporta\u00e7\u00f5es. O desenvolvimento agr\u00edcola alcan\u00e7ou em 1963 o ponto mais baixo dos \u00faltimos 20 anos e a cada ano o campo empurrava para a cidade milhares de camponeses, que a ind\u00fastria n\u00e3o podia absorver por falta de capacidade. Criava-se, assim, uma massa de desocupados que constitu\u00edam um verdadeiro \u201cperigo social\u201d, porque poderiam ser influenciados pelo movimento de massas em ascens\u00e3o. Ainda que fosse interessante para a burguesia manter um ex\u00e9rcito industrial de reserva, o aumento descontrolado desse ex\u00e9rcito, na situa\u00e7\u00e3o concreta dessa etapa (grande ascenso), constitu\u00eda um perigo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o proletariado se mobilizava cada vez mais combativamente. E, sendo incapaz de enfrentar sozinha a luta contra o imperialismo, a burguesia buscava o apoio da classe oper\u00e1ria, facilitando sua organiza\u00e7\u00e3o e aproveitando suas mobiliza\u00e7\u00f5es por aumentos salariais e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Controlando os sindicatos, uma burocracia ligada \u00e0 burguesia nacional (vinculada ao PTB, que era o partido de Vargas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>) ou ao Partido Comunista lan\u00e7ava a classe trabalhadora \u00e0s ruas para lutar pelos projetos burgueses de liberta\u00e7\u00e3o nacional: estatiza\u00e7\u00e3o das refinarias de petr\u00f3leo, lei de remessa de lucros ao exterior, etc.<\/p>\n<p>Essa intensa mobiliza\u00e7\u00e3o das massas trabalhadoras superava muitas vezes o controle das burocracias sindicais e arrancava da burguesia mais concess\u00f5es do que ela estava disposta a ceder. Ao mesmo tempo, a classe oper\u00e1ria desenvolve novas formas de organiza\u00e7\u00e3o e cria seu primeiro organismo a n\u00edvel nacional, o Comando Geral dos Trabalhadores, demonstrando uma decis\u00e3o de luta que vai muito al\u00e9m do que pretende a burguesia nacional. As greves gerais assumem caracter\u00edsticas de insurrei\u00e7\u00e3o, como a greve nacional de 1962 e a mobiliza\u00e7\u00e3o de 13 de mar\u00e7o de 1964, em apoio a Goulart.<\/p>\n<p>Por sua parte, o campesinato, frente a crise da agricultura, aumenta suas lutas pela terra. No Nordeste, se sucedem as ocupa\u00e7\u00f5es de campos e se fortalecem as Ligas Camponesas. Uma tentativa de Goulart de substituir as Ligas por sindicatos camponeses fracassa: o campesinato ingressa nos sindicatos, mas n\u00e3o abandona a Liga, que de certa forma passa a coordenar a atividade daqueles. A quest\u00e3o da reforma agr\u00e1ria se coloca na ordem do dia.<\/p>\n<p>A burguesia nacional no poder era incapaz de levar adiante as reformas necess\u00e1rias para solucionar a crise econ\u00f4mica do pa\u00eds. O Plano Trienal (projeto de reformas elaborado por Goulart em 1963), apresentava a reforma agr\u00e1ria, a nacionaliza\u00e7\u00e3o das empresas monopolistas e das riquezas b\u00e1sicas, a limita\u00e7\u00e3o da entrada de capital estrangeiro, a estatiza\u00e7\u00e3o dos bancos e do com\u00e9rcio exterior\u2026 mas este Plano jamais foi aplicado.<\/p>\n<p>O ascenso do movimento de massas assusta \u00e0 burguesia, e alguns de seus setores, principalmente os industriais e os pecuaristas de Minas Gerais (mas n\u00e3o os do Rio Grande do Sul), decidem apoiar o plano de derrubar o governo. A burguesia pecuarista do Sul acaba isolada e o apoio que tem no Ex\u00e9rcito n\u00e3o \u00e9 suficiente para enfrentar o resto do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Estrutura-se, assim, uma frente burguesa, que ganha a classe m\u00e9dia descontente por sua crescente proletariza\u00e7\u00e3o, pelo alto custo de vida e pela instabilidade pol\u00edtica, e possibilita o golpe de Estado que, em 1\u00ba de abril de 1964, derruba Goulart, que foge do pa\u00eds sem pena nem gl\u00f3ria. As organiza\u00e7\u00f5es do movimento oper\u00e1rio s\u00e3o desarticuladas, o Comando Geral dos Trabalhadores \u00e9 posto na ilegalidade, os principais dirigentes s\u00e3o presos, as Ligas Camponesas s\u00e3o dissolvidas e um clima de repress\u00e3o violenta se imp\u00f5e no pa\u00eds.<\/p>\n<p>As perguntas que ficaram no ar por algum tempo s\u00e3o: o proletariado brasileiro estava em condi\u00e7\u00f5es de resistir ou de impedir o golpe de Estado, ainda que n\u00e3o alcan\u00e7asse a tomada do poder? Quais foram os motivos pelos quais o movimento oper\u00e1rio se deixou derrotar praticamente sem resist\u00eancia? O que permitiu que a classe m\u00e9dia apoiasse t\u00e3o decididamente aos golpistas, lhes servindo como base social indispens\u00e1vel?<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental para os trabalhadores brasileiros e latino-americanos, e em especial para sua vanguarda, tomar consci\u00eancia de que as respostas adequadas para essas perguntas devem ser definitivamente incorporadas \u00e0 experi\u00eancia concreta do movimento de massas e de suas dire\u00e7\u00f5es. Neste sentido, os socialistas revolucion\u00e1rios apresentamos as respostas para tais perguntas, sustentadas pela nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia nacional e pela experi\u00eancia do movimento revolucion\u00e1rio mundial.<\/p>\n<p>As causas principais da derrota do movimento oper\u00e1rio brasileiro foram: por um lado, o fracasso hist\u00f3rico da ideologia e da pol\u00edtica das dire\u00e7\u00f5es nacionalistas burguesas, estabelecidas no governo desde Vargas em diante, e, por outro lado, a pol\u00edtica reformista do Partido Comunista, que jamais ofereceu \u00e0s massas uma alternativa independente da dire\u00e7\u00e3o burguesa pela qual eram arrastadas.<\/p>\n<p>O Partido Comunista amarrou o movimento popular \u00e0 burguesia nacional, o fez confiar em seu nacionalismo, nos \u201cmilitares patriotas\u201d, e freou a mobiliza\u00e7\u00e3o e a iniciativa da classe oper\u00e1ria, impedindo que ela se al\u00e7asse como uma alternativa clara e s\u00f3lida frente \u00e0s classes m\u00e9dias, que optaram, ent\u00e3o, entre duas dire\u00e7\u00f5es burguesas: a vacilante e incapaz dire\u00e7\u00e3o nacionalista, fracassada no governo, e a dire\u00e7\u00e3o golpista, reacion\u00e1ria e diretamente pr\u00f3-imperialista, por\u00e9m cheia de promessas e planos enganosos de um \u201cfuturo melhor\u201d.<\/p>\n<p>O Partido Comunista jamais deu \u00e0 classe trabalhadora uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clara contra o golpe de Estado que se aproximava. O Partido Comunista jamais foi, ent\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o da qual necessitava o movimento de massas para frear a rea\u00e7\u00e3o. Prova disso s\u00e3o as declara\u00e7\u00f5es de Lu\u00eds Carlos Prestes, Secret\u00e1rio Geral do PC, emitidas em 17 de mar\u00e7o, 14 dias antes do golpe: \u201cReiteramos o apoio do nosso partido a Frente Popular e \u00e0 pol\u00edtica de crescente press\u00e3o sobre o Congresso, para obter a aprova\u00e7\u00e3o das reformas estruturais\u201d. \u201cNosso objetivo segue sendo a conquista de um governo que, ainda sob o atual sistema e precedendo a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o, seja capaz de iniciar as reformas\u201d. \u201cO caminho pac\u00edfico \u00e9 o mais adequado aos interesses dos trabalhadores para levarmos a um governo nacionalista e democr\u00e1tico\u201d. <strong>Nem uma palavra sobre a necessidade de se mobiliza\u00e7\u00e3o para frear o golpe de Estado que se aproximava. Nenhuma pol\u00edtica, nenhuma orienta\u00e7\u00e3o ao movimento de massas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma tentativa bonapartista<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O golpe de 1964 foi, assim, a express\u00e3o da frente \u00fanica burguesa, dirigida para esmagar o ascenso da classe oper\u00e1ria e dos trabalhadores brasileiros. Os militares assumiram o poder por meio do general Castelo Branco, o que inicia um governo bonapartista cl\u00e1ssico de curta dura\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds exige que se defina imediatamente entre a colabora\u00e7\u00e3o total com o capitalismo internacional ou uma pol\u00edtica nacionalista consequente. Os militares se decidem pela primeira op\u00e7\u00e3o, golpeando a burguesia nacional industrial para favorecer o capital estrangeiro. Suas primeiras medidas s\u00e3o: revoga\u00e7\u00e3o da lei que limita a remessa de lucros ao exterior, limita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos, dr\u00e1stica conten\u00e7\u00e3o salarial para controlar a infla\u00e7\u00e3o, saneamento dos gastos p\u00fablicos e investimentos fiscais, controle de pre\u00e7os e cria\u00e7\u00e3o de inventivos aos investimentos estrangeiros e ao monop\u00f3lio de bancos e ind\u00fastrias. O resultado inicial dessas medidas \u00e9 a fal\u00eancia geral da burguesia nacional: 500 ind\u00fastrias de m\u00e9dio porte quebram entre 1964-65; 100 quebras de grandes empresas; 50 pequenos bancos (em geral, em m\u00e3os de burgueses regionais) s\u00e3o comprados por bancos estrangeiros.<\/p>\n<p>Esta pol\u00edtica debilita a burguesia nacional, que busca se reorganizar para fazer frente a sua destrui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Uma manifesta\u00e7\u00e3o do descontentamento que se espalha neste setor s\u00e3o as posi\u00e7\u00f5es assumidas pelo jornal Correio da Manh\u00e3, que havia apoiado com tudo o golpe de Estado: j\u00e1 em 1965 est\u00e1 na oposi\u00e7\u00e3o, em conflito direto com o governo. Nas elei\u00e7\u00f5es para governador, na Guanabara e em Minas Gerais, a oposi\u00e7\u00e3o ganha, o que leva os militares a aumentar as medidas repressivas: s\u00e3o dissolvidos todos os partidos pol\u00edticos; promove-se a forma\u00e7\u00e3o de um partido de governo, a ARENA (Alian\u00e7a Renovadora Nacional), e outro de oposi\u00e7\u00e3o, o MDB (Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro); \u00e9 estabelecida a elei\u00e7\u00e3o indireta para governadores estaduais, s\u00e3o suprimidos os direitos pol\u00edticos de todos aqueles considerados \u201cinimigos pol\u00edticos\u201d. Na aplica\u00e7\u00e3o destas san\u00e7\u00f5es, aparecem tanto nomes ligados \u00e0 burguesia nacional, quanto identificados com o golpismo: Adhemar de Barros, governador de S\u00e3o Paulo; Mauro Borges, governador de Goi\u00e1s; H\u00e9lio Fernandes, dono do jornal Tribuna da Imprensa.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o sobre o movimento oper\u00e1rio se dirige principalmente aos sindicatos, que sofrem interven\u00e7\u00e3o, e \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda. O enfraquecimento da burguesia nacional e a repress\u00e3o contra o movimento de massas permitem ao governo um per\u00edodo de estabilidade, que vai durar at\u00e9 1966. A partir deste ano, aquela se reorganiza, sobre a base de um ascenso do movimento estudantil e oper\u00e1rio, que culminar\u00e1 com as grandes lutas massivas de 1967-68.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O \u201cpopulismo\u201d de Costa e Silva<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O governo de Costa e Silva assume o poder com plena consci\u00eancia das contradi\u00e7\u00f5es cada vez mais aguda entre os distintos setores burgueses e de como tais contradi\u00e7\u00f5es se refletem no seio das For\u00e7as Armadas. Ainda que Castelo Branco tenha optado por uma pol\u00edtica econ\u00f4mica pr\u00f3-imperialista, a frente \u00fanica burguesa cristalizada para o golpe de Estado era heterog\u00eanea e, todavia, funcionava em n\u00edvel militar, pressionando os distintos setores nela reunidos para que impusessem suas respectivas pol\u00edticas. Dessa forma, o gabinete de Costa e Silva inclui militares abertamente nacionalistas (Albuquerque Lima, no Interior; Candal da Fonseca, na Petrobr\u00e1s) e ministros pr\u00f3-imperialistas (Delfim Neto, na Fazenda). As contradi\u00e7\u00f5es interburguesas, por um lado, e o ascenso do movimento de massas, por outro, explicam algumas caracter\u00edsticas populistas desse governo.<\/p>\n<p>O ascenso come\u00e7a no movimento estudantil, quando o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o busca aplicar a reforma universit\u00e1ria, que institu\u00eda o ensino pago. A classe m\u00e9dia, sofrendo as medidas de conte\u00e7\u00e3o salarial, reprimida e confrontada com o perigo de sua r\u00e1pida proletariza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia suportar esse novo golpe sobre sua economia. Ap\u00f3s pouco tempo de agita\u00e7\u00e3o, os estudantes ganham as ruas e enfrentam a pol\u00edcia, estendendo o movimento de S\u00e3o Paulo a Guanabara, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco, e alcan\u00e7ando o Cear\u00e1 e outros estados do pa\u00eds. A classe m\u00e9dia urbana se soma \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 reivindicam liberdades democr\u00e1ticas e contra a viol\u00eancia policial. Na Guanabara, 100 mil pessoas marcham reivindicando liberdades democr\u00e1ticas. Uma semana depois, 50 mil pessoas voltam a marchar. A morte de um estudante pela pol\u00edcia, em mar\u00e7o de 1968, d\u00e1 lugar \u00e0 maior manifesta\u00e7\u00e3o de massas desde a morte de Vargas, em 1954.<\/p>\n<p>No movimento oper\u00e1rio, o ascenso ocorre em torno da revoga\u00e7\u00e3o da lei de conten\u00e7\u00e3o salarial. Algumas correntes classistas e fra\u00e7\u00f5es separadas do Partido Comunista conseguiram conquistar os sindicatos logo ap\u00f3s a campanha pela elimina\u00e7\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es, na qual o governo, em uma tentativa de consolidar uma burocracia sindical atrelada ao regime, lan\u00e7ou a pol\u00edtica de normaliza\u00e7\u00e3o dos organismos da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Das organiza\u00e7\u00f5es que romperam com o Partido Comunista, cinco possu\u00edam car\u00e1ter nacional: a ALN (Alian\u00e7a Libertadora Nacional, dirigida por Carlos Marighela); O PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio, dirigido por M\u00e1rio Alves); CORRENTE; o MR-8 (Movimento Revolucion\u00e1rio 8 de outubro, onde militar\u00e1 Carlos Lamarca); e setores do POC (Partido Oper\u00e1rio Campon\u00eas, agora <em>se\u00e7\u00e3o simpatizante da IV Internacional-Maioria<\/em>). Estas organiza\u00e7\u00f5es, junto com o PC, se lan\u00e7am ao trabalho nos sindicatos e dirigem o ascenso do movimento oper\u00e1rio, que busca novas formas de organiza\u00e7\u00e3o para romper seu isolamento: na aus\u00eancia de uma Central \u00danica que pudesse unificar, generalizar e coordenar as manifesta\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds, cria-se o Movimento Intersindical Antiarrocho (MIA-Antiarrocho: contra a conten\u00e7\u00e3o salarial; <em>Arrocho<\/em> significa compress\u00e3o), que de S\u00e3o Paulo se estende \u00e0 Guanabara. O MIA promove gigantescas assembleias contra a lei salarial, manifesta\u00e7\u00f5es independentes dos festejos patrocinados pelo governo para o 1\u00ba de maio e leva \u00e0 vota\u00e7\u00e3o na Guanabara a greve geral dos oper\u00e1rios metal\u00fargicos, que n\u00e3o se concretiza devido \u00e0 derrota da greve de Osasco e ao esmagamento do movimento oper\u00e1rio em 1968.<\/p>\n<p>Osasco foi o ponto mais alto do ascenso do movimento oper\u00e1rio. Foi precedido pela grande greve de Contagem, em Minas Gerais. O sindicato metal\u00fargico de Minas, controlado por setores independentes e pelo Partido Comunista, foi quem mais se surpreendeu quando o movimento se iniciou de forma praticamente espont\u00e2nea. A greve se iniciou em uma f\u00e1brica e quase em seguida se estendeu a outras quatro, paralisando 15 mil oper\u00e1rios. Isto foi facilitado pelo fato de que em Contagem 80% da popula\u00e7\u00e3o trabalha nas ind\u00fastrias da regi\u00e3o. Com uma dire\u00e7\u00e3o inexperiente, conduzida por um Comit\u00ea de Greve t\u00e3o radicalizado que n\u00e3o quis negociar com o governo, e incapaz de estender o conflito, a greve estava destinada ao fracasso. Quando o governo ordenou a interven\u00e7\u00e3o policial e os dirigentes foram detidos, o movimento acabou.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Contagem, a greve de Osasco n\u00e3o foi espont\u00e2nea, mas lan\u00e7ada, dirigida e controlada pelo sindicato, cujo presidente, Jos\u00e9 Ibrahim, militava na VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria). Al\u00e9m disso, v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es similares (ALN, PCdoB-Ala Vermelha [mao\u00edsta], etc.) tinham influ\u00eancia na regi\u00e3o, todas elas cis\u00f5es do PC, que se dedicar\u00e3o mais tarde \u00e0 guerrilha urbana. O sindicato decretou a greve por aumento de sal\u00e1rios e sete f\u00e1bricas foram paralisadas: Brown Boveri, Osram, Lonaflex, Cobrasma, Braseixos, Rockwell, Granada e Barreto Keller, com um total de 6 mil oper\u00e1rios. O erro do sindicato foi ter lan\u00e7ado a greve antes de se assegurar que a estenderia \u00e0s grandes f\u00e1bricas (as que pararam eram todas de m\u00e9dio porte), o que faria o movimento se generalizar, deslocando seu centro de Osasco e ganhando a cidade de S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m disso, e para piorar, a greve foi lan\u00e7ada em um momento em que os estudantes estavam em f\u00e9rias de inverno. Somado a tudo isso, as formas de organiza\u00e7\u00e3o propostas pelas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda \u2013 os comit\u00eas clandestinos \u2013 impediam que se promovesse a extens\u00e3o do conflito, devido \u00e0 sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o \u00e0 clandestinidade, contr\u00e1ria \u00e0 necessidade de massificar e ampliar o movimento. Com a derrota sofrida nessa greve, se produz um per\u00edodo de refluxo. Em consequ\u00eancia disto, o governo militar se consolida e adota novas formas de repress\u00e3o contra a classe oper\u00e1ria, seus organismos e seus partidos pol\u00edticos. O Ato Institucional N\u00ba 5, promulgado em dezembro de 1968, marca o in\u00edcio de um novo regime de governo, o semifascismo. Dizemos <em>semifascismo<\/em> porque n\u00e3o se d\u00e3o algumas caracter\u00edsticas t\u00edpicas do fascismo, entre elas: mobiliza\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias enfrentando a classe oper\u00e1ria com m\u00e9todos de guerra civil, Constitui\u00e7\u00e3o corporativa, etc., ainda que se apliquem as mesmas formas de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, em sua maioria, giram \u00e0 ultraesquerda, e em vez de manter seu trabalho entre a classe oper\u00e1ria, se lan\u00e7am \u00e0 guerrilha urbana, retirando seus melhores quadros e dirigentes do movimento de massas: Jos\u00e9 Ibrahim, Barreto, Roque Aparecido e outros<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Sem maior prepara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e com conhecimentos te\u00f3ricos insuficientes, os grupos que rompiam com a pol\u00edtica reformista do PC buscando novos caminhos para a revolu\u00e7\u00e3o que o PC tra\u00eda, ca\u00edram no desvio castrista e debrayista, ocasionando a elimina\u00e7\u00e3o, inclusive f\u00edsica, das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e de seus melhores elementos.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 sobre a derrota do movimento oper\u00e1rio, em 1968, que se fortalece a pol\u00edtica da ditadura, especialmente a de conten\u00e7\u00e3o salarial, o que permitir\u00e1 o crescimento econ\u00f4mico, do ponto de vista capitalista, nos anos posteriores. Tal crescimento adormece as contradi\u00e7\u00f5es interburguesas, neutraliza a classe m\u00e9dia e permite a brutal repress\u00e3o,<\/p>\n<p>Analisando as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de 1967-68 e os seus resultados, fica clara a aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o que conduzisse firmemente o movimento de defesa e recupera\u00e7\u00e3o das conquistas suprimidas. Da mesma forma que em 1964, a classe oper\u00e1ria e os trabalhadores em geral responderam \u00e0s exig\u00eancias do momento, mas sua dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o o fez (seja o PC, a burguesia nacionalista ou as organiza\u00e7\u00f5es castristas). A inexist\u00eancia de um verdadeiro partido oper\u00e1rio revolucion\u00e1rio foi a principal causa da derrota do movimento de massas brasileiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d e o per\u00edodo M\u00e9dici<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fortalecido pelo esmagamento do movimento oper\u00e1rio em 1968, o governo do general M\u00e9dici tem as m\u00e3os livres para p\u00f4r em pr\u00e1tica a pol\u00edtica de assegurar as altas taxas de crescimento econ\u00f4mico do pa\u00eds sobre a base da superexplora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e da entrada de investimentos estrangeiros. M\u00e9dici reorienta sua pol\u00edtica para um fortalecimento do capitalismo financeiro e para a busca de mercados externos, sem abandonar as linhas gerais anteriores. O crescimento econ\u00f4mico se pauta fundamentalmente nos investimentos estrangeiros e estatais, j\u00e1 que a capacidade produtiva industrial existente, que fora capaz de manter as altas taxas de crescimento at\u00e9 1968, n\u00e3o eram suficientes para garanti-las por mais tempo nesta etapa. O Estado se encarrega das obras de infraestrutura e dos investimentos mais custosos. Isto \u00e9, se estabelece um acordo solid\u00e1rio entre o capitalismo internacional, predominantemente norte-americano, e o Estado brasileiro, por meio do qual ambos participam conjuntamente dos investimentos e da produ\u00e7\u00e3o nos principais setores din\u00e2micos da economia. O quadro a seguir mostra como essa solidariedade org\u00e2nica ocorre na pr\u00e1tica:<\/p>\n<p><strong><u>Capital estrangeiro<\/u><\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Material de transporte<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Material mec\u00e2nico<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Material el\u00e9trico<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Qu\u00edmica<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Servi\u00e7os financeiros<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Agropecu\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Extrativismo vegetal e mineral<\/strong><\/p>\n<p><strong><u>\u00a0<\/u><\/strong><\/p>\n<p><strong><u>Estado brasileiro<\/u><\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Programa de transportes terrestre e mar\u00edtimo<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Siderurgia<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Constru\u00e7\u00e3o civil, programa de energia el\u00e9trica, programa de comunica\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Petr\u00f3leo e derivados<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Servi\u00e7os de utilidade p\u00fablica<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Pol\u00edtica do caf\u00e9<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Min\u00e9rio de ferro<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os setores da burguesia ligados \u00e0 ind\u00fastria de bens de consumo n\u00e3o dur\u00e1veis (vestu\u00e1rio, cal\u00e7ados, t\u00eaxteis e de alimenta\u00e7\u00e3o), tradicionalmente ligados ao capital nacional, v\u00e3o encontrar uma sa\u00edda para seus problemas econ\u00f4micos na abertura do Brasil \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o. Assim, no per\u00edodo de 1969-72, a exporta\u00e7\u00e3o desses produtos aumentou 31,7% em rela\u00e7\u00e3o ao tri\u00eanio anterior. Os pecuaristas tamb\u00e9m desviam sua produ\u00e7\u00e3o para o mercado externo, chegando inclusive a ter problemas com o governo, preocupado pelo desabastecimento, que provoca o descontentamento da classe m\u00e9dia. Essa guinada da economia para o exterior permitir\u00e1 que todos os setores burgueses participem inicialmente do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, deixando adormecidas as contradi\u00e7\u00f5es que ir\u00e3o se manifestar com mais for\u00e7a nos anos seguintes.<\/p>\n<p>Os lucros obtidos com a exporta\u00e7\u00e3o fortalecem economicamente os setores burgueses nacionais, tanto aqueles ligados \u00e0 ind\u00fastria, quanto os que se dedicam \u00e0 agricultura, \u00e0 pecu\u00e1ria e \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de minerais, facilitando a acumula\u00e7\u00e3o de seus capitais. Almejando e necessitando de uma expans\u00e3o, tais setores tratam de investir no pa\u00eds, onde sofrem a concorr\u00eancia do capital estrangeiro, j\u00e1 implantado nos principais ramos, sendo muitas vezes obrigados pelo governo a se associarem com estes. Um exemplo disto \u00e9 o caso do industrial brasileiro Pignatari, que se dedica \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de minerais: viu-se obrigado a denunciar \u00e0 imprensa que o governo lhe exigia incluir capitais estrangeiros em uma nova empresa exploradora de cobre, que estabelecia na Bahia, a Cara\u00edba S.A.. A den\u00fancia era acompanhada por uma intensa campanha publicit\u00e1ria, sob o slogan \u201co cobre \u00e9 nosso\u201d. Diante disso, o governo optou por uma pol\u00edtica de for\u00e7a: acusou o industrial de evas\u00e3o de impostos, fez com que fosse detido pela pol\u00edcia pol\u00edtica e interveio na empresa. Uma semana depois, o interventor anunciava a associa\u00e7\u00e3o de capitais estrangeiros na Companhia Cara\u00edba S.A..<\/p>\n<p>Essas contradi\u00e7\u00f5es da burguesia industrial nacional, desejosa de se expandir e de investir seus capitais provenientes da exporta\u00e7\u00e3o (o Brasil exportou, em 1973, 1,1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares em produtos industriais, sendo 70% em bens de consumo n\u00e3o dur\u00e1veis), s\u00e3o agravadas pela crise econ\u00f4mica mundial: a desvaloriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar e a infla\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos fecham parcialmente o mercado norte-americano aos produtos brasileiros, e essa mesma contradi\u00e7\u00e3o em n\u00edvel mundial diminui a capacidade de absor\u00e7\u00e3o do mercado europeu. Nos mercados latino-americano e africano, o Brasil tem poucas possibilidades de competir com os pa\u00edses europeus e com o Jap\u00e3o, tanto na concess\u00e3o de cr\u00e9ditos, quanto nos baixos pre\u00e7os. Isto leva tais setores burgueses a se voltarem novamente para o mercado interno, que \u00e9 de 100 milh\u00f5es de habitantes, ainda que sua capacidade esteja restringida pela conten\u00e7\u00e3o salarial, pol\u00edtica que \u00e9 mantida firmemente pelo governo militar.<\/p>\n<p>Ao descontentamento da burguesia industrial, soma-se aquele dos agricultores. A agricultura passa por uma grande crise em virtude da falta de cr\u00e9dito aos propriet\u00e1rios brasileiros e da penetra\u00e7\u00e3o imperialista no campo, que conta com mais recursos e tecnologia. A participa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras em 1973 reflete essa crise: registrou-se uma queda de 31,6% no a\u00e7\u00facar; 27,6% no algod\u00e3o; 6,4% no caf\u00e9; e 35,9% na carne, esta \u00faltima em decorr\u00eancia das medidas restritivas impostas pelo governo para garantir o abastecimento interno.<\/p>\n<p>Assim, por raz\u00f5es diferentes, come\u00e7am a se manifestar as contradi\u00e7\u00f5es entre a burguesia nacional e o regime, depois de tr\u00eas anos de aparente coes\u00e3o.<\/p>\n<p>Tais contradi\u00e7\u00f5es se manifestam tanto em n\u00edvel regional como nacional. Internamente, a burguesia paulista sempre foi a mais favorecida pelo \u201cmilagre\u201d: fabricante de mat\u00e9rias-primas para as ind\u00fastrias estrangeiras ou diretamente ligada ao capitalismo internacional, ela se beneficia das medidas tomadas pelo governo federal, seja na forma de cr\u00e9ditos, de impostos \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, etc. Os setores burgueses de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, dedicados principalmente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos (carne e cereais), se sentem prejudicados n\u00e3o apenas no que se refere a cr\u00e9ditos e \u00e0 falta de acesso ao mercado externo, mas tamb\u00e9m pela pol\u00edtica governamental de estimular o desenvolvimento de empresas rurais no Nordeste, por meio de incentivos fiscais. Tais incentivos permitem que a burguesia paulista e o imperialismo, com maior capacidade de acumula\u00e7\u00e3o, apliquem seus capitais no setor agropecu\u00e1rio, competindo diretamente com os criadores do Sul.<\/p>\n<p>Os conflitos internos no partido do governo e no da oposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m refletem a intensidade dessas contradi\u00e7\u00f5es. Em Pernambuco, um setor da ARENA se une ao MDB para derrotar o presidente da C\u00e2mara de Deputados, que pertence a outro setor da ARENA; em Minas Gerais, o Secret\u00e1rio de Economia renuncia por diverg\u00eancias quanto a aplica\u00e7\u00e3o dos recursos provenientes de um cr\u00e9dito do BID (um setor prop\u00f5e destin\u00e1-lo a uma sociedade do Estado com a Fiat, enquanto outro grupo busca utiliz\u00e1-lo na expans\u00e3o da sider\u00fargica Usiminas); em S\u00e3o Paulo, um setor lan\u00e7a a candidatura a governador do ex-ministro Delfim Neto, enquanto outro, do mesmo partido, oficializa a candidatura do senador Paulo Eg\u00eddio.<\/p>\n<p>O MDB, partido que agrupa a burguesia nacional, se lan\u00e7a cada vez mais para a oposi\u00e7\u00e3o. Pela primeira vez em oito anos, apresenta um candidato \u00e0 presid\u00eancia e se manifesta publicamente em defesa de elei\u00e7\u00f5es diretas, anistia dos presos pol\u00edticos, habeas corpus, anula\u00e7\u00e3o do Ato Institucional N\u00ba 5, etc. O MDB se divide entre os grupos de classe m\u00e9dia, mais radicalizados (<em>os aut\u00eanticos<\/em>) e da burguesia nacional (<em>os moderados<\/em>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A din\u00e2mica dos distintos setores sociais<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a derrota de 1968, a classe m\u00e9dia brasileira v\u00ea seus \u00f3rg\u00e3os de express\u00e3o destru\u00eddos: os setores mais proletarizados (magist\u00e9rio, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, etc.) s\u00e3o violentamente reprimidos e sofrem as mesmas circunst\u00e2ncias que os oper\u00e1rios submetidos \u00e0 conten\u00e7\u00e3o salarial e \u00e0 interven\u00e7\u00e3o em suas organiza\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, a pol\u00edtica do governo n\u00e3o \u00e9 igual para toda a classe m\u00e9dia: os setores superiores, formados por t\u00e9cnicos, profissionais liberais, gerentes, etc. Se beneficiam diretamente com o \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, por meio da pol\u00edtica de cr\u00e9dito do governo, do est\u00edmulo aos investimentos na bolsa de valores, de sua capacidade de poupan\u00e7a e da possibilidade de adquirir bens de consumo dur\u00e1veis. Dessa forma, a classe m\u00e9dia \u00e9 neutralizada com a repress\u00e3o, por um lado, e com as vantagens econ\u00f4micas, por outro.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a crise da economia mundial, refletida no Brasil atrav\u00e9s da infla\u00e7\u00e3o, o desabastecimento e o aumento dos pre\u00e7os, al\u00e9m do esgotamento da capacidade de endividamento da classe m\u00e9dia, vai rompendo essa neutralidade. O descontentamento desse setor come\u00e7a a se manifestar com exig\u00eancias de maiores liberdades democr\u00e1ticas e no fortalecimento do MDB e de sua atividade de oposi\u00e7\u00e3o ao governo. Em outro sentido, h\u00e1 as campanhas contra a censura, pela liberdade de imprensa e pela restitui\u00e7\u00e3o das garantias individuais.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 classe oper\u00e1ria, aqui est\u00e1 a grande financiadora do \u201cmilagre brasileiro\u201d! Com seus sindicatos sob interven\u00e7\u00e3o ou controlados, sua vanguarda encarcerada ou afastada da luta, seja pela repress\u00e3o, por ter se lan\u00e7ado na guerrilha ou se exilado, os trabalhadores passaram por um per\u00edodo de desmobiliza\u00e7\u00e3o que chegou ao seu ponto mais baixo em 1971, e que facilitou o \u00eaxito da pol\u00edtica econ\u00f4mica da ditadura. Os sal\u00e1rios reais em S\u00e3o Paulo foram reduzidos em 23%, segundo mostram as estat\u00edsticas do DIEESE (Departamento Intersindical de Estat\u00edsticas e Estudos Socioecon\u00f4micos). A evolu\u00e7\u00e3o do \u00edndice do sal\u00e1rio m\u00ednimo real em S\u00e3o Paulo reflete isso de maneira clara:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1963 \u2013 100<\/p>\n<p>1964 \u2013 107,2<\/p>\n<p>1965 \u2013 101,2<\/p>\n<p>1966 \u2013 85<\/p>\n<p>1967 \u2013 80,4<\/p>\n<p>1968 \u2013 78,5<\/p>\n<p>1969 \u2013 75,7<\/p>\n<p>1970 \u2013 76,9<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas tal situa\u00e7\u00e3o de refluxo do movimento oper\u00e1rio come\u00e7a a mudar a partir de 1972, devido a v\u00e1rios fatores: o crescimento industrial provoca uma car\u00eancia de m\u00e3o de obra, o que leva ao aumento dos sal\u00e1rios e cria novas expectativas; os atritos e choques entre os distintos setores da burguesia debilitam a frente patronal e a impedem de exercer a repress\u00e3o aos sindicatos e dirigentes com a mesma viol\u00eancia de antes; e, por \u00faltimo, a insufici\u00eancia dos sal\u00e1rios frente ao alto custo de vida torna cada vez mais insuport\u00e1vel a situa\u00e7\u00e3o, provocando a explos\u00e3o de greves e manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas.<\/p>\n<p>Um breve balan\u00e7o mostra o ascenso do movimento oper\u00e1rio, que, todavia, \u00e9 molecular e parcial, limitado a greves por se\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00f5es tartaruga e outras a\u00e7\u00f5es por reivindica\u00e7\u00f5es salariais. Mas esse balan\u00e7o demonstra uma tend\u00eancia clara:<\/p>\n<p>&#8211; 30 greves econ\u00f4micas em S\u00e3o Paulo;<\/p>\n<p>&#8211; Greve pol\u00edtica na General Motors, contra a demiss\u00e3o de 100 oper\u00e1rios; houve interven\u00e7\u00e3o policial, dezenas de pris\u00f5es e a greve se perdeu;<\/p>\n<p>&#8211; Greve dos estivadores no porto de Paranagu\u00e1; devia contar com o apoio dos trabalhadores dos portos de Santos e do Rio de Janeiro; foi preciso a interven\u00e7\u00e3o militar na cidade;<\/p>\n<p>&#8211; Reivindica\u00e7\u00e3o dos metal\u00fargicos pelo reconhecimento de delegados por empresa, comiss\u00f5es internas para preven\u00e7\u00e3o de acidentes, especifica\u00e7\u00e3o das remunera\u00e7\u00f5es recebidas no contracheque e 25% de aumento; a reivindica\u00e7\u00e3o teve o apoio de 240 mil metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo. O governo concedeu as duas \u00faltimas demandas;<\/p>\n<p>&#8211; Greves parciais na Mercedes Benz, Villares Metals e Volkswagen por aumentos salariais; os aumentos foram concedidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto ao movimento estudantil, apesar da violenta repress\u00e3o de 1968-69, ele nunca esteve totalmente derrotado. O que houve foi um deslocamento das lutas, das universidades federais, que estavam mais controladas pelo governo, para as universidades estaduais. Pode-se dizer que houve um per\u00edodo de refluxo sem alcan\u00e7ar a imobilidade total, at\u00e9 o novo ascenso em 1972. A implanta\u00e7\u00e3o da reforma universit\u00e1ria por parte do governo, que tornava os estudos cada vez mais caros, somada \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das vagas, que deixa milhares de estudantes sem matr\u00edcula a cada ano, depois de terem se submetido a concursos dific\u00edlimos, aumenta o descontentamento. Al\u00e9m disso, a pol\u00edtica econ\u00f4mica, que beneficia somente \u00e0s camadas superiores, aumenta as expectativas em torno da universidade, principalmente nos cursos t\u00e9cnicos. Ser\u00e3o justamente esses cursos (economia, engenharia, medicina) os que assumir\u00e3o a vanguarda das lutas estudantis, em vez daqueles que antes apareciam como mais combativos (filosofia, sociologia, direito).<\/p>\n<p>As lutas do movimento estudantil se deram principalmente na Guanabara, S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. As mais importantes foram: o plebiscito contra a reforma univerist\u00e1ria (90% dos alunos da Universidade de S\u00e3o Paulo votaram a favor do ensino gratuito); a luta para impedir a expuls\u00e3o de cinco dirigentes na Faculdade de Economia de Porto Alegre; e a campanha dos estudantes de medicina da Guanabara por est\u00e1gio remunerado.<\/p>\n<p>Se analisamos a situa\u00e7\u00e3o do campesinato brasileiro, comprovamos que este, por mais que represente 40% da popula\u00e7\u00e3o (40 milh\u00f5es de pessoas), n\u00e3o forma um bloco homog\u00eaneo, sendo submetido a distintas formas de explora\u00e7\u00e3o segundo a regi\u00e3o em que vive: semiescravid\u00e3o nos seringais ao Norte do pa\u00eds; assalariados pessimamente remunerados nos engenhos de a\u00e7\u00facar do Nordeste; assalariados melhor remunerados nas planta\u00e7\u00f5es do Sul. Al\u00e9m disso, h\u00e1 os semiprolet\u00e1rios, que trabalham somente durante as colheitas. Os que repartem a produ\u00e7\u00e3o com os latifundi\u00e1rios [meeiros], os arrendat\u00e1rios e os \u201cposseiros\u201d (ocupantes de terras abandonadas h\u00e1 dezenas de anos, mas que n\u00e3o lhes s\u00e3o entregues em propriedade).<\/p>\n<p>Desde a organiza\u00e7\u00e3o das Ligas Camponesas (1964), o movimento campon\u00eas n\u00e3o produz manifesta\u00e7\u00f5es importantes. As primeiras mobiliza\u00e7\u00f5es ap\u00f3s o golpe de Estado ser\u00e3o provocadas pela penetra\u00e7\u00e3o imperialista no campo e se dar\u00e3o na regi\u00e3o central do pa\u00eds, onde os \u201cposseiros\u201d entrar\u00e3o em conflito com os novos propriet\u00e1rios (em geral, grandes empresas) que querem expuls\u00e1-los das terras. Em 1972-73, ocorrem diversos choques armados, que terminaram com a interven\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito para impor a ordem e desarmar os camponeses.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, isso s\u00e3o fatos isolados e que n\u00e3o t\u00eam a possibilidade imediata de se generalizar. A pol\u00edtica governamental, que consiste em industrializar o Nordeste do pa\u00eds e abrir a Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o, transferindo os camponeses sem-terra para essas \u00e1reas, favorece \u00e0 desmobiliza\u00e7\u00e3o desse setor.<\/p>\n<p>Apesar desses fatores desfavor\u00e1veis, deve-se recordar que o movimento campon\u00eas possui uma longa tradi\u00e7\u00e3o de luta, demonstrada durante o ascenso massivo de 1967-68, em que se deram explos\u00f5es violentas no campo, com o inc\u00eandio de canaviais e rebeli\u00f5es espont\u00e2neas. Se, como tudo parece indicar, a penetra\u00e7\u00e3o imperialista agudiza as contradi\u00e7\u00f5es no campo, provocando a expuls\u00e3o dos trabalhadores das terras, e, por outro lado, se acentua o ascenso do movimento oper\u00e1rio nas cidades, o campesinato brasileiro haver\u00e1 de dar grandes batalhas em um futuro n\u00e3o muito distante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>As perspectivas de Geisel e nossas tarefas<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 nesta conjuntura que assume o governo do general Ernesto Geisel: enfrentando um desequil\u00edbrio na economia, consequ\u00eancia da crise mundial e que se v\u00ea agravado pelos problemas econ\u00f4micos pr\u00f3prios da estrutura interna (segundo seu discurso de posse, em 1974 o pa\u00eds precisar\u00e1 do dobro de investimentos estrangeiros do que em 1973); com uma d\u00edvida externa que cresce a 14 bilh\u00f5es de d\u00f3lares<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>; com uma divis\u00e3o da frente burguesa, que tem cada vez maiores contradi\u00e7\u00f5es com o imperialismo; com uma classe oper\u00e1ria que vai tomando um caminho de ascenso na luta por suas reivindica\u00e7\u00f5es; e com uma classe m\u00e9dia que come\u00e7a a manifestar o seu descontentamento.<\/p>\n<p>Todavia, apesar desse quadro, o desequil\u00edbrio econ\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 grave e n\u00e3o assume o car\u00e1ter de uma crise. Se a retra\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o se aprofundar e a demanda de produtos prim\u00e1rios continuar com seus pre\u00e7os em alta, \u00e9 poss\u00edvel para o governo manter o ritmo de crescimento.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, essa n\u00e3o \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de 1970-71: agora, deve-se enfrentar a crise agr\u00edcola que se apresenta, somada ao descontentamento crescente da burguesia nacional, que se manifesta organizadamente, e ao ascenso, ainda que d\u00e9bil, do movimento de massas.<\/p>\n<p>Se tais fatores se agudizam, o governo se ver\u00e1 obrigado a fazer concess\u00f5es, em primeiro lugar, aos setores burgueses insatisfeitos (em seu discurso, Geisel j\u00e1 se comprometeu a ajudar a agricultura e a favorecer o desenvolvimento da ind\u00fastria nacional). Se, al\u00e9m disso, a tend\u00eancia de ascenso do movimento oper\u00e1rio e popular se mantiver, o mais certo \u00e9 que o governo se veja impossibilitado de reprimir, como no passado, e trate de conciliar os distintos interesses, caminhando para um regime de tipo bonapartista cl\u00e1ssico. Isso abriria novas e concretas possibilidades de luta e organiza\u00e7\u00e3o para os trabalhadores em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por isso, a tarefa central dos revolucion\u00e1rios brasileiros \u00e9 se inserir no movimento de massas, colocando-se com firmeza na constru\u00e7\u00e3o em escala nacional da \u00fanica ferramenta pol\u00edtica capaz de conduzir o proletariado \u00e0 vit\u00f3ria: o partido leninista-trotskista, o partido bolchevique.<\/p>\n<p>Na etapa atual, cremos que nossa tarefa deve ser fundamentalmente propagand\u00edstica, de acumula\u00e7\u00e3o de quadros e de forma\u00e7\u00e3o de uma forte equipe de dire\u00e7\u00e3o, provada na luta de classes. Tendo em conta a atomiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira, e principalmente do trotskismo, propomos a forma\u00e7\u00e3o de uma frente de esquerda revolucion\u00e1ria, com todos os grupos e organiza\u00e7\u00f5es que estejam pela constru\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio, com base em um programa concreto para o Brasil. Pensamos que a unifica\u00e7\u00e3o dos trotskistas brasileiros \u00e9 urgente e inadi\u00e1vel, n\u00e3o de uma forma superestrutural, mas por meio do trabalho comum na luta de classes.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s consignas para a atual etapa, vemos como principal consigna de transi\u00e7\u00e3o a luta pelas liberdades democr\u00e1ticas, naturalmente combinadas com outras, como a de convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte em que os organismos sindicais e pol\u00edticos da classe oper\u00e1ria e do campesinato tenham maioria.<\/p>\n<p>Por isso, vemos como fundamental o chamado \u00e0 unidade de a\u00e7\u00e3o com todos os setores que estejam lutando pela derrubada da ditadura e pela recupera\u00e7\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas. A unidade de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa submeter o proletariado \u00e0 burguesia, seja a partir do acatamento de sua disciplina, das consignas ou dos m\u00e9todos de luta de setores burgueses ou pequeno-burgueses. De forma que a unidade de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o substitui a necessidade de constru\u00e7\u00e3o do partido e da elabora\u00e7\u00e3o de um programa para a classe oper\u00e1ria e outros setores populares, que parta de suas necessidades concretas. Al\u00e9m disso, deve-se enfatizar que a derrubada da ditadura ser\u00e1 resultado da mobiliza\u00e7\u00e3o e da luta da classe trabalhadora, n\u00e3o de acordos e tratativas superestruturais ou interburguesas, nem de a\u00e7\u00f5es exemplares da vanguarda.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>O partido de Vargas era o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), criado por ele mesmo em 1945. Aliava-se ao PTB uma grande parte do PSD (Partido Social Democr\u00e1tico), que respondia aos interesses da burguesia. O PSD era o partido mais forte do Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Jos\u00e9 Ibrahim: presidente do Sindicato de Metal\u00fargicos de Osasco. Posteriormente, foi resgatado em troca do embaixador norte-americano.<\/p>\n<p>Barreto: dirigente sindical de Osasco. Morto na guerrilha em 1971.<\/p>\n<p>Roque Aparecido: dirigente de uma f\u00e1brica metal\u00fargica de Osasco. Foi resgatado em troca do embaixador su\u00ed\u00e7o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>A d\u00edvida externa, em 1971, alcan\u00e7ava pouco mais de 6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Ao final de 1973, somava os 14 bilh\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasil \u2013 10 anos depois: rumo a um bonapartismo cl\u00e1ssico? A seguir publicamos o artigo \u201c10 anos depois: rumo a um bonapartismo cl\u00e1ssico?\u201d da Liga Oper\u00e1ria, organiza\u00e7\u00e3o trotskista que completa cinquenta anos agora. \u00c9 um trabalho de f\u00f4lego acerca do regime militar brasileiro. 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