

	{"id":16616,"date":"2018-04-20T16:29:48","date_gmt":"2018-04-20T19:29:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=16616"},"modified":"2024-12-20T16:32:28","modified_gmt":"2024-12-20T19:32:28","slug":"16616","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2018\/04\/20\/16616\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 3 \u2013 A queda de Aleppo: um avan\u00e7o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio e no Norte da \u00c1frica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Cap\u00edtulo 3 \u2013 A queda de Aleppo: um avan\u00e7o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio e no Norte da \u00c1frica<\/strong><\/p>\n<p>O centro do confronto entre revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o segue localizado no Oriente M\u00e9dio e no Norte de \u00c1frica. A contrarrevolu\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou no \u00faltimo per\u00edodo, particularmente com a consolida\u00e7\u00e3o de Bashar al-Assad na S\u00edria, ap\u00f3s a queda de Aleppo. Tal derrota pode ser o in\u00edcio do fim da revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria, que come\u00e7ou em mar\u00e7o de 2011. Alguns focos de resist\u00eancia permanecem, em condi\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis. Com a queda de Aleppo, houve uma mudan\u00e7a desfavor\u00e1vel na situa\u00e7\u00e3o da S\u00edria. N\u00e3o podemos mais continuar a falar de revolu\u00e7\u00e3o, mas sim de focos de resist\u00eancia \u00e0 ditadura. \u00c9 necess\u00e1rio um ajuste nas nossas palavras de ordem, na sua ordem de prioridades e na mudan\u00e7a de \u201capoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o\u201d por \u201capoio \u00e0 resist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Foi um golpe muito duro para o processo revolucion\u00e1rio s\u00edrio e regional. O regime e os seus aliados diretos, a R\u00fassia e o Ir\u00e3, com a cumplicidade da Turquia e da coalis\u00e3o internacional liderada pelos Estados Unidos, pretendem enviar um forte recado aos povos da regi\u00e3o, que amea\u00e7am se insurgir: a destrui\u00e7\u00e3o e a morte os aguardam, com uma crueldade sem precedentes, caso escolham esse caminho. Como disse o ministro das rela\u00e7\u00f5es exteriores russo, seu pa\u00eds n\u00e3o s\u00f3 salvou o regime, mas tamb\u00e9m buscou acabar com a onda revolucion\u00e1ria na regi\u00e3o. Contudo, ainda existe resist\u00eancia na S\u00edria e os novos regimes da regi\u00e3o n\u00e3o conseguiram se estabilizar.<\/p>\n<p><strong>3.1. A queda de Aleppo elimina a possibilidade da queda imediata do regime<\/strong><\/p>\n<p>No dia 22 de dezembro, caiu a cidade de Aleppo, a capital industrial da S\u00edria e o cora\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o, depois de meses sob um cerco total e devastada por bombardeios brutais. A her\u00f3ica resist\u00eancia popular n\u00e3o conseguiu suplantar a supremacia militar do regime, com o apoio decisivo da R\u00fassia e do Ir\u00e3. Para preparar o ataque final, faltava a colabora\u00e7\u00e3o da Turquia. E isso foi acertado em agosto, entre Erdogan e Putin: a Turquia ocuparia o territ\u00f3rio s\u00edrio, para impedir o avan\u00e7o curdo, enquanto deixaria Aleppo cair, com a reabilita\u00e7\u00e3o de Bashar. Os imperialismos americano e europeu foram c\u00famplices do acordo. Mais de uma dezena de pa\u00edses intervieram militarmente no territ\u00f3rio s\u00edrio, contribuindo ativa ou passivamente para isolar e derrotar a revolu\u00e7\u00e3o e dar continuidade ao regime. Inclusive, impulsionando o ISIS como fator contrarrevolucion\u00e1rio. Agora, tentar\u00e3o selar um acordo numa mesa de negocia\u00e7\u00f5es. Todos esses fatores t\u00eam provocado uma deteriora\u00e7\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio nos \u00faltimos anos. O apoio criminoso do aparato internacional do castro-chavismo tamb\u00e9m tem sido fundamental para sustentar o regime, boicotando a solidariedade com a revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria. Tudo isso contribuiu para confundir o movimento de massas mundial e a sua vanguarda, isolando a revolu\u00e7\u00e3o S\u00edria.<\/p>\n<p>Com o triunfo em Aleppo, afasta-se a possibilidade da queda iminente do regime. O pa\u00eds est\u00e1 dividido entre a zona sul e costeira controlada por Bashar, o leste comandado pelo ISIS e o norte sob o controle curdo, com as cidades ocupadas pela Turquia. Finalmente, a oeste de Aleppo est\u00e1<\/p>\n<p>Idlib, n\u00e3o controlada pelo regime, mas com uma presen\u00e7a militar salafista significativa (o salafismo \u00e9 uma corrente burguesa isl\u00e2mica sunita ultra-reacion\u00e1ria, que procura impor ditaduras teocr\u00e1ticas) de al-Nusra e de Ahrar al-Sham, for\u00e7as reacion\u00e1rias. Em Idlib ocorreram confrontos entre o Ex\u00e9rcito S\u00edrio Livre e a al-Nusra, envolvendo a popula\u00e7\u00e3o civil. Continuam existindo focos de resist\u00eancia, que devem ser apoiados, mas \u00e9 preciso tirar as li\u00e7\u00f5es dos quase 6 anos de luta, para reorganizar as for\u00e7as nesta nova situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel.<\/p>\n<p>H\u00e1 apenas um ano, o regime estava na corda bamba, encurralado pelo processo revolucion\u00e1rio mais importante, em n\u00edvel mundial, das \u00faltimas d\u00e9cadas. Sem a interven\u00e7\u00e3o direta da R\u00fassia, do Ir\u00e3 e do Hezbollah, o regime teria sucumbido.<\/p>\n<p>No entanto, a aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica revolucion\u00e1ria tamb\u00e9m contribuiu para a vit\u00f3ria do regime. A pol\u00edtica das dire\u00e7\u00f5es que controlam o ESL \u2013 embora seja, mais do que uma organiza\u00e7\u00e3o unificada, um movimento heterog\u00eaneo, com for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o burguesas, como setores s\u00edrios ligados, entre outros, \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana \u2013 n\u00e3o foi de independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao imperialismo e \u00e0s pot\u00eancias regionais, mas de esperar por muito tempo que os Estados Unidos ou a Turquia impusessem a queda do regime. Entretanto, a interven\u00e7\u00e3o da Turquia, da Ar\u00e1bia Saudita e do Qatar foi no sentido de enfraquecer, para desviar o rumo da revolu\u00e7\u00e3o, os setores fi\u00e9is \u00e0s bandeiras revolucion\u00e1rias, como a liberdade e a justi\u00e7a social, e de abastecer e armar os setores salafistas, que n\u00e3o tinham um peso significativo no processo revolucion\u00e1rio, mas se tornaram fortes militarmente e impuseram a sua pr\u00f3pria agenda atrav\u00e9s das armas.<\/p>\n<p>Outro aspecto chave para o avan\u00e7o do movimento revolucion\u00e1rio seria a articula\u00e7\u00e3o entre as lutas dos povos s\u00edrio e curdo, que poderia ter mudado o curso da guerra. Por\u00e9m, n\u00e3o foi essa a pol\u00edtica das dire\u00e7\u00f5es. Isso por conta, por um lado, do pan-arabismo dominante na esquerda e nos grupos rebeldes s\u00edrios, que se recusam a reconhecer outras realidades, e da sua alian\u00e7a com a Turquia, principal amea\u00e7a aos curdos e pot\u00eancia que tem estimulado os grupos salafistas. E tamb\u00e9m, por outro lado, do oportunismo pol\u00edtico nacionalista, que tem caracterizado a dire\u00e7\u00e3o do PYD \u2013 a principal organiza\u00e7\u00e3o dos curdos s\u00edrios, irm\u00e3 do PKK \u2013 e das YPG, as Unidades de Prote\u00e7\u00e3o Popular. A dire\u00e7\u00e3o curda tem procurado todos os tipos de aliados, exceto o movimento popular s\u00edrio: fez isso com os Estados Unidos, que os utilizou para barrar o avan\u00e7o do ISIS (Daesh em \u00e1rabe). Tentaram com a R\u00fassia, que por sua vez deu todo o apoio ao regime s\u00edrio. E amanh\u00e3 ser\u00e3o esses aliados que vender\u00e3o o povo curdo mais uma vez na sua hist\u00f3ria. A colabora\u00e7\u00e3o do PYD na tomada de Aleppo foi uma p\u00e1gina desastrosa, n\u00e3o s\u00f3 para o PYD e o PKK, mas tamb\u00e9m para os grupos de esquerda e anarquistas que apoiaram incondicionalmente tais organiza\u00e7\u00f5es, justificando a transforma\u00e7\u00e3o praticamente m\u00edstica de Abdullah Ocalan na pris\u00e3o \u2013 do stalinismo mais ferrenho a um anarquismo id\u00edlico, que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade, o chamado confederalismo democr\u00e1tico \u2013 e se calando diante desta e de outras lament\u00e1veis \u200b\u200bpol\u00edticas sect\u00e1rias da dire\u00e7\u00e3o curda.<\/p>\n<p>Era necess\u00e1ria uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica revolucion\u00e1ria, independente do imperialismo e das pot\u00eancias regionais, que promovesse a articula\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, os comit\u00eas de coordena\u00e7\u00e3o locais, num poder oriundo da revolu\u00e7\u00e3o, que decidisse a linha da luta armada. Uma dire\u00e7\u00e3o que buscasse a conflu\u00eancia das lutas dos povos s\u00edrio e curdo. H\u00e1 portanto uma tarefa urgente: aprofundar o balan\u00e7o sobre o que aconteceu e avan\u00e7ar no processo de reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda da S\u00edria e da regi\u00e3o, construindo a dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que faltou \u00e0 luta her\u00f3ica do povo s\u00edrio.<\/p>\n<p>A luta do povo s\u00edrio recebeu o apoio de poucas correntes da esquerda revolucion\u00e1ria. A UIT-QI tem desempenhado um papel muito ativo nessa solidariedade. N\u00e3o especulamos sobre capacidade de recupera\u00e7\u00e3o da luta contra Bashar. E n\u00e3o deixaremos, nem por um momento, de apoiar a resist\u00eancia do povo contra o tirano e contra as fra\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias do ISIS e da al-Nusra. Isso denunciando a cumplicidade da R\u00fassia, do Ir\u00e3 e dos imperialismos americano e europeu no massacre do povo s\u00edrio: exigimos o fim dos bombardeios e que todos deixem a S\u00edria. Exigimos a liberta\u00e7\u00e3o dos detidos e encarcerados.<\/p>\n<p><strong>3.2. A esquerda neo-stalinista \u00e9 respons\u00e1vel pelo massacre praticado pelo regime<\/strong><\/p>\n<p>O neo-stalinismo, alinhado com o chavismo e o castrismo, desempenhou um papel contrarrevolucion\u00e1rio e criminoso nos processos revolucion\u00e1rios. No Egito, saudou o sangrento golpe de Estado de al-Sisi. Na L\u00edbia, defendeu o ditador Gaddafi. Agora na S\u00edria, esteve ao lado de Bashar al-Assad, ignorando todas as suas comprovadas atrocidades.<\/p>\n<p>Foi Hugo Ch\u00e1vez quem elevou o reacion\u00e1rio Mahmud Ahmadinejad e o Ir\u00e3 dos Aiatol\u00e1s \u00e0 categoria de revolucion\u00e1rios anti-imperialistas, enquanto assinava acordos petrol\u00edferos milion\u00e1rios. Um Ir\u00e3 constru\u00eddo sobre a derrota e o sequestro da revolu\u00e7\u00e3o que derrubou o X\u00e1, com o assassinato de centenas de militantes de esquerda, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio partido comunista Tudeh. N\u00e3o \u00e9 que o chavismo n\u00e3o tenha capacidade de analisar ou compreender a realidade do Oriente M\u00e9dio: \u00e9 que ele se orienta, usando uma roupagem \u201csocialista\u201d, pelos interesses do seu setor patronal e pela defesa dos seus aliados e s\u00f3cios nos neg\u00f3cios petrol\u00edferos, passando por cima dos direitos dos povos.<\/p>\n<p>Isso embora o pr\u00f3prio Gaddafi tenha insistido em provar que fazia parte da Guant\u00e1namo externa; que entraria &#8220;em Benghazi como Franco entrou em Madrid&#8221; (referindo-se \u00e0 Guerra Civil Espanhola); tenha sido demonstrado que ele financiou a campanha de Sarkozy e que foi amigo de Berlusconi; que tenha tido neg\u00f3cios com Aznar &#8211; o do trio dos A\u00e7ores -, que o considerava um aliado e amigo &#8220;extravagante&#8221;&#8230; Tudo isso n\u00e3o impediu essa esquerda de elogiar Gaddafi como anti-imperialista. Por\u00e9m, foi dado um salto de qualidade na S\u00edria. Isso por conta do apoio direto ao regime assassino, respons\u00e1vel por quase meio milh\u00e3o de mortes, pela repress\u00e3o extrema, pelos cercos e pelos ataques com armas qu\u00edmicas contra a popula\u00e7\u00e3o civil. O grau das atrocidades justificadas ou simplesmente negadas torna essa esquerda diretamente c\u00famplice do exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Se o chavismo reabilitou a imagem do reacion\u00e1rio Ir\u00e3 dos Aiatol\u00e1s, a esquerda neo-estalinista elege Putin como o salvador da S\u00edria. Putin, ex-chefe da KGB, brutal repressor de toda dissid\u00eancia. Defensor do capitalismo selvagem, que empobreceu a classe trabalhadora com leis trabalhistas muito duras. Figura apoiada por toda a extrema-direita europeia, que devastou Grozny na Chech\u00eania do mesmo modo como fez agora com Aleppo. Repressor de povos. Amigo de Trump. Ningu\u00e9m que se autodenomina de esquerda pode lhe dar um minuto de tr\u00e9gua. Os bombardeios russos na S\u00edria, desde 2015, marcaram um ponto de virada na guerra e salvaram al-Assad. Putin quer manter os seus aliados na regi\u00e3o e consolidar as suas posi\u00e7\u00f5es militares, como a base de Tartus, a \u00faltima que lhe resta no Mediterr\u00e2neo. Por\u00e9m, o seu desembarque no Oriente M\u00e9dio tamb\u00e9m tem um objetivo de consumo interno: reposicionar o pa\u00eds como uma grande pot\u00eancia, inflando o chauvinismo, com o qual pretende esconder a dif\u00edcil crise econ\u00f4mica atravessada pela R\u00fassia.<\/p>\n<p><strong>3.3. ISIS (Daesh): uma quinta coluna contrarrevolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>O ISIS (Daesh em \u00e1rabe) foi criado para intervir na revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria, dividindo a frente contra o ditador al-Assad. Atua desde 2013 como quinta coluna e fator contrarrevolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica burguesa, com uma proposta teocr\u00e1tica, ditatorial e contrarrevolucion\u00e1ria (jihadismo salafista), que procura estabelecer um \u201cCalifado\u201d na regi\u00e3o. As suas mil\u00edcias atuam aplicando m\u00e9todos aberrantes de limpeza \u00e9tnica, a servi\u00e7o desse programa reacion\u00e1rio. Alega-se que teria sido financiado pelo regime mon\u00e1rquico sunita pr\u00f3-ianque da Ar\u00e1bia Saudita. Ou seja, na verdade, trata-se da cria\u00e7\u00e3o direta de um forte aliado dos Estados Unidos, com o papel de intervir na revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria para tentar garantir que, dada a poss\u00edvel queda de Bashar al-Assad, seja criado um regime ditatorial aliado \u00e0 burguesia petrol\u00edfera sunita da Ar\u00e1bia Saudita, inimiga de qualquer processo de mudan\u00e7a democr\u00e1tica. Na revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria, ele atua contra os pr\u00f3prios rebeldes, ocupando territ\u00f3rios. Da S\u00edria seguiu para as prov\u00edncias centro-orientais do Iraque, com grande presen\u00e7a sunita, tomando cidades importantes como Mossul e outras. Em todos estes territ\u00f3rios, foram cometidas atrocidades, como execu\u00e7\u00f5es em massa de opositores e expuls\u00e3o de minorias religiosas.<\/p>\n<p>O jihadismo (que abrange v\u00e1rios grupos isl\u00e2micos, n\u00e3o apenas o ISIS), enquanto fen\u00f4meno de massas, \u00e9 um produto de v\u00e1rios fatores, como a interven\u00e7\u00e3o imperialista na regi\u00e3o, as pol\u00edticas sect\u00e1rias dos regimes regionais e a corrup\u00e7\u00e3o e o colapso do nacionalismo \u00e1rabe e dos PCs. A al-Qaeda fortaleceu-se no Iraque ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o ianque, com as pol\u00edticas sect\u00e1rias do governo fantoche iraquiano, controlado por Ir\u00e3 e Estados Unidos. No entanto, quando os primeiros processos revolucion\u00e1rios eclodiram, em 2011, a al-Qaeda, o ponto de refer\u00eancia do jihadismo na \u00e9poca, ficou marginalizada do processo pol\u00edtico. As massas ocuparam o centro do palco, enfrentando as ditaduras que acorrentavam a regi\u00e3o aos interesses do imperialismo e de Israel, fossem elas monarquias ou rep\u00fablicas, laicas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Obama, Trump, Hollande, Rajoy, Putin, Erdogan e Bashar: todos dizem ou disseram que combatem o terrorismo. \u00c9 uma desculpa esfarrapada, usada para justificar a brutalidade dos regimes que lutam para seguir no poder contra os seus povos na S\u00edria, na Turquia e no Egito. N\u00e3o \u00e9 novidade. Devemos recordar o financiamento de Bin Laden pela CIA, na luta para expulsar a URSS do Afeganist\u00e3o, origem dos Taliban e da al-Qaeda. O ISIS serve para tais prop\u00f3sitos como o \u201cmal\u201d perfeito, usando tecnologia moderna para exaltar a brutalidade das suas a\u00e7\u00f5es, superando a al-Qaeda. \u00c9 por isso que as for\u00e7as reacion\u00e1rias s\u00e3o as primeiras interessadas em alimentar o \u201cmal\u201d. Bashar al-Assad fez isso, esvaziando as pris\u00f5es e facilitando a forma\u00e7\u00e3o do ISIS, sem confront\u00e1-lo militarmente, para atacar a retaguarda da revolu\u00e7\u00e3o. A Turquia facilitou a entrada de material militar e a compra de petr\u00f3leo. Os Estados Unidos e os governos da Uni\u00e3o Europeia tamb\u00e9m ajudaram o jihadismo, com bombardeios indiscriminados contra a popula\u00e7\u00e3o civil em Raqqa e Mossul, alimentando a din\u00e2mica a\u00e7\u00e3o\/ rea\u00e7\u00e3o, bombardeios\/ atentados, e tamb\u00e9m com pol\u00edticas anti-imigra\u00e7\u00e3o, xen\u00f3fobas e racistas. Por outro lado, desde 2013, como reflexo da desilus\u00e3o provocada pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o, a al-Qaeda e mais tarde o Daesh conseguiram conquistar um setor social marginalizado do Oriente M\u00e9dio e tamb\u00e9m do seio da juventude mu\u00e7ulmana na Europa. Isso por conta, acima de tudo, da aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1rio e da orienta\u00e7\u00e3o das diversas dire\u00e7\u00f5es burguesas ou pequeno-burguesas durante o processo revolucion\u00e1rio, que n\u00e3o correspondeu \u00e0s expectativas das massas.<\/p>\n<p>A outra consequ\u00eancia do jihadismo s\u00e3o os atentados, a maioria deles em territ\u00f3rio \u00e1rabe, para incitar a luta sect\u00e1ria entre sunitas e xiitas, mas tamb\u00e9m contra outras minorias, como os curdos e os yazidis. Todavia, os atentados tamb\u00e9m atingem cidades europeias e estadunidenses. Repudiamos os atentados, mas, ao mesmo tempo, denunciamos o uso que o imperialismo faz deles para continuar apoiando regimes opressivos e para justificar a sua interven\u00e7\u00e3o militar direta. Denunciamos a dupla moral, quando os mortos prov\u00eam de pa\u00edses semicoloniais ou imperialistas. Denunciamos a pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o racista e xen\u00f3foba. O jihadismo \u00e9 a outra face da contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Os atentados jihadistas, de um lado, e a interven\u00e7\u00e3o militar e a repress\u00e3o, do outro, alimentam-se mutuamente.<\/p>\n<p><strong>3.4. O Ir\u00e3 refor\u00e7a o seu papel na regi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>O imperialismo e o seu fiel aliado Israel s\u00e3o os pilares a partir dos quais os governos da regi\u00e3o s\u00e3o controlados, garantindo a pilhagem dos recursos naturais estrat\u00e9gicos. Por\u00e9m, isso n\u00e3o impede \u2013 no quadro da domina\u00e7\u00e3o imperialista da regi\u00e3o \u2013 que v\u00e1rios Estados disputem o papel de pot\u00eancia regional, buscando expandir a sua zona de influ\u00eancia pol\u00edtica e comercial.<\/p>\n<p>A guerra no Iraque e na S\u00edria est\u00e1 operando uma nova reparti\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o regional. O Ir\u00e3 est\u00e1 ganhando influ\u00eancia, em detrimento da Ar\u00e1bia Saudita e da Turquia. O regime dos Aiatol\u00e1s apoia o governo iraquiano p\u00f3s-ocupa\u00e7\u00e3o, em comum acordo com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, \u00e9 decisivo no apoio a Bashar al-Assad na S\u00edria e financia o Hezbollah no L\u00edbano. As unidades de interven\u00e7\u00e3o persas que operam no Iraque e na S\u00edria s\u00e3o a Guarda Revolucion\u00e1ria e as mil\u00edcias xiitas, instrumentos que agravam o car\u00e1ter sect\u00e1rio do conflito, algo aprofundado pela pol\u00edtica do governo iraquiano contra os sunitas, que alimenta a rea\u00e7\u00e3o do ISIS.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos no Iraque, tal como a R\u00fassia na S\u00edria, tiveram de contar com o Ir\u00e3 para garantir a interven\u00e7\u00e3o por terra, ou seja, arcando com os mortos. Por\u00e9m, temos de distinguir entre o acordo estrat\u00e9gico dos Estados Unidos com Israel e os acordos t\u00e1ticos dos EUA com outros Estados do Oriente M\u00e9dio. No entanto, Israel n\u00e3o quer a ascens\u00e3o de nenhuma pot\u00eancia \u00e1rabe. E, uma vez que o Ir\u00e3 tenha desempenhado o papel contrarrevolucion\u00e1rio e o trabalho sujo na regi\u00e3o, o imperialismo ir\u00e1 virar-lhe as costas, como Trump est\u00e1 prestes a fazer.<\/p>\n<p>A Turquia, a Ar\u00e1bia Saudita e, em menor medida, o Qatar intervieram para evitar a perda de influ\u00eancia, muitas vezes tamb\u00e9m lutando entre si. Fundamentalmente, financiaram a Irmandade Mu\u00e7ulmana (IM) e o salafismo. Em Istambul, Erdogan apoiou o Conselho Nacional S\u00edrio, sob o controle da Irmandade Mu\u00e7ulmana, mas sem peso interno no pa\u00eds e sem reconhecimento dos comit\u00eas locais. A Ar\u00e1bia Saudita fez o mesmo com o ISIS e a al-Nusra. No Egito, a Turquia apoiou Mursi e a Irmandade Mu\u00e7ulmana. J\u00e1 a Ar\u00e1bia Saudita financiou o golpe de al-Sisi, que recebeu um empr\u00e9stimo multimilion\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>3.5. O falso dilema entre laicos versus isl\u00e2micos<\/strong><\/p>\n<p>O islamismo como movimento pol\u00edtico n\u00e3o desempenhou um papel de lideran\u00e7a no processo revolucion\u00e1rio da regi\u00e3o, que come\u00e7ou em 2011. Somente quando o processo revolucion\u00e1rio encalhou, por conta da rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica (tentativa de estabelecer regimes com uma certa democracia burguesa), a Irmandade Mu\u00e7ulmana, com aparato e financiamento internacionais, teve a possibilidade de vencer as primeiras elei\u00e7\u00f5es na Tun\u00edsia e no Egito. A pol\u00edtica de Mursi no Egito, tal como a de Ennahda na Tun\u00edsia, foi continuar aplicando os planos do imperialismo em quest\u00f5es econ\u00f4micas, da mesma forma que a sua refer\u00eancia Erdogan, na Turquia, nunca questionou a entrega econ\u00f4mica do pa\u00eds \u00e0s multinacionais e ao FMI. Foi a \u00e9poca em que Erdogan estava na moda, como refer\u00eancia na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mursi e a Irmandade Mu\u00e7ulmana n\u00e3o conseguiram impor seus planos econ\u00f4micos e p\u00f4r fim ao movimento gerado pela revolu\u00e7\u00e3o. O recurso a medidas autorit\u00e1rias e repressivas logo despertou a rea\u00e7\u00e3o popular: a revolu\u00e7\u00e3o ainda estava bem viva. Em junho de 2013, foram recolhidas milh\u00f5es de assinaturas e quase 20 milh\u00f5es de pessoas manifestaram-se em todo o pa\u00eds contra o governo Mursi. Foi o momento que os militares aproveitam para voltar ao poder, com um golpe de Estado. Ap\u00f3s a queda de Mubarak, o ex\u00e9rcito permaneceu nas sombras, mas reteve o poder econ\u00f4mico (controlam 60% do PIB) e militar, com o apoio do imperialismo e de Israel (o segundo Estado que mais recebe financiamento militar estadunidense, depois de Israel). Dizem que defendem o laicismo contra Mursi, quando na realidade defendem a restaura\u00e7\u00e3o da ditadura militar. Atacaram selvagemente a\u00a0 Irmandade Mu\u00e7ulmana, buscando n\u00e3o deixar espa\u00e7o para o surgimento de uma posi\u00e7\u00e3o que questionasse ambos, e depois se voltaram contra a esquerda e a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram milhares de mortos. Centenas de parlamentares eleitos pela Irmandade Mu\u00e7ulmana lotam as pris\u00f5es, junto com sindicalistas e militantes da esquerda revolucion\u00e1ria. Mursi ser\u00e1 condenado \u00e0 morte, enquanto Mubarak ser\u00e1 reabilitado. Em breve, o regime usar\u00e1 a refer\u00eancia obrigat\u00f3ria \u00e0 luta \u201ccontra o terrorismo\u201d. Boa parte da esquerda neo-stalinista e das novas dire\u00e7\u00f5es sindicais, como o Partido Comunista, apoia o governo militar de al-Sisi e a repress\u00e3o. Condenamos o golpe de Estado contra Mursi, tal como rejeitamos a tentativa de golpe de Estado na Turquia contra Erdogan, porque o golpe resultar\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o muito mais dura contra a classe trabalhadora e o povo e numa redu\u00e7\u00e3o das liberdades.<\/p>\n<p>O mesmo aconteceu na Tun\u00edsia, com a dire\u00e7\u00e3o da Frente Popular (alian\u00e7a de partidos liderada pelo ex-maoista PT, da qual tamb\u00e9m faz parte a LGO, se\u00e7\u00e3o do SU-IV Internacional) formando um bloco com Nid\u00e9 Tunis, para \u201cbarrar a islamiza\u00e7\u00e3o.\u201d Tal como aconteceu com Mursi no Egito, frente ao Ennahda (partido pol\u00edtico patronal isl\u00e2mico) na Tun\u00edsia, a esquerda deveria rejeitar incondicionalmente a aplica\u00e7\u00e3o dos planos contra os trabalhadores e lutar em defesa de todas as liberdades democr\u00e1ticas, mas n\u00e3o justificar quem, usando a bandeira do laicismo, visa restaurar o antigo regime e derrotar a revolu\u00e7\u00e3o. Diante disso, a frente pol\u00edtica Nid\u00e9 Tunis conquistou o governo e Esebsi, dirigente do regime de Ben Ali, a presid\u00eancia da rep\u00fablica. Isso n\u00e3o impediu Nid\u00e9 Tunis e Ennahda de formar um governo de unidade nacional, ap\u00f3s a campanha eleitoral, para implementar os planos do FMI contra os trabalhadores e jovens tunisinos.<\/p>\n<p>A Frente Popular apareceu como a alternativa mais significativa, da esquerda e do marxismo, que reivindicava a revolu\u00e7\u00e3o. O PCOT (atual PT) tinha uma posi\u00e7\u00e3o s\u00f3lida nos comit\u00eas surgidos com a revolu\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a pol\u00edtica etapista da revolu\u00e7\u00e3o, que o levou a colocar toda a \u00eanfase nas elei\u00e7\u00f5es; a falta de um compromisso firme com a juventude, que \u00e9 o setor mais din\u00e2mico e radicalizado do processo; e os blocos com a velha lideran\u00e7a pol\u00edtica burguesa impediram-no de ser o partido que os trabalhadores e os jovens poderiam usar para fazer avan\u00e7ar a revolu\u00e7\u00e3o, consolidar as conquistas democr\u00e1ticas e tomar medidas para resolver os graves problemas existentes: n\u00e3o pagamento da d\u00edvida externa, reforma agr\u00e1ria, um plano de emerg\u00eancia e um governo dos\/as trabalhadores\/as.<\/p>\n<p><strong>3.6. A instabilidade pol\u00edtica da regi\u00e3o continua<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dois anos, ainda que a din\u00e2mica contrarrevolucion\u00e1ria tenha avan\u00e7ado dramaticamente, as lutas populares continuam e os regimes n\u00e3o conseguiram se estabilizar. J\u00e1 abordamos longamente a situa\u00e7\u00e3o da S\u00edria. Na L\u00edbia, a interven\u00e7\u00e3o imperialista, que tenta impor uma solu\u00e7\u00e3o controlada, criou uma situa\u00e7\u00e3o de caos e divis\u00e3o, dando origem ao jihadismo. No Egito, a repress\u00e3o \u00e9 hoje mais dura do que foi no \u00faltimo per\u00edodo de Mubarak e h\u00e1 milhares de ativistas presos. Por\u00e9m, n\u00e3o conseguiram silenciar as lutas dos trabalhadores. Na Tun\u00edsia, ber\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o, a instabilidade pol\u00edtica \u00e9 pontuada por mobiliza\u00e7\u00f5es de jovens, que denunciam o sequestro da revolu\u00e7\u00e3o e que as demandas populares, agora agravadas, permanecem pendentes, por conta da falta de medidas para solucion\u00e1-las. As condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas que est\u00e3o na origem das revoltas populares continuam a aprofundar-se. No Marrocos, a morte do jovem vendedor de peixe Mohcine Fikri, em Al Hoceima, provocou grandes manifesta\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds e o fantasma da revolta popular pairou nas cidades durante cerca de um m\u00eas.<\/p>\n<p>O pano de fundo de todos os conflitos entre o imperialismo e os povos do Oriente M\u00e9dio \u00e9 a cicatriz permanente, o porta-avi\u00f5es do imperialismo incrustado no cora\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o: o Estado de Israel, que continua a aprofundar a asfixia de Gaza e a ocupa\u00e7\u00e3o da Cisjord\u00e2nia, acelerada com a chegada de Trump \u00e0 Casa Branca.<\/p>\n<p>Nesta situa\u00e7\u00e3o, torna-se evidente e urgente a constru\u00e7\u00e3o de um p\u00f3lo revolucion\u00e1rio, que d\u00ea perspectiva \u00e0s lutas contra as ditaduras e os novos regimes patronais, contra o imperialismo e o Estado de Israel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cap\u00edtulo 3 \u2013 A queda de Aleppo: um avan\u00e7o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio e no Norte da \u00c1frica O centro do confronto entre revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o segue localizado no Oriente M\u00e9dio e no Norte de \u00c1frica. 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