

	{"id":16597,"date":"2016-12-29T19:59:49","date_gmt":"2016-12-29T22:59:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=16597"},"modified":"2024-12-19T20:02:09","modified_gmt":"2024-12-19T23:02:09","slug":"apos-a-queda-de-aleppo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2016\/12\/29\/apos-a-queda-de-aleppo\/","title":{"rendered":"Ap\u00f3s a queda de Aleppo"},"content":{"rendered":"<p>Por Josep Llu\u00eds del Alc\u00e1zar, Atakan \u00c7ift\u00e7i e Cristina Mas<\/p>\n<p>Em 22 de dezembro, o regime de Bashar al-Assad confirmou a queda de Aleppo, a capital industrial da S\u00edria e o principal basti\u00e3o urbano da revolu\u00e7\u00e3o contra a ditadura. Toda a zona rebelde, a regi\u00e3o leste da cidade (os bairros oper\u00e1rios e populares, que conseguiram expulsar os agentes da ditadura no in\u00edcio de 2012), foi destru\u00edda, com milhares de mortos e feridos. Depois de meses de cerco e anos de bombardeios indiscriminados, que destru\u00edram hospitais, escolas e bairros inteiros, quatro anos de resist\u00eancia her\u00f3ica chegaram ao fim. 35.000 pessoas, segundo a ONU, foram for\u00e7adas a abandonar as suas casas para evitar cair nas m\u00e3os brutais do regime.<\/p>\n<p>Sergei Shoigu, ministro da Defesa russo, declarou que a interven\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds foi decisiva para mudar o rumo da guerra e que, em um ano de bombardeios a\u00e9reos sobre a S\u00edria, mataram 35.000 \u201ccombatentes rebeldes\u201d. Acrescentou que com a conquista de Aleppo \u201cevita-se o colapso\u201d do Estado s\u00edrio e que agora \u00e9 poss\u00edvel \u201cquebrar a cadeia de revolu\u00e7\u00f5es coloridas, que se expandiu por todo o Oriente M\u00e9dio e a \u00c1frica\u201d. Na verdade, a queda de Aleppo marca um antes e um depois no processo revolucion\u00e1rio s\u00edrio e em toda a regi\u00e3o. Os Estados Unidos, a R\u00fassia, a Turquia, a Ar\u00e1bia Saudita, o Ir\u00e3\u2026. E, infelizmente, uma grande parte da esquerda mundial se esfor\u00e7am para atingir o objetivo de frear a onda revolucion\u00e1ria, deixando de lado as suas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>As interven\u00e7\u00f5es russa e iraniana salvaram o regime de Bashar al-Assad<\/strong><\/p>\n<p>Se o regime s\u00edrio permanece no poder, \u00e9 gra\u00e7as \u00e0s interven\u00e7\u00f5es militares estrangeiras, que o pr\u00f3prio al-Assad mostrou estar disposto a recompensar, ao declarar que \u201ca S\u00edria n\u00e3o pertence apenas aos s\u00edrios, mas \u00e0queles que a defenderam.&#8221; Cada vez que n\u00e3o conseguiu conter militarmente a oposi\u00e7\u00e3o, um novo aliado veio em seu socorro: primeiro foi a mil\u00edcia libanesa do Hezbollah. Quando isso n\u00e3o foi suficiente e o regime estava claramente amea\u00e7ado, o Ir\u00e3 entrou em cena. E, finalmente, chegou a vez da R\u00fassia. Em 21 de setembro de 2015, Teer\u00e3 iniciou o envio de soldados de elite da For\u00e7a Al-Quds, parte da Guarda Revolucion\u00e1ria do regime dos Aiatol\u00e1s, que assumiu o comando das opera\u00e7\u00f5es terrestres, aos quais se juntaram mil\u00edcias xiitas do Ir\u00e3, do Iraque e do Afeganist\u00e3o. Em 30 de setembro, Putin deu in\u00edcio aos bombardeios a\u00e9reos, com a pol\u00edtica de terra arrasada que j\u00e1 havia utilizado na Chech\u00eania. A interven\u00e7\u00e3o russa come\u00e7ou com a permiss\u00e3o de Israel e em coordena\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, que iniciaram bombardeios na S\u00edria um ano antes.<\/p>\n<p>Com os seus novos aliados, o regime rapidamente recuperou posi\u00e7\u00f5es: cidades que resistiram a anos de cerco, como Mouadamiya, Madaya e outras nos arredores de Damasco, ca\u00edram. E o objetivo passou a ser Aleppo, a cidade central da revolu\u00e7\u00e3o, na qual se mantinha um comit\u00ea local fora do controle regime, que assegurava a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, de sa\u00fade e de educa\u00e7\u00e3o; as mobiliza\u00e7\u00f5es\u2026. E continuava a funcionar sob as bombas. Assim que os bombardeios cessaram, nas poucas e fracas tr\u00e9guas que a R\u00fassia e os Estados Unidos negociaram em mar\u00e7o de 2016, os manifestantes voltaram \u00e0s ruas com os gritos de mar\u00e7o de 2011: \u201co povo quer a queda do regime\u201d, \u201cliberdade e dignidade\u201d, com as bandeiras da revolu\u00e7\u00e3o. A revolu\u00e7\u00e3o ainda estava presente em Aleppo.<\/p>\n<p><strong>A queda de Alepo: o acordo contra a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 consumado<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o faz sentido inscrever a guerra na S\u00edria num suposto confronto entre os Estados Unidos e a R\u00fassia. A coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar entre as duas pot\u00eancias tem sido permanente, cada uma na defesa dos seus pr\u00f3prios interesses: o Iraque para os americanos, a S\u00edria para os russos. Ambas as pot\u00eancias jogaram a carta do Ir\u00e3, que estava disposto a colocar soldados em campo, em troca de ganhar influ\u00eancia numa regi\u00e3o que \u00e9 disputada com a Ar\u00e1bia Saudita. Desta forma, as tropas persas apoiaram com uma m\u00e3o o regime pr\u00f3-americano no Iraque, enquanto com a outra apoiaram o regime pr\u00f3-russo na S\u00edria. Os massacres de Faluja no Iraque (ou hoje em Mossul) por parte do regime sect\u00e1rio de Bagd\u00e1, com tropas iranianas e o apoio da avia\u00e7\u00e3o estadunidense, n\u00e3o fica atr\u00e1s da brutalidade russo-iraniana e de al-Assad. Obviamente, o papel crescente atribu\u00eddo pelas grandes pot\u00eancias ao Ir\u00e3 ocorre em detrimento da Ar\u00e1bia Saudita\/Qatar e da Turquia, algo que causou tens\u00f5es. O papel do Ir\u00e3 como fator estabilizador, numa regi\u00e3o em chamas, \u00e9 a chave para a \u201creabilita\u00e7\u00e3o\u201d do regime dos Aiatol\u00e1s por parte dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia, atrav\u00e9s do acordo nuclear de 2015.<\/p>\n<p>Faltava encaixar mais uma pe\u00e7a ao quebra-cabe\u00e7a contrarrevolucion\u00e1rio. Em 9 de agosto de 2016, Erdogan, presidente turco, viajou a Moscou para estabelecer um acordo com Putin. Depois da tentativa fracassada de golpe na Turquia, em 15 de julho, e do distanciamento dos EUA e da Uni\u00e3o Europeia, Erdogan procurou aliados mais confi\u00e1veis, apesar de Bruxelas continuar a financi\u00e1-lo em troca da manuten\u00e7\u00e3o dos refugiados distantes das fronteiras europeias.<\/p>\n<p>O acordo com a R\u00fassia permitiu \u00e0 Turquia invadir uma zona do norte da S\u00edria, em 24 de agosto, para impedir que os curdos continuassem o seu avan\u00e7o sobre as posi\u00e7\u00f5es do Estado Isl\u00e2mico, conectando as regi\u00f5es curdas e completando o controle da zona fronteiri\u00e7a. Em troca, Erdogan apoiaria a continuidade do regime de al-Assad e deixaria Aleppo cair. Em campo, a Turquia retirou 4.000 combatentes sob seu comando de Aleppo (salafistas de Ahrar al-Sham e outros), que se deslocaram para norte, para participar da captura \u2013 junto com tanques turcos \u2013 de Jarablus. E, pela primeira vez, os tanques turcos confrontaram o Estado Isl\u00e2mico na S\u00edria, ap\u00f3s anos de cumplicidade.<\/p>\n<p>Se a presen\u00e7a do Estado Isl\u00e2mico serviu de espantalho para justificar todas as interven\u00e7\u00f5es estrangeiras na S\u00edria, sob o manto de \u201ccombate ao terrorismo\u201d, n\u00e3o h\u00e1 desculpas em Aleppo. Em janeiro de 2014, foram os rebeldes que expulsaram as mil\u00edcias de al-Baghdadi da cidade, denunciando-as como agentes a servi\u00e7o da rea\u00e7\u00e3o, como uma for\u00e7a invasora, sem rela\u00e7\u00e3o com a luta do povo s\u00edrio. A a\u00e7\u00e3o genocida de Damasco, Teer\u00e3 e Moscou \u2013 e o sil\u00eancio c\u00famplice da Turquia, da Ar\u00e1bia Saudita, do Qatar, dos Estados Unidos e das pot\u00eancias europeias \u2013 deram novo f\u00f4lego ao Estado Isl\u00e2mico, que, enquanto Aleppo ca\u00eda, recuperou Palmyra num golpe de m\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado da a\u00e7\u00e3o brutal do ex\u00e9rcito leal a al-Assad, da interven\u00e7\u00e3o terrestre iraniana e dos bombardeios a\u00e9reos russos, com a mudan\u00e7a de pol\u00edtica da Turquia, foi a queda de Aleppo, ap\u00f3s um cerco implac\u00e1vel e uma destrui\u00e7\u00e3o brutal, que tinha como objetivo aterrorizar a popula\u00e7\u00e3o civil como arma de guerra. Por isso, os hospitais e as escolas foram os alvos priorit\u00e1rios. A barb\u00e1rie lan\u00e7ada sobre Aleppo, diante dos olhos de todo o mundo, \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de Dresden e Leipzig, no final da Segunda Guerra Mundial, e de Guernica na Guerra Civil Espanhola. Os poderosos do mundo enviaram uma mensagem macabra aos povos que ousam se levantar contra as ditaduras: o inferno os espera.<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria e a dire\u00e7\u00e3o curda do PYD e das YPG<\/strong><\/p>\n<p>Um dos dramas da revolu\u00e7\u00e3o na S\u00edria foi que a dire\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios e o Ex\u00e9rcito S\u00edrio Livre (uma multiplicidade de organiza\u00e7\u00f5es, sem uma lideran\u00e7a centralizada) n\u00e3o abra\u00e7aram a quest\u00e3o curda. E, consequentemente, as dire\u00e7\u00f5es do Partido da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica (PYD) e das Unidades de Prote\u00e7\u00e3o Popular (YPG), principais organiza\u00e7\u00f5es curdas, n\u00e3o se conectaram com o processo revolucion\u00e1rio s\u00edrio.<\/p>\n<p>Os curdos participaram da ascens\u00e3o revolucion\u00e1ria contra o regime e da luta pelo reconhecimento dos seus direitos enquanto povo. E o pan-arabismo, que tem muito peso na esquerda s\u00edria, tornou dif\u00edcil o reconhecimento dos direitos de outros povos n\u00e3o-\u00e1rabes, como os curdos. Sem esse reconhecimento, seria muito dif\u00edcil selar uma alian\u00e7a decisiva com a dire\u00e7\u00e3o curda. Por outro lado, o PYD e as YPG, que poderiam ter prestado uma colabora\u00e7\u00e3o substancial \u00e0 revolta, limitaram os confrontos com o regime \u00e0 defesa do seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O Estado Isl\u00e2mico entrou na S\u00edria, vindo do Iraque, em 2014, quase tr\u00eas anos ap\u00f3s a eclos\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o. As suas mil\u00edcias n\u00e3o confrontaram al-Assad: os seus alvos foram os rebeldes \u00e1rabes (de quem tomaram cidades libertadas do regime, como Raqqa) e a resist\u00eancia curda. Al-Assad disse, desde o in\u00edcio, que n\u00e3o estava enfrentando uma revolta popular, mas uma conspira\u00e7\u00e3o terrorista, e deixou o jihadismo crescer para atacar a retaguarda da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tanto al-Assad quanto a Turquia, que estava financiando grupos salafistas para sequestrar e controlar o processo revolucion\u00e1rio, consideraram muito \u00fatil que os jihadistas do Daesh atacassem o projeto de autonomia dos curdos no norte da S\u00edria. Os estados s\u00edrio e turco, cada um pelos seus pr\u00f3prios interesses, apoiaram o Estado Isl\u00e2mico com a compra de petr\u00f3leo e fronteiras porosas, permitindo a entrada de combatentes e armas\u2026<\/p>\n<p>Os Estados Unidos \u2013 com Obama ordenando uma nova guerra no Iraque, para preservar o governo fantoche em Bagd\u00e1, ap\u00f3s a retirada das suas tropas \u2013 decidiram usar os curdos como bucha de canh\u00e3o para conter o Daesh na S\u00edria, sem eliminar o espantalho. Ap\u00f3s a her\u00f3ica defesa de Kobane, as YPG, com o apoio militar dos Estados Unidos, come\u00e7aram a ganhar posi\u00e7\u00f5es do Estado Isl\u00e2mico, n\u00e3o s\u00f3 em territ\u00f3rios povoados pela popula\u00e7\u00e3o curda, mas tamb\u00e9m em cidades \u00e1rabes, impondo o seu controle e sem restabelecer os comit\u00eas revolucion\u00e1rios. Em alguns locais, civis \u00e1rabes foram expulsos das cidades, originando confrontos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a entrada aberta da R\u00fassia e do Ir\u00e3 na guerra, o PYD colaborou com o avan\u00e7o do regime em Aleppo. Primeiro, ajudando a cortar a estrada Castello, que ligava Aleppo com a Turquia e por onde os rebeldes conseguiam obter suprimentos. Mais tarde, contribuiu na queda da cidade. Em fevereiro de 2016, Moscou recompensou o PYD com uma sede em Moscou. Desta forma, a dire\u00e7\u00e3o curda recebeu apoio militar dos Estados Unidos, e pol\u00edtico de Moscou, que defendeu a sua presen\u00e7a nas negocia\u00e7\u00f5es. Apoio relativo e tempor\u00e1rio, porque nenhuma das duas grandes pot\u00eancias fez nada para impedir o avan\u00e7o turco na S\u00edria contra os curdos.<\/p>\n<p>Repudiamos a colabora\u00e7\u00e3o do PYD na queda de Aleppo, consequ\u00eancia do seu oportunismo nacionalista, que abriu um fosso ainda mais profundo entre os revolucion\u00e1rios \u00e1rabes e curdos. Tal pol\u00edtica do PYD n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 desastrosa para a revolu\u00e7\u00e3o e favorece o regime, como tamb\u00e9m se voltar\u00e1, mais cedo ou mais tarde, contra o pr\u00f3prio povo curdo. O PYD est\u00e1 cavando sua pr\u00f3pria cova. Al-Assad j\u00e1 declarou que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a autonomia curda na constitui\u00e7\u00e3o s\u00edria. Em Hassakeh, os curdos foram bombardeados pelo ex\u00e9rcito s\u00edrio. A experi\u00eancia do governo curdo aut\u00f4nomo do norte do Iraque, nas m\u00e3os de Barzani, dificilmente se repetir\u00e1, porque a Turquia n\u00e3o permitir\u00e1 que o partido irm\u00e3o do PKK na S\u00edria assuma o controle de um aparelho de Estado na sua fronteira sul. Putin e Erdogan parecem j\u00e1 ter um acordo sobre isso\u2026. Ent\u00e3o o que resta? Confiar nos EUA de Trump?<\/p>\n<p>No F\u00f3rum Social Mundial de 2013, na Tun\u00edsia, participamos de um encontro entre as principais for\u00e7as da esquerda s\u00edria e a dire\u00e7\u00e3o europeia do PYD, que estabeleceu um acordo para promover uma campanha internacional de apoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria e \u00e0 luta do povo curdo. Por\u00e9m, o acordo assinado n\u00e3o saiu do papel. Essa conflu\u00eancia \u2013 poss\u00edvel apenas com reconhecimento m\u00fatuo \u2013 teria uma import\u00e2ncia vital tanto na esfera pol\u00edtica quanto militar. Tal alian\u00e7a poderia ter mudado o curso da guerra.<\/p>\n<p><strong>O papel da maioria da esquerda internacional<\/strong><\/p>\n<p>A maioria da esquerda alinhou-se com o regime assassino de Assad, com as mentiras e com os massacres, saudando como libertadores os regimes reacion\u00e1rios do Ir\u00e3 e de Putin. A origem desse crime deve ser procurada na Venezuela e em Cuba, que servem de guias para diferentes correntes, como os Partidos Comunistas da Europa, da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Foi Hugo Ch\u00e1vez quem elevou os reacion\u00e1rios Mahmud Ahmadinejad e o Ir\u00e3 dos Aiatol\u00e1s \u00e0 categoria de revolucion\u00e1rios anti-imperialistas, enquanto assinava acordos petrol\u00edferos milion\u00e1rios. Um Ir\u00e3 constru\u00eddo sobre a derrota e o sequestro da revolu\u00e7\u00e3o que derrubou o X\u00e1, com o assassinato de centenas de militantes de esquerda, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio partido comunista Tudeh.<\/p>\n<p>O mesmo aconteceu com Gaddafi, de quem Ch\u00e1vez disse: \u201cO amigo Gaddafi \u00e9 para a L\u00edbia o que Bol\u00edvar \u00e9 para a Venezuela\u201d. N\u00e3o importava o que o pr\u00f3prio Gaddafi disse na televis\u00e3o: \u201cEntrarei em Benghazi como Franco entrou em Madrid\u201d; nem que ele se orgulhasse de colaborar com a CIA e com o sistema internacional de Guant\u00e1namo; ou que financiasse o reacion\u00e1rio Sarkozy; ou que fosse um amigo de Berlusconi, assinando acordos com a It\u00e1lia para impedir a sa\u00edda de migrantes subsaarianos; e que Aznar o visse \u201ccomo o amigo extravagante\u201d, que lhe permitiu suculentos neg\u00f3cios. Essa esquerda queria ver apenas o Gaddafi \u201cbolivariano\u201d.<\/p>\n<p>Santiago Alba escreveu que \u201cAleppo \u00e9, sim, o t\u00famulo do sonho de liberdade dos s\u00edrios, mas tamb\u00e9m o t\u00famulo da esquerda mundial\u201d. \u00c9 um t\u00famulo cavado pela sua dire\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o por falta de informa\u00e7\u00e3o ou de capacidade de analisar a realidade de um mundo multipolar; mas sobretudo porque decidiu se subordinar a interesses estatais, principalmente da Venezuela. O chamado socialismo do s\u00e9culo XXI, mais uma vez, mostrou que \u00e9 imposs\u00edvel construir uma alternativa ao capitalismo num \u00fanico pa\u00eds ou regi\u00e3o do planeta, e que, para preservar temporariamente o seu espa\u00e7o, s\u00f3 lhe resta se voltar contra novas experi\u00eancias revolucion\u00e1rias, como fez o estalinismo, traindo a revolu\u00e7\u00e3o na Espanha em 1937 e assassinando Andreu Nin; em Budapeste, em 1956; e em Praga, em 1968.<\/p>\n<p>A esquerda com um passado estalinista redescobriu a R\u00fassia de Putin como uma refer\u00eancia de anti-imperialismo, junto com o regime reacion\u00e1rio iraniano, numa tentativa absurda de reconstruir a pol\u00edtica de blocos. Para fazer isso, precisa contar grandes mentiras e aplaudir as atrocidades de al-Assad; ou permanecer em sil\u00eancio face \u00e0 pol\u00edtica iraniana no Iraque; e at\u00e9 adoptar a linguagem do imperialismo da \u201cguerra ao terrorismo\u201d. Tal esquerda tem, hoje, as m\u00e3os sujas de sangue.<\/p>\n<p>Outra esquerda, supostamente alternativa, tamb\u00e9m tem tido uma postura desastrosa. Ela s\u00f3 viu a revolu\u00e7\u00e3o no Curdist\u00e3o S\u00edrio, mantendo uma posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua em rela\u00e7\u00e3o ao regime de al-Assad e negando apoio \u00e0 esquerda \u00e1rabe. Ou se refugiou no refr\u00e3o \u201ca S\u00edria \u00e9 muito complicada\u201d para n\u00e3o fazer nada.<\/p>\n<p>Os revolucion\u00e1rios que lideraram a revolta de 2011, na sua maioria jovens, foram deixados sozinhos, \u00f3rf\u00e3os de apoio externo, no seu sonho de liberdade e justi\u00e7a social. Eles resgataram (para todos n\u00f3s) a palavra revolu\u00e7\u00e3o dos livros de hist\u00f3ria e a trouxeram para o s\u00e9culo XXI. Nem sequer tiveram o reconhecimento externo, nem o est\u00edmulo de saberem que, l\u00e1 fora, algu\u00e9m se preocupava com eles e saia \u00e0s ruas em sua defesa. Um isolamento brutal, pelo qual est\u00e3o pagando caro, com dezenas de milhares de ativistas assassinados, torturados, desaparecidos. Com intelectuais e ativistas de esquerda que passaram uma vida inteira entre a pris\u00e3o e a clandestinidade, e que deram tudo, absolutamente tudo, para construir um novo mundo. N\u00f3s reivindicamos seu exemplo, prestamos homenagens, partilhamos a sua dor e sacrif\u00edcio; choramos a suas mortes; ficamos indignado por n\u00e3o termos conseguido quebrar o muro de sil\u00eancio em torno da revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria; e, acima de tudo, continuamos a apoi\u00e1-los nos momentos mais sombrios, aprendendo com seus ensinamentos.<\/p>\n<p><strong>Um ponto de virada: e a revolu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a derrota de Aleppo, o regime e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o fortalecem-se. As for\u00e7as revolucion\u00e1rias est\u00e3o muito enfraquecidas na S\u00edria e, por tabela, retrocede o processo revolucion\u00e1rio aberto na Tun\u00edsia em 2011. Ao contr\u00e1rio dos discursos sobre a luta contra a amea\u00e7a terrorista, o objetivo contra-revolucion\u00e1rio que uniu todos (al-Assad, R\u00fassia, Ir\u00e3, Hezbollah, Estados Unidos, Turquia, Ar\u00e1bia Saudita, Qatar, Uni\u00e3o Europeia\u2026. e os fundamentalistas isl\u00e2micos) foi e \u00e9 a derrota da revolu\u00e7\u00e3o e das bases populares que surgiram em mar\u00e7o de 2011.<\/p>\n<p>O regime controla apenas entre 25 e 30% do territ\u00f3rio s\u00edrio. O norte est\u00e1 sob o controle da dire\u00e7\u00e3o curda. O leste continua sob o dom\u00ednio do reacion\u00e1rio Estado Isl\u00e2mico. No noroeste, a prov\u00edncia de Idlib est\u00e1 sob a supremacia militar da Frente da Vit\u00f3ria, liderada por al-Nusra e Ahrar al-Sham, grupos salafistas que foram financiados pela Turquia, Ar\u00e1bia Saudita e Qatar para controlar e sequestrar a revolu\u00e7\u00e3o popular. Na tr\u00e9gua de mar\u00e7o, que coincidiu com o 5\u00ba anivers\u00e1rio da revolta, a al-Nusra tentou impedir os revolucion\u00e1rios de hastearem as suas bandeiras nas manifesta\u00e7\u00f5es. A frente sul, em Daraa, est\u00e1 inativa. L\u00e1 h\u00e1 milhares de militantes do Ex\u00e9rcito S\u00edrio Livre, com armas fornecidas pela Jord\u00e2nia e pelos Estados Unidos, pa\u00edses que impuseram uma tr\u00e9gua. O campo de refugiados palestinos de Yarmouk permanece sob controle da al-Nusra. Pequenos bols\u00f5es perto de Damasco e de Homs permanecem sob o controle do ESL.<\/p>\n<p>Com o Ir\u00e3, o Hezbollah e as mil\u00edcias sect\u00e1rias xiitas em ofensiva terrestre, por um lado, e os fundamentalistas isl\u00e2micos sunitas da Al-Qaeda e do pr\u00f3prio Estado Isl\u00e2mico tamb\u00e9m avan\u00e7ando, de outro lado, o perigo de uma guerra sect\u00e1ria \u00e9 evidente. O mesmo pode acontecer no norte contra os curdos. Agora que a revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 retrocedendo, o jihadismo avan\u00e7a.<\/p>\n<p>Milhares de pessoas deixaram Aleppo, que lutou heroicamente contra o regime. A luta contra o regime n\u00e3o acabou, mas certamente assumir\u00e1 diferentes formas e passar\u00e1 por uma reorganiza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Recentemente, a intensidade dos bombardeios foi reduzida e as manifesta\u00e7\u00f5es recome\u00e7aram nos territ\u00f3rios libertados. Por\u00e9m, h\u00e1 algumas quest\u00f5es em aberto: o que acontecer\u00e1 ao povo curdo? Ser\u00e1 poss\u00edvel que um novo impulso revolucion\u00e1rio ocorra em outros pa\u00edses?\u2026 N\u00e3o nos compete especular sobre a capacidade de rea\u00e7\u00e3o que ainda resta. Enquanto houver resist\u00eancia, devemos apoi\u00e1-la com todas as nossas for\u00e7as. Seguir denunciando o regime assassino de Bashar al-Assad e os seus aliados, exigindo o fim dos bombardeios e dos cercos \u00e0s vilas e cidades. Exigindo a retirada imediata de todas as for\u00e7as internacionais da S\u00edria: R\u00fassia, Ir\u00e3, Turquia, Estados Unidos, Fran\u00e7a, Gr\u00e3-Bretanha\u2026. Rejeitando o reacion\u00e1rio Estado Isl\u00e2mico e a al-Nusra. E ampliando a solidariedade com os expulsos do pa\u00eds, que procuram um lugar de ref\u00fagio na Europa: abaixo todos os muros!<\/p>\n<p><strong>28 de dezembro de 2016<\/strong><\/p>\n<p><strong>Josep Llu\u00eds del Alc\u00e1zar, Atakan \u00c7ift\u00e7i e Cristina Mas \u2013 militantes da UIT-QI<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Josep Llu\u00eds del Alc\u00e1zar, Atakan \u00c7ift\u00e7i e Cristina Mas Em 22 de dezembro, o regime de Bashar al-Assad confirmou a queda de Aleppo, a capital industrial da S\u00edria e o principal basti\u00e3o urbano da revolu\u00e7\u00e3o contra a ditadura. 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