

	{"id":16653,"date":"2019-01-24T11:02:53","date_gmt":"2019-01-24T14:02:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=16653"},"modified":"2024-12-24T11:04:21","modified_gmt":"2024-12-24T14:04:21","slug":"curdistao-sirio-os-curdos-da-siria-entre-a-cruz-e-a-espada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2019\/01\/24\/curdistao-sirio-os-curdos-da-siria-entre-a-cruz-e-a-espada\/","title":{"rendered":"Curdist\u00e3o s\u00edrio.\u00a0Os curdos da S\u00edria, entre a cruz e a espada."},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 19 de dezembro passado, Donald Trump anunciou, ap\u00f3s uma conversa telef\u00f4nica com o presidente turco Recep Tayipp Erdogan, a retirada das tropas dos EUA posicionadas no Curdist\u00e3o s\u00edrio. Esse foi o sinal verde para a Turquia atacar as mil\u00edcias curdas, aliadas ao PKK, o partido curdo da Turquia. Desde o in\u00edcio da interven\u00e7\u00e3o americana ordenada por Obama para conter Daesh e posicionar soldados na S\u00edria, os EUA t\u00eam se aliado militarmente aos curdos. Agora, com o regime de Bashar al-Assad prestes a vencer a guerra gra\u00e7as ao apoio do Ir\u00e3 e da R\u00fassia, e Erdogan na ofensiva, os curdos est\u00e3o no meio do fogo cruzado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que a Turquia ataca os curdos na S\u00edria. Em janeiro de 2018, ela invadiu, com a ajuda de grupos jihadistas, o cant\u00e3o de Afrin, que fazia parte da Federa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica do Norte da S\u00edria. Ap\u00f3s dois meses de resist\u00eancia, Afrin caiu nas m\u00e3os do ex\u00e9rcito turco e das mil\u00edcias jihadistas que operam sob a bandeira do Ex\u00e9rcito S\u00edrio Livre. Em outubro, a Turquia bombardeou a cidade de Kobane, que resistiu a um ataque do Estado Isl\u00e2mico em 2012 com a ajuda de aeronaves dos EUA.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Qual \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o da Turquia?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esses ataques fazem parte de uma pol\u00edtica que tem ra\u00edzes profundas. Em primeiro lugar, Erdogan quer impedir a estabiliza\u00e7\u00e3o de uma autonomia curda da S\u00edria que poderia servir de exemplo no Curdist\u00e3o turco e fechar as mil\u00edcias curdas na Turquia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao mesmo tempo, a interven\u00e7\u00e3o visa, em meio \u00e0 campanha para as elei\u00e7\u00f5es municipais de 31 de mar\u00e7o, desviar a aten\u00e7\u00e3o dos problemas pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais da Turquia: os cont\u00ednuos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, a infla\u00e7\u00e3o e o desemprego, a queda da lira que levou a Turquia \u00e0 beira de um resgate do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, os ataques aos direitos democr\u00e1ticos e seu autoritarismo ap\u00f3s o golpe fracassado de 2016. Assim, usando o nacionalismo turco, Erdogan reprime a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sindical com expurgos maci\u00e7os do servi\u00e7o p\u00fablico, pris\u00f5es e ataques \u00e0 liberdade de express\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por fim, as amea\u00e7as devem ser enquadradas no contexto das revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes e no contexto s\u00edrio: o objetivo \u00e9 acabar com o que resta da revolu\u00e7\u00e3o de 2011, na qual centenas de milhares de s\u00edrios se levantaram para exigir justi\u00e7a social e liberdades democr\u00e1ticas contra o regime de Bashar al-Assad, que reprimiu brutalmente o movimento. Oito anos depois, \u00e9 preciso lembrar que a onda revolucion\u00e1ria de 2011 colocou em xeque a estabilidade dos regimes ditatoriais nos pa\u00edses do Magrebe e do Oriente M\u00e9dio (houve revolu\u00e7\u00f5es na Tun\u00edsia, L\u00edbia, Egito, I\u00eamen, Bahrein e um ressurgimento do movimento popular no Marrocos, Saara Ocidental, Arg\u00e9lia, Turquia, Ir\u00e3 e Iraque). As manifesta\u00e7\u00f5es populares em defesa de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho foram afogadas em sangue. Na S\u00edria, uma alian\u00e7a heterog\u00eanea daqueles que se sentiram amea\u00e7ados pela onda colaborou para derrotar a revolu\u00e7\u00e3o: mil\u00edcias sect\u00e1rias estrangeiras, grupos jihadistas internacionais, pot\u00eancias regionais (Ir\u00e3, Ar\u00e1bia Saudita, Turquia e Catar) e pot\u00eancias internacionais (R\u00fassia, EUA, Fran\u00e7a, Gr\u00e3-Bretanha). O tridente da ditadura, do fanatismo e do imperialismo tem trabalhado para manter a revolu\u00e7\u00e3o sob controle: o objetivo era transformar a S\u00edria em um escudo contra o fogo revolucion\u00e1rio que estava sacudindo uma regi\u00e3o estrat\u00e9gica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A revolu\u00e7\u00e3o na S\u00edria e a quest\u00e3o curda<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 dentro da estrutura da revolu\u00e7\u00e3o na S\u00edria que a cria\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica do Norte da S\u00edria, tamb\u00e9m conhecida como Rojava, por mil\u00edcias curdas pode ser entendida. A autonomia das regi\u00f5es curdas \u00e9 um produto direto da revolu\u00e7\u00e3o: as tropas de al-Assad se retiraram em 2012 para defender os centros de poder das pessoas que exigiam mudan\u00e7as. Objetivamente, o povo curdo fez parte da revolta contra o regime para defender o reconhecimento de seus direitos como povo, mas o movimento revolucion\u00e1rio n\u00e3o incorporou suas demandas nacionais (mesmo entre os setores de esquerda, sob a influ\u00eancia do pan-arabismo). Da mesma forma, setores do Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria, desde o in\u00edcio, pensaram que a Turquia os ajudaria e se curvaram \u00e0 sua agenda, aliando-se ao principal inimigo do povo curdo. Por sua vez, a lideran\u00e7a das organiza\u00e7\u00f5es de maioria curda, que poderiam ter contribu\u00eddo substancialmente para o levante, se desvinculou do movimento revolucion\u00e1rio e se limitou a defender seu territ\u00f3rio, buscando alian\u00e7as com os Estados Unidos e a R\u00fassia sem entrar em confronto com Al Assad. Uma pol\u00edtica que ter\u00e1 um pre\u00e7o: depois que o regime tiver liquidado o \u00faltimo bols\u00e3o rebelde, ele se voltar\u00e1 contra os curdos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No F\u00f3rum Social Mundial de 2013, em T\u00fanis, n\u00f3s da UIT-CI e da Lucha Internacionalista trabalhamos em conjunto com as principais for\u00e7as da esquerda s\u00edria e com a lideran\u00e7a europeia do PYD para chegar a um acordo para promover uma campanha internacional de apoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o s\u00edria e \u00e0 luta do povo curdo. Mas esse acordo assinado n\u00e3o foi al\u00e9m do papel 1 . A import\u00e2ncia dessa conflu\u00eancia &#8211; somente poss\u00edvel com o reconhecimento m\u00fatuo &#8211; poderia mudar o curso da guerra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A luta contra o Estado Isl\u00e2mico<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Estado Isl\u00e2mico surgiu quase dois anos ap\u00f3s o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o. Daeix n\u00e3o estava atacando o regime, mas o territ\u00f3rio que havia sa\u00eddo de seu controle, nas m\u00e3os dos rebeldes ou dos curdos, o que favorecia tanto Assad quanto a Turquia: as mortes para deter os jihadistas n\u00e3o foram causadas pelo ex\u00e9rcito s\u00edrio ou seus aliados, nem pelo ex\u00e9rcito turco ou pelo ex\u00e9rcito dos EUA, mas por aqueles que se levantaram contra Assad e os curdos. Os Estados s\u00edrio e turco, cada um por seus pr\u00f3prios interesses, apoiaram o Estado Isl\u00e2mico: compra de petr\u00f3leo, fronteiras porosas para a entrada de combatentes e armas&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por outro lado, os Estados Unidos decidiram usar os curdos como bucha de canh\u00e3o para conter o Daesh, a nova &#8220;guerra contra o terror&#8221; que justificou que Obama, que havia iniciado a retirada do Iraque, enviasse tropas novamente, agora tamb\u00e9m para a S\u00edria. Ap\u00f3s a heroica defesa de Kobane, o YPG, com o apoio militar dos EUA, come\u00e7ou a ganhar posi\u00e7\u00f5es do Estado Isl\u00e2mico, n\u00e3o apenas em territ\u00f3rios de popula\u00e7\u00e3o curda, mas tamb\u00e9m em localidades \u00e1rabes, impondo seu controle e sem restabelecer os comit\u00eas populares que haviam sido organizados com a revolu\u00e7\u00e3o. O PYD tamb\u00e9m colaborou com o avan\u00e7o do regime em Aleppo. Dessa forma, a lideran\u00e7a curda recebeu apoio militar dos Estados Unidos e apoio pol\u00edtico de Moscou. Apoio relativo e tempor\u00e1rio, porque nenhuma das duas grandes pot\u00eancias fez nada para impedir a agress\u00e3o turca contra os curdos, nem para dar-lhes voz nas negocia\u00e7\u00f5es de Astana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As pot\u00eancias estrangeiras e Bashar Al Assad usaram os curdos e os rebeldes uns contra os outros, sabendo que, com essa luta fratricida, ambos seriam derrotados. O resultado \u00e9 desastroso: for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria colaborando com a Turquia na invas\u00e3o de Afrin&#8230; e a lideran\u00e7a do PYD pedindo ajuda ao regime de Assad&#8230; em defesa da integridade territorial da S\u00edria! Ou seja, do Estado que os oprimiu e marginalizou por d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O regime de Assad, que j\u00e1 est\u00e1 come\u00e7ando a ser branqueado internacionalmente para encobrir seu genoc\u00eddio e iniciar uma &#8220;reconstru\u00e7\u00e3o&#8221; de seu aparato de repress\u00e3o criminosa, est\u00e1 se preparando para acabar com a autonomia de fato dos curdos e j\u00e1 avisou que n\u00e3o est\u00e1 disposto a reconhec\u00ea-la. H\u00e1 um consenso entre todas as pot\u00eancias regionais e internacionais para liquidar o movimento revolucion\u00e1rio popular e estabilizar o regime de Damasco com al-Assad no comando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pode parecer contradit\u00f3rio que Estados e pot\u00eancias com interesses diferentes possam agir em conjunto e se coordenar entre si para n\u00e3o causar muitos danos. O que est\u00e1 acontecendo na S\u00edria n\u00e3o pode ser explicado em termos de blocos e superestruturas. Somente a partir da an\u00e1lise da luta de classes \u00e9 poss\u00edvel entender a situa\u00e7\u00e3o: a ofensiva de todas as pot\u00eancias regionais e internacionais tem como principal objetivo sufocar a revolu\u00e7\u00e3o e restabelecer o controle dos Estados, e elas j\u00e1 decidiram que far\u00e3o isso com Al-Assad.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diante desse consenso contrarrevolucion\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1rio articular a solidariedade de todos os revolucion\u00e1rios s\u00edrios, sejam eles \u00e1rabes, curdos ou de qualquer outro grupo, que s\u00e3o contra o regime de Assad e as pot\u00eancias regionais e internacionais. Devemos impedir o branqueamento do genoc\u00eddio denunciando seus crimes, exigir a liberta\u00e7\u00e3o de dezenas de milhares de presos pol\u00edticos, confrontar o reconhecimento do criminoso, a reabertura de embaixadas em Damasco e lembrar que Al-Assad \u00e9 sustentado pelos ex\u00e9rcitos de ocupa\u00e7\u00e3o, especialmente o Ir\u00e3, e insistir que os refugiados nunca poder\u00e3o voltar para casa enquanto o carrasco permanecer no poder.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Luta Internacionalista tem estado e continuar\u00e1 a estar ao lado do povo da S\u00edria. Agora, o povo curdo se encontra sozinho diante das pot\u00eancias e do regime s\u00edrio e precisa de todo o apoio e solidariedade para defender sua luta e seu direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">20 de janeiro de 2019<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Andreu Pag\u00e9s e Cristina Mas<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 19 de dezembro passado, Donald Trump anunciou, ap\u00f3s uma conversa telef\u00f4nica com o presidente turco Recep Tayipp Erdogan, a retirada das tropas dos EUA posicionadas no Curdist\u00e3o s\u00edrio. 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