

	{"id":16066,"date":"2024-09-12T14:26:07","date_gmt":"2024-09-12T17:26:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=16066"},"modified":"2024-09-12T14:26:07","modified_gmt":"2024-09-12T17:26:07","slug":"80-anos-da-insurreicao-de-varsovia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/09\/12\/80-anos-da-insurreicao-de-varsovia\/","title":{"rendered":"80 anos da insurrei\u00e7\u00e3o de Vars\u00f3via"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Federico Novo Foti<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na Segunda Guerra Mundial, em pouco mais de dois meses, a partir de 1\u00ba de agosto de 1944, cinquenta mil combatentes da resist\u00eancia polonesa enfrentaram o sanguin\u00e1rio ex\u00e9rcito nazista e tomaram a capital, Vars\u00f3via. Foram derrotados por conta da flagrante passividade e da trai\u00e7\u00e3o de Joseph Stalin e dos aliados anglo-ianques. Ap\u00f3s a queda do regime nazi, a her\u00f3ica luta polaca foi silenciada pela burocracia stalinista.<\/p>\n<p>No dia 1\u00ba de setembro de 1939 come\u00e7ou a Segunda Guerra Mundial, com a invas\u00e3o da Pol\u00f4nia pelos ex\u00e9rcitos alem\u00e3es. Dias antes, os ministros dos neg\u00f3cios estrangeiros de Adolf Hitler e Joseph Stalin conclu\u00edram um infame pacto de n\u00e3o agress\u00e3o entre a Alemanha nazi e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS), que inclu\u00eda a partilha e divis\u00e3o da Pol\u00f4nia entre os dois pa\u00edses. No dia 8 de setembro, as tropas alem\u00e3s chegaram a Vars\u00f3via, a capital polaca. No dia 17 de setembro, a regi\u00e3o oriental foi invadida pela URSS.<\/p>\n<p>A Pol\u00f4nia foi um dos pa\u00edses mais duramente atingidos pela barb\u00e1rie nazi, especialmente a sua grande popula\u00e7\u00e3o judaica. O a\u00e7ougueiro Hans Frank comandou o pa\u00eds, estabelecendo a sede do \u201cgoverno central\u201d em Crac\u00f3via, a segunda maior cidade polaca. Frank foi um entusiasta promotor da \u201cSolu\u00e7\u00e3o Final\u201d, isto \u00e9, dos campos de exterm\u00ednio e do genoc\u00eddio do povo judeu. Ciganos, eslavos, comunistas, homossexuais e qualquer pessoa que se opusesse \u00e0 contra-revolu\u00e7\u00e3o nazi e ao seu \u201cmodelo ariano\u201d tamb\u00e9m foram v\u00edtimas do nazismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O maior levante antinazista da Segunda Guerra Mundial<\/strong><\/p>\n<p>A batalha na cidade sovi\u00e9tica de Stalingrado, em fevereiro de 1943, marcou um ponto de virada na guerra [1]. A partir de ent\u00e3o, as tropas de Hitler iniciaram a sua retirada. O avan\u00e7o do Ex\u00e9rcito Vermelho em 1944 foi avassalador. Em abril de 1943, encorajados pela derrota dos nazis em Stalingrado, os judeus sobreviventes do gueto de Vars\u00f3via organizaram uma revolta her\u00f3ica, que foi afogada em sangue [2].<\/p>\n<p>Em junho de 1944, o Ex\u00e9rcito Vermelho chegou ao rio V\u00edstula, que atravessa a Pol\u00f4nia, ocupando a regi\u00e3o oriental do pa\u00eds. Enquanto isso, ocorreu o desembarque aliado na Normandia, na costa noroeste francesa do Canal da Mancha [3]. A partir de ent\u00e3o, os ex\u00e9rcitos alem\u00e3es foram atacados pela frente ocidental, ao sul, e, especialmente, pela frente oriental.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia polaca come\u00e7ou em 1939, apesar das enormes dificuldades causadas pela ocupa\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o do pa\u00eds. Estima-se que, entre 1941 e junho de 1944, o clandestino Armia Krajowa (\u201cEx\u00e9rcito do Interior\u201d \u2013 AK) participou do descarrilamento de 700 trens, da explos\u00e3o de 40 pontes, de 25 mil a\u00e7\u00f5es de sabotagem e de 5.700 ataques contra a ocupa\u00e7\u00e3o. E, desde 1943, organizou uma guerra de guerrilha, na qual ocorreram mais de 170 combates contra as for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em agosto de 1944 come\u00e7ou o maior levante antinazista da guerra. Encorajados pelo enfraquecimento do ex\u00e9rcito nazi, cerca de 50.000 combatentes do Armija Krajowa lan\u00e7aram-se heroicamente na luta para recapturar Vars\u00f3via, a capital. Com armas leves, enfrentaram um n\u00famero equivalente de tropas alem\u00e3s, armadas com tanques, artilharia pesada e avi\u00f5es de combate. Os nazistas esperavam esmag\u00e1-los em apenas cinco dias, mas a batalha durou 62 dias, com uma feroz guerrilha urbana. Houve combates de casa em casa e t\u00faneis de esgoto foram usados \u200b\u200bpara transporte e como abrigos. Devido \u00e0 escassez de muni\u00e7\u00f5es, os combatentes tiveram que refinar a sua pontaria sob o lema: \u201cuma bala, um alem\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A luta sangrenta deixou vinte mil soldados mortos de cada lado. A popula\u00e7\u00e3o da cidade, que antes da guerra era de 1,3 milh\u00e3o de pessoas, foi dizimada. As SS (Schutzstaffel), respons\u00e1veis \u200b\u200bpela pol\u00edtica de exterm\u00ednio nazi, massacraram cerca de 50.000 cidad\u00e3os. Outros duzentos mil morreram com os bombardeios e meio milh\u00e3o foi deportado para campos de exterm\u00ednio. Ap\u00f3s o fim dos combates, em 2 de outubro, por ordem de Hitler, a cidade foi esvaziada e arrasada at\u00e9 os alicerces em retalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A trai\u00e7\u00e3o de Joseph Stalin<\/strong><\/p>\n<p>Os planos para a campanha sovi\u00e9tica, a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Bagration\u201d, indicavam que o marechal Constantin Rokossovski tomaria Vars\u00f3via em 2 de agosto. Naquele dia, do outro lado do V\u00edstula, Rokossovski viu a cidade em chamas, depois do in\u00edcio do levante de Vars\u00f3via. Junto com o general Georgy Zhukov, enviou uma proposta a Stalin para tomar a cidade e continuar o avan\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha. Contudo, ap\u00f3s a comunica\u00e7\u00e3o com Stalin, o Ex\u00e9rcito Vermelho permaneceu do outro lado do rio, a apenas 20 km do combate, permitindo aos nazis esmagar a insurrei\u00e7\u00e3o [4]. S\u00f3 avan\u00e7aria sobre Vars\u00f3via em janeiro de 1945.<\/p>\n<p>Isaac Deutscher, pesquisador e jornalista socialista polon\u00eas, autor da primeira grande biografia de Leon Trotsky, tamb\u00e9m escreveu \u201cStalin: uma biografia pol\u00edtica\u201d, em 1949. No livro, apesar de justificar as persegui\u00e7\u00f5es, a repress\u00e3o e outros crimes de Stalin, descreveu a sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 revolta polaca como \u201cc\u00ednica\u201d. Ele afirmou que \u201ceste comportamento [de Stalin] foi extremamente estranho, para dizer o m\u00ednimo. A princ\u00edpio, ele n\u00e3o acreditou nos relatos sobre o levante e suspeitou de uma farsa. Depois prometeu ajuda, mas n\u00e3o deu. At\u00e9 ent\u00e3o, uma interpreta\u00e7\u00e3o benevolente poderia ter sido dada ao seu comportamento. Era poss\u00edvel, e at\u00e9 muito prov\u00e1vel, que Rokossovsky, recha\u00e7ado pelos alem\u00e3es, n\u00e3o estivesse em condi\u00e7\u00f5es de resgatar Vars\u00f3via. E que Stalin, ent\u00e3o ocupado com as grandes ofensivas no setor sul da frente de combate, nos C\u00e1rpatos e na Rom\u00eania, n\u00e3o p\u00f4de alterar as suas disposi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas para ajudar a revolta inesperada. Mas ent\u00e3o ele fez algo que horrorizou os pa\u00edses aliados. Recusou-se a permitir que avi\u00f5es brit\u00e2nicos, que voavam a partir das suas bases para fornecer armas e suprimentos aos insurgentes, pousassem em campos de avia\u00e7\u00e3o russos atr\u00e1s das linhas de batalha. Desta forma, ele reduziu ao m\u00ednimo a ajuda brit\u00e2nica aos insurgentes. Depois, os russos apareceram trazendo ajuda \u00e0 cidade em chamas, quando j\u00e1 era tarde demais.\u201d [5] A posi\u00e7\u00e3o dos demais ex\u00e9rcitos aliados n\u00e3o foi menos lament\u00e1vel. Com o passar dos dias, a resist\u00eancia polaca concluiu que n\u00e3o receberia colabora\u00e7\u00e3o externa, nem do Ex\u00e9rcito Vermelho nem dos demais aliados.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o primeiro-ministro brit\u00e2nico, Winston Churchill, e o presidente estadunidense, Franklin D. Roosevelt, nada fizeram para impedir o mart\u00edrio do her\u00f3ico povo polaco, que enfrentou a m\u00e1quina de destrui\u00e7\u00e3o nazi. Com uma clareza cristalina, na sua \u00faltima transmiss\u00e3o antes de ser silenciada para sempre, a r\u00e1dio Blyskawica (\u201cRel\u00e2mpago\u201d) dos insurgentes deu a seguinte mensagem: \u201cque os povos do mundo saibam que todos os governos s\u00e3o culpados\u201d [6].<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Ver El Socialista n\u00ba 554 (15\/02\/2023).<\/p>\n<p>[2] Ver El Socialista n\u00ba 558 (12\/04\/2023).<\/p>\n<p>[3] Ver El Socialista n\u00ba 269 (04\/06\/2014).<\/p>\n<p>[4] Ver Norman Davies. Varsovia 1944. La heroica lucha\u2026. Editorial Planeta, Barcelona, 2005.<\/p>\n<p>[5] Isaac Deutscher. Stalin. Biograf\u00eda pol\u00edtica. Ediciones Vanguardia Obrera, Madrid, 1979.<\/p>\n<p>[6] Norman Davies. op. cit.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O stalinismo tentou esconder o levante<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No per\u00edodo final da Segunda Guerra Mundial e ap\u00f3s a rendi\u00e7\u00e3o nazi em maio de 1945, com os acordos de Yalta e Potsdam, nos quais os governos imperialistas e a burocracia estalinista fizeram a sua \u201cdivis\u00e3o do mundo\u201d, a Pol\u00f4nia caiu sob a \u00f3rbita da burocracia sovi\u00e9tica. A ditadura stalinista de partido \u00fanico tentou, ent\u00e3o, condenar ao esquecimento o her\u00f3ico levante de Vars\u00f3via.<\/p>\n<p>Uma das poucas vozes que, naquela \u00e9poca, reivindicou a resist\u00eancia polaca foi a do jornalista e escritor socialista ingl\u00eas George Orwell. Ele se tornou um forte cr\u00edtico do totalitarismo stalinista ap\u00f3s participar da guerra civil espanhola. Na coluna \u201cMeu caminho\u201d, na revista \u201cTribune\u201d, denunciou o comportamento criminoso do stalinismo diante do levante de 1944 e, frente \u00e0 indiferen\u00e7a da imprensa mundial, escreveu: \u201cAntes de tudo, um alerta aos jornalistas ingleses de esquerda e aos intelectuais em geral: lembrem-se de que a desonestidade e a covardia sempre t\u00eam um pre\u00e7o. N\u00e3o acreditem que, depois de passar anos e anos sendo propagandistas servis do regime sovi\u00e9tico ou de qualquer outro regime, voc\u00eas podem, de repente, voltar \u00e0 honestidade intelectual.\u201d [1]<\/p>\n<p>Em 1953, Stalin morreu e come\u00e7ou a crescer o descontentamento oper\u00e1rio e popular na Alemanha Oriental, na Pol\u00f4nia e na Hungria (a revolta popular foi esmagada em 1956) contra as ditaduras stalinistas. Uma certa abertura come\u00e7ou na Pol\u00f4nia. Isso permitiu ao jovem cineasta Andrzej Wajda realizar filmes que, em 1957, impactaram o mon\u00f3tono ambiente art\u00edstico polaco. Um desses filmes, o segundo de Wajda, chamava-se \u201cKanal\u201d (\u201cPatrulha da Morte\u201d). [2] Baseado no romance de um sobrevivente, a pel\u00edcula revelou pela primeira vez a insurrei\u00e7\u00e3o e a brutal repress\u00e3o nazi. O filme mostrou a experi\u00eancia daqueles dois meses de luta e apresentou de forma angustiante o isolamento dos combatentes, a sua luta pela sobreviv\u00eancia e a sua situa\u00e7\u00e3o sem sa\u00edda. Apesar da censura, algumas cenas referiam-se \u00e0 trai\u00e7\u00e3o da burocracia sovi\u00e9tica. A subsequente queda da burocracia stalinista na URSS e nos pa\u00edses da Europa oriental, incluindo a Pol\u00f4nia, renovou os debates sobre o levante de Vars\u00f3via e permitiu o surgimento de novas pesquisas hist\u00f3ricas, que lan\u00e7aram luz, entre outros aspectos, sobre o papel lament\u00e1vel de Stalin.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1] Ver George Orwell. \u201cA mi manera y otros escritos\u201d. Editado por Paul Anderson, Mayo, 2007.<\/p>\n<p>[2] Dispon\u00edvel em www.youtube.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Federico Novo Foti &nbsp; Na Segunda Guerra Mundial, em pouco mais de dois meses, a partir de 1\u00ba de agosto de 1944, cinquenta mil combatentes da resist\u00eancia polonesa enfrentaram o sanguin\u00e1rio ex\u00e9rcito nazista e tomaram a capital, Vars\u00f3via. 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