

	{"id":16815,"date":"2025-02-26T11:00:35","date_gmt":"2025-02-26T14:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=16815"},"modified":"2025-02-26T11:00:35","modified_gmt":"2025-02-26T14:00:35","slug":"alemanha-eleicoes-e-governos-passam-mas-a-crise-e-os-cortes-continuam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2025\/02\/26\/alemanha-eleicoes-e-governos-passam-mas-a-crise-e-os-cortes-continuam\/","title":{"rendered":"Alemanha: elei\u00e7\u00f5es e governos passam, mas a crise e os cortes continuam"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Patrik K\u00f6nig<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos artigos foram escritos e muito foi dito sobre as elei\u00e7\u00f5es antecipadas na Alemanha. Estamos falando da quarta maior economia do mundo e da for\u00e7a motriz da Uni\u00e3o Europeia (UE). E, sem d\u00favida, embora n\u00e3o tenha a mesma import\u00e2ncia que as elei\u00e7\u00f5es nos EUA, o que acontece em Berlim tem um grande impacto no cen\u00e1rio internacional e, sobretudo, na Europa. As elei\u00e7\u00f5es para chanceler finalmente aconteceram. Agora, cabe tirar as primeiras conclus\u00f5es e ter uma ideia das perspectivas de como a situa\u00e7\u00e3o evoluir\u00e1 e das tarefas da esquerda revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Os resultados eleitoriais<\/strong><\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o foi a maior desde a unifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 (84%) e os resultados refletiram o que as pesquisas mais ou menos previram. Houve um aumento da vota\u00e7\u00e3o nas alternativas mais conservadoras e uma queda na vota\u00e7\u00e3o dos partidos que comp\u00f5em o atual governo. O resultado foi a express\u00e3o, de forma distorcida, de um setor que, diante da falta de alternativas \u00e0 esquerda, puniu o governo, encabe\u00e7ado pela velha social-democracia (SPD) em alian\u00e7a com os Verdes e um partido liberal menor, votando na alian\u00e7a conservadora Uni\u00e3o Democrata Crist\u00e3\/Uni\u00e3o Social Crist\u00e3 da Baviera (CDU\/CSU), de Friedrich Merz, que obteve 28,5% dos votos e governou durante anos com Angela Merkel. E tamb\u00e9m votando na extrema-direita, a Alternativa para a Alemanha (AfD), que obteve 20,6% dos votos, quase o dobro das elei\u00e7\u00f5es de 2021. Die Linke (A Esquerda), composta por\u2026 ex-membros do PC, mao\u00edstas, grupos trotskistas e independentes, teve, por sua vez, um crescimento significativo, confirmando a polariza\u00e7\u00e3o e a busca por op\u00e7\u00f5es mais radicais.<\/p>\n<p>O Partido Social-Democrata (SPD), do chanceler Olaf Scholz, ficou em terceiro lugar, com 16%, sua pior resultado de todos os tempos. Seus aliados, os Verdes, ficaram em quarto lugar, com quase 12%.<\/p>\n<p>O esperado avan\u00e7o eleitoral da extrema-direita neonazista, a AFD, expressou, como aconteceu com Trump, Meloni, Le Pen e Milei na Argentina, um voto de protesto equivocado de um setor popular, farto dos velhos partidos capitalistas tradicionais, que j\u00e1 governaram e levaram \u00e0 crise social e \u00e0 queda do n\u00edvel de vida de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos dias veremos nos meios de comunica\u00e7\u00e3o a \u201cjogatina eleitoral\u201d, com a negocia\u00e7\u00e3o de coliga\u00e7\u00f5es e cargos como se fosse um mercado de gado. N\u00e3o importa a coaliz\u00e3o que ser\u00e1 formada. Nenhuma trar\u00e1 solu\u00e7\u00f5es de fundo para os problemas atuais de moradia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, crescente militarismo, demiss\u00f5es na ind\u00fastria, etc.<\/p>\n<p><strong>A campanha eleitoral<\/strong><\/p>\n<p>A campanha eleitoral foi marcada por um claro tom xen\u00f3fobo. Os principais partidos (SPD, CDU, Verdes e AfD) pareciam competir para ver quem tinha a pol\u00edtica mais anti-imigra\u00e7\u00e3o. O debate se concentrou em demonstrar que todos os males se devem ao grande n\u00famero de estrangeiros e que, portanto, eles devem ser \u201cregulamentados\u201d, segundo alguns, ou expulsos imediatamente, conforme a ultradireitista AfD.<\/p>\n<p>No entanto, qualquer pessoa que fa\u00e7a uma an\u00e1lise minimamente s\u00e9ria sabe que esse ataque \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o tem um prop\u00f3sito puramente eleitoral e populista. \u00c9 apenas um instrumento para distrair a maioria da popula\u00e7\u00e3o dos problemas reais que assolam o pa\u00eds e, assim, evitar discutir as verdadeiras solu\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 mais do que claro que a Alemanha n\u00e3o pode expulsar os imigrantes. Ao contr\u00e1rio, precisa deles para preencher centenas de milhares de empregos vagos devido \u00e0 falta de m\u00e3o de obra. E tamb\u00e9m precisa dos imigrantes por conta dos profundos problemas demogr\u00e1ficos existentes, gra\u00e7as \u00e0 sua baixa taxa de natalidade. Se uma pol\u00edtica de expuls\u00e3o dos imigrantes fosse implementada, a produ\u00e7\u00e3o capitalista alem\u00e3 pararia quase imediatamente.<\/p>\n<p><strong>A estrutura capitalista alem\u00e3 est\u00e1 em crise<\/strong><\/p>\n<p>O verdadeiro problema est\u00e1 na crise estrutural da sua economia, algo que muitos economistas chamam de \u201cfim do milagre alem\u00e3o\u201d ou \u201cfim do ciclo\u201d. Essa situa\u00e7\u00e3o de crise profunda se deve a v\u00e1rias quest\u00f5es. Algumas de natureza internacional e outras de natureza interna, todas interligadas. Vejamos algumas delas.<\/p>\n<p>Por um lado, h\u00e1 o agravamento da crise capitalista mundial, que gerou uma forte disputa inter-imperialista, na qual a Alemanha est\u00e1 presa entre os dois principais concorrentes, os EUA e a China. E, embora seja a quarta ou terceira maior economia do mundo, dependendo dos n\u00fameros considerados, est\u00e1 muito abaixo das duas principais pot\u00eancias. Essa situa\u00e7\u00e3o a obriga a lutar por um lugar nessa disputa, numa correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel. Al\u00e9m disso, \u00e9 um pa\u00eds principalmente exportador e a \u201cguerra comercial\u201d &#8211; com tarifas, quotas alfandeg\u00e1rias e lutas ferozes por mercados \u2013 n\u00e3o beneficia a Alemanha em nada.<\/p>\n<p>Outro elemento a ser levado em conta \u00e9 que, desde a Segunda Guerra Mundial, continua sendo um pa\u00eds muito controlado pelos EUA. Sua principal ind\u00fastria, a automotiva, est\u00e1 sendo severamente afetada pela crise do setor. A guerra entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia fez com que o pa\u00eds deixasse de receber g\u00e1s e petr\u00f3leo baratos para abastecer sua ind\u00fastria. \u00c9 um pa\u00eds muito atrasado em tudo relacionado \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o, etc Somado a todos esses problemas est\u00e1 o fato de que a Constitui\u00e7\u00e3o alem\u00e3 proibia o governo, liderado pelo social-democrata Scholz, de aumentar o endividamento para reanimar a economia.<\/p>\n<p><strong>Nenhuma alternativa real para os\/as trabalhadores\/as<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o houve nenhum partido, com um m\u00ednimo de representatividade, que levantasse um programa alternativo para a classe trabalhadora e o povo.<\/p>\n<p>Assim, a CDU, a AfD e o BSD (partido de Sara Wagenknecht, ex-dirigente do Die Linke) concentraram as campanhas na imigra\u00e7\u00e3o, escondendo a sua incapacidade de apresentar uma proposta econ\u00f4mica que respondesse \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual. O SPD e os Verdes, por sua vez, focaram a campanha no eixo \u201ccuidado, a direita est\u00e1 chegando\u201d, para tentar mobilizar seu eleitorado, ocultando, dessa forma, o desastre do atual governo e tamb\u00e9m o fato de que n\u00e3o t\u00eam uma proposta alternativa para sair da crise.<\/p>\n<p>Centrar o debate na imigra\u00e7\u00e3o serviu para que os partidos do regime evitassem apresentar propostas concretas. E, nas poucas vezes em que se discutiram quest\u00f5es econ\u00f4micas, alguns partidos propuseram a pol\u00edtica de \u201cd\u00e9ficit zero\u201d, ou seja, cortes em todos os aspectos para equilibrar as contas; e outros propuseram o antigo modelo de endividar-se mais para reativar o mercado interno. Como j\u00e1 sabemos, nenhum desses dois projetos traz benef\u00edcios para os\/as trabalhadores\/as e para o povo. Todos esses partidos, com suas nuances, governam e governar\u00e3o para o grande capitalismo alem\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Algumas conclus\u00f5es das elei\u00e7\u00f5es e as perspectivas<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que surja um governo de coaliz\u00e3o, liderado pelo conservador Merz, que n\u00e3o ter\u00e1 uma clara maioria e unidade para poder implementar o plano de cortes que as empresas alem\u00e3s precisam para recuperar a confian\u00e7a e melhorar suas taxas de lucro. Os n\u00fameros mostram a falta de uma maioria clara e isso dificultar\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o de um novo governo s\u00f3lido. Por\u00e9m, independentemente de qu\u00e3o s\u00f3lido seja o futuro governo e se ele conseguir\u00e1 completar seu mandato, o certo \u00e9 que, seja com o modelo de \u201cd\u00e9ficit zero\u201d ou com o modelo de endividamento crescente, a classe trabalhadora deve esperar mais cortes nas \u00e1reas sociais, como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e aposentadorias; mais flexibiliza\u00e7\u00e3o trabalhista, \u201cpara que as empresas alem\u00e3s sejam mais competitivas\u201d; aumento do or\u00e7amento militar; apoio ao genoc\u00eddio na Palestina, etc.<\/p>\n<p>Como dissemos no in\u00edcio, as elei\u00e7\u00f5es tiveram que ser antecipadas. Foi um acontecimento nada normal na Alemanha, um sinal claro de crise pol\u00edtica. A estabilidade que reinou por d\u00e9cadas est\u00e1 chegando ao fim e dando lugar a uma polariza\u00e7\u00e3o social crescente. \u00c9 claro que a crise n\u00e3o afeta mais apenas a periferia. Entrou e veio para ficar no cora\u00e7\u00e3o da Europa. H\u00e1 um manifesto descontentamento social e aumento dos conflitos pol\u00edticos e sindicais. Nos \u00faltimos dois anos, houve greves e protestos por sal\u00e1rios mais altos e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho na ind\u00fastria metal\u00fargica, nos ferrovi\u00e1rios, nos portu\u00e1rios, nos funcion\u00e1rios da Lufthansa, entre outros.<\/p>\n<p>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, a classe trabalhadora deve deixar de ser mera espectadora desse filme de terror capitalista e estar na vanguarda, junto \u00e0 juventude e aos setores populares, das lutas que est\u00e3o ocorrendo e que vir\u00e3o. Ter\u00e1 que confrontar o novo governo desde o primeiro minuto. Nos locais de trabalho e de estudo, temos que eleger delegados\/as combativos\/as; exigir que a c\u00fapula sindical assuma a lideran\u00e7a das lutas; e formular programas que representem nossos interesses e forne\u00e7am respostas de fundo e classistas para os problemas atuais. Nesse processo os programas e os partidos ser\u00e3o colocados \u00e0 prova. Essa \u00e9 a base para o desenvolvimento de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alternativa e classista, uma esquerda verdadeiramente independente, que tamb\u00e9m seja uma op\u00e7\u00e3o para enfrentar e derrotar o crescimento da extrema-direita. Esse \u00e9 o momento em que se torna necess\u00e1rio, e tamb\u00e9m poss\u00edvel, construir um partido socialista e revolucion\u00e1rio. N\u00f3s, militantes da UIT-QI na Alemanha, estamos trabalhando nessa perspectiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Patrik K\u00f6nig &nbsp; Muitos artigos foram escritos e muito foi dito sobre as elei\u00e7\u00f5es antecipadas na Alemanha. Estamos falando da quarta maior economia do mundo e da for\u00e7a motriz da Uni\u00e3o Europeia (UE). 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