

	{"id":16570,"date":"2024-12-12T10:16:42","date_gmt":"2024-12-12T13:16:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=16570"},"modified":"2024-12-12T10:55:24","modified_gmt":"2024-12-12T13:55:24","slug":"a-primavera-siria-chegou-no-inverno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2024\/12\/12\/a-primavera-siria-chegou-no-inverno\/","title":{"rendered":"A primavera s\u00edria chegou no inverno"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Miguel Sorans, dirigente da Izquierda Socialista e da UIT-QI<\/em><\/p>\n<p>A queda da ditadura de Bashar al-Assad \u00e9 um triunfo, adiado em treze anos, da revolu\u00e7\u00e3o popular que come\u00e7ou em mar\u00e7o de 2011. A S\u00edria fez parte das revolu\u00e7\u00f5es do Norte da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio, que come\u00e7aram em janeiro de 2011 na Tun\u00edsia. Na \u00e9poca, foram chamadas de primavera \u00e1rabe. O inverno est\u00e1 come\u00e7ando na S\u00edria. Ent\u00e3o, podemos dizer que a \u201cprimavera s\u00edria\u201d chegou no inverno.<\/p>\n<p><strong>A ditadura caiu com uma velocidade inesperada<\/strong><\/p>\n<p>A queda da ditadura pegou todos de surpresa. Especialmente o pr\u00f3prio ditador, a R\u00fassia e o Ir\u00e3 \u2013 os seus sangrentos aliados \u2013, o imperialismo estadunidense e o sionismo genocida de Israel. Entre par\u00eanteses, \u00e9 oportuno esclarecer que os grupos rebeldes isl\u00e2micos n\u00e3o tiveram apoio nem foram encorajados pelos EUA e por Israel, rumores espalhados pelos defensores de al-Assad. Donald Trump apelou a n\u00e3o \u201cnos envolvermos\u201d: \u201ca S\u00edria \u00e9 um desastre, mas n\u00e3o \u00e9 nossa amiga, e os Estados Unidos n\u00e3o deveriam ter nada a ver com isso. Esta n\u00e3o \u00e9 a nossa luta. (\u2026) N\u00e3o vamos nos envolver\u201d (La Naci\u00f3n, Argentina, 07\/12\/2024). Ao mesmo tempo, Biden ordenou 75 bombardeios numa regi\u00e3o do pa\u00eds, com o argumento de atacar o Estado Isl\u00e2mico. Por outro lado, Israel saudou a queda de Bashar. Por\u00e9m, a primeira coisa que fez foi tomar mais territ\u00f3rio s\u00edrio em torno das Colinas de Gol\u00e3 \u2013 \u00e1rea ocupada desde 1967 \u2013, como medida de \u201cseguran\u00e7a preventiva\u201d. E bombardeou supostos \u201carsenais qu\u00edmicos\u201d. A tal ponto que at\u00e9 a ONU exigiu que parassem.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, foi o Hamas, a dire\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia palestina, que saudou a queda da ditadura numa declara\u00e7\u00e3o. O Hamas felicitou o povo s\u00edrio por alcan\u00e7ar as suas \u201caspira\u00e7\u00f5es de liberdade e justi\u00e7a\u201d e disse que esperava que a S\u00edria p\u00f3s-Bashar continuasse \u201co seu papel hist\u00f3rico e fundamental no apoio ao povo palestino\u201d (Ag\u00eancia Reuters, 09\/12\/2024). Por sua vez, os rebeldes libertaram mais de 600 prisioneiros palestinos das pris\u00f5es do regime.<\/p>\n<p>V\u00e1rios elementos se combinaram na queda acelerada do regime em 12 dias. Entre eles, a fraqueza da R\u00fassia, centrada na guerra na Ucr\u00e2nia, e a fragilidade do Ir\u00e3o-Hezbollah, atingidos no L\u00edbano. Por\u00e9m, o elemento central foi o fato do regime de Bashar ser um \u201cTigre de Papel\u201d, que s\u00f3 se sustentava gra\u00e7as ao apoio militar dos iranianos e da avia\u00e7\u00e3o russa. Quase n\u00e3o tinha base social e era odiado pelo povo s\u00edrio, que esperava o momento de derrub\u00e1-lo. E esse momento veio depois da queda de Aleppo, em 30 de novembro. Ningu\u00e9m estava disposto a \u201cdar a vida\u201d por Bashar. O pr\u00f3prio ex\u00e9rcito s\u00edrio entrou em colapso com as primeiras a\u00e7\u00f5es dos rebeldes. Houve alguns bombardeios de aeronaves russas nos primeiros dias da rebeli\u00e3o. Todavia, eles n\u00e3o foram suficientes para impedir o<br \/>\nprocesso.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem aponte, minimizando a for\u00e7a da rebeli\u00e3o popular, que tudo foi acordado no dia 7 de dezembro, entre Turquia, R\u00fassia e Ir\u00e3, numa reuni\u00e3o de ministros das rela\u00e7\u00f5es exteriores previamente agendada no F\u00f3rum de Doha, capital do Qatar. Sim, \u00e9 muito prov\u00e1vel que tenham chegado a um acordo, mas quando j\u00e1 estavam derrotados. Acordaram a melhor forma de rendi\u00e7\u00e3o, garantindo a partida de Bashar e da sua fam\u00edlia para Moscou, procurando evitar uma maior desestabiliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Por\u00e9m, foi uma improvisa\u00e7\u00e3o no meio da confus\u00e3o, da explos\u00e3o da rebeli\u00e3o do povo s\u00edrio, da derrota das suas for\u00e7as e da queda iminente do regime.<\/p>\n<p>A queda de Aleppo abriu uma nova situa\u00e7\u00e3o. Desencadeou a retomada da mobiliza\u00e7\u00e3o de milhares e milhares de lutadores e ex-combatentes dos primeiros anos da rebeli\u00e3o popular iniciada em 2011. \u00c0 medida que os rebeldes avan\u00e7avam, outras cidades se levantaram. Como foi o caso do povo da prov\u00edncia de Daraa, no sul do pa\u00eds, ber\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o de 2011. Eles n\u00e3o tinham liga\u00e7\u00e3o alguma com a brigada da HTS no norte. Atacaram delegacias e depois quart\u00e9is com armas nas m\u00e3os. \u00c9 preciso lembrar que a rebeli\u00e3o popular de 2011 se transformou numa guerra civil porque Bashar enviou os tanques e o ex\u00e9rcito para massacrar as mobiliza\u00e7\u00f5es. O povo foi obrigado a pegar em armas para se defender e continuar a luta. Quando o ditador estava quase derrotado, em 2014, foi salvo pela criminosa entrada em cena da avia\u00e7\u00e3o russa, que tem base no porto de Tartus. Em 2017, houve uma derrota da revolu\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, ela n\u00e3o foi total. Bashar teve de aceitar que a prov\u00edncia de Idlib, no nordeste da S\u00edria, permanecesse nas m\u00e3os dos rebeldes, que ali se reuniam. Mais de 2 milh\u00f5es de pessoas vivem em Idlib. Os diferentes grupos rebeldes l\u00e1 concentrados passaram anos se preparando, inclusive com f\u00e1bricas de armas. A concentra\u00e7\u00e3o das for\u00e7as opositoras e a fragilidade do regime explicam a rapidez da queda da ditadura.<\/p>\n<p><strong>Para onde vai a S\u00edria? As d\u00favidas sobre a HTS<\/strong><\/p>\n<p>A S\u00edria entrou numa nova situa\u00e7\u00e3o. A pergunta de um milh\u00e3o de d\u00f3lares \u00e9: o que vai acontecer? O novo governo provis\u00f3rio \u00e9 hegemonizado pela HTS (Hayat Tahrir al Sham \u2013 Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o do Levante). \u00c9 uma coliga\u00e7\u00e3o burguesa nacionalista- isl\u00e2mica, que re\u00fane diferentes fac\u00e7\u00f5es, desde religiosas at\u00e9 liberais. Existe uma rela\u00e7\u00e3o com Turquia, embora se diga que Erdogan n\u00e3o tem controle pol\u00edtico e militar completo. \u00c9 uma alian\u00e7a conservadora, que governa a prov\u00edncia de Idlib desde 2017, gerindo servi\u00e7os p\u00fablicos de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, justi\u00e7a, infraestrutura e finan\u00e7as. O primeiro-ministro designado, Mohammed al-Bashir, foi ministro desse governo.<\/p>\n<p>Abu Mohammed al Jolani, l\u00edder da HTS, rompeu com a Al-Qaeda e o ISIS h\u00e1 anos e apresenta-se como \u201cmoderado\u201d. Nas suas primeiras declara\u00e7\u00f5es, disse que \u201ca S\u00edria \u00e9 para todos\u2026 para os drusos, sunitas, alauitas, crist\u00e3os e membros de todas as religi\u00f5es\u201d. Surpreendeu ao declarar que \u201c\u00e9 estritamente proibido interferir no vestu\u00e1rio das mulheres ou impor quaisquer exig\u00eancias relacionadas ao seu vestu\u00e1rio ou apar\u00eancia\u201d (Clar\u00edn, Argentina, 10\/12\/2024). Ainda n\u00e3o se sabe at\u00e9 que ponto isso ser\u00e1 real ou apenas um falso discurso.<\/p>\n<p>Como disse a declara\u00e7\u00e3o da UIT-QI: \u201ccomo socialistas revolucion\u00e1rios, que sempre apoiamos a revolu\u00e7\u00e3o, junto com a esquerda s\u00edria, n\u00e3o apoiamos e nem temos qualquer confian\u00e7a pol\u00edtica nessa dire\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o de fundo continua a ser a luta por uma S\u00edria Socialista, sob um governo dos\/as trabalhadores\/as e dos setores populares.\u201d<\/p>\n<p><strong>Construir uma dire\u00e7\u00e3o da esquerda s\u00edria independente<\/strong><\/p>\n<p>O povo s\u00edrio entra numa nova fase da luta para conquistar a sua verdadeira liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social; pelas liberdades democr\u00e1ticas plenas, pelo regresso de milh\u00f5es de refugiados e pelas medidas sociais exigidas pelo povo trabalhador. E, para essa luta de fundo, \u00e9 necess\u00e1rio construir uma nova dire\u00e7\u00e3o socialista revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia das revolu\u00e7\u00f5es de 2011 mostrou que as revolu\u00e7\u00f5es triunfaram no plano democr\u00e1tico, ao derrubar ditaduras com mais de 30 anos de exist\u00eancia. Por\u00e9m, devido \u00e0 aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, tais processos estagnaram, como na Tun\u00edsia, ou regrediram, como no Egito e na L\u00edbia. Surgiram novos governos capitalistas de diversos tipos, que mantiveram a estrutura econ\u00f4mica capitalista ligada aos diferentes imperialismos, dando continuidade \u00e0 mis\u00e9ria e \u00e0 decad\u00eancia social do povo. Na S\u00edria, para superar tal lacuna, \u00e9 necess\u00e1rio construir uma nova dire\u00e7\u00e3o a partir dos setores da esquerda que, dentro do pa\u00eds e no ex\u00edlio, travaram a luta contra Bashar al-Assad numa<br \/>\nperspectiva independente e socialista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Miguel Sorans, dirigente da Izquierda Socialista e da UIT-QI A queda da ditadura de Bashar al-Assad \u00e9 um triunfo, adiado em treze anos, da revolu\u00e7\u00e3o popular que come\u00e7ou em mar\u00e7o de 2011. 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