

	{"id":17653,"date":"2025-08-15T18:32:09","date_gmt":"2025-08-15T21:32:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=17653"},"modified":"2025-08-18T21:48:38","modified_gmt":"2025-08-19T00:48:38","slug":"sem-a-liga-operaria-a-historia-seria-outra-pois-nenhum-outro-grupo-assumiria-o-nosso-papel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2025\/08\/15\/sem-a-liga-operaria-a-historia-seria-outra-pois-nenhum-outro-grupo-assumiria-o-nosso-papel\/","title":{"rendered":"\u201cSem a Liga Oper\u00e1ria, a hist\u00f3ria seria outra, pois nenhum outro grupo assumiria o nosso papel\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0Acima, C\u00e9lia Barbosa no Ato unit\u00e1rio em homenagem a Zez\u00e9 (Maria Jos\u00e9 Louren\u00e7o)<\/em><\/p>\n<p><strong>Entrevista com Celia Barbosa, militante da Liga Oper\u00e1ria (parte I)<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s <a href=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2025\/05\/06\/ato-unitario-em-homenagem-a-zeze-maria-jose-lourenco\/\">o ato em homenagem \u00e0 mem\u00f3ria de Maria Jos\u00e9 Louren\u00e7o<\/a>, a Zez\u00e9, entrevistamos C\u00e9lia Barbosa. A companheira \u00e9 independente e foi uma das respons\u00e1veis pela coordena\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do evento que ocorreu <a href=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2025\/05\/18\/ato-unitario-celebra-a-trajetoria-de-zeze\/\">na sede da CSP-CONLUTAS<\/a> em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>C\u00e9lia vem de uma fam\u00edlia prolet\u00e1ria e, muito cedo, come\u00e7ou a se radicalizar politicamente no contexto da ditadura militar, ingressando no movimento estudantil da USP no final dos anos 1970. L\u00e1, entrou para a Liga Oper\u00e1ria, organiza\u00e7\u00e3o na qual exerceu fun\u00e7\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o no setor estudantil. Atuou na Converg\u00eancia Socialista, no trabalho oper\u00e1rio em Guarulhos, e posteriormente na organiza\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A entrevista ocorreu em dois momentos. Na segunda parte, aprofundamos alguns pontos das respostas iniciais. Agradecemos \u00e0 companheira pela disponibilidade e por dedicar parte de seu tempo a essa longa conversa.<\/p>\n<p>Atualmente, C\u00e9lia Barbosa e outras camaradas que militaram na Liga Oper\u00e1ria est\u00e3o empenhadas na edi\u00e7\u00e3o de um livro sobre a organiza\u00e7\u00e3o, reunindo depoimentos de muitas e muitos que participaram daquelas batalhas.<\/p>\n<p>Boa leitura!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Combate Socialista: Quando ocorreu seu ingresso na Liga Oper\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>C\u00e9lia Barbosa:<\/strong> Eu entrei na Liga Oper\u00e1ria em 1977, ap\u00f3s as pris\u00f5es. Eu j\u00e1 pertencia \u00e0 tend\u00eancia estudantil da Liga Oper\u00e1ria na USP, que se chamava Mobiliza\u00e7\u00e3o Estudantil. Eu entrei na universidade em 1976 nas Ci\u00eancias Sociais. J\u00e1 logo comecei a participar das assembleias discutindo o DCE, a reconstru\u00e7\u00e3o do DCE, mas ainda era tudo muito incipiente, muito amedrontado. No segundo semestre me incorporei ao movimento estudantil, fazia reuni\u00f5es, escrevia pro jornal da mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil, a p\u00e1gina de mulheres, os artigos feministas. Retornei das f\u00e9rias da faculdade em 1977. Era tudo muito fechado. N\u00e3o fazia ideia de que era a parte \u201clegalizada,\u201d p\u00fablica de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clandestina. Eu achava que a ditadura havia proibido todas as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. S\u00f3 se conhecia o partido comunista, na \u00e9poca. Ent\u00e3o, na minha inoc\u00eancia, achei que ningu\u00e9m estava fazendo nada, e n\u00e3o conhecia outras organiza\u00e7\u00f5es. Vim de uma fam\u00edlia prolet\u00e1ria. N\u00e3o tinha acesso a essas informa\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o mesmo me opondo \u00e0 ditadura, na minha adolesc\u00eancia, n\u00e3o tinha uma forma\u00e7\u00e3o, o que s\u00f3 foi acontecer na universidade.<\/p>\n<p>Quando aconteceram as pris\u00f5es, eu estive na assembleia, e depois eu soube que os dois oper\u00e1rios que falaram na assembleia, Pacheco e Jeferson, (qu\u00edmico e metal\u00fargico, respectivamente), eram militantes da Liga Oper\u00e1ria. A assembleia estava enorme, encheu de estudantes no v\u00e3o do pr\u00e9dio da Hist\u00f3ria e de Geografia. Eu estava nessa assembleia com meu amigo C\u00e9sar, das Ci\u00eancias Sociais, e ouvi eles falando. Foi uma fala muito emotiva, eles chamavam os estudantes a defenderem os trabalhadores que foram presos ao panfletarem para o 1\u00ba de Maio. Eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o de que eram militantes da organiza\u00e7\u00e3o de cuja tend\u00eancia estudantil eu j\u00e1 estava participando. Logo depois, no dia 5 de Maio de 1977, teve a passeata exigindo a liberta\u00e7\u00e3o dos presos que foi o que desatou o movimento estudantil. N\u00e3o pude participar da passeata em si, pois estava trabalhando, mas participava da confec\u00e7\u00e3o de cartazes e faixas. Pouco depois, um colega de classe, Roberto, me chamou, e fui captada pela organiza\u00e7\u00e3o. Foi o dia mais emocionante da minha vida, at\u00e9 o momento, pois descobri algo que deu concretude e prop\u00f3sito a tudo que eu pensava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: O que lembras do contexto geral do pa\u00eds e da esquerda da \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> O que eu me lembro do contexto do pa\u00eds\u2026 De in\u00edcio eu n\u00e3o tinha ideia de nada, da esquerda. S\u00f3 tinha meu rep\u00fadio \u00e0 ditadura. Lembro que teve um grande alvoro\u00e7o com a morte do Vladimir Herzog, isso saiu na imprensa, era comentado. Soube da manifesta\u00e7\u00e3o que teve na Pra\u00e7a da S\u00e9, com o enterro dele, mas havia bastante clima de medo ainda. Por exemplo, na minha rua, onde eu morava, era uma vila dentro do bairro Jardim da Sa\u00fade, em uma vila oper\u00e1ria, onde moravam trabalhadores. Ali houve, alguns anos antes, uma coisa que eles chamavam de \u201cestourar um aparelho\u201d. Eram uns jovens que tinham alugado uma casa, (davam uma bandeira), era uma esp\u00e9cie de rep\u00fablica, em um bairro onde moravam oper\u00e1rios e pessoas de classe m\u00e9dia baixa. Um dia a pol\u00edcia fez uma batida e os levou todos presos, a vizinhan\u00e7a toda saiu para ver. Ent\u00e3o, era esse clima que existia em 1976, embora j\u00e1 pudesse se sentir uma liberdade na faculdade, diferente dos bairros e escolas, onde havia uma repress\u00e3o maior. Em 1977, ap\u00f3s a explos\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es pela liberta\u00e7\u00e3o desses companheiros, M\u00e1rcia Basseto Paes, Celso Brabila, do Z\u00e9 Maria, e de outros companheiros, sentia-se um clima melhor. Mas ainda fic\u00e1vamos muito desconfiados e preocupados nas reuni\u00f5es e assembleias, com a possibilidade de infiltrados e delatores a servi\u00e7o da ditadura, mas foi ali quando come\u00e7ou a arrefecer. A ditadura j\u00e1 n\u00e3o estava t\u00e3o de m\u00e3os livres quanto esteve at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Qual foi o impacto das pris\u00f5es de 1977 (Celso Brambilla, M\u00e1rcia Basseto Paes e Z\u00e9 Maria) na organiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Eu entrei ap\u00f3s essas pris\u00f5es. Havia de imediato uma discuss\u00e3o sobre seguran\u00e7a, mas o que eu mais percebi foi um sumi\u00e7o de pessoas que eu via ali na sala, que eu conhecia, que eu via falando nas assembleias. E depois que eu entrei descobri que essas pessoas estavam escondidas. Teve um impacto grande na tend\u00eancia estudantil, oradores, como a Maura, organizadores, como Ronaldo, tiveram de se esconder, sumir da vida p\u00fablica, com medo de terem sido descobertos ap\u00f3s as torturas que os companheiros sofreram. Houve um enfraquecimento do nosso trabalho, enquanto o movimento acontecia a todo vapor, e quem capitalizou com essas mobiliza\u00e7\u00f5es foi a Refazendo (tend\u00eancia estudantil da APML), que dirigia a USP, a Caminhando, tend\u00eancia estudantil do PCdoB, naquele momento, e Liberdade e Luta, que era mais de esquerda. Sendo que os presos eram companheiros nossos, bem como quem deu a linha de chamar os oper\u00e1rios e fazer a manifesta\u00e7\u00f5es, e quem fazia as caracteriza\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises e caracteriza\u00e7\u00f5es da Liga Oper\u00e1ria eram sempre muito certeiras\u2026 Por\u00e9m, era um grupo muito pequeno, n\u00e3o conseguimos capitalizar aquele movimento, e as dire\u00e7\u00f5es e os quadros tiveram de se esconder. Muitos assumiram o papel de dire\u00e7\u00e3o sem experi\u00eancia &#8211; eu mesma, com um m\u00eas dentro da c\u00e9lula, me tornei dirigente da mesma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Voc\u00ea participou dos protestos estudantis pela liberta\u00e7\u00e3o dos presos? Pode nos contar como foi esse processo onde voc\u00ea atuava? E como se preparou isso nas reuni\u00f5es da Liga?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Eu participei dos protestos e das assembleias, inclusive da assembleia na PUC quando houve a invas\u00e3o e as pris\u00f5es. O Erasmo Dias dirigia diretamente, e depois ele foi l\u00e1 esbravejar. Ele era um gorila, literalmente, (com o perd\u00e3o aos gorilas), tinha uma cara de fac\u00ednora. Onde hoje existe um pr\u00e9dio em frente \u00e0 PUC, na Rua Monte Alegre, era um estacionamento. E depois de terem nos encurralado, eu fiquei encurralada dentro do TUCA, e eles jogando bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, a ponto da gente quase sufocar. Tinha um banheiro nos fundos, e todo mundo entrou, no momento que a pol\u00edcia (junto de outras for\u00e7as de repress\u00e3o) invadiu. Teve um grupo que n\u00e3o conseguiu descer a rampa para ir pros pr\u00e9dios. Teve gente que foi empurrada pros lados, para a lateral da entrada do TUCA, que foi aberta por um funcion\u00e1rio. L\u00e1 tinha um banheiro, e a gente p\u00f4de jogar uma \u00e1gua no rosto, para n\u00e3o sufocar, tamanha foi a quantidade de bombas que jogaram pelas janelas externas.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es de prepara\u00e7\u00e3o da Liga\u2026 As prepara\u00e7\u00f5es eram no pr\u00f3prio movimento, assembleia quase permanente, de Maio a Agosto, com tanta frequ\u00eancia que eu quase n\u00e3o ia \u00e0s aulas, entre reuni\u00f5es e assembleias\u2026 As prepara\u00e7\u00f5es eram bem p\u00fablicas, pelo que me lembro, j\u00e1 se votavam as coisas na assembleia, e nisso a briga entre as organiza\u00e7\u00f5es: Refazendo sempre puxando para tr\u00e1s, com medo, evitando provocar a ditadura, e \u00e9ramos n\u00f3s, junto do Liberdade e Luta (da OSI, Lambertista), empurrando pra frente, por\u00e9m, esses \u00faltimos capitalizaram mais, pois n\u00f3s est\u00e1vamos muito enfraquecidos, devido \u00e0 falta de quadros ap\u00f3s as pris\u00f5es. Era todo mundo muito t\u00edmido, n\u00e3o t\u00ednhamos oradores, \u00e9ramos militantes muito novos que sobramos ali. O que a gente preparava mais na LO eram as quest\u00f5es de seguran\u00e7a, como atuar se fosse preso, n\u00e3o carregar documentos, tempo limite de atraso em reuni\u00f5es. Por\u00e9m, tinha um clima de liberdade maior quando est\u00e1vamos fazendo faixas e cartazes nos hor\u00e1rios de aula. Participei de muitas reuni\u00f5es da tend\u00eancia estudantil da LO na PUC, que se chamava Proposta. Tamb\u00e9m fomos fazer reuni\u00f5es em S\u00e3o Carlos\u2026 A prepara\u00e7\u00e3o maior era dentro da tend\u00eancia, fazendo an\u00e1lises de conjuntura, onde a gente percebia um enfraquecimento da ditadura, e de que precis\u00e1vamos avan\u00e7ar com propostas mais combativas, sair para as ruas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS:\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Voc\u00ea participou do hist\u00f3rico ato do largo da S\u00e3o Francisco? Quais suas lembran\u00e7as do clima daquela manifesta\u00e7\u00e3o? e da cidade? E qual foi a avalia\u00e7\u00e3o que fizeram na sua c\u00e9lula?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Sim, participei. Houve uma grande repress\u00e3o, onde a pol\u00edcia cercou o ato e jogava jatos de \u00e1gua com tinta, de um caminh\u00e3o, que chamava de \u201cbrucutu\u201d, para marcar os que conseguissem fugir e peg\u00e1-los depois. Eu e uma amiga, Sueli, da Letras, ficamos encurraladas na Igreja de Santo Ant\u00f4nio, ao lado da Faculdade de Direito. Os padres abriram a porta e depois fecharam, e disseram para a pol\u00edcia que \u201cna casa de Deus n\u00e3o entra a pol\u00edcia\u201d, e depois, tarde da noite, conseguimos sair. N\u00e3o lembro da avalia\u00e7\u00e3o de c\u00e9lula.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Qual a import\u00e2ncia dessas lutas para a luta contra a ditadura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Import\u00e2ncia total. O movimento estudantil, desatado a partir dessas pris\u00f5es, foi o que abriu as portas para entrar, no ano seguinte, 1978, o movimento oper\u00e1rio, e da\u00ed tudo o que isso significou: entram as greves do ABC, em S\u00e3o Paulo, no interior do estado de S\u00e3o Paulo, no Rio de Janeiro, e pelo Brasil a fora. Ent\u00e3o, come\u00e7a um movimento oper\u00e1rio.\u00a0 Houve um refluxo do movimento estudantil, a partir da invas\u00e3o da PUC, considerada uma \u201cporralouquice\u201d. Uma provoca\u00e7\u00e3o que a ditadura n\u00e3o poderia ignorar, fazer um ato para tirar sarro da ditadura, pois durante o dia, tinha se fundado a UNE, \u00e0s portas fechadas, ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas frustradas. E a\u00ed, o ato na PUC foi para esfregar na cara da ditadura o nosso sucesso. Depois, foi considerada uma provoca\u00e7\u00e3o e o movimento estudantil teve um refluxo nas ruas, mas a\u00ed nesse tempo tem o movimento oper\u00e1rio e reorganiza\u00e7\u00e3o de DCEs e centros acad\u00eamicos, mas cessaram os enfrentamentos quase di\u00e1rios nas ruas entre estudantes e for\u00e7as de repress\u00e3o. Por\u00e9m, h\u00e1 de se notar que apesar das idas e vindas, o movimento oper\u00e1rio n\u00e3o parou, e a\u00ed tem a forma\u00e7\u00e3o do PT, da CUT. Tudo isso s\u00f3 foi poss\u00edvel com a entrada do movimento estudantil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Para voc\u00ea, como foi o processo de constru\u00e7\u00e3o da Converg\u00eancia Socialista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Primeiro houve a mudan\u00e7a do nome de LO para PST, tal qual o nome na Argentina, da corrente Morenista. Em geral, j\u00e1 se chamava PST, tal como os nomes dos partidos dessa corrente da QI. Teve um congresso, em 1978\u2026. A discuss\u00e3o que se fazia no partido, no contexto de Geisel e sua \u201cAbertura Lenta e Gradual\u201d, com partidos que eles aprovassem, em um regime de democracia c\u00eanica, controlada, e no tempo que eles considerassem. N\u00e3o havia mais como a ditadura militar se manter apenas pela repress\u00e3o. A partir dessa an\u00e1lise, v\u00edamos que era hora de furar mais isso, abrir mais espa\u00e7o dentro dessa fissura aberta pelo regime. Da\u00ed vem essa discuss\u00e3o de formar um partido socialista.<\/p>\n<p>O Jorge Pinheiro tinha chegado de Portugal, onde ocorreu a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, e veio com essa ideia, que j\u00e1 era discutida na Espanha onde chamavam de Converg\u00eancia Socialista. Tal discuss\u00e3o reverberou no PST, que ainda era clandestino, mas menos preocupado com a seguran\u00e7a. E a\u00ed chamou o movimento da Converg\u00eancia Socialista, buscando juntar todos os intelectuais e organiza\u00e7\u00f5es que se colocavam como socialistas, na \u00e9poca. Come\u00e7amos a fazer reuni\u00f5es aberta, ainda que clandestinas para chamar as pessoas e os simpatizantes \u00e0 CS, por\u00e9m acabou que s\u00f3 o pr\u00f3prio PST frequentava as reuni\u00f5es. Com o tempo, n\u00e3o v\u00edamos mais sentido em tentar manter os n\u00facleos da CS e o PST separados enquanto organiza\u00e7\u00f5es. Foi um processo muito r\u00e1pido. Fazia-se tamb\u00e9m uma discuss\u00e3o de proletariza\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Pode nos contar o que ficou em sua lembran\u00e7a das pris\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o e de Moreno em 1978?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Fui presa no dia 22\/08\/1978. Eu dividia uma casa, clandestina, com o Waldo.<\/p>\n<p>Aluguei a casa a pedido do partido pois era uma das \u00fanicas da c\u00e9lula de estudantes que n\u00e3o morava com a fam\u00edlia. O Bernardo Cerdeira veio do Rio, como clandestino, em setembro de 1977. Era um local na Vila Madalena, antes do bairro se tornar o centro da boemia. O Bernardo depois foi para o ABC, e o Waldo chegou, e passamos a dividir. Uma noite, ap\u00f3s a conven\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o da CS, o Waldo n\u00e3o voltou, e isso n\u00e3o podia, pois nesse caso, como estabelecido pelas medidas de seguran\u00e7a, n\u00e3o podia n\u00e3o voltar pra casa sem dar um jeito de avisar. Imaginei que a quebra de seguran\u00e7a foi porque ele foi pra casa com uma mo\u00e7a que ele estava paquerando. Na segunda-feira, ele tamb\u00e9m n\u00e3o tinha voltado. Voltando de Guarulhos, onde eu estava formando um n\u00facleo da CS, no caminho de casa, perto de uma escadaria, vi dois sujeitos que pareciam ser policiais dentro de um fusca, e entrei pra casa. Waldo novamente n\u00e3o estava. N\u00e3o sa\u00ed da casa pois n\u00e3o tinha como. Teria que ir a p\u00e9 at\u00e9 outra rua e depois pegar um t\u00e1xi para ir pra casa da minha irm\u00e3, e seria pega no caminho. Na manh\u00e3 seguinte, quando estava me arrumando para ir trabalhar, dois caras do DOI-CODI me levaram, ficaram dando voltas, parando na frente de terrenos baldios, achei que iam me matar. At\u00e9 que me levaram para o DOPS e senti al\u00edvio, pois estava sendo \u201capenas\u201d presa. Depois eu soube, que o Waldo e a Zez\u00e9 tinham sido presos no sagu\u00e3o do hotel onde estavam o Moreno e a Rita. Foi uma porralouquice total trazer eles para a conven\u00e7\u00e3o da CS. Eles foram presos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>No DOPS, tivemos nossos pertences revistados e houve um interrogat\u00f3rio de 2h. Pedi para ir ao banheiro, e tive de ir ao outro extremo do pr\u00e9dio, e no caminho, s\u00f3 ia vendo militantes\u2026 Fiquei numa cela, e \u00e9ramos 8 mulheres, e os homens ficaram em outra. Pegaram todos os membros do Comit\u00ea Central. Me interrogaram v\u00e1rias vezes porque queriam que eu dissesse que conhecia a Rita. Nossa orienta\u00e7\u00e3o era negar ser do PST, e dizer que \u00e9ramos da Converg\u00eancia, que era um chamado p\u00fablico. Foi o que dissemos aos agentes. Sobre a Rita, me interrogavam muito para poder nos incriminar com essa rela\u00e7\u00e3o internacional. Em um momento, colocaram o Moreno na mesma sala comigo e o Romeu Tuma, e esse \u00faltimo fazia o papel do \u201cdelegado bonzinho\u201d. Colocaram eles na mesma sala que eu, e o Moreno disse \u201cfa\u00e7a o que sua consci\u00eancia lhe mandar, mas conseguimos que a Anistia Internacional interceda, mas precisamos esclarecer todos os pontos\u201d. Entendi que isso era a instru\u00e7\u00e3o para dizer o que o partido nos orientou, e negar envolvimento com o PST. Caracterizamos que n\u00e3o haveria tortura, pois a ditadura militar n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es de manter pessoas presas durante meses, incomunic\u00e1veis. N\u00e3o houve tortura f\u00edsica, mas fomos levados para salas escuras onde gritavam conosco e os equipamentos de tortura estavam \u00e0 vista. Estivemos corretos ao caracterizar que n\u00e3o haveria tortura. No domingo seguinte \u00e0 pris\u00e3o, foram obrigados a cortar a incomunicabilidade. Fizemos greve de fome para conseguir isso. Recebemos parentes e advogados. Do lado de fora do DOPS, tinha uma manifesta\u00e7\u00e3o de 5 mil pessoas do Movimento Panelas Vazias, que a igreja organizava, como manifesta\u00e7\u00f5es contra a carestia nos bairros, e dessa vez tinham ido at\u00e9 a S\u00e9. Isso foi no contexto do arrocho salarial. O movimento estudantil viabilizou que tanto o movimento oper\u00e1rio quanto os movimentos sociais sa\u00edssem dos bairros e avan\u00e7assem nas lutas.<\/p>\n<p>Moreno correu um grande risco de ser extraditado para a Argentina e ser morto l\u00e1. As mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis e sociais do lado de fora, a solidariedade das pessoas que nos doavam comida e agasalhos, a greve de fome que fizemos, fizeram com que a Anistia Internacional e a OAB Nacional entrassem em cena e conseguissem a quebra da incomunicabilidade e a n\u00e3o-extradi\u00e7\u00e3o de Rita e Moreno para a Argentina, e em vez disso, seriam enviados de volta para a Col\u00f4mbia e l\u00e1 ficariam proibidos de retornar ao Brasil por 10 anos. Tal proibi\u00e7\u00e3o foi extinta mais tarde e ele p\u00f4de retornar nos anos 80. Eu sa\u00ed uma semana depois, mas ainda tendo de responder a um processo sob a Lei de Seguran\u00e7a Nacional, que poderia resultar em pris\u00e3o mais tarde, mas o Comit\u00ea Central foi encaminhado para diversos pres\u00eddios. Zez\u00e9, por exemplo, ficou no Carandiru, com Elza, do PCdoB. Z\u00e9 Maria foi um dos poucos do Comit\u00ea Central que n\u00e3o foi encaminhado a um pres\u00eddio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-17659 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/charge-300x254.jpeg\" alt=\"\" width=\"343\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/charge-300x254.jpeg 300w, https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/charge-1024x866.jpeg 1024w, https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/charge-768x650.jpeg 768w, https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/charge-600x508.jpeg 600w, https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/charge.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 343px) 100vw, 343px\" \/><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">O cartunista Henfil prestou homenagem aos presos e presas da Converg\u00eancia Socialista no mesmo ano em que ocorreram as deten\u00e7\u00f5es. Acima, se pode ver a lembran\u00e7a dedicada \u00e0 companheira C\u00e9lia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>CS: O que poderia nos relatar dos debates para construir um partido socialista e depois um PT naquela \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p>CB: Em paralelo \u00e0 quest\u00e3o das pris\u00f5es, est\u00e1vamos em per\u00edodo eleitoral, e onde pod\u00edamos, tent\u00e1vamos construir um Polo Oper\u00e1rio Socialista do MDB, pois n\u00e3o t\u00ednhamos condi\u00e7\u00f5es de construir o partido socialista. Usamos tal Polo como t\u00e1tica de constru\u00e7\u00e3o de tal partido. Em S\u00e3o Paulo, como candidato a deputado federal tivemos o Benedito Marc\u00edlio, presidente do sindicato dos metal\u00fargicos de Santo Andr\u00e9, e tivemos o Ja\u00fa, um advogado que havia se aproximando da CS, por\u00e9m filiado ao MDB. Com nossa sa\u00edda da pris\u00e3o, com exce\u00e7\u00e3o dos que eram do Comit\u00ea Central que continuaram presos, fomos com tudo para o processo de proletariza\u00e7\u00e3o e para a campanha eleitoral.<\/p>\n<p>Faz\u00edamos os panfletos agitando um partido socialista, explicando aos trabalhadores que era um partido de trabalhadores, sem patr\u00f5es\u2026 Marc\u00edlio era contr\u00e1rio a falar de \u201csocialistas\u201d preferindo usar o termo \u201ctrabalhadores\u201d. Houve bastante di\u00e1logo com a classe nesse momento, no qual eu abri a regional de Guarulhos, o segundo maior trabalho oper\u00e1rio que t\u00ednhamos, algo viabilizado pelo momento da campanha eleitoral. Com o tempo, mudamos para \u201cPartido dos Trabalhadores\u201d.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o interna, onde deixamos de chamar de Partido Socialista para chamar de Partido dos Trabalhadores, foi no final do ano, com a liberta\u00e7\u00e3o dos dirigentes do Comit\u00ea Central. Em janeiro, j\u00e1 havia a discuss\u00e3o com militantes, inclusive Lula e outros sindicalistas, e ap\u00f3s uma discuss\u00e3o em um congresso em Lins, em 1979, o Z\u00e9 Maria, enquanto CS, apresentou uma resolu\u00e7\u00e3o propondo chamar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um Partido dos Trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Poderia nos dizer como funcionava a organiza\u00e7\u00e3o? A atua\u00e7\u00e3o com o jornal? As campanhas internacionais e de finan\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>CB: Todo final do ano faz\u00edamos campanhas financeiras. Com a Internacional, a gente trabalhava muito com a Revista de Am\u00e9rica, vendendo ela. Trabalh\u00e1vamos com o jornal Versus, que teve durante um tempo um suplemento chamado Converg\u00eancia Socialista o \u201cVermelhinho\u201d como ficou conhecido nas greves de 78. Mas depois passou a ser somente \u201cConverg\u00eancia Socialista\u201d. Tamb\u00e9m t\u00ednhamos folhetos de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O jornal era quinzenal, depois semanal, a depender do grau de mobiliza\u00e7\u00e3o na sociedade. Eram distribu\u00eddos entre os militantes, e cada um tinha sua cota para vender, o que era mais f\u00e1cil nos per\u00edodos de mobiliza\u00e7\u00e3o, pois as vendas aconteciam r\u00e1pido, nas ruas.<\/p>\n<p>O Versus, n\u00f3s come\u00e7amos vendendo em portas de cinemas. Tamb\u00e9m havia as cotiza\u00e7\u00f5es, de 10% sobre os ganhos dos militantes, como regra geral, al\u00e9m das campanhas financeiras, sejam para c\u00e1, ou para a Internacional, como por exemplo, acerca dos massacres de Sabra e Chatila, relacionadas \u00e0 causa palestina, e a Revolu\u00e7\u00e3o na Nicar\u00e1gua, a Revolu\u00e7\u00e3o Iraniana\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Em sua opini\u00e3o qual a import\u00e2ncia da Liga e da CS para a hist\u00f3ria das lutas de nosso pa\u00eds.<\/strong><\/p>\n<p>CB: Total. A aud\u00e1cia da Liga em formar a CS, mesmo com os riscos que tomamos, foi importante nosso trabalho no movimento estudantil, nas massas, foi fundamental para os eventos que aconteceram depois no Brasil. Podemos dizer que aquele min\u00fasculo grupo, com as pris\u00f5es que sofreu, com sua pol\u00edtica, mudou a hist\u00f3ria nacional, pois sem a Liga Oper\u00e1ria, a hist\u00f3ria seria outra, pois nenhum outro grupo assumiria o nosso papel. As dire\u00e7\u00f5es dos movimentos na \u00e9poca, (Refazendo, PCB, PCdoB) seja pelos assassinatos, ex\u00edlios e pris\u00f5es sofridas, seja pela busca de uma burguesia progressista no MDB, ou por outra raz\u00e3o, n\u00e3o teriam dado a mesma disputa e enfrentamento que a Liga e a CS deram. O Trotskismo foi important\u00edssimo, e aqui incluo tamb\u00e9m o Liberdade e Luta, mas sem essa an\u00e1lise e aud\u00e1cia e apura\u00e7\u00e3o perante a realidade, talvez n\u00e3o tivessem acontecido as condi\u00e7\u00f5es para a posterior cria\u00e7\u00e3o do PT, que foi fundamental, em que pese o papel que viria a cumprir posteriormente. Toda a d\u00e9cada de 80 foi marcada por esses acertos e essa presen\u00e7a, mesmo que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos conseguido capitalizar naquele momento em cima disso. \u00a0A Converg\u00eancia p\u00f4de capitalizar e cresceu bastante.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed \u00e9 outro epis\u00f3dio, o que aconteceu posteriormente, que se liga diretamente ao que aconteceu internacionalmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>****<\/p>\n<p><strong>Leia a segunda parte da entrevista:<\/strong><\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><em><strong>\u201cNa cela, a Zez\u00e9 nos contava hist\u00f3rias do Chile, e sobre as m\u00fasicas populares de l\u00e1, al\u00e9m de can\u00e7\u00f5es da Guerra Civil Espanhola\u201d<\/strong><\/em><\/h1>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-17655 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/celiaprisao-264x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"264\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/celiaprisao-264x300.jpeg 264w, https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/celiaprisao-600x683.jpeg 600w, https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/celiaprisao.jpeg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 264px) 100vw, 264px\" \/><\/p>\n<blockquote><p>Acima, a jovem C\u00e9lia Barbosa, presa pol\u00edtica da nefasta ditadura militar brasileira. Como se pode notar, o n\u00famero de deten\u00e7\u00e3o est\u00e1 escrito \u00e0 m\u00e3o, em um papel comum. C\u00e9lia nos contou que, neste dia, foram tantas pris\u00f5es que acabaram as tabuletas do DOPS. A masmorra estavam t\u00e3o cheias que ela foi levada para o Batalh\u00e3o Tobias de Aguiar, na avenida Tiradentes.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Entrevista com Celia Barbosa, militante da Liga Oper\u00e1ria (Parte II)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o ato em homenagem \u00e0 mem\u00f3ria de Maria Jos\u00e9 Louren\u00e7o, a Zez\u00e9, entrevistamos C\u00e9lia Barbosa. Companheira \u00e9 independente e foi uma das respons\u00e1veis pela coordena\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do evento que ocorreu na sede da CSP-CONLUTAS em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>C\u00e9lia vem de uma fam\u00edlia prolet\u00e1ria e, muito cedo, come\u00e7ou a se radicalizar politicamente no contexto da ditadura militar, ingressando no movimento estudantil da USP no final dos anos 1970. L\u00e1, entrou para a Liga Oper\u00e1ria, organiza\u00e7\u00e3o na qual exerceu fun\u00e7\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o no setor estudantil. Atuou na Converg\u00eancia Socialista, no trabalho oper\u00e1rio em Guarulhos, e posteriormente na organiza\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A entrevista ocorreu em dois momentos. Aqui voc\u00ea pode ler a segunda parte, onde aprofundamos alguns pontos das respostas iniciais. Agradecemos \u00e0 companheira pela disponibilidade e por dedicar parte de seu tempo a essa longa conversa.<\/p>\n<p>Atualmente, C\u00e9lia Barbosa e outras camaradas que militaram na Liga Oper\u00e1ria est\u00e3o empenhadas na edi\u00e7\u00e3o de um livro sobre a organiza\u00e7\u00e3o, reunindo depoimentos de muitas e muitos que participaram daquelas batalhas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Boa leitura!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Combate Socialista: Qual era o nome da tend\u00eancia estudantil da USP e do Jornal? Agrupava estudantes de quais cursos? <\/strong><\/p>\n<p><strong>C\u00e9lia Barbosa:<\/strong> O nome da tend\u00eancia na USP era Mobiliza\u00e7\u00e3o Estudantil. Tinha gente das Ci\u00eancias Sociais, da Hist\u00f3ria, da Geografia, da F\u00edsica, da Qu\u00edmica, da Letras, da ECA.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Como foi a organiza\u00e7\u00e3o dessa famosa assembleia com os oper\u00e1rios da Liga? Podes relatar mais sua lembran\u00e7a da assembleia? Como foi a reuni\u00e3o da tend\u00eancia ap\u00f3s essa assembleia? <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CB: Essa assembleia com os oper\u00e1rios da Liga\u2026 Agora que escrevemos o livro fizemos entrevistas, ent\u00e3o tivemos como saber melhor, porque ningu\u00e9m sabia direito. O Waldo\u00a0 trouxe do ABC, o Pacheco, que era dos qu\u00edmicos, e um metal\u00fargico de codinome Jeferson, e os levou para a USP para fazer a den\u00fancia. Antes disso ou enquanto isso, o Valfrido, que j\u00e1 tinha sa\u00eddo da Hist\u00f3ria, mas ainda tinha influ\u00eancia no Centro Acad\u00eamico, convenceu o Geraldinho, dirigente da Refazendo e do Centro Acad\u00eamico e do DCE reconstru\u00eddo (a for\u00e7a majorit\u00e1ria do DCE) a chamar a assembleia e que levar\u00edamos os oper\u00e1rios. Sei que teve uma primeira assembleia de tarde, no audit\u00f3rio da Hist\u00f3ria, mas o que foi grande mesmo, onde estiveram os oper\u00e1rios, foi \u00e0 noite. Era como se fazia antes, os ativistas e centros acad\u00eamicos passavam em sala de aula chamando todo mundo pra assembleia. A Ci\u00eancias Sociais foi em peso, tal como a Hist\u00f3ria e Geografia, e a assembleia aconteceu no p\u00e1tio interno do pr\u00e9dio da Hist\u00f3ria e Geografai, conhecido como v\u00e3o, na FFLCH. O que eu lembro da assembleia \u00e9 que tinha um sil\u00eancio total, escutando os oper\u00e1rios falando que seus companheiros tinham sido presos panfletando e conversando sobre o Primeiro de Maio. Essa assembleia marcou o ato de protesto para o dia 5 de Maio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Poderia nos contar mais esse dia t\u00e3o feliz pra voc\u00ea? Como foi que se deu essa capta\u00e7\u00e3o? O que se falou na reuni\u00e3o? Que medidas de seguran\u00e7a se tomou?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Meu companheiro de faculdade, Roberto, veio falar comigo na sa\u00edda da faculdade, sobre a tend\u00eancia Mobiliza\u00e7\u00e3o Estudantil, que era um bra\u00e7o legal da Liga Oper\u00e1ria dentro do contexto do movimento estudantil. Me explicou o que era a LO e me perguntou se eu queria entrar. Aquilo foi uma alegria imensa e eu disse que sim, e ele marcou a pr\u00f3xima reuni\u00e3o, bem como as instru\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a (toler\u00e2ncia m\u00e1xima para atrasos, entrar por diferentes acessos, \u201cdisfar\u00e7ar\u201d para que todos n\u00e3o entrassem no mesmo momento no local da reuni\u00e3o), e que se excedesse a toler\u00e2ncia do atraso, todos levantavam e iam embora. Fui t\u00e3o feliz pra casa que nem dormi naquela noite, por saber que faria parte de algo que sempre quis, mas que n\u00e3o sabia que existia. Ap\u00f3s a primeira reuni\u00e3o, perguntei se podia chamar minha amiga Suely, e isso foi aprovado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Havia documentos internos com essas caracteriza\u00e7\u00f5es? O debate de poss\u00edveis d\u00favidas ou poss\u00edveis diverg\u00eancias era livre? Como os jornais e documentos chegavam at\u00e9 a sua c\u00e9lula? <\/strong><\/p>\n<p>CB: Sim, havia circulares, que tinham que ser rasgadas ap\u00f3s a leitura e vinham com os dirigentes das c\u00e9lulas em um esquema clandestino. No primeiro momento, t\u00ednhamos informes orais, mas em 1978 passamos a ter documentos que destru\u00edamos depois.<\/p>\n<p>O debate era livre, e depois de votar segu\u00edamos a decis\u00e3o votada. Houveram j\u00e1 diverg\u00eancias em debates. Um dos casos foi sobre o General Euler Bentes. Havia uma diverg\u00eancia sobre procurar o Euler Bentes, que j\u00e1 estava em di\u00e1logo com J\u00falio Tavares e dois deputados da esquerda do MDB, que compunham a CS. O general era considerado uma dissid\u00eancia dos militares e era apoiado pelo MDB. No final, n\u00e3o o apoiamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os jornais e documentos chegavam de maneiras diferentes. Uma forma era usando latas de talco, sem a parte de dentro. O jornal se chamava \u201cIndepend\u00eancia Oper\u00e1ria\u201d, que era passado aos militantes e para contatos que est\u00e1vamos tentando captar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS:\u00a0 Explique melhor esse processo de se tornar dirigente da c\u00e9lula? Como fazias o contato com o centro da organiza\u00e7\u00e3o? Onde ocorriam as reuni\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Esse era um processo votado. Quando eu entrei, o dirigente eram Roberto, o Ant\u00f4nio Carlos Moreira, que era conhecido como \u201cRascunho de L\u00eanin\u201d. Algumas semanas ap\u00f3s minha entrada, o Roberto me disse que estava com alguns problemas e desapareceu da USP. Acho que por press\u00e3o da fam\u00edlia, ou em fun\u00e7\u00e3o do medo por causa das pris\u00f5es. Na minha c\u00e9lula, que era composta majoritariamente por alunos rec\u00e9m captados das Ci\u00eancias Sociais, fui votada para a dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre o contato com o centro da organiza\u00e7\u00e3o, fui orientada a fazer um curso em Petr\u00f3polis, mas o contato de vez, em que pese que eu tenha tido contato com o Waldo do Comit\u00ea Central, foi depois, na \u00e9poca da Converg\u00eancia Socialista, quando se encontraram estudantes de todas as tend\u00eancias estudantis, bra\u00e7os legais no meio estudantil, da Liga Oper\u00e1ria. Havia uma ferramenta de seguran\u00e7a que era o n\u00e3o saber quem era da Liga Oper\u00e1ria e quem era das tend\u00eancias estudantis. Por exemplo, a Zez\u00e9, quando entrei na faculdade, estava na minha sala de primeiro ano, era uma das ativistas que chamavam mais aten\u00e7\u00e3o nas passagens em sala sobre o processo de reconstru\u00e7\u00e3o do DCE, e foi uma das que desapareceu durante as pris\u00f5es, e depois fui saber que ela era uma das dirigentes.<\/p>\n<p>Faz\u00edamos muitas reuni\u00f5es nos canteiros da USP, pois era f\u00e1cil de nos escondermos entre os alunos fazendo seus piqueniques e estudando, tal como outros agrupamentos faziam. Era mais f\u00e1cil ali do que em casa, pois em casa era mais dif\u00edcil de esconder. Boa parte das reuni\u00f5es era ali, algumas no centro acad\u00eamico, outras disfar\u00e7adas de piquenique.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Poderias contar melhor esse epis\u00f3dio de repress\u00e3o na PUC? Voc\u00ea j\u00e1 sabia que haviam militantes da Liga na PUC? E ato de 1977, no largo de S\u00e3o Francisco, pela liberdade dos presos da Liga Oper\u00e1ria? <\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Aconteceu em Setembro de 1977, no contexto das mobiliza\u00e7\u00f5es de maio a setembro daquele ano exigindo liberdade aos presos e liberdade de express\u00e3o e reuni\u00e3o (e com a Liberdade e Luta chamando \u201cabaixo a ditadura\u201d, o que se massificou depois). \u00cdamos pouco \u00e0s aulas devido ao volume de atividades de prepara\u00e7\u00e3o dos atos e assembleias que t\u00ednhamos que realizar. Nesse contexto, come\u00e7amos a tiragem de delegados para fundar a UNE. A ditadura reprimia e sabotava as tentativas de organizarmos o congresso. Houve um congresso feito com maior clandestinidade, sem \u00f4nibus alugados, divulga\u00e7\u00e3o, onde os delegados eleitos chegaram antes. No final desse congresso, foi chamado um ato na PUC, no TUCA, mas a pol\u00edcia tamb\u00e9m ficou sabendo da ocorr\u00eancia desse ato, e cercou o local com uma repress\u00e3o pesada, contra as 5 mil pessoas que estavam no ato. Erasmo Dias, um fascista da maior marca e secret\u00e1rio de seguran\u00e7a, comandou a repress\u00e3o, e come\u00e7aram a jogar bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e efeito moral. Uma companheira nossa acabou com um buraco na perna porque uma das bombas caiu nela, e tinha f\u00f3sforo na composi\u00e7\u00e3o. Com a repercuss\u00e3o dessa repress\u00e3o, houve uma mudan\u00e7a de um setor da burguesia frente \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>J\u00e1 sabia de militantes da LO na PUC. Nossa seguran\u00e7a falhou, inclusive uma vez encontrei um grupo de militantes da Proposta, tend\u00eancia estudantil da LO na PUC, voltando do curso em Petr\u00f3polis, enquanto eu estava indo, dentro da rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse do S\u00e3o Francisco, pela liberdade aos presos da LO, come\u00e7ou l\u00e1, e virou uma passeata. N\u00e3o estava previsto que virasse uma passeata, pois ningu\u00e9m fazia passeatas desde 1969, com o AI-5 e pris\u00e3o dos dirigentes da UNE. Esse primeiro, em 1977, era pra ser s\u00f3 um ato no S\u00e3o Francisco e virou uma passeata que chegou at\u00e9 o Viaduto do Ch\u00e1 e l\u00e1 foi impedido de prosseguir. Mas nesse dia eu n\u00e3o estava, pois estava no trabalho. Houveram outros atos depois. Eles ficaram 4 meses presos, mas depois dos atos pararam de sofrer torturas, e come\u00e7aram a receber advogados. As consignas come\u00e7aram a se confundir entre liberdade para esses presos pol\u00edticos e liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Poderias explicar melhor a articula\u00e7\u00e3o entre as tend\u00eancias da USP, PUC e S\u00e3o Carlos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Ap\u00f3s a UNE, come\u00e7ou o processo de forma\u00e7\u00e3o das Uni\u00f5es Estaduais dos Estudantes (UEEs), e come\u00e7ou o processo de forma\u00e7\u00e3o de chapas para concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es das UEEs, e come\u00e7aram a se juntar os agrupamentos. Nem todos eram militantes da LO, ou foram chamados para participar, mas eram das tend\u00eancias estudantis dirigidas por militantes da Liga e concordavam com os posicionamentos da mesma. A articula\u00e7\u00e3o ocorreu por volta do fim de 1977, in\u00edcio de 1978, e antes, em 1977 nos encontr\u00e1vamos nas atividades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Fale mais das medidas de seguran\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>CB: Limite de toler\u00e2ncia ao atraso em 10 minutos, ou a reuni\u00e3o era cancelada e todos saiam, devido a possibilidade de algu\u00e9m ser pego e entregar os nomes dos outros. Esconder os jornais e n\u00e3o passar nada em p\u00fablico. N\u00e3o ter documentos em casa. Proibi\u00e7\u00e3o de usar maconha e outras drogas, porque a pol\u00edcia podia pegar e achar materiais do partido, ou usar como argumento para a pris\u00e3o. Estanquiza\u00e7\u00e3o: um n\u00e3o sabia do outro, e com essa separa\u00e7\u00e3o dos militantes em c\u00e9lulas diferentes, hor\u00e1rios e locais diferentes, n\u00e3o havia como infiltrados identificarem todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Poderias relatar como voc\u00ea viu essa mudan\u00e7a de Liga Oper\u00e1ria para PST? Em sua lembran\u00e7a como foram os debates internos do congresso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Foi uma discuss\u00e3o que se deu sobre o nome da organiza\u00e7\u00e3o, e nesse momento havia outra organiza\u00e7\u00e3o morenista na quarta internacional com esse nome, PST. Tamb\u00e9m consideramos chamar de \u201cPartido\u201d por j\u00e1 estarmos maiores, e ter o mesmo nome que as outras correntes tinham nessa fra\u00e7\u00e3o. Foi uma discuss\u00e3o para o congresso anual. Acabou mudando para PST, mas ap\u00f3s a pris\u00f5es em 1978 nos tornamos a Converg\u00eancia Socialista, pois reun\u00edamos l\u00e1 principalmente membros do PST.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS:<\/strong> Na conforma\u00e7\u00e3o da Converg\u00eancia, houve debates com a velha gera\u00e7\u00e3o que tinha sido do movimento trotskista nos anos 30 e 40 em SP?<\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> a \u201cVelha Gera\u00e7\u00e3o\u201d estava fora do pa\u00eds. Todos \u00e9ramos muito jovens, e o que se tinha contato era com os socialistas mais de centro, como Arm\u00ednio Afonso. M\u00e1rio Pedrosa, que t\u00ednhamos conhecido no Chile e a partir do qual de organizou o Ponto de Partida (mas ele n\u00e3o foi parte do Ponto de Partida), estava fora do pa\u00eds, pelo que me lembro. A maioria s\u00f3 voltou ap\u00f3s a Anistia, em 1979. Desses nomes, n\u00e3o me lembro deles estarem no pa\u00eds na \u00e9poca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Poderias falar mais sobre o processo de proletariza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Houve uma discuss\u00e3o, no primeiro semestre de 1978, dos estudantes deixarem seus cursos e morarem em bairros oper\u00e1rios e conseguirem empregos em f\u00e1bricas. E t\u00ednhamos acabado de ganhar o centro acad\u00eamico (CEUPES) junto da Liberdade e Luta, e come\u00e7amos a sair dos cursos. Eu dizia que ia, mas queria ficar at\u00e9 o fim da gest\u00e3o pois via como irrespons\u00e1vel sair e deixar o centro acad\u00eamico vazio. Com as pris\u00f5es, mudou tudo isso e eu n\u00e3o voltei. Me radicalizei, e tomei como tarefa derrubar a ditadura. O processo foi assim, os militantes sa\u00edam da faculdade e conseguiam emprego nas f\u00e1bricas, eram \u201cgiros em 180 graus\u201d, ousados, mas acabamos por n\u00e3o fincar ra\u00edzes na USP e ficamos meio queimados no movimento estudantil por causa desse giro brusco. Tamb\u00e9m houve um refluxo no movimento estudantil ap\u00f3s a Invas\u00e3o da PUC, com as for\u00e7as se voltando para a constru\u00e7\u00e3o das chapas da UEE, com menos atos nas ruas, e isso contribuiu para nossa sa\u00edda para as f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Conte mais sobre sua pris\u00e3o? Conseguiste falar com suas companheiras na pris\u00e3o? O que voc\u00ea pensava enquanto estava na pris\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Senti que tinham prendido todos quando passei por aquele corredor. Os policiais pegaram tudo da minha casa e de bolsas, me interrogavam pra saber os nomes dos outros militantes, e ouvia gritos. No in\u00edcio tive bastante medo, mas uma vez que ficou claro que n\u00e3o iam torturar, eu tive mais coragem, menos medo.<\/p>\n<p>As 9 mulheres ficaram todas na mesma cela. Ent\u00e3o ficaram eu, Zez\u00e9, Hilda Machado, Esther Tenzer, Maura Veiga, Maria Cristina Salai, Maru (amiga da Ester e simpatizante da PUC), Ana Nogueira e Marta D\u2019\u00c2ngelo, e por ficar na mesma cela conseguimos nos falar. Os homens ficaram em celas separadas, e para organizar a greve de fome com eles, precisamos da ajuda de um preso estrangeiro que estava sem documentos e trabalhava nos corredores, al\u00e9m de usar um buraquinho em uma parede pra tentarmos nos comunicar com a cela ao lado.<\/p>\n<p>Convers\u00e1vamos da nossa situa\u00e7\u00e3o, cant\u00e1vamos muito para passar o tempo e levantar o \u00e2nimo. Cant\u00e1vamos alto para que os companheiros nos escutassem, porque a porta da cela era completamente fechada, exceto por uma portinhola. Na cela, a Zez\u00e9 nos contava hist\u00f3rias do pr\u00e9-golpe do Pinochet no Chile, e sobre as m\u00fasicas populares de l\u00e1, al\u00e9m de can\u00e7\u00f5es das passeatas e da Guerra Civil Espanhola. Convers\u00e1vamos da situa\u00e7\u00e3o para levantar o \u00e2nimo. Cada vez que nos levavam para o interrogat\u00f3rio, \u00e0s vezes 2 ou 3 vezes por dia, d\u00e1vamos for\u00e7a, pois havia tortura psicol\u00f3gica (mesmo que n\u00e3o houvesse tortura f\u00edsica), humilha\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as, e volt\u00e1vamos de moral baixa, ent\u00e3o fal\u00e1vamos para consolar. Foi um ambiente interessante, de muita camaradagem.<\/p>\n<p>Pensava, l\u00e1 dentro, que n\u00e3o era preciso dar tempo antes da sa\u00edda do centro acad\u00eamico antes de iniciar a proletariza\u00e7\u00e3o, entrar no movimento oper\u00e1rio, organizar os trabalhadores e derrubar a ditadura militar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Poderias dizer os nomes de todos os presos e presas de 1978?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> As 9 mulheres ficaram todas na mesma cela, ent\u00e3o ficaram eu, Zez\u00e9 (Maria Jos\u00e9 da Silva Louren\u00e7o, CC), Hilda Machado (CC), Esther Tenze, Maura Veiga, Maria Cristina Salai (CC), Maru (amiga da Ester e simpatizante da PUC), Ana Nogueira e Marta D\u2019\u00c2ngelo. A Maru, que foi logo identificada como n\u00e3o militante, saiu logo, por isso me lembro sempre de 8 mulheres na cela. Os homens se chamavam Arnaldo Schreinner (CC), Waldo Mermelstein (CC), Edson Silva Coelho (Jarr\u00e3o, CC), Bernardo Cerdeira (CC), Jos\u00e9 Aziz Creton (CC), Ronaldo de Almeida (CC), Jos\u00e9 Welmovick (CC), Jos\u00e9 Maria de Almeida, Oscar Itiro, Justino, Jean Carlos D\u2019Agostini. N\u00e3o sei se me esqueci de algum nome.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais tarde, Romildo e J\u00falio Tavares foram presos, ap\u00f3s a soltura da base. As que n\u00e3o \u00e9ramos da dire\u00e7\u00e3o nacional, fomos soltas at\u00e9 uma semana depois das pris\u00f5es, menos a Zez\u00e9, que sabiam que era dirigente. Entre os homens, foi o mesmo, talvez com alguns dias mais de diferen\u00e7a entre eles. Tamb\u00e9m prenderam Rita Strasberg, Moreno (Hugo Bressane) e Ant\u00f4nio Maria de S\u00e1 Leal, que vierem para a conven\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amento da CS.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Conte mais dessa decis\u00e3o coletiva de fazer a greve de fome na cela? Quais companheiras dividiram a cela contigo? <\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> N\u00f3s decidimos isso entre as mulheres, para quebrar a incomunicabilidade, durante 3 dias, e os demais aderiram ap\u00f3s comunicarmos a eles. Com a mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil e popular, a palavra de ordem \u201cLibertem Nossos Presos\u201d do Movimento Popular da Carestia, que faziam as Marchas da Panela Vazia, no contexto do rebaixamento brutal dos sal\u00e1rios, organizando nos bairros pelos padres da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, os ativistas ligados a igreja cat\u00f3lica e militantes de esquerda.<\/p>\n<p>Foi uma semana de agita\u00e7\u00e3o e assembleias permanentes na USP e na PUC, pois tinham estudantes da USP e da PUC presos. Da USP tinha eu e a Maura, da Letras. Da PUC tinha a Maru, a Ester, das Ci\u00eancias Sociais e a Maria Cristina, o Oscar, ambos da matem\u00e1tica. E era uma loucura, pois de fora, das assembleias e das pessoas vinham casacos, comida e guloseimas no meio da greve de fome. No s\u00e1bado, interrompemos a greve de fome, com a quebra da incomunicabilidade e acesso a advogados. Teve um movimento da Anistia Internacional que foi importante, devido a Ruth Escobar, uma atriz e produtora teatral portuguesa, que se moveu em fun\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas que estava preso. Tamb\u00e9m houve uma movimenta\u00e7\u00e3o da OAB, em fun\u00e7\u00e3o do Creton, pois o pai dele era desembargador no RJ e foi at\u00e9 o DOPS com membros da OAB, e v\u00edamos essas delega\u00e7\u00f5es nos corredores. Gra\u00e7as a essas movimenta\u00e7\u00f5es, a greve de fome pode ser quebrada r\u00e1pido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Como foi dividir a pris\u00e3o com Zez\u00e9? Ela era a \u00fanica dirigente nacional nessa cela?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Ela era a mais velha de todas ali, a mais madura. Ela era uma dirigente que sempre foi bastante solid\u00e1ria, \u201cm\u00e3ezona\u201d, que n\u00e3o nos deixava desanimar e nos dava confian\u00e7a em nossas caracteriza\u00e7\u00f5es sobre o movimento de massas e a ditadura militar, mesmo antes da incomunicabilidade ser quebrada.<\/p>\n<p>Eu pude ouvir dos meus pais e de outras pessoas que em torno de 5000 pessoas foram da Pra\u00e7a da S\u00e9 at\u00e9 o DOPS exigir nossa liberta\u00e7\u00e3o. A Zez\u00e9 nos refor\u00e7ava a confian\u00e7a no movimento de massas. Ela era a \u00fanica dirigente na cela, em que pese a Maura ter ocupado a dire\u00e7\u00e3o estadual e ser uma grande oradora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS:<\/strong> Quando conseguiram visitas qual foi a sensa\u00e7\u00e3o? Puderam comemorar juntas e juntos dentro da pris\u00e3o de alguma forma?<\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Ester saiu no s\u00e1bado, quando quebrou a incomunicabilidade. A Hilda creio que tamb\u00e9m. Eu sa\u00ed segunda ou ter\u00e7a de tarde. Mas, est\u00e1vamos todos muito preocupados porque sab\u00edamos que a Zez\u00e9 n\u00e3o iam deixar sair. Por isso fizemos a greve de fome na PUC depois. Cada um que sa\u00eda era uma sensa\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria, especialmente com a Hilda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS:<\/strong> poderias falar mais do polo oper\u00e1rio e socialista nas elei\u00e7\u00f5es? E dessa campanha eleitoral em Guarulhos? E sobre a sua milit\u00e2ncia oper\u00e1ria nessa regional?<\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> Tinha a ver com a pol\u00edtica de formar um Polo Oper\u00e1rio Socialista, a partir da Converg\u00eancia Socialista, saindo da configura\u00e7\u00e3o MDB e Arena, e criando um partido com independ\u00eancia de classe. Uma forma que tivemos de concretizar essa pol\u00edtica foi buscar dentro do MDB, um saco de gatos onde havia de tudo, entre golpistas burgueses arrependidos, at\u00e9 intelectuais, ex membros do Partido Socialista, deputados de esquerda que apoiavam o movimento Converg\u00eancia Socialista. Fomos buscar dentro do MDB oper\u00e1rios, por isso buscamos que o Marc\u00edlio se filiasse como candidato do sindicalismo e dos trabalhadores em luta. Foi interessante, era uma forma de falar da forma\u00e7\u00e3o do novo partido na campanha eleitoral. Em 1979, tivemos o movimento pela Anistia a Todos os Presos, e forma\u00e7\u00e3o do PT em 1980.<\/p>\n<p>A campanha eleitoral em Guarulhos era para isso. J\u00e1 estava inserida l\u00e1. Isso volta \u00e0 discuss\u00e3o da proletariza\u00e7\u00e3o antes da pris\u00e3o. No in\u00edcio de 1979 consegui uma casa em um bairro oper\u00e1rio, depois consegui um emprego em uma f\u00e1brica de l\u00e2mpadas. Guarulhos era uma grande periferia do Estado de S\u00e3o Paulo, a segunda maior cidade de SP, onde se localizavam as f\u00e1bricas de autope\u00e7as para suprir as ind\u00fastrias automobil\u00edsticas do ABC.<\/p>\n<p>Foi uma experi\u00eancia interessante com a classe oper\u00e1ria e com a ind\u00fastria de SP. Com esse trabalho da campanha eleitoral, chamado voto e constru\u00e7\u00e3o de um novo partido, um Partido de Trabalhadores, aproximamos muitos oper\u00e1rios, secundaristas e universit\u00e1rios da Faculdade Farias Brito, e logo conseguimos 30 militantes, e depois mais. Foi um trabalho interessante. Eu trabalhava no controle de qualidade da f\u00e1brica de l\u00e2mpadas, usadas em autom\u00f3veis, avi\u00f5es e \u00e1rvores de Natal. Em 1979, houve uma greve, e fui eleita delegada sindical.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Como foi a campanha por Nicar\u00e1gua? Em plena ditadura como conseguiam fazer essa campanha pela revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense? <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CB: Discut\u00edamos muito sobre essa pauta e lev\u00e1vamos para as discuss\u00f5es das assembleias no sindicato. Faz\u00edamos campanha com toda a vanguarda reunida na Casa de Cultura Paulo Pontes, onde tamb\u00e9m fizemos as primeiras reuni\u00f5es do PT. Em todo lado, os jornais falavam sobre a quest\u00e3o da Nicar\u00e1gua, e fal\u00e1vamos da Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar. Ap\u00f3s a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense, tivemos bastante problema, pois se falava que era um governo que trairia a revolu\u00e7\u00e3o, e depois houve a expuls\u00e3o da Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar, que levou a ruptura definitiva com o Secretariado Unificado da Quarta Internacional (dirigidas por organiza\u00e7\u00f5es ligadas a Ernest Mandel), e a fra\u00e7\u00e3o que compomos se tornou uma nova internacional. N\u00f3s perdemos militantes oper\u00e1rios importantes devido a essa discuss\u00e3o, por discordarem da forma que tratamos a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CS: Poderias explicar melhor a diferen\u00e7a da Liga com Caminhando e Refazendo? E com a Libelu?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CB:<\/strong> o Caminhando era o PCdoB, e junto com o Refazendo, eram sempre recuados devido a uma caracteriza\u00e7\u00e3o de que a situa\u00e7\u00e3o necessitava de cautela, mas ainda assim capitalizavam devido ao tamanho que tinham e ao bom di\u00e1logo. E \u00e9 natural que na massa houvesse mais receio, n\u00f3s que \u00e9ramos mais audazes, e na pr\u00e1tica nossas caracteriza\u00e7\u00f5es se provaram reais. Eles seguravam o m\u00e1ximo. Me lembro de uma grande dirigente do Refazendo, Vera Paiva, filha do Rubens Paiva, que era uma grande oradora, do curso de psicologia. Tinha o Geraldinho, da Historia se n\u00e3o me engano. Quando houve o movimento da Anistia, especificamente entre 1978 e 1979, se fazem os Comit\u00eas pela Anistia, e me lembro dela falando nesses comit\u00eas \u201cesses comit\u00eas n\u00e3o s\u00e3o sovietes, voc\u00eas est\u00e3o delirando\u201d. Eram reformistas, no Caminhando (se consideravam mao\u00edstas) e o Refazendo, da A\u00e7\u00e3o Popular Marxista Leninista, vindo da juventude cat\u00f3lica (JUC), cham\u00e1vamos de centrista. A Libelu era o contr\u00e1rio, pois agitavam caracteriza\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas, mas chamavam todos de reformistas por n\u00e3o agitar \u201cAbaixo a Ditadura\u201d em 1977, o que acredit\u00e1vamos n\u00e3o ter sido alcan\u00e7ado pela consci\u00eancia da massa estudantil ou da vanguarda, em tal n\u00edvel, naquele momento. Era algo propagand\u00edstico. Tudo aconteceu bastante r\u00e1pido, a partir da grande repress\u00e3o e pris\u00f5es em maio de 1977, que abrem as portas para o movimento estudantil e depois oper\u00e1rio, e a\u00ed chegou ao ponto dessa palavra de ordem estar na frente de todas as passeatas e estampadas em jornais, se tornar uma tarefa para j\u00e1. Sempre achei eles um bando de pequenos burgueses, e depois foram trabalhar na Folha de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Acima, C\u00e9lia Barbosa no Ato unit\u00e1rio em homenagem a Zez\u00e9 (Maria Jos\u00e9 Louren\u00e7o) Entrevista com Celia Barbosa, militante da Liga Oper\u00e1ria (parte I) \u00a0 Ap\u00f3s o ato em homenagem \u00e0 mem\u00f3ria de Maria Jos\u00e9 Louren\u00e7o, a Zez\u00e9, entrevistamos C\u00e9lia Barbosa. A companheira \u00e9 independente e<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17654,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-17653","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-e-formacao-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17653\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}