

	{"id":15897,"date":"2024-08-09T15:16:42","date_gmt":"2024-08-09T18:16:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=15897"},"modified":"2024-08-11T15:21:34","modified_gmt":"2024-08-11T18:21:34","slug":"turbulencia-nos-mercados-especulativos-crises-bolhas-e-ajustes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/08\/09\/turbulencia-nos-mercados-especulativos-crises-bolhas-e-ajustes\/","title":{"rendered":"Turbul\u00eancia nos mercados especulativos: crises, bolhas e ajustes"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Jos\u00e9 Castillo, dirigente da Izquierda Socialista\/ FIT Unidad<\/em><\/p>\n<p>Os primeiros sinais foram conhecidos na \u00faltima sexta-feira, 2 de agosto, embora a turbul\u00eancia tenha explodido na segunda-feira, 5 de agosto. Houve uma queda forte e violenta (um \u201ccrack\u201d) nas bolsas mundiais. A\u00e7\u00f5es, t\u00edtulos p\u00fablicos, criptomoedas e os pre\u00e7os das chamadas commodities (como a soja) despencaram. V\u00e1rias quest\u00f5es surgiram: por que isso aconteceu? Estamos no limiar de uma nova crise global aguda, como a de 2008? E, acima de tudo, que consequ\u00eancias t\u00eam essa crise para os povos trabalhadores do mundo e para o nosso pa\u00eds em particular.<\/p>\n<p>Na segunda-feira, 5 de agosto, houve um colapso hist\u00f3rico da bolsa de valores de T\u00f3quio (\u00edndice Nikkei), que caiu 12,4%, o pior resultado desde 1987. Isso rapidamente repercutiu em todos os mercados de a\u00e7\u00f5es do mundo: Wall Street afundou, as bolsas europeias e latino-americanas tamb\u00e9m. Em poucas horas, a queda dos pre\u00e7os fez com que dois trilh\u00f5es de d\u00f3lares em t\u00edtulos de capitaliza\u00e7\u00e3o evaporassem. Tal quantia fazia parte, at\u00e9 aquele momento, do capital das grandes empresas e dos ativos dos bilion\u00e1rios do planeta. Surge uma quest\u00e3o: ser\u00e1 que tal quantia realmente existiu anteriormente ou foi uma pura supervaloriza\u00e7\u00e3o especulativa?<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o capitalismo imperialista mundial n\u00e3o funciona bem h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo, nem mesmo dentro da sua pr\u00f3pria l\u00f3gica. Estamos imersos numa crise cr\u00f4nica, pois o capital produtivo gera lucros inferiores aos do capital especulativo (financeiro, etc.). \u00c9 por isso que surgem constantemente bolhas especulativas, neg\u00f3cios parasit\u00e1rios de alguns especuladores, que, mais cedo ou mais tarde, acabam por explodir, deixando um rastro de perdedores. Vale lembrar que, muitas vezes, tais \u201cperdedores\u201d, sejam bancos ou grandes empresas transnacionais, s\u00e3o socorridos pelos Estados (pelo Federal Reserve no caso dos EUA ou pelos bancos centrais da Europa e do Jap\u00e3o). Quem sempre \u00e9 obrigado a pagar a conta da crise \u00e9 o povo trabalhador, atrav\u00e9s de ferozes planos de ajuste.<\/p>\n<p><strong>O estopim japon\u00eas<\/strong><\/p>\n<p>O Banco do Jap\u00e3o, em 31 de julho, aumentou a taxa de juros de 0% para 0,25% ao ano. A decis\u00e3o de aumentar a taxa de juros foi uma consequ\u00eancia do aumento da infla\u00e7\u00e3o, que passou de negativa (-1%) em 2020 para mais de 4% anuais. Parece algo pouco significativo, mas n\u00e3o \u00e9, tendo em vista que tal taxa estava congelada h\u00e1 anos. A subida da taxa de juros liquidou um neg\u00f3cio especulativo que os grandes capitalistas japoneses vinham realizando: endividar-se (lembremos: \u00e0 taxa zero de juros), usar o dinheiro para comprar a\u00e7\u00f5es ou t\u00edtulos na bolsa de valores ianque e embolsar os lucros das altas cota\u00e7\u00f5es norte-americanas. Ent\u00e3o, com empr\u00e9stimos mais caros, deixou de ser conveniente continuar com esse ciclo e os especuladores japoneses rapidamente come\u00e7aram a vender essas a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos, causando uma queda nos pre\u00e7os. \u00c9 claro que tais investimentos especulativos n\u00e3o estavam apenas em Wall Street, mas espalhados pelas bolsas de valores de todo o mundo, que assim afundaram na segunda-feira, junto com o \u00edndice Nikkei da bolsa de valores de T\u00f3quio.<\/p>\n<p><strong>\u201cA tempestade perfeita\u201d: a coincid\u00eancia com as desconfian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia ianque<\/strong><\/p>\n<p>O cap\u00edtulo \u201cjapon\u00eas\u201d dessa hist\u00f3ria coincidiu com outro, que estava acontecendo no interior dos Estados Unidos. Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria que remonta a 2008, j\u00e1 que a recupera\u00e7\u00e3o da economia ianque foi lenta depois daquela crise. Milh\u00f5es de pessoas perderam o emprego e, quando conseguiram regressar ao mundo do trabalho, fizeram-no em empregos de menor qualidade, mais prec\u00e1rios, de tempo parcial (for\u00e7ados a ter um, dois e at\u00e9 tr\u00eas empregos) e com sal\u00e1rios mais baixos. Isso impulsionou o voto de protesto contra Obama nas elei\u00e7\u00f5es do final de 2016.<\/p>\n<p>Durante os primeiros anos de Trump, a economia permaneceu a mesma. Depois chegou a pandemia e gerou uma recess\u00e3o recorde. Embora tenha havido uma recupera\u00e7\u00e3o em 2021, dezenas de milhares de pessoas, que voltaram a perder o emprego, s\u00f3 conseguiram se reintegrar ao mercado de trabalho em piores condi\u00e7\u00f5es e com sal\u00e1rios mais baixos.<\/p>\n<p>Somou-se a isso o aparecimento de uma infla\u00e7\u00e3o sem precedentes desde a d\u00e9cada de 1970, que atingiu duramente os sal\u00e1rios, deprimindo-os ainda mais. Uma parte importante da explica\u00e7\u00e3o da derrota de Trump nas elei\u00e7\u00f5es do final de 2021 est\u00e1 na revolta com essa situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social.<\/p>\n<p>O governo ianque procurou reduzir a infla\u00e7\u00e3o aumentando a taxa de juros do Federal Reserve para 5,25%, tornando o cr\u00e9dito mais caro. Tal pol\u00edtica come\u00e7ou nos anos finais de Trump e continuou durante toda a administra\u00e7\u00e3o Biden. Atingiu milh\u00f5es de fam\u00edlias trabalhadoras, endividadas para o resto da vida, comprometendo mais de um ter\u00e7o dos seus sal\u00e1rios no pagamento de hipotecas e empr\u00e9stimos. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o diminuiu como esperado e continuou a reduzir a renda.<\/p>\n<p>Enquanto tudo isso acontecia, uma realidade totalmente diferente estava sendo vivida no mercado de a\u00e7\u00f5es, financeiro e especulativo, ianque: as a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos subiam e o establishment financeiro acumulava fortunas. Qual era a realidade, a dos sal\u00e1rios deprimidos e das fam\u00edlias endividadas ou a dos milh\u00f5es acumulados em Wall Street?<\/p>\n<p>Um olhar mais atento mostrava que o aumento dos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es era uma miragem. Na realidade, a \u00fanica coisa que cresceu foram os pre\u00e7os das chamadas \u201csete magn\u00edficas\u201d: Nvidia, Tesla, Meta (Facebook), Alphabet (Google), Amazon, Microsoft e Apple, grandes corpora\u00e7\u00f5es de novas tecnologias. No resto, as taxas de lucro n\u00e3o se recuperaram e existem milhares de empresas chamadas \u201czumbis\u201d (superendividadas e que s\u00f3 sobrevivem porque continuam a obter empr\u00e9stimos).<\/p>\n<p>Mas a realidade \u00e9 que mesmo as pr\u00f3prias \u201csete magn\u00edficas\u201d tamb\u00e9m estavam supervalorizadas, com pre\u00e7os bem acima dos resultados dos seus balan\u00e7os. Os sinais indicavam o poss\u00edvel surgimento de uma nova bolha especulativa que, tal como as anteriores, acabaria por estourar.<\/p>\n<p>As not\u00edcias sobre o aumento da taxa de juros no Jap\u00e3o coincidiram na semana passada com a publica\u00e7\u00e3o de novos dados sobre emprego nos Estados Unidos (o desemprego aumentou dois d\u00e9cimos, atingindo 4,3%). E ambas se somaram com a divulga\u00e7\u00e3o de alguns balan\u00e7os das \u201csete magn\u00edficas\u201d, com resultados piores do que o esperado. Tudo isso causou a queda da bolsa de valores. At\u00e9 agora, as a\u00e7\u00f5es, os t\u00edtulos e os \u00edndices, mesmo que sem continuarem numa queda t\u00e3o acentuada, n\u00e3o se recuperaram.<\/p>\n<p><strong>Intelig\u00eancia artificial: uma nova bolha?<\/strong><\/p>\n<p>Veremos nas pr\u00f3ximas semanas se estamos \u00e0 beira de uma nova crise aguda como a de 2008 (que provocou fal\u00eancias em massa e uma depress\u00e3o planet\u00e1ria generalizada) ou se significa apenas de um sinal de alerta. De todo modo, a realidade \u00e9 que est\u00e1 cada vez mais claro que a economia ianque nunca se recuperou totalmente da crise de 2008 e tem sobrevivido gra\u00e7as \u00e0s bolhas especulativas.<\/p>\n<p>O que se verifica agora \u00e9 que todo o novo setor da Intelig\u00eancia Artificial, que tem sido vendido como o eixo da nova e maior produtividade do capitalismo do futuro, est\u00e1, na realidade do capitalismo imperialista de hoje, gerando e inflando uma nova bolha, que amea\u00e7a explodir e causar uma crise de grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vale lembrar que as \u201csete magn\u00edficas\u201d s\u00e3o a maior express\u00e3o daquilo que \u00e9 conhecido como \u201ca economia do Vale do Sil\u00edcio\u201d, que cresceu nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Por\u00e9m, esse setor supostamente pr\u00f3spero da economia ianque n\u00e3o est\u00e1 isento de problemas. Suas a\u00e7\u00f5es registraram uma queda de 15% recentemente.<\/p>\n<p>V\u00e1rios fatores t\u00eam contribu\u00eddo para esse colapso. H\u00e1 cada vez mais suspeitas de que a Intelig\u00eancia Artificial, e complementarmente a ind\u00fastria de fabrica\u00e7\u00e3o de chips, gerou expectativas exageradas sobre os seus lucros futuros. No \u00faltimo m\u00eas, Amazon, Apple, Meta e Nvidia publicaram os resultados dos seus balan\u00e7os, que decepcionaram os acionistas. A euforia dos investidores com os neg\u00f3cios em torno da Intelig\u00eancia Artificial come\u00e7ou a se desmantelar. Isso teve um efeito imediato, em cadeia, para os fabricantes de microchips.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, a bolha especulativa est\u00e1 exposta: as esperan\u00e7as depositadas na Intelig\u00eancia Artificial n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade. As grandes empresas de tecnologia n\u00e3o conseguem convencer os especuladores de Wall Street de que a Intelig\u00eancia Artificial \u00e9 o novo motor produtivo da economia global: \u201cAs promessas de avan\u00e7os significativos em Intelig\u00eancia Artificial por parte da Amazon, Microsoft e Alphabet n\u00e3o satisfizeram os investidores, que manifestam a sua decep\u00e7\u00e3o com a queda nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es dessas empresas de tecnologia\u201d (Washington Post, 03\/08).<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 que, como vem acontecendo h\u00e1 meio s\u00e9culo, ainda estamos no meio de uma crise cr\u00f4nica da economia imperialista. As taxas de lucro n\u00e3o se recuperam nos setores produtivos e os super-lucros prov\u00eam principalmente da especula\u00e7\u00e3o. Ou seja, a Intelig\u00eancia Artificial est\u00e1 longe de ser o passaporte para uma nova fase de crescimento do capitalismo.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que continuar\u00e3o ocorrendo novos epis\u00f3dios de crise como a que come\u00e7ou esta semana. A consequ\u00eancia, para al\u00e9m dos bilh\u00f5es de d\u00f3lares perdidos, \u00e9 que mais uma vez ser\u00e3o os povos do mundo que v\u00e3o pagar por isso, atrav\u00e9s de novos e mais duros planos de ajuste. O caminho ser\u00e1, como sempre, enfrent\u00e1-los com a luta oper\u00e1ria e popular. Mais uma vez, o capitalismo mostra que n\u00e3o oferece sa\u00edda, obrigando-nos a lutar por governos dos\/as trabalhadores\/as e da esquerda, abrindo o caminho para um mundo socialista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Castillo, dirigente da Izquierda Socialista\/ FIT Unidad Os primeiros sinais foram conhecidos na \u00faltima sexta-feira, 2 de agosto, embora a turbul\u00eancia tenha explodido na segunda-feira, 5 de agosto. Houve uma queda forte e violenta (um \u201ccrack\u201d) nas bolsas mundiais. 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