

	{"id":19128,"date":"2026-10-20T19:39:17","date_gmt":"2026-10-20T22:39:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=19128"},"modified":"2026-10-20T19:39:17","modified_gmt":"2026-10-20T22:39:17","slug":"trump-faz-um-acordo-com-putin-contra-o-povo-ucraniano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2026\/10\/20\/trump-faz-um-acordo-com-putin-contra-o-povo-ucraniano\/","title":{"rendered":"Trump faz um acordo com Putin contra o povo ucraniano"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Miguel Sorans, dirigente da Izquierda Socialista da Argentina e da UIT-QI.<\/em><\/p>\n<p><em>14\/10\/2026.<\/em><\/p>\n<p>De forma surpreendente, Donald Trump anunciou, no dia 9 de outubro, que havia chegado a um acordo com Putin, presidente da R\u00fassia, para aumentar o fornecimento de diesel aos mercados estadunidense e mundial. E que isso fazia parte do acordo por \u201cuma tr\u00e9gua energ\u00e9tica\u201d na guerra entre a R\u00fassia e a Ucr\u00e2nia. Ap\u00f3s uma conversa telef\u00f4nica de 90 minutos com Putin, Trump escreveu na Truth Social que \u201cficou acertado que a R\u00fassia fornecer\u00e1, imediatamente, mais de 300.000 toneladas de combust\u00edvel diesel para o mercado estadunidense e mundial; outras 500.000 toneladas durante o m\u00eas de novembro; e 1.000.000 de toneladas logo em seguida\u201d.<\/p>\n<p>O an\u00fancio do ultradireitista Trump provocou um novo esc\u00e2ndalo pol\u00edtico internacional. O acordo com Putin \u2014 em meio \u00e0 guerra com a Ucr\u00e2nia, decorrente da invas\u00e3o imperialista russa, que j\u00e1 dura mais de 4 anos \u2014 constitui um apoio direto ao agressor, uma vez que o beneficia com os bilh\u00f5es de d\u00f3lares que ser\u00e3o recebidos pela venda do combust\u00edvel.<\/p>\n<p>O c\u00famulo \u00e9 que Trump nem sequer avisou Zelensky, o presidente da Ucr\u00e2nia, sobre a liga\u00e7\u00e3o \u2014 e muito menos sobre o acordo \u2014, que acabou sabendo pelas redes sociais. Zelensky classificou o epis\u00f3dio como um \u201cpresente de anivers\u00e1rio para Putin\u201d.<\/p>\n<p>Trump rompeu, assim, unilateralmente, com todas as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que pesavam sobre a R\u00fassia. Isso evidencia, mais uma vez, que o chefe do imperialismo estadunidense, desde que assumiu em janeiro de 2025, busca abertamente um pacto com Putin \u2014 o que significa apoi\u00e1-lo para que a Ucr\u00e2nia se renda e entregue o Donbass e a Crimeia, partes de seu territ\u00f3rio hist\u00f3rico que foram usurpadas e j\u00e1 est\u00e3o sob controle militar de Putin.<\/p>\n<p>Trump faz abertamente o que Biden j\u00e1 fazia de forma encoberta, quando era presidente na \u00e9poca da invas\u00e3o, em fevereiro de 2022. Biden ofereceu a Zelensky um avi\u00e3o para o levar para fora da Ucr\u00e2nia e para o ex\u00edlio. Isso foi confirmado pela CNN em 2022 numa nota: \u201cZelensky rejeitou uma oferta dos Estados Unidos para sair da capital, Kiev (\u2026) A luta est\u00e1 aqui; preciso de muni\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de uma carona\u201d, disse Zelensky (CNN, 26\/02\/2022). Ou seja, Biden era a favor de entregar a Ucr\u00e2nia a Putin, que havia anunciado que tomaria Kiev, a capital, em duas semanas. Foi gra\u00e7as \u00e0 resist\u00eancia militar e popular das massas que isso n\u00e3o aconteceu. Passaram-se quatro anos e meio de guerra e n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o \u00e0 vista. Nem os EUA, nem os imperialismos europeus, nem o Vaticano estiveram, em momento algum, a favor de derrotar Putin. O Papa Francisco, por exemplo, em 2024, \u201cinstou o presidente da Ucr\u00e2nia, Volodymyr Zelensky, a ter \u2018coragem\u2019 para hastear a \u2018bandeira branca\u2019 e negociar o fim da guerra com a R\u00fassia\u201d (09\/03\/2024, Infobae). Algo que provocou, contra o falecido Papa, uma justa rejei\u00e7\u00e3o popular na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>O acordo para a compra de toneladas de diesel russo e a press\u00e3o de Trump sobre a Ucr\u00e2nia para impedir ataques de drones \u00e0s refinarias de petr\u00f3leo em territ\u00f3rio russo s\u00e3o quest\u00f5es que favorecem Putin. A guerra est\u00e1 paralisada e a R\u00fassia n\u00e3o pode avan\u00e7ar na frente de combate. A economia russa est\u00e1 deteriorada pelos gastos da guerra e as reservas de petr\u00f3leo est\u00e3o reduzidas, ainda mais com os golpes sofridos na produ\u00e7\u00e3o do combust\u00edvel e derivados. A compra de diesel pelos EUA permite um influxo de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares, dando uma folga para Putin. A R\u00fassia tamb\u00e9m precisa que a Ucr\u00e2nia pare de bombardear as suas refinarias. Da\u00ed o apelo de Trump por uma \u201ctr\u00e9gua energ\u00e9tica\u201d. Uma quest\u00e3o que, por enquanto, nem a R\u00fassia nem a Ucr\u00e2nia aceitaram.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o foco de Trump \u00e9 firmar um acordo de longo alcance com Putin e, para isso, aposta na rendi\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia. Assim, Trump passou a questionar abertamente Zelensky, j\u00e1 que este, por ora, n\u00e3o aceita \u201cnegociar\u201d \u2014 o que, na pr\u00e1tica, significa render-se e aceitar que Putin e a R\u00fassia fiquem com parte da Ucr\u00e2nia. Zelensky sabe, como todo governante burgu\u00eas, que aceitar essa rendi\u00e7\u00e3o seria o fim certo de seu governo. Por outro lado, a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo capitalista de Zelensky \u2014 a servi\u00e7o dos grandes oligarcas e marcada por fortes elementos de corrup\u00e7\u00e3o \u2014 enfraquece, na pr\u00e1tica, a resist\u00eancia popular.<\/p>\n<p>Trump chegou ao ponto de exigir elei\u00e7\u00f5es para remover Zelensky, quase em nome de Putin. Acusou Zelensky \u201cde n\u00e3o querer negociar\u201d e observou que o Kremlin estaria interessado em chegar a uma solu\u00e7\u00e3o que permitisse a desescalada do conflito (&#8230;); afirmou que chegara o momento de uma mudan\u00e7a na presid\u00eancia e pediu aos ucranianos que \u201cencontrem um novo l\u00edder que possa chegar a um acordo\u201d (Clar\u00edn, Argentina, 13\/10\/2026).<\/p>\n<p>Trump age a favor de Putin abertamente, por v\u00e1rias raz\u00f5es: 1) porque a crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica e militar do imperialismo ianque se agravou \u2014 incentivada pela pol\u00edtica agressiva e colonialista de Trump \u2014 e ele precisa demonstrar que continua tentando p\u00f4r fim \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia; 2) porque Trump foi derrotado na guerra de agress\u00e3o contra o Ir\u00e3, e uma das consequ\u00eancias disso foi o aumento do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, algo que acirrou a crise econ\u00f4mica capitalista \u2014 especialmente nos EUA \u2014, prejudicando o padr\u00e3o de vida dos estadunidenses com a infla\u00e7\u00e3o decorrente da alta dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis; 3) porque, com a queda de sua popularidade, aumenta o risco de perder a maioria nas casas legislativas nas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato de 3 de novembro; por isso, ele precisa mostrar que est\u00e1 tomando \u201cmedidas\u201d para tentar reduzir os pre\u00e7os dos combust\u00edveis \u2014 neste caso, comprando toneladas de diesel de Putin.<\/p>\n<p>Toda essa atua\u00e7\u00e3o de Trump, em acordo com Putin, evidencia duas coisas: 1) que o imperialismo ianque \u2014 o dominante no mundo capitalista \u2014 busca a derrota da Ucr\u00e2nia e de seu povo diante do pa\u00eds agressor, que \u00e9 o imp\u00e9rio russo; 2) mostra que n\u00e3o \u00e9 correto, como fazem muitos setores de esquerda, definir esta guerra como \u201cinter-imperialista\u201d. Isso tem gerado muita confus\u00e3o em setores da vanguarda anti-imperialista e de esquerda.<\/p>\n<p>S\u00e3o discuss\u00f5es dif\u00edceis, dada a confus\u00e3o existente. E porque muitas dire\u00e7\u00f5es reformistas de esquerda pintam Putin e a R\u00fassia como se fossem \u201canti-imperialistas\u201d. A R\u00fassia \u00e9 um pa\u00eds capitalista imperialista, e Putin \u00e9 um ditador de extrema-direita. A URSS n\u00e3o existe mais. Por outro lado, a Ucr\u00e2nia \u00e9 uma semi-col\u00f4nia burguesa europeia. A R\u00fassia invadiu o pa\u00eds para tentar colonizar a Ucr\u00e2nia \u2014 assim como os EUA invadiram e agrediram o Ir\u00e3. N\u00e3o se trata de dois pa\u00edses imperialistas combatendo um ao outro. A pol\u00edtica de acordos de Trump com Putin demonstra isso: n\u00e3o s\u00e3o dois imperialismos \u00e0 beira de uma guerra, mas sim pot\u00eancias que buscam um acordo para repartir a Ucr\u00e2nia entre si.<\/p>\n<p>Trump deixou claro que trata a Ucr\u00e2nia como moeda de troca entre os imperialismos. E que est\u00e1 disposto a entregar boa parte do territ\u00f3rio ucraniano \u00e0 R\u00fassia, em troca de que esta n\u00e3o obstrua as numerosas opera\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o ianque em outras regi\u00f5es. Da\u00ed a absten\u00e7\u00e3o de Putin em rela\u00e7\u00e3o ao plano de Trump para Gaza, e a sua ina\u00e7\u00e3o diante do ataque dos EUA \u00e0 sua aliada Venezuela e do sequestro do seu presidente, Maduro. Trump j\u00e1 imp\u00f4s \u00e0 Ucr\u00e2nia a entrega de parte dos seus recursos de terras raras como pagamento pelo material militar fornecido.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que existem diferen\u00e7as e choques inter-imperialistas entre as diversas pot\u00eancias da Uni\u00e3o Europeia (UE) e a R\u00fassia. Mas tamb\u00e9m existem entre os EUA e a UE, a ponto de Trump ter at\u00e9 tentado ficar com a Groenl\u00e2ndia, que pertence \u00e0 Dinamarca.<\/p>\n<p>Muitos dizem: \u201cmas, por tr\u00e1s de Zelensky, est\u00e1 a OTAN, apoiando a derrota militar de Putin\u201d. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Como temos apontado desde a invas\u00e3o de 2022, nem os EUA, nem a UE, nem a OTAN querem a derrota militar de Putin; buscam, na verdade, uma negocia\u00e7\u00e3o para dividir a Ucr\u00e2nia entre si. \u00c9 por isso que nunca forneceram \u00e0 Ucr\u00e2nia a quantidade de armamento moderno de que ela precisava.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses europeus e os EUA levaram, por exemplo, mais de um ano e meio para enviar alguns tanques \u00e0 Ucr\u00e2nia, e muitos eram modelos obsoletos. A Alemanha, por exemplo, enviou cerca de cem unidades do modelo Leopard 1A5, que \u201c\u00e9 t\u00e3o antigo que os instrutores alem\u00e3es tiveram de recorrer a soldados dos ex\u00e9rcitos holand\u00eas e dinamarqu\u00eas \u2014 onde o modelo foi utilizado por mais tempo \u2014 e a antigos tripulantes de tanques alem\u00e3es, que receberam treinamento nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990\u201d (Clar\u00edn, Argentina, 31\/08\/2023).<\/p>\n<p>O ponto forte da Ucr\u00e2nia, em sua ind\u00fastria militar, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de drones que, h\u00e1 um ano, v\u00eam causando estragos em territ\u00f3rio russo. Mas isso se deve ao talento e \u00e0 capacidade de t\u00e9cnicos, cientistas e trabalhadores ucranianos.<\/p>\n<p>Contudo, a grande fraqueza militar da Ucr\u00e2nia \u00e9 a falta de defesas antia\u00e9reas, capazes de deter os modernos m\u00edsseis russos, que atingem diariamente Kiev e outras cidades.<\/p>\n<p>Quem pode det\u00ea-los s\u00e3o os interceptadores Patriot, de fabrica\u00e7\u00e3o estadunidense. Mas j\u00e1 faz tempo que a Ucr\u00e2nia ficou sem esses interceptadores, e eles n\u00e3o est\u00e3o sendo repostos. Essa \u00e9 a realidade que muitos desconhecem. \u201cUm lan\u00e7ador Patriot repousa no meio de um milharal, com seus tubos vazios. H\u00e1 semanas que n\u00e3o dispara. N\u00e3o porque o sistema n\u00e3o funcione, mas porque Kiev est\u00e1 ficando sem interceptadores.\u201d (El Nacional, Barcelona, \u200b\u200b18\/08\/2026). Em setembro, Trump anunciou a \u201cpossibilidade\u201d de conceder a licen\u00e7a dos Patriot para que a Ucr\u00e2nia os produza; contudo, isso pode levar anos, uma vez que exige a implementa\u00e7\u00e3o de uma cadeia industrial complexa e tecnologia altamente especializada.<\/p>\n<p>Acreditamos que \u00e9 um equ\u00edvoco afirmar que se trata de um conflito entre dois lados igualmente ruins. N\u00f3s, socialistas revolucion\u00e1rios da UIT-QI, n\u00e3o estamos ao lado da OTAN, nem damos apoio ao governo burgu\u00eas de Zelensky. Apoiamos a resist\u00eancia do povo ucraniano que, h\u00e1 mais de quatro anos, enfrenta uma invas\u00e3o de seu territ\u00f3rio pelo imperialismo russo. Da mesma forma, apoiamos o Ir\u00e3 contra a agress\u00e3o de Trump, mas isso n\u00e3o significa que apoiamos o regime ditatorial dos aiatol\u00e1s.<\/p>\n<p>Seguindo os mestres do marxismo, afirmamos que, nessa guerra, h\u00e1 uma causa justa de uma na\u00e7\u00e3o oprimida contra uma pot\u00eancia invasora \u2014 o imperialismo russo \u2014, que pretende se apoderar de grande parte do territ\u00f3rio ucraniano.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que ocorre uma guerra justa sob uma dire\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria. Em 1937, Trotsky apoiou a China semicolonial e capitalista na guerra contra o Jap\u00e3o, o invasor imperialista, apesar do governo de Chiang Kai-shek \u2014 um ditador fascista e assassino, que havia massacrado milhares de oper\u00e1rios e camponeses nas insurrei\u00e7\u00f5es e revoltas da d\u00e9cada de 1920. A China recebia armas da Alemanha de Hitler, depois do imperialismo estadunidense e, mais tarde, da URSS. N\u00f3s seguimos esses ensinamentos. E, se n\u00e3o o fiz\u00e9ssemos, ter\u00edamos de dizer que Trotsky estava errado.<\/p>\n<p>Da mesma forma que em 1982, com Nahuel Moreno e o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), apoiamos a Argentina na Guerra das Malvinas contra a Gr\u00e3-Bretanha: uma guerra liderada por uma ditadura genocida. A palavra de ordem de luta daquela \u00e9poca permanece v\u00e1lida ainda hoje: \u201cAs Malvinas s\u00e3o argentinas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Miguel Sorans, dirigente da Izquierda Socialista da Argentina e da UIT-QI. 14\/10\/2026. 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