

	{"id":16795,"date":"2025-02-20T09:34:26","date_gmt":"2025-02-20T12:34:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=16795"},"modified":"2025-02-20T10:01:17","modified_gmt":"2025-02-20T13:01:17","slug":"entrevista-com-a-lideranca-indigena-do-povo-munduruku-alessandra-korap","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2025\/02\/20\/entrevista-com-a-lideranca-indigena-do-povo-munduruku-alessandra-korap\/","title":{"rendered":"ENTREVISTA COM A LIDERAN\u00c7A IND\u00cdGENA DO POVO MUNDURUKU, ALESSANDRA KORAP."},"content":{"rendered":"<p><strong>J \u2013 Alessandra, estamos acompanhando a luta pela revoga\u00e7\u00e3o da Lei 10.820 \u2044 2024 e pelo Fora Rossieli (SEDUC PA). E a gente queria que tu falasses das pol\u00edticas do governo Helder Barbalho, em especial dessa lei, do quanto que ela afeta as comunidades ind\u00edgenas e da import\u00e2ncia de lutar pela revoga\u00e7\u00e3o da Lei 10.820 \u2044 2024.<\/strong><\/p>\n<p>A \u2013 Eu sou lideran\u00e7a. Sou coordenadora da Associa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena Pariri. A gente vem trabalhando h\u00e1 algum tempo em parceria com os professores, porque eles n\u00e3o tem apoio do governo do Estado e muito menos do munic\u00edpio. A gente vem acompanhando os professores, vendo eles tirarem do pr\u00f3prio bolso para chegar at\u00e9 a Aldeia, para dar aulas aos alunos ind\u00edgenas, e muitos desses jovens ind\u00edgenas n\u00e3o falam portugu\u00eas, e os professores t\u00eam a paci\u00eancia de ensinar a l\u00edngua portuguesa, a matem\u00e1tica, etc., para prepar\u00e1-los para a Universidade. Quando soubemos dessa Lei, aprovada dia 19 de dezembro, fomos pesquisar do que se tratava. Os professores me ligaram preocupados. Meu ramo n\u00e3o \u00e9 educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 territorial, sempre foi territ\u00f3rio, n\u00e3o sou professora, mas eu conhe\u00e7o a luta dos professores. A partir da\u00ed os professores me chamaram, para verificar de que forma eu poderia ajudar na luta pela educa\u00e7\u00e3o. Estudamos e vi o qu\u00e3o grave era: \u201c-O Estado j\u00e1 n\u00e3o ajuda e ainda vai piorar para voc\u00eas! Vamos \u00e0 luta!\u201d. Ent\u00e3o, foi a\u00ed que decidimos vir a Bel\u00e9m. Sai dia 12 de janeiro, estava para a Aldeia. Na estrada n\u00e3o t\u00ednhamos dinheiro para comer, n\u00e3o pagamos combust\u00edvel, tudo foi fiado, uma luta para poder defender os direitos, j\u00e1 que essa lei n\u00e3o iria prejudicar apenas os ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m os quilombolas, ribeirinhos, pescadores, todos os estudantes que moram distante da capital, que precisam pegar, canoa, voadeira, barco ou avi\u00e3o para chegar. Tudo isso nos preocupou! O povo Munduruku sempre prioriza o coletivo. Decidimos unificar a luta, trabalhar em conjunto com os professores pela revoga\u00e7\u00e3o da Lei 10.820 \u2044 2024. A realidade do territ\u00f3rio e a realidade dos professores n\u00e3o s\u00e3o diferentes. As escolas da cidade t\u00eam precariedades, imagina para quem mora distante! Muitos do nosso povo n\u00e3o t\u00eam Bolsa Fam\u00edlia, n\u00e3o fazem parte de programas sociais do governo, alguns n\u00e3o t\u00eam documento pessoal. Os povos ind\u00edgenas s\u00e3o esquecidos, faltam pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00e3o temos pol\u00edticas voltadas para a \u00e1gua, n\u00e3o temos escolas, mesas, cadeiras e nem materiais escolares, muitos professores custeiam a pr\u00f3pria gasolina para poder chegar at\u00e9 as Aldeias, bem como os seus materiais de trabalho. \u00c9 muito grave essa lei atingir os professores e prejudicar os sonhos de nossos filhos e netos de terem um futuro. Para n\u00f3s n\u00e3o importa lei que n\u00e3o ouve os ind\u00edgenas, por isso, tem que ser revogada, para depois ser discutido com todos e considerada a situa\u00e7\u00e3o de cada comunidade, cada povo, cada regi\u00e3o. Na nossa regi\u00e3o do Oeste do Par\u00e1 \u00e9 prec\u00e1rio e \u00e9 tudo longe! \u00c9 bem diferente da realidade do povo que mora mais pr\u00f3ximo da capital (Bel\u00e9m), como o povo Temb\u00e9. Mesmo assim tem lugares que os Temb\u00e9 s\u00e3o esquecidos, mas tamb\u00e9m tem os que s\u00e3o ligados ao governo e apenas essa minoria \u00e9 beneficiada. A gente est\u00e1 aqui para lutar por todos e, principalmente, pela categoria da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>J \u2013 Alessandra, a gente v\u00ea que o governo tem um discurso de sustentabilidade, a COP 30 ser\u00e1 em Bel\u00e9m-PA, o Helder Barbalho afirma ser a favor dos povos ind\u00edgenas. Como voc\u00eas avaliam esse tema da COP 30? Parte do movimento ind\u00edgena, inclusive, defende: \u201cSem revoga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vai ter COP 30!\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>A \u2013 Eu j\u00e1 participei de 2 COP, uma em Glasgow (COP 26 em 2021) e a outra no Azerbaij\u00e3o (COP 29 em 2024), e sei da dificuldade de estar num espa\u00e7o como esse. Quem discute esse tema s\u00e3o os grandes l\u00edderes, s\u00e3o grandes empresas, inclusive, que s\u00e3o favor\u00e1veis ao desmatamento, que de um lado pagam \u201ccredcarbono\u201d e do outro destroem. Ent\u00e3o, para n\u00f3s isso n\u00e3o \u00e9 bom. Quando o governo do Par\u00e1 come\u00e7ou a falar sobre o \u201ccredcarbono\u201d, a falar de meio ambiente e sustentabilidade, e vindo da fam\u00edlia Barbalho e do Partido MDB, vi que n\u00e3o seria bom! Na minha regi\u00e3o, no munic\u00edpio de Itaituba, existem portos que a pr\u00f3pria SEMAS libera. Eu conhe\u00e7o, sei da realidade! A soja caindo no rio Tapaj\u00f3s, os peixes contaminados de agrot\u00f3xicos. M\u00e1quinas acabando com a floresta para fazer portos. Lugares que a comunidade pescava, que eram fonte de alimento, de conhecimento tradicional foram destru\u00eddos. O discurso \u00e9 muito \u201cbonito\u201d, ele (o governador) chamava uma ou duas pessoas para confirmar que estava ao lado dos povos ind\u00edgenas, s\u00f3 que nem todos sabem o que o governo do Estado do Par\u00e1 est\u00e1 fazendo em rela\u00e7\u00e3o ao povos ind\u00edgenas, porque muitos n\u00e3o t\u00eam internet, r\u00e1dio ou outro meio de comunica\u00e7\u00e3o. Tudo fica muito silenciado! N\u00f3s que estamos no movimento, que viajamos, que debatemos sobre a economia, a quest\u00e3o do meio ambiente, dos povos ind\u00edgenas, direitos humanos, conhecemos quem s\u00e3o eles. Nesse movimento que est\u00e1 ocorrendo, as pessoas puderam entender a realidade e o que significa a COP. Fiz uma fala aqui afirmando que: \u201c-O governador Helder Barbalho vendeu o Estado do Par\u00e1\u201d. Muitas pessoas n\u00e3o sabem o que \u00e9 COP, n\u00e3o sabem o que \u00e9 uma Confer\u00eancia do Clima. Ent\u00e3o, todos deveriam ser consultados e informados, inclusive, os da cidade, porque tamb\u00e9m ser\u00e3o prejudicados. Acreditam que isso \u00e9 uma forma de silenciar os povos ind\u00edgenas. Usam o cr\u00e9dito de carbono para compensar programa de prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente, mas dentro do territ\u00f3rio n\u00f3s j\u00e1 preservamos, n\u00f3s sempre protegemos, n\u00f3s estamos sozinhos combatendo o desmatamento, expulsando invasores, passando necessidade. Muita gente n\u00e3o enxerga! Ele (o governador) faz um discurso \u201cbonito\u201d, mas ignora esse movimento aqui de luta pela educa\u00e7\u00e3o e pelos direitos dos ind\u00edgenas. Para n\u00f3s n\u00e3o tem sentido dizer que \u201cprotege\u201d os ind\u00edgenas, tirando o direito deles! A gente precisa da floresta em p\u00e9! A gente precisa de \u00e1gua limpa! A gente precisa do territ\u00f3rio, mas tamb\u00e9m temos direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas! Por isso sa\u00edmos de dentro das Aldeias e viemos at\u00e9 aqui lutar por nossos direitos.<\/p>\n<p><strong>J \u2013 Os povos ind\u00edgenas do Par\u00e1 est\u00e3o dando um exemplo para todos n\u00f3s, inclusive, est\u00e3o furando uma bolha. O governo fez de tudo para silenci\u00e1-los, a imprensa local \u00e9 bastante comprada, mas o grito e a luta ind\u00edgena est\u00e1 chegando em todos os cantos do pa\u00eds. Qual o recado que tu darias, em nome dos povos ind\u00edgenas, para quem est\u00e1 em outros Estados, ou aqui mesmo em Bel\u00e9m-PA, mas est\u00e1 acompanhando de fora, e deseja apoiar o movimento?<\/strong><\/p>\n<p>A \u2013 O recado que eu posso dar \u00e9 que todas as escolas, os estudantes, os professores, comecem a estudar quem s\u00e3o os povos ind\u00edgenas, porque n\u00e3o somos apenas aqueles que os livros mostram na invas\u00e3o do Pedro Alvares Cabral, n\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos aqui! N\u00f3s estamos contando a hist\u00f3ria verdadeira! O governo tentou nos silenciar. N\u00e3o queriam que tiv\u00e9ssemos voz! Tentaram nos amorda\u00e7ar! Seguraram nossas pernas, nossas m\u00e3os, e de todas as maneiras estamos conseguindo nos soltar! As pessoas est\u00e3o enxergando! Muitos educadores est\u00e3o vendo a necessidade de debater em sala de aula sobre os povos ind\u00edgenas, o meio ambiente, a sustentabilidade, e eu fico muito feliz! \u00c9 muito importante os professores ouvirem os ind\u00edgenas, pois muitos alunos que tem a sua l\u00edngua materna acabam desistindo de estudar, voltam para as suas Aldeias, porque tem professor racista, que n\u00e3o conhece a luta e a cultura do povo. Os governos h\u00e1 anos tentam nos silenciar, tentam tampar as nossas bocas, mas a gente est\u00e1 gritando e com muita for\u00e7a, furando bolhas, atrav\u00e9s, principalmente, dos professores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J \u2013 Alessandra, estamos acompanhando a luta pela revoga\u00e7\u00e3o da Lei 10.820 \u2044 2024 e pelo Fora Rossieli (SEDUC PA). 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