

	{"id":215,"date":"2012-09-12T21:51:00","date_gmt":"2012-09-12T21:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2012\/09\/12\/arquivoid-9239\/"},"modified":"2012-09-12T21:51:00","modified_gmt":"2012-09-12T21:51:00","slug":"arquivoid-9239","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2012\/09\/12\/arquivoid-9239\/","title":{"rendered":"CONTRADI\u00c7\u00d5ES E CONFLITOS DO PROCESSO BOLIVARIANO DA VENEZUELA"},"content":{"rendered":"<p>A ALTERNATIVA SOCIALISTA NAS ELEI\u00c7\u00d5ES DE 2012 |<\/p>\n<p>Escreve Carla Ferreira, Doutora em Hist\u00f3ria,<br \/>\nPesquisadora do N\u00facleo de Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica da Depend\u00eancia Latino-americana (HEDLA- UFRGS). Ex-coordenadora do F\u00f3rum Social Mundial 2001, 2002 e 2003*<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es venezuelanas de 2012 est\u00e3o polarizadas entre o candidato do Grande P\u00f3lo Patri\u00f3tico, Hugo Ch\u00e1vez, e da Mesa de Unidad Democr\u00e1tica, Henrique Capriles Radonski. Estes dois candidatos representam a continuidade da depend\u00eancia, do burocratismo e dos privil\u00e9gios, ainda que ambos n\u00e3o signifiquem rigorosamente a mesma coisa. O Processo Bolivariano da Venezuela \u00e9 absolutamente novidoso e \u00e9 nesta novidade que devemos buscar sua compreens\u00e3o e limites, como tamb\u00e9m uma alternativa positiva em defesa dos trabalhadores e do povo pela constru\u00e7\u00e3o do Socialismo do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es na Venezuela assemelham-se ao que vivenciamos no Brasil. A polariza\u00e7\u00e3o PT-PSDB fazendo cada vez menos sentido, pois seus projetos estrat\u00e9gicos resumem-se em algo muito parecido. Na Venezuela, com suas particularidades, ocorre o mesmo que aqui: a manuten\u00e7\u00e3o do desenvolvimento do subdesenvolvimento, com a riqueza de poucos sendo garantida pela pobreza e mis\u00e9ria de milh\u00f5es, em meio a um discurso que afirma defender os interesses dos trabalhadores. Se, por um lado, Ch\u00e1vez resulta de um amplo e leg\u00edtimo movimento bolivariano radical de massas, a exemplo do que foram as greves do ABC e a luta pela redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil que deram origem ao PT, por outro lado, sua prolongada perman\u00eancia no interior do aparato estatal o transformou em um muro de conten\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas dos  trabalhadores. Assim, aquele movimiento expressava o protagonismo na cena pol\u00edtica nacional venezuelana dos trabalhadores precarizados moradores dos barrios (favelas) das principais cidades do pa\u00eds  &#8211;  espelho da particular depend\u00eancia venezuelana ao petr\u00f3leo e sua reprodu\u00e7\u00e3o ampliada de desigualdades  &#8211;  os quais, em alian\u00e7a com os militares reformistas, conformaram um projeto policlassista que ascendeu a esferas do aparato estatal venezuelano em 1999. Por\u00e9m, hoje, diferentemente daquele movimento de massas original, o governo bolivariano erigido sobre suas bases n\u00e3o consegue lidar com as contradi\u00e7\u00f5es que a luta de classes na Venezuela coloca em pauta. Todos devemos reconhecer que o movimento pol\u00edtico do qual Ch\u00e1vez \u00e9 a s\u00edntese mais completa recolocou na agenda latino-americana e internacional o tema da revolu\u00e7\u00e3o. Inicialmente como revolu\u00e7\u00e3o em geral. A partir de 2005, como revolu\u00e7\u00e3o socialista do S\u00e9culo XXI. Assim, Ch\u00e1vez acalentou mais esperan\u00e7as entre os revolucion\u00e1rios do que qualquer outro l\u00edder do \u00faltimo per\u00edodo. Por\u00e9m, depois de 13 anos ocupando posi\u00e7\u00e3o privilegiada no aparato estatal, a verdade \u00e9 que o governo bolivariano pouco ou nada conseguiu fazer para uma mudan\u00e7a mais profunda na situa\u00e7\u00e3o de vida da maior parte da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora venezuelana.<\/p>\n<p>Ch\u00e1vez  &#8211;  personificando a alian\u00e7a policlassista do governo bolivariano por meio de um tipo de lideran\u00e7a de car\u00e1ter pequeno-burgu\u00eas que oscila pendular e constantemente entre os interesses dos trabalhadores e da burguesia  &#8211;  perdeu v\u00e1rias oportunidades de avan\u00e7ar sobre um modelo produtivo baseado no efetivo poder dos trabalhadores livremente associados. Em 11 de abril de 2002, quando um golpe de Estado o retirou do cargo m\u00e1ximo do executivo nacional e aboliu todos os direitos constitucionais do pa\u00eds, iniciando uma ditadura que foi batizada em suas primeiras horas com sangue, Ch\u00e1vez, ao receber das m\u00e3os do povo mobilizado de volta a constitucionalidade e seu cargo, em vez de ampliar os poderes do povo com mais democracia direta fez justamente o contr\u00e1rio, preservou golpistas e privil\u00e9gios. Em 2003, quando os oper\u00e1rios petroleiros, bem como de outros setores da ind\u00fastria, al\u00e9m de profissionais da educa\u00e7\u00e3o em parte significativa das escolas do pa\u00eds enfrentaram a burocracia da PDVSA e das empresas garantiram a sustenta\u00e7\u00e3o do seu governo  &#8211;  diante da prolongada paralisa\u00e7\u00e3o das atividades produtivas promovidas pela oposi\u00e7\u00e3o conservadora ocorrida entre 10 de dezembro de 2002 e fevereiro de 2003  &#8211;  Ch\u00e1vez novamente fraquejou. A vit\u00f3ria dos oper\u00e1rios petroleiros sobre a paralisa\u00e7\u00e3o promovida pela alta e m\u00e9dia gerencia da empresa Petr\u00f3leos de Venezuela (PDVSA) permitiu ao governo bolivariano conquistar pela primeira vez na hist\u00f3ria o controle efetivo sobre a petroleira nacional e suas rendas, principal fonte de divisas do pa\u00eds. Assim, os oper\u00e1rios petroleiros, depois de recuperar a PDVSA para o governo por meio do controle direto da produ\u00e7\u00e3o, assistiram o governo Ch\u00e1vez devolver para a burocracia do petr\u00f3leo que o havia sabotado o poder sobre a empresa. E n\u00e3o parou por a\u00ed. O governo bolivariano, refletindo os limites de um aparato talhado historicamente pelos interesses do capital, desmontou a cogesti\u00f3n revolucionaria que, em 2005, havia inaugurado uma experi\u00eancia in\u00e9dita de poder compartilhado entre Estado e trabalhadores, produzido ganhos de produtividade e melhoria dos sal\u00e1rios, al\u00e9m de fomentado o desenvolvimento local a partir da estatal do alum\u00ednio ALCASA, sob o comando de Carlos Lanz Rodr\u00edguez. E quando, em 2008, cedendo \u00e0s press\u00f5es dos metal\u00fargicos que durante meses travaram uma paralisa\u00e7\u00e3o sem precedentes, em escala nacional, primeiro em defesa de seu contrato coletivo, depois pela nacionaliza\u00e7\u00e3o da empresa, o governo finalmente reestatizou a Sider\u00fargica Del Orinoco (SIDOR), em pouco ou nada mudou a situa\u00e7\u00e3o dos empregados da empresa. Renacionalizou a SIDOR sem atender a principal reivindica\u00e7\u00e3o dos trabalhadores: abandonar a pr\u00e1tica da terceiriza\u00e7\u00e3o que atinge cerca de 8 mil dos 12 mil metal\u00fargicos sidoristas, os chamados contratistas. Ano ap\u00f3s ano,experi\u00eancia ap\u00f3s experi\u00eancia, os trabalhadores foram sendo frustrados.<\/p>\n<p>Assim, entre o 2002 do golpe de Estado e o 2007 da rejei\u00e7\u00e3o ao projeto de reforma constitucional que propunha centralizar ainda mais o poder nas m\u00e3os do executivo, cinco longos anos passaram sem que o aparato estatal encontrasse uma posi\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o firme e decidida em defesa dos trabalhadores e do povo. Ao contr\u00e1rio, foi leniente e n\u00e3o conseguiu evitar a persegui\u00e7\u00e3o e o assassinato de dezenas da dirigentes sindicais, como denunciou um comunicado da pr\u00f3pria central sindical simp\u00e1tica ao governo, a Uni\u00f3n Nacional de Trabajadores de Venezuela (UNETE), em 2 de mar\u00e7o de 2011 (www.aporrea.org). O Estado est\u00e1 crescentemente criminalizando as greves no setor p\u00fablico, alegando tratarem-se de setores estrat\u00e9gicos. Sob este governo, a vida dos camponeses em luta pela terra vem sendo ceifada. J\u00e1 se contabilizam mais de 200 l\u00edderes camponeses assassinados. E hoje a Venezuela vive sob o risco de ver degenerar toda a luta acumulada at\u00e9 aqui pelo conjunto dos embates travados pelos trabalhadores desde 1989, nas f\u00e1bricas e nos barrios, desde a serra de Perij\u00e1 onde os yukpas est\u00e3o sendo assassinados pela gan\u00e2ncia das mineradoras at\u00e9 a fronteira com o Brasil das den\u00fancias v\u00e3s de massacre de yanomamis por garimpeiros. A verdade dolorosa \u00e9 que a lideran\u00e7a policlassista de Ch\u00e1vez, depois de ter cumprido um papel ideol\u00f3gico importante no conjunto das lutas que tiveram lugar na Am\u00e9rica Latina deste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, n\u00e3o consegue desatar os la\u00e7os de depend\u00eancia da Venezuela com o imperialismo que finca ra\u00edzes em nossas forma\u00e7\u00f5es sociais. Esse governo demonstrou-se recorrente na impot\u00eancia para operar as rupturas pol\u00edticas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>No campo democr\u00e1tico, por sua vez, o que o governo bolivariano fez at\u00e9 o momento foi submeter a todos \u00e0 l\u00f3gica plebiscit\u00e1ria, oprimindo os trabalhadores com a pr\u00f3pria democracia liberal burguesa que imp\u00f5e suas pautas eleicionistas e desprovidas da capacidade de incidir sobre temas efetivamente relevantes para o conjunto do povo. Assim, nas Comunas e nas consultas populares n\u00e3o entram em pauta o or\u00e7amento p\u00fablico, os investimentos a serem feitos com a renda petroleira, a pol\u00edtica econ\u00f4mica (sobretudo cambial), o controle de pre\u00e7os, o fomento \u00e0 diversifica\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria n\u00e3o-petroleira geradora de riqueza org\u00e2nica, a constru\u00e7\u00e3o de uma soberania alimentar na agricultura, a pol\u00edtica de quebra de patentes em todo o saber que tenha se transformado em mercadoria em detrimento da sa\u00fade e bem estar das maiorias, o fim da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria que faz de Caracas uma das cidades mais dif\u00edceis do mundo de se morar, como tamb\u00e9m o controle das empresas pelos trabalhadores. Enquanto isso, fortalece a id\u00e9ia de que somente Ch\u00e1vez \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. Nada mais falso. \u00c9 justamente pelos impasses dessa dire\u00e7\u00e3o que a vivacidade do movimento bolivariano e do bravo pueblo est\u00e1 sendo sequestrada em todos os espa\u00e7os.<\/p>\n<p>Em 13 anos, o governo dirigido por Ch\u00e1vez n\u00e3o conseguiu melhorar a condi\u00e7\u00e3o de vida dos trabalhadores e manteve a depend\u00eancia ao imperialismo. Hoje como antes, cerca de 70% dos alimentos que consomem os venezuelanos s\u00e3o importados. Isso quer dizer que a cesta b\u00e1sica venezuelana depende da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo para que se possa adquirir esses produtos. Depende portanto, duplamente, do pre\u00e7o do petr\u00f3leo e dos alimentos no mercado mundial, mantendo a soberania venezuelana em grandes dificuldades. Subordina o pa\u00eds, assim, a uma depend\u00eancia redobrada aos pa\u00edses do capitalismo central, a despeito do discurso antiimperialista de Ch\u00e1vez. Na realidade, o governo bolivariano nunca conseguiu contrarrestar a tend\u00eancia ao retrocesso das for\u00e7as produtivas na ind\u00fastria n\u00e3o-petroleira e na agricultura, fundamentais para a independ\u00eancia do pa\u00eds. O emprego industrial vem sofrendo uma espiral descendente em rela\u00e7\u00e3o ao emprego total desde 1988 sem que essa tend\u00eancia tenha sido contida nos anos do governo bolivariano. A mesma tend\u00eancia se verifica na participa\u00e7\u00e3o do produto industrial no PIB. A Venezuela desperdi\u00e7a a maior parte de sua for\u00e7a do trabalho, depreda seus recursos naturais e vive afogada em petrod\u00f3lares que n\u00e3o tem a capacidade de romper com a l\u00f3gica perversa de uma economia dependente deformada pela subordina\u00e7\u00e3o aos interesses imperialistas. Romper com isso somente ser\u00e1 poss\u00edvel a partir do momento em que flua um verdadeiro e novo poder dos trabalhadores, o qual se insinua insistentemente como parte do processo que vive a Venezuela desde o Sacud\u00f3n ou Caracazo de 1989 e mais decididamente desde 2003 quando a classe oper\u00e1ria despertou para colocar na ordem do dia a quest\u00e3o do poder direto dos trabalhadores, na PDVSA, em ALCASA, na SIDOR e em in\u00fameros outros espa\u00e7os. Em vez disso, os trabalhadores s\u00e3o submetidos \u00e0s mesmas condi\u00e7\u00f5es de precariza\u00e7\u00e3o que marcaram os dif\u00edceis anos 1980 e 1990, com taxas de desemprego em torno de 8%, (entre 2010 e 2012). Um \u00edndice que \u00e9 ainda superior a taxa experimentada pela Venezuela em 1980 (6%) e a m\u00e9dia latino-americana da \u00faltima d\u00e9cada, incluindo aqueles pa\u00edses que apresentam severos indicadores de depend\u00eancia, como registram os dados oficiais divulgados pela Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina &#8211; CEPAL.<\/p>\n<p>Os trabalhadores precarizados representam outro indicador de que a situa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho na Venezuela n\u00e3o vem melhorando. Por exemplo, a maior parte dos ocupados urbanos est\u00e1 localizado em setores de baixa produtividade (o que, a grosso modo, significa trabalho prec\u00e1rio geralmente no setor informal, como ambulantes, biscateiros, diaristas, etc). O trabalho prec\u00e1rio nos pa\u00edses dependentes se caracteriza pela superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho. Quer dizer, jornadas estendidas para al\u00e9m do previsto legalmente, intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho durante a jornada (mais trabalho em menos tempo), sal\u00e1rios por baixo do valor de reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, restri\u00e7\u00e3o de acesso a direitos hist\u00f3ricos adquiridos pelo conjunto da classe trabalhadora. Em 2008, esses trabalhadores representam 49,8% dos ocupados urbanos  \u2013  o mais baixo \u00edndice alcan\u00e7ado em anos do governo bolivariano, uma vez que, em 2002, contavam 54,9% dos trabalhadores das cidades. Por\u00e9m, esse \u00edndice \u201cbaixo\u201d de 49,8% \u00e9 ainda 10 pontos percentuais mais alto do que o mais alto \u00edndice de ocupados urbanos em setores de baixa produtividade dos \u00faltimos 20 anos, que foi verificado em 1990 (o ano seguinte ao Sacud\u00f3n), com 39,1%, de acordo com os dados da CEPAL. Ou seja, o que se verifica \u00e9 que as pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias representadas pelas Misiones apenas suturaram precariamente uma ferida que n\u00e3o p\u00e1ra de sangrar: aquela da situa\u00e7\u00e3o estrutural dos trabalhadores venezuelanos, superexplorados e cujas condi\u00e7\u00f5es de vida se v\u00eaem amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que uma maior distribui\u00e7\u00e3o da renda per capita verificada ao longo desse governo tem alcance realmente reduzido, pois est\u00e1 determinada pela eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo no mercado mundial, os quais sofrem grandes oscila\u00e7\u00f5es. A renda petroleira tem sido utilizada para subsidiar o consumo dos trabalhadores, especialmente aqueles mais empobrecidos, cujos sal\u00e1rios s\u00e3o corro\u00eddos pela infla\u00e7\u00e3o e cuja cesta b\u00e1sica tamb\u00e9m depende de pre\u00e7os internacionais dos importados. Ou seja, qualquer varia\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os do mercado mundial produzem um efeito imediato sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida dos moradores dos barrios e demais trabalhadores venezuelanos e pode faz\u00ea-los cruzar rapidamente a linha da mis\u00e9ria pela redu\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios sem os quais n\u00e3o podem acessar bens fundamentais a sua sobreviv\u00eancia. Essa \u00e9 a fr\u00e1gil arquitetura sobre a qual se assenta a distribui\u00e7\u00e3o de renda do governo bolivariano. Al\u00e9m da renda artificial, o governo promove projetos produtivos que isoladamente n\u00e3o tem a capacidade de dinamizar um novo modelo produtivo, embora sejam eficientes na fun\u00e7\u00e3o de consumir a energia revolucion\u00e1ria dos moradores dos barrios, uma vez que as Comunas ou Conselhos Comunais dos barrios est\u00e3o sendo organizados de cima para baixo. Assim, sob a sombra do consumo subsidiado e das \u201cilhas\u201d produtivas comunais se produz, na verdade, as ilus\u00f5es que cumprem o papel de confundir os trabalhadores e moradores dos barrios.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso compreender que sem que uma ruptura com as estruturas do poder do Estado burgu\u00eas e suas regras que protegem o mercado, o poder comunal n\u00e3o passa de uma quimera. \u00c9 preciso que o Poder Comunal e o controle oper\u00e1rio da produ\u00e7\u00e3o se configurem como verdadeiros poderes revolucion\u00e1rios duais que reintegrem as esferas pol\u00edtica e econ\u00f4mica, sendo exercidos diretamente pelos trabalhadores e trabalhadoras em seus locais de trabalho e moradia. Construir esse poder direto implica, portanto, negar a pr\u00e1tica das indica\u00e7\u00f5es pelo \u201cdedazo\u201d, que predominam no Partido Socialista Unido de Venezuela, PSUV, organiza\u00e7\u00e3o sem inst\u00e2ncias democr\u00e1ticas que foi imposta \u00e0 pluralidade do movimento bolivariano sem incorporar suas pr\u00e1ticas de democracia desde abaixo. Construir um poder direto dos trabalhadores significa fazer fenecer o peso relativo do Estado sobre a vida social. Implica despertar os lutadores sociais dos ilusionismos da renda que coopta o imagin\u00e1rio do povo. Tamb\u00e9m exige acabar com a situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel de parte significativa da classe trabalhadora precarizada que depende de bolsas, subs\u00eddios e fun\u00e7\u00f5es subalternas do Estado em pr\u00e1ticas que alimentam o clientelismo. Enfim, \u00e9 preciso acabar com todos os mecanismos objetivos que contribuem para a confus\u00e3o ideol\u00f3gica dos trabalhadores.<\/p>\n<p>O governo atual seguiu a tend\u00eancia a uma economia exportadora de especializa\u00e7\u00e3o produtiva, a exemplo de todos os outros pa\u00edses da regi\u00e3o nas \u00faltimas d\u00e9cadas. N\u00e3o fugiu \u00e0 regra. A pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o ou desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda nacional, o Bol\u00edvar, tem favorecido os setores especulativos, seja no com\u00e9rcio, seja nas finan\u00e7as, al\u00e9m de provocado elevados \u00edndices de infla\u00e7\u00e3o, prejudicando sempre os assalariados. Reedita, quase 40 anos depois, os mesmos erros cometidos pela experi\u00eancia da Unidade Popular no Chile de Allende. \u00c9 doloroso observar que uma nova fra\u00e7\u00e3o burguesa, vinculada ao sistema financeiro e aos contratos de fornecimento de bens e servi\u00e7os ao Estado que administra a renda petroleira, surgiu durante esses anos, com apoio do governo e \u00e0s custas dos sacrif\u00edcios dos trabalhadores e do povo pobre venezuelanos. Uma trag\u00e9dia completa para todos aqueles que, como o l\u00edder oper\u00e1rio Orlando Chirino, entre outros, durante anos, apoiaram vivamente o processo bolivariano e o ajudaram a ser constru\u00eddo, acolhendo Ch\u00e1vez desde 1992 no seio do movimento de massas. Por\u00e9m, mesmo os l\u00edderes mais queridos pelo povo cumprem um papel determinado na hist\u00f3ria. A Ch\u00e1vez, como a Bol\u00edvar, lhe coube um papel na hist\u00f3ria. A Ch\u00e1vez coube amalgamar aquele heterog\u00eaneo movimento de massas em um projeto que unificou o setor dos trabalhadores precarizados dos barrios com os trabalhadores industriais venezuelanos, conformando um movimento bolivariano radical de massas. Por\u00e9m, \u00e9 preciso avan\u00e7ar para um poder direto dos trabalhadores. E para essa tarefa \u00e9 preciso reconhecer que, depois de 2007, j\u00e1 n\u00e3o se vislumbra mais aquele anterior car\u00e1ter progressivo no governo bolivariano. Nem este governo, nem a lideran\u00e7a de Ch\u00e1vez t\u00eam a capacidade de operar o avan\u00e7o do Processo at\u00e9 sua potencialidade m\u00e1xima. Ou seja, \u00e9 necess\u00e1rio uma nova lideran\u00e7a e uma nova organiza\u00e7\u00e3o para realizar o tr\u00e2nsito a uma experi\u00eancia socialista em que, com liberdades e igualdades substantivas, os trabalhadores e o povo possam fazer de suas demandas mais do que promessas, realidade. Por isso \u00e9 preciso construir uma alternativa pol\u00edtica positiva que possa romper com esses limites. Orlando Chirino, neste sentido, \u00e9 quem representa hoje a vanguarda dessa possibilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Muitos evitam criticar o governo Ch\u00e1vez pelo risco que significaria um eventual triunfo eleitoral do candidato da ultra direita, Herique Capriles Rodonski. De fato, Capriles representa a antiga elite venezuelana que foi sendo deslocada do poder pela emerg\u00eancia do Proceso Bolivariano a partir de 1989  &#8211;  o qual se constituiu como uma experi\u00eancia pol\u00edtica singular na Am\u00e9rica Latina desde ent\u00e3o. Capriles tenta se apresentar como um candidato moderado por obra do marketeiro brasileiro Renato Pereira, que organizou um programa de campanha baseado em postulados e t\u00e1ticas eleitorais do PT de Lula da Silva e Dilma Rousseff. Estruturado sobre as propostas de um Fome Zero venezuelano, Parcerias P\u00fablico Privadas na atividade petroleira e plagiando a id\u00e9ia de que \u201clleg\u00f3 el momento de que la esperanza triunfe sobre el miedo\u201d (slogan da campanha eleitoral de Lula em 2002), a campanha de Capriles Radonski assemelha-se a um Frankenstein de segunda categoria. A refer\u00eancia a Lula e ao PT n\u00e3o \u00e9 casual. \u00c9 funcional a uma estrat\u00e9gia erigida para ocultar a verdadeira face do candidato Capriles, um homem da extrema-direita que participou do violento cerco e invas\u00e3o da embaixada de Cuba, em Caracas, em cenas horrendas que podem ser verificadas no document\u00e1rio La revoluci\u00f3n no ser\u00e1 televisionada, da irlandesa Kim Bartley. Ao mesmo tempo revela que a classe dominante venezuelana est\u00e1 tentando se requintar, abandonando sua aberta ades\u00e3o ao imperialismo estadunidense, em suas manifesta\u00e7\u00f5es coloridas pela bandeira yanque e povoadas de cartazes e discursos proferidos diretamente em idioma ingl\u00eas, para atuar de forma mais velada, mas sem jamais alterar seu car\u00e1ter submisso e reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 neste deserto do real que Orlando Chirino emerge como uma verdadeira alternativa pol\u00edtica dos trabalhadores. Tendo como bagagem o fato de ser um l\u00edder oper\u00e1rio que se manteve independente e que representa o movimento aut\u00f4nomo dos trabalhadores em um pa\u00eds cujo sindicalismo historicamente esteve subordinado aos partidos e ao Estado, Chirino significa a possibilidade concreta de constru\u00e7\u00e3o de um poder direto dos que trabalham e lutam nos barrios e nas ruas, nos campos e ind\u00fastrias. Pois, para realizar o projeto de um socialismo do S\u00e9culo XXI, um generoso tempo livre deve constituir-se em realidade para todos. O ecossocialismo, o amplo respeito aos povos e culturas ind\u00edgenas e a igualdade entre os g\u00eaneros devem, por sua vez, compor um todo organicamente articulado pelo trabalho emancipado. \u00c9 PRECISO CONSTRUIR IMEDIATAMENTE UM PODER DIRETO DOS TRABALHADORES. Sem isso, qualquer promessa n\u00e3o \u00e9 mais do que demagogia. Com a libera\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas e libert\u00e1rias dos trabalhadores e trabalhadoras \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o somente inaugurar um novo tempo para milh\u00f5es de venezuelanos, mas acender a luz para milhares de latino-americanos.<\/p>\n<p>Muito tem se repetido que, sem a eventual reelei\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez, projetos alternativos como a ALBA terminar\u00e3o de vez. Aos que temem apenas a trucul\u00eancia da velha direita e que pensam que todavia estamos acumulando for\u00e7as com o governo venezuelano, chegou a hora de dizer que a luta dos povos pela supera\u00e7\u00e3o do capitalismo exige enfrentar as velhas classes dominantes, bem como as dire\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que colocam a for\u00e7a criativa do movimento de massas em uma camisa de for\u00e7a. Um projeto nos marcos anti-mercado \u00e9 incompat\u00edvel com o refor\u00e7o do atual padr\u00e3o capitalista exportador de especializa\u00e7\u00e3o produtiva. A ALBA n\u00e3o passar\u00e1 de uma ideia se os governos que a apoiam seguirem arremetendo como est\u00e3o contra os povos ind\u00edgenas em TIPNIS na Bol\u00edvia, na Serra de Perij\u00e1 na Venezuela ou na Amaz\u00f4nia equatoriana. Se os pa\u00edses da ALBA, liderados pelo governo Ch\u00e1vez, n\u00e3o apenas hesitam em criticar a IIRSA, mas implementam esse projeto devastador por outros meios, a ALBA n\u00e3o passar\u00e1 de um discurso vazio ou uma declara\u00e7\u00e3o de boas inten\u00e7\u00f5es. A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, por sua vez, precisa mais do que nunca de uma revolu\u00e7\u00e3o latino-americana, e n\u00e3o apenas de petr\u00f3leo venezuelano, para ser revificada. Essa \u00e9 a nossa resposta a todos e todas que, com raz\u00e3o, temem os retrocessos hist\u00f3ricos: a Venezuela bolivariana precisa avan\u00e7ar operando uma ruptura com os limites atuais impostos pela din\u00e2mica do aparato e da lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>O apoio e o voto em Chirino representam essa ruptura necess\u00e1ria. Muito mais do que votar branco ou nulo, escolher Chirino \u00e9 afirmar um programa positivo, respons\u00e1vel e coerente com o avan\u00e7o e supera\u00e7\u00e3o dos atuais limites do Proceso Bolivariano rumo ao Socialismo do S\u00e9culo XXI. \u00c9 por isso que as mulheres e lutadores que sempre estiveram na vanguarda dos barrios, os jovens insurgentes que levam a comunica\u00e7\u00e3o alternativa e comunit\u00e1ria, os oper\u00e1rios dos dois principais p\u00f3los industriais do pa\u00eds, no petr\u00f3leo e nas f\u00e1bricas da Corporaci\u00f3n Venezolana de Guayana (CVG), os camponeses e ind\u00edgenas afetados pela gan\u00e2ncia do Estado e das transnacionais contra seus territ\u00f3rios devem cerrar fileiras em defesa da candidatura de Orlando Chirino. Ele n\u00e3o se curvar\u00e1 aos tapetes vermelhos de Miraflores. Estar\u00e1 sim a servi\u00e7o da vontade dos produtores e daqueles que, nos pa\u00edses dependentes do sul do planeta, comp\u00f5em aquele contingente de trabalhadores que sequer podem hoje participar da produ\u00e7\u00e3o porque comp\u00f5em uma parcela da humanidade que foi descartada pelo capital. Pois, com a revolu\u00e7\u00e3o socialista todos ser\u00e3o parte da humanidade libertada que constr\u00f3i permanentemente a riqueza e a felicidade de todos e todas.<\/p>\n<p>Porto Alegre, setembro de 2012.<\/p>\n<p>* Organizou os livros &quot;A ditadura do capital financeiro no Brasil: reflex\u00f5es e alternativas&quot;, com Andr\u00e9 Scherer (Univates, 2005) e &quot;Padr\u00e3o de Reprodu\u00e7\u00e3o do Capital. Contribui\u00e7\u00f5es da Teoria Marxista da Depend\u00eancia&quot;, com Jaime Osorio e Mathias Luce (Boitempo editorial, 2012). Viveu em tempos alternados na Venezuela desde 2002. Organizou a vinda do Presidente Ch\u00e1vez ao F\u00f3rum Social Mundial de Porto Alegre, em janeiro de 2003. Integrou a coordena\u00e7\u00e3o do Encuentro Mundial de Solidaridad con la Revoluci\u00f3n Bolivariana, ocorrido em abril de 2003, em Caracas. Junto com Mathias Luce, colaborou na elabora\u00e7\u00e3o do Programa de Governo da Frente de Esquerda (PSOL\/PSTU\/PCB) apresentado \u00e0s elei\u00e7\u00f5es para o governo do Rio Grande do Sul, em 2006. Foi assessora parlamentar do mandato federal de Luciana Genro (2006 e 2007). Atualmente desenvolve pesquisa independente sobre as revolu\u00e7\u00f5es latino-americanas do s\u00e9culo XX e milita em forma\u00e7\u00e3o junto a movimentos sociais no Brasil e Am\u00e9rica Latina. \u00c9 membro do conselho de colaboradores das revistas Margem Esquerda e Cr\u00edtica Marxista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ALTERNATIVA SOCIALISTA NAS ELEI\u00c7\u00d5ES DE 2012 | Escreve Carla Ferreira, Doutora em Hist\u00f3ria, Pesquisadora do N\u00facleo de Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica da Depend\u00eancia Latino-americana (HEDLA- UFRGS). Ex-coordenadora do F\u00f3rum Social Mundial 2001, 2002 e 2003* As elei\u00e7\u00f5es venezuelanas de 2012 est\u00e3o polarizadas entre o candidato do<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}