

	{"id":226,"date":"2012-11-01T12:19:00","date_gmt":"2012-11-01T12:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2012\/11\/01\/arquivoid-9250\/"},"modified":"2012-11-01T12:19:00","modified_gmt":"2012-11-01T12:19:00","slug":"arquivoid-9250","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2012\/11\/01\/arquivoid-9250\/","title":{"rendered":"Sobre a Comuna de Paris"},"content":{"rendered":"<p>| marxists.org<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o de Friedrich Engels \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de 1891 de &quot;A Guerra Civil em Fran\u00e7a&quot; (Karl Marx)<\/p>\n<p>Chegou-me inesperadamente a solicita\u00e7\u00e3o para editar de novo a Mensagem do Conselho Geral internacional sobre A Guerra Civil em Fran\u00e7a e para a acompanhar de uma introdu\u00e7\u00e3o. Por isso s\u00f3 posso tocar aqui, em poucas palavras, os pontos mais essenciais.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o preceder o referido trabalho, mais extenso, das duas Mensagens, mais curtas, do Conselho Geral sobre a guerra franco-alem\u00e3(1*). Por um lado, porque na Guerra Civil \u00e9 referida a segunda, ela mesma n\u00e3o inteiramente compreens\u00edvel sem a primeira. Mas tamb\u00e9m porque estas duas Mensagens, igualmente redigidas por Marx, s\u00e3o provas eminentes, em nada inferiores \u00e0 Guerra Civil, do maravilhoso dote do autor, demonstrado pela primeira vez em O 18 de Brum\u00e1rio de Louis Bonaparte, de apreender claramente o car\u00e1cter, o alcance e as consequ\u00eancias necess\u00e1rias de grandes acontecimentos hist\u00f3ricos, ao tempo em que estes acontecimentos ainda decorrem diante dos nossos olhos ou apenas acabaram de se consumar. E, finalmente, porque ainda hoje temos de sofrer, na Alemanha, as consequ\u00eancias, anunciadas por Marx, daqueles acontecimentos.<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o ter\u00e1 acontecido o que diz a primeira Mensagem, isto \u00e9, que se a guerra de defesa da Alemanha contra Louis Bonaparte degenera numa guerra de conquista contra o povo franc\u00eas, toda a desgra\u00e7a que se abateu sobre a Alemanha, ap\u00f3s as chamadas guerras de liberta\u00e7\u00e3o[N123], reviver\u00e1 com renovada viol\u00eancia? N\u00e3o tivemos n\u00f3s mais vinte anos de domina\u00e7\u00e3o de Bismarck, n\u00e3o tivemos, em vez das persegui\u00e7\u00f5es aos demagogos[N124], a lei de excep\u00e7\u00e3o[N125] e a ca\u00e7a aos socialistas com a mesma arbitrariedade, com literalmente a mesma revoltante interpreta\u00e7\u00e3o da lei?<\/p>\n<p>E n\u00e3o ficou literalmente demonstrada a predi\u00e7\u00e3o de que a anexa\u00e7\u00e3o da Als\u00e1cia-Lorena iria \u00abatirar a Fran\u00e7a para os bra\u00e7os da R\u00fassia\u00bb e que, ap\u00f3s esta anexa\u00e7\u00e3o, ou a Alemanha se tornaria o servo not\u00f3rio da R\u00fassia ou, ap\u00f3s breve tr\u00e9gua, teria de se armar para uma nova guerra, ou seja, \u00abpara uma guerra de ra\u00e7as, contra as ra\u00e7as coligadas dos Eslavos e Latinos\u00bb\u00bb?(1*) A anexa\u00e7\u00e3o das prov\u00edncias francesas n\u00e3o empurrou a Fran\u00e7a para os bra\u00e7os da R\u00fassia? N\u00e3o cortejou Bismarck em v\u00e3o, vinte anos inteiros, os favores do tsar, n\u00e3o os cortejou com servi\u00e7os ainda mais rasteiros do que os que a pequena Pr\u00fassia, antes de se ter tornado a \u00abprimeira grande pot\u00eancia da Europa\u00bb, estava habituada a depor aos p\u00e9s da Santa R\u00fassia? E n\u00e3o paira ainda dia a dia sobre as nossas cabe\u00e7as a espada de D\u00e2mocles de uma guerra, no primeiro dia da qual todas as alian\u00e7as protocolarmente seladas dos pr\u00edncipes se desfar\u00e3o como p\u00f3 de palha de uma guerra em que nada \u00e9 certo a n\u00e3o ser a absoluta incerteza do seu desfecho; de uma guerra de ra\u00e7as que sujeita toda a Europa \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o por quinze ou vinte milh\u00f5es de homens armados e ainda s\u00f3 n\u00e3o est\u00e1 em curso porque mesmo o mais forte dos grandes Estados militares receia a total imprevisibilidade do resultado final?<\/p>\n<p>Tanto maior \u00e9, por isso, o dever de tornar de novo acess\u00edveis aos oper\u00e1rios alem\u00e3es estas brilhantes provas, meio esquecidas, da clarivid\u00eancia da pol\u00edtica oper\u00e1ria internacional de 1870.<\/p>\n<p>O que \u00e9 v\u00e1lido para estas duas Mensagens tamb\u00e9m o \u00e9 para a Guerra Civil em Fran\u00e7a. A 28 de Maio, os \u00faltimos combatentes da Comuna sucumbiam, nas encostas de Belleville, a [uma] for\u00e7a superior, e logo dois dias depois, a 30, Marx lia perante o Conselho Geral o trabalho onde est\u00e1 exposta a significa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da Comuna de Paris em tra\u00e7os breves, vigorosos, mas t\u00e3o penetrantes e sobretudo t\u00e3o verdadeiros como n\u00e3o voltou a conseguir-se em toda a abundante literatura sobre o assunto.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao desenvolvimento econ\u00f4mico e pol\u00edtico da Fran\u00e7a desde 1789, Paris est\u00e1 desde h\u00e1 cinquenta anos colocada na situa\u00e7\u00e3o em que nenhuma revolu\u00e7\u00e3o p\u00f4de ali rebentar que n\u00e3o tomasse um car\u00e1cter prolet\u00e1rio, de tal modo que o proletariado, que pagava com o seu sangue a vit\u00f3ria, surgia, depois da vit\u00f3ria, com reivindica\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias. Estas reivindica\u00e7\u00f5es eram mais ou menos imprecisas e mesmo confusas, consoante, em cada caso, o grau de desenvolvimento dos oper\u00e1rios parisienses; mas, em conclus\u00e3o, todas elas apontaram para a elimina\u00e7\u00e3o do antagonismo de classes entre capitalistas e oper\u00e1rios. A verdade \u00e9 que n\u00e3o se sabia como isso havia de acontecer. Mas a pr\u00f3pria reivindica\u00e7\u00e3o, ainda quando indefinidamente sustentada, continha um perigo para a ordem social estabelecida; os oper\u00e1rios que a colocavam estavam ainda armados; para os burgueses que se encontravam ao leme do Estado, o desarmamento dos oper\u00e1rios era, por isso, imperativo primeiro. Por isso, depois de cada revolu\u00e7\u00e3o conquistada pela luta dos oper\u00e1rios, nova luta, que termina com a derrota dos oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Isso aconteceu pela primeira vez em 1848. Os burgueses liberais da oposi\u00e7\u00e3o parlamentar realizaram banquetes para a consecu\u00e7\u00e3o da reforma eleitoral, que havia de assegurar a domina\u00e7\u00e3o do seu partido. Cada vez mais for\u00e7ados, na luta com o governo, a apelar ao povo, tiveram de ceder o passo, pouco a pouco, \u00e0s camadas radicais e republicanas da burguesia e da pequena burguesia. Mas atr\u00e1s destas estavam os oper\u00e1rios revolucion\u00e1rios, e estes tinham-se apropriado de muito mais autonomia desde 1830[N126] do que suspeitavam os burgueses e mesmo os republicanos. No momento da crise entre governo e oposi\u00e7\u00e3o, os oper\u00e1rios abriram a luta de ruas; Louis-Philippe desapareceu, com ele a reforma eleitoral; no seu lugar ergueu-se a Rep\u00fablica, e precisamente uma Rep\u00fablica designada como \u00absocial\u00bb pelos pr\u00f3prios oper\u00e1rios vitoriosos. O que era de entender por esta Rep\u00fablica social n\u00e3o estava claro para ningu\u00e9m, nem mesmo para os oper\u00e1rios. Mas agora tinham eles armas e eram uma for\u00e7a no Estado. Por isso, assim que os republicanos burgueses que se encontravam ao leme notaram nalguma medida terreno s\u00f3lido debaixo dos p\u00e9s, o seu primeiro objectivo foi desarmar os oper\u00e1rios. Isto aconteceu quando, pela quebra directa da palavra dada, pela humilha\u00e7\u00e3o aberta e pela tentativa de desterrar os desempregados para uma prov\u00edncia long\u00ednqua, [os oper\u00e1rios] foram empurrados para a insurrei\u00e7\u00e3o de Junho de 1848[N21]. O governo tinha-se precavido com uma esmagadora superioridade de for\u00e7as. Ap\u00f3s uma luta her\u00f3ica de cinco dias, os oper\u00e1rios foram derrotados. E seguiu-se ent\u00e3o um banho de sangue dos prisioneiros desarmados como n\u00e3o se tinha visto um igual desde os dias das guerras civis que iniciaram a decad\u00eancia da Rep\u00fablica romana[N127]. Era a primeira vez que a burguesia mostrava at\u00e9 que louca crueldade de vingan\u00e7a \u00e9 levada, logo que o proletariado ousa surgir face a ela como classe \u00e0 parte, com interesses e reivindica\u00e7\u00f5es pr\u00f3prios. E, ainda assim, 1848 foi uma brincadeira de crian\u00e7as perante a sua raiva de 1871.<\/p>\n<p>O castigo n\u00e3o se fez esperar. Se o proletariado ainda n\u00e3o podia governar a Fran\u00e7a, a verdade \u00e9 que a burguesia j\u00e1 n\u00e3o o podia. Pelo menos nesse tempo, em que na maioria ela tinha ainda sentimentos mon\u00e1rquicos e estava dividida em tr\u00eas partidos din\u00e1sticos[N128] e num quarto [partido] republicano. As suas querelas intestinas permitiram ao aventureiro Louis Bonaparte tomar todos os postos de poder \u2014 ex\u00e9rcito, pol\u00edcia, maquinaria administrativa \u2014 e, a 2 de Dezembro de 1851[NI29], fazer saltar o \u00faltimo basti\u00e3o da burguesia, a Assembleia Nacional. O segundo Imp\u00e9rio iniciou a explora\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a por um bando de aventureiros pol\u00edticos e financeiros, mas ao mesmo tempo, tamb\u00e9m, um desenvolvimento industrial como nunca foi poss\u00edvel sob o sistema mesquinho e timorato de Louis-Philippe, com a exclusiva domina\u00e7\u00e3o de apenas uma pequena parte da grande burguesia. Louis Bonaparte tomou aos capitalistas o seu poder pol\u00edtico, sob o pretexto de os proteger, a eles burgueses, contra os oper\u00e1rios e, por sua vez, os oper\u00e1rios contra aqueles; mas, para isso, a sua domina\u00e7\u00e3o favoreceu a especula\u00e7\u00e3o e a actividade industrial, numa palavra, o ascenso e o enriquecimento do conjunto da burguesia numa medida inaudita at\u00e9 a\u00ed. Todavia, em maior medida ainda, desenvolveram-se a corrup\u00e7\u00e3o e o roubo em massa, os quais se reuniram \u00e0 volta da corte imperial e sacaram deste enriquecimento as suas fortes percentagens.<\/p>\n<p>Mas o segundo Imp\u00e9rio era o apelo ao chauvinismo franc\u00eas, era a reivindica\u00e7\u00e3o das fronteiras do primeiro Imp\u00e9rio perdidas em 1814, no m\u00ednimo as da primeira Rep\u00fablica[N130]. Um imp\u00e9rio franc\u00eas nas fronteiras da velha monarquia, at\u00e9 mesmo nas de 1815, mais reduzidas ainda, isso era imposs\u00edvel por muito tempo. Da\u00ed a necessidade de guerras e de alargamentos territoriais peri\u00f3dicos. Mas nenhum alargamento de fronteiras deslumbrava tanto a fantasia dos chauvinistas franceses como o da margem esquerda alem\u00e3 do Reno. Para eles, uma milha quadrada no Reno valia mais do que dez nos Alpes ou noutra parte qualquer. Com o segundo Imp\u00e9rio, a reivindica\u00e7\u00e3o da margem esquerda do Reno, de uma s\u00f3 vez ou por partes, era apenas uma quest\u00e3o de tempo. Este tempo veio com a guerra austro-prussiana de 1866[N102]; ludibriado por Bismarck e pela sua pr\u00f3pria pol\u00edtica ultramanhosa de vacila\u00e7\u00e3o em torno das esperadas \u00abcompensa\u00e7\u00f5es territoriais\u00bb, mais nada restou a Bonaparte do que a guerra, que rebentou em 1870 e o fez ir \u00e0 deriva para Sedane da\u00ed para Wilhelmsh\u00f6he[N109].<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia necess\u00e1ria foi a Revolu\u00e7\u00e3o de Paris de 4 de Setembro de 1870. O Imp\u00e9rio desmoronou-se como um castelo de cartas, a Rep\u00fablica foi proclamada de novo. Mas o inimigo estava \u00e0 porta; os ex\u00e9rcitos do Imp\u00e9rio ou estavam encerrados sem esperan\u00e7a, em Metz, ou aprisionados na Alemanha. Nesta emerg\u00eancia, o povo consentiu aos deputados de Paris do antigo Corpo legislativo que agissem como \u00abGoverno de defesa nacional\u00bb. Isto foi tanto mais permitido quanto, ent\u00e3o, para fins de defesa, todos os parisienses aptos a pegar em armas entraram na Guarda Nacional e foram armados, de modo que os oper\u00e1rios formavam agora a grande maioria. Mas, em breve, estalou a oposi\u00e7\u00e3o entre o governo quase s\u00f3 composto por burgueses e o proletariado armado. A 31 de Outubro, batalh\u00f5es oper\u00e1rios assaltaram a C\u00e2mara Municipal e aprisionaram uma parte dos membros do governo; trai\u00e7\u00e3o, quebra directa de palavra do governo e a interven\u00e7\u00e3o de alguns batalh\u00f5es de pequenos burgueses libertaram-nos de novo; e deixou-se em fun\u00e7\u00f5es o governo de at\u00e9 ent\u00e3o, para n\u00e3o desencadear a guerra civil no interior de uma cidade sitiada por for\u00e7a militar estrangeira.<\/p>\n<p>Finalmente, em 28 de Janeiro de 1871, Paris esfomeada capitulou. Mas com honras at\u00e9 a\u00ed inauditas na hist\u00f3ria da guerra. As fortifica\u00e7\u00f5es renderam-se, as trincheiras foram desarmadas, as armas da linha e a Guarda M\u00f3vel entregues, e mesmo esta considerada como prisioneira de guerra. Mas a Guarda Nacional conservou as suas armas e canh\u00f5es, e colocou-se apenas em situa\u00e7\u00e3o de armist\u00edcio perante os vencedores. E estes mesmos n\u00e3o ousaram fazer em Paris uma entrada triunfal. De Paris, s\u00f3 ousaram ocupar um pequeno canto e, ainda assim [um canto] em parte formado por parques p\u00fablicos, e at\u00e9 isto s\u00f3 por alguns dias! Durante este tempo, os que tinham mantido Paris cercada ao longo de 131 dias, foram eles pr\u00f3prios cercados pelos oper\u00e1rios parisienses em armas, os quais velavam cuidadosamente por que nenhum \u00abprussiano\u00bb ultrapassasse os estreitos limites do cantinho abandonado ao invasor estrangeiro. Tal era o respeito que infundiam os oper\u00e1rios parisienses ao ex\u00e9rcito diante do qual tinham deposto as armas todos os ex\u00e9rcitos do Imp\u00e9rio; e os Junker prussianos, que tinham vindo tirar vingan\u00e7a no foco da revolu\u00e7\u00e3o, tiveram de se deter, respeitosos, e saudar esta mesma revolu\u00e7\u00e3o armada!<\/p>\n<p>Durante a guerra, os oper\u00e1rios parisienses tinham-se limitado a exigir a en\u00e9rgica continua\u00e7\u00e3o da luta. Mas agora, quando chegava a paz[N131] depois da capitula\u00e7\u00e3o de Paris, Thiers, o novo chefe do governo, tinha de reconhecer que a domina\u00e7\u00e3o das classes possidentes \u2014 grandes propriet\u00e1rios rurais e capitalistas \u2014 estava em perigo permanente enquanto os oper\u00e1rios parisienses conservassem as armas na m\u00e3o. A sua primeira obra foi a tentativa do desarmamento destes. A 18 de Mar\u00e7o enviou tropas de linha com a ordem de roubar a artilharia pertencente \u00e0 Guarda Nacional, fabricada durante o cerco de Paris e paga por subscri\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A tentativa falhou, Paris ergueu-se como um s\u00f3 homem para a defesa, e foi declarada guerra entre Paris e o governo franc\u00eas sediado em Versalhes. A 26 de Mar\u00e7o foi eleita a Comuna, e proclamada a 28. O Comit\u00e9 Central da Guarda Nacional, que at\u00e9 a\u00ed dirigira a governa\u00e7\u00e3o, demitiu-se a favor dela, depois de ter ainda decretado a aboli\u00e7\u00e3o da escandalosa \u00abpol\u00edcia de costumes\u00bb de Paris. A 30, aComuna aboliu o recrutamento e o ex\u00e9rcito permanente e proclamou a Guarda Nacional, \u00e0 qual deviam pertencer todos os cidad\u00e3os capazes de pegar em armas, como o \u00fanico poder armado; isentou todos os pagamentos de rendas de casa de Outubro de 1870 at\u00e9 Abril, p\u00f4s em conta para o prazo de pagamento seguinte as quantias de arrendamento j\u00e1 pagas e suspendeu todas as vendas de penhores no montepio municipal. No mesmo dia, os estrangeiros eleitos para a Comuna foram confirmados nas suas fun\u00e7\u00f5es, porque a \u00abbandeira da Comuna \u00e9 a da Rep\u00fablica mundial\u00bb. \u2014 A 1 de Abril foi decidido que o vencimento mais elevado de um empregado da Comuna, portanto dos seus pr\u00f3prios membros tamb\u00e9m, n\u00e3o poderia exceder 6000 francos (4800 marcos). No dia seguinte foram decretadas a separa\u00e7\u00e3o da Igreja e do Estado e a aboli\u00e7\u00e3o de todos os pagamentos do Estado para fins religiosos, assim como a transforma\u00e7\u00e3o de todos os bens eclesi\u00e1sticos em propriedade nacional; em consequ\u00eancia disso, foi ordenada a 8 de Abril, e pouco a pouco cumprida, a exclus\u00e3o, das escolas, de todos os s\u00edmbolos religiosos, imagens, dogmas, ora\u00e7\u00f5es, numa palavra, \u00abde tudo o que pertence ao \u00e2mbito da consci\u00eancia de cada um\u00bb. \u2014 A 5, face \u00e0s execu\u00e7\u00f5es diariamente repetidas de combatentes da Comuna presos pelas tropas de Versalhes, foi promulgado um decreto destinado \u00e0 deten\u00e7\u00e3o de ref\u00e9ns, mas nunca aplicado. \u2014 A 6, a guilhotina foi trazida pelo 137.\u00b0 batalh\u00e3o da Guarda Nacional e queimada publicamente no meio de ruidoso j\u00fabilo popular. \u2014 A 12, a Comuna decidiu derrubar, como s\u00edmbolo do chauvinismo e do incitamento ao \u00f3dio entre povos, a coluna triunfal da Pra\u00e7a Vend\u00f4me, fundida por Napole\u00e3o com os canh\u00f5es conquistados depois da guerra de 1809. Isto foi executado a 16 de Maio. \u2014 A 16 de Abril a Comuna ordenou um levantamento estat\u00edstico das f\u00e1bricas paralisadas pelos fabricantes e a elabora\u00e7\u00e3o de planos para o funcionamento destas f\u00e1bricas com oper\u00e1rios nelas ocupados at\u00e9 ent\u00e3o, a unir em associa\u00e7\u00f5es cooperativas, assim como para a organiza\u00e7\u00e3o destas associa\u00e7\u00f5es numa grande federa\u00e7\u00e3o. \u2014 A 20, aboliu o trabalho nocturno dos padeiros assim como os servi\u00e7os de emprego que desde o segundo Imp\u00e9rio funcionavam como monop\u00f3lio de sujeitos nomeados pela pol\u00edcia, exploradores de primeira linha dos oper\u00e1rios; estes servi\u00e7os foram atribu\u00eddos aos munic\u00edpios dos vinte arrondis-sements(2*) de Paris. \u2014 A 30 de Abril ordenou a supress\u00e3o das casas de penhores, que era uma explora\u00e7\u00e3o privada dos oper\u00e1rios e estavam em contradi\u00e7\u00e3o com o direito dos oper\u00e1rios aos seus instrumentos de trabalho e ao cr\u00e9dito. \u2014 A 5 de Maio decidiu a demoli\u00e7\u00e3o da capela de penit\u00eancia constru\u00edda como expia\u00e7\u00e3o pela execu\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds XVI.<\/p>\n<p>Evidenciou-se, assim, a partir de 18 de Mar\u00e7o, o car\u00e1cter de classe, incisivo e puro, do movimento parisiense, at\u00e9 ent\u00e3o relegado para segundo plano pela luta contra a invas\u00e3o estrangeira. Assim como naComuna quase s\u00f3 tinham assento oper\u00e1rios ou representantes reconhecidos dos oper\u00e1rios assim tamb\u00e9m as suas resolu\u00e7\u00f5es continham um decidido car\u00e1cter prolet\u00e1rio. Ou decretava reformas que s\u00f3 por cobardia a burguesia republicana deixara de fazer, mas que constitu\u00edam para a livre ac\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria uma base necess\u00e1ria, como a aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio segundo o qual a religi\u00e3o, face ao Estado, \u00e9 mero assunto privado; ou promulgou resolu\u00e7\u00f5es directamente no interesse da classe oper\u00e1ria e em parte golpeando profundamente a velha ordem social. Mas tudo isto, numa cidade cercada, podia quando muito receber um come\u00e7o de realiza\u00e7\u00e3o. E desde o come\u00e7o de Maio, a luta contra as tropas do governo de Versalhes, reunidas em n\u00famero cada vez maior, exigia todas as for\u00e7as.<\/p>\n<p>A 7 de Abril, os versalheses tinham-se apoderado da passagem do Sena, em Neuilly, na frente ocidental de Paris; em contrapartida, a 11 foram repelidos com baixas, na frente sul, por um ataque do generalEudes. Paris foi continuamente bombardeada, precisamente por aquela gente que tinha estigmatizado como um sacril\u00e9gio o bombardeamento da mesma cidade pelos prussianos. Esta mesma gente mendigava agora, junto do governo prussiano, a restitui\u00e7\u00e3o acelerada dos soldados franceses prisioneiros de Sedan e Metz, que para ela deviam reconquistar Paris. A chegada gradual destas tropas deu aos versalhesesuma decidida supremacia desde o come\u00e7o de Maio. Isto tornou-se evidente quando, a 23 de Abril, Thiers rompeu as negocia\u00e7\u00f5es propostas pela Comuna para a troca do arcebispo de Paris(3*) e de toda uma s\u00e9rie de outros padres retidos como ref\u00e9ns em Paris, s\u00f3 por Blanqui, duas vezes eleito para a Comuna, mas prisioneiro em Clairvaux. E mais ainda na alterada linguagem de Thiers; at\u00e9 a\u00ed contido e equ\u00edvoco, tornou-se bruscamente insolente, amea\u00e7ador, brutal. Na frente sul, os versalheses tomaram a 3 de Maio a redoute(4*) de Moulin-Saquet, a 9 o Forte de Issy completamente em destro\u00e7os, a 14 o de Vanves. Na frente oeste deslocaram-se pouco a pouco at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3pria muralha principal, conquistando as numerosas aldeias e edif\u00edcios que se estendem at\u00e9 \u00e0 muralha circular; a 21 conseguiram penetrar na cidade por trai\u00e7\u00e3o e em consequ\u00eancia de neglig\u00eancia da Guarda Nacional ali colocada. Os prussianos, que ocupavam os fortes a norte e a leste, permitiram aos versalheses avan\u00e7ar no terreno que, pelo armist\u00edcio, lhes estava interdito a norte da cidade, e atacar assim numa larga frente, que os parisienses deviam supor coberta pelo armist\u00edcio e que por isso mantinham s\u00f3 pouco guarnecida. Em consequ\u00eancia disto, houve apenas uma fraca resist\u00eancia na metade ocidental de Paris, na cidade de luxo propriamente dita; ela tornou-se mais violenta e tenaz \u00e0 medida que as tropas invasoras se aproximavam da metade oriental, da cidade oper\u00e1ria propriamente dita. S\u00f3 depois de uma luta de oito dias, os \u00faltimos defensores da Comuna sucumbiram no alto de Belleville e de M\u00e9nilmontant; e ent\u00e3o o massacre de homens, mulheres e crian\u00e7as indefesos, que durante toda a semana grassara em medida crescente, atingiu o seu ponto culminante. A espingarda j\u00e1 n\u00e3o matava bastante depressa; \u00e0s centenas, os vencidos eram abatidos \u00e0 metralhadora. O \u00abMuro dos Federados\u00bb no Cemit\u00e9rio do P\u00e8re-Lachaise, onde foi consumado o \u00faltimo massacre em massa, est\u00e1 ainda hoje de p\u00e9, testemunho mudo e eloquente da raiva de que \u00e9 capaz a classe dominante logo que o proletariado ousa defender o seu direito. Vieram depois as pris\u00f5es em massa, quando se revelou imposs\u00edvel a chacina de todos, o fuzilamento de v\u00edtimas escolhidas arbitrariamente nas filas dos prisioneiros, a evacua\u00e7\u00e3o dos restantes para grandes campos, onde aguardavam compar\u00eancia perante os conselhos de guerra. As tropas prussianas, que acampavam \u00e0 volta da metade nordeste de Paris, tinham ordem de n\u00e3o deixar passar qualquer fugitivo, por\u00e9m, os oficiais fecharam muitas vezes os olhos quando os soldados obedeciam mais ao imperativo de humanidade do que ao do comando supremo. Designadamente, \u00e9 devida ao corpo expedicion\u00e1rio sax\u00e3o a gl\u00f3ria de se ter conduzido muito humanamente e de ter deixado passar muitos daqueles cuja qualidade de combatentes da Comuna era vis\u00edvel.<\/p>\n<p>Se hoje, vinte anos depois, olharmos para tr\u00e1s, para a actividade e a significa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da Comuna de Paris de 1871, acharemos que h\u00e1 ainda alguns aditamentos a fazer \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o dada em a Guerra Civil em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Os membros da Comuna dividiam-se numa maioria, os blanquistas[N132], que tamb\u00e9m tinham predominado no Comit\u00e9 Central da Guarda Nacional, e numa minoria: os membros da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores, predom\u00ednantemente seguidores da escola socialista de Proudhon. Os blanquistas, na grande massa, eram ent\u00e3o socialistas s\u00f3 por instinto revolucion\u00e1rio, prolet\u00e1rio; s\u00f3 uns poucos tinham chegado a uma maior clareza de princ\u00edpios, atrav\u00e9s de Vaillant, que conhecia o socialismo cient\u00edfico alem\u00e3o. Assim se compreende que, no aspecto econ\u00f3mico, n\u00e3o tenha sido feito muito daquilo que, segundo a nossa concep\u00e7\u00e3o de hoje, a Comuna tinha de ter feito. O mais dif\u00edcil de compreender \u00e9, certamente, o sagrado respeito com que se ficou reverenciosamente parado \u00e0s portas do Banco de Fran\u00e7a. Foi tamb\u00e9m um grave erro pol\u00edtico. O Banco nas m\u00e3os da Comuna \u2014 isso valia mais do que dez mil ref\u00e9ns. Significava a press\u00e3o de toda a burguesia francesa sobre o governo de Versalhes, no interesse da paz com a Comuna. Mas foi mais prodigioso ainda o muito de correcto que, apesar de tudo, foi feito pela Comuna, composta que era por blanquistas e proudhonianos. Naturalmente, os proudhonianos s\u00e3o respons\u00e1veis em primeira linha pelos decretos econ\u00f3micos da Comuna, pelos seus lados gloriosos como pelos n\u00e3o gloriosos, assim como os blanquistas pelos seus actos e omiss\u00f5es de car\u00e1cter pol\u00edtico. E quis em ambos os casos a ironia da hist\u00f3ria \u2014 como de costume, quando doutrin\u00e1rios chegam ao leme \u2014 que uns e outros fizessem o contr\u00e1rio do que lhes prescrevia a sua doutrina de escola.<\/p>\n<p>Proudhon, o socialista do pequeno campon\u00eas e do mestre artes\u00e3o, odiava a associa\u00e7\u00e3o com positivo \u00f3dio. Dizia dela que comportava mais mal do que bem, que era por natureza infrut\u00edfera porque uma cadeia posta \u00e0 liberdade do oper\u00e1rio; que era um puro dogma, improdutivo e gravoso, em conflito tanto com a liberdade do oper\u00e1rio como com a poupan\u00e7a de trabalho e que as suas desvantagens cresceriam mais depressa do que as suas vantagens; que a concorr\u00eancia, a divis\u00e3o do trabalho, a propriedade privada, seriam, frente a ela, for\u00e7as econ\u00f3micas. S\u00f3 para os casos excepcionais \u2014 como Proudhon lhes chama \u2014 da grande ind\u00fastria e dos grandes corpos de empresas, caminhos-de-ferro, por exemplo, seria indicada a associa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios (ver Id\u00e9e g\u00e9n\u00e9rale de la r\u00e9volution, 3e \u00e9tude).<\/p>\n<p>E em 1871, mesmo em Paris, lugar central do artesanato de arte, a grande ind\u00fastria tinha de tal modo deixado de ser um caso excepcional, que o decreto de longe mais importante da Comuna institu\u00eda uma organiza\u00e7\u00e3o da grande ind\u00fastria e at\u00e9 mesmo da manufactura, que n\u00e3o s\u00f3 devia basear-se na associa\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios em cada f\u00e1brica mas unificar tamb\u00e9m todas estas associa\u00e7\u00f5es numa grande federa\u00e7\u00e3o; em resumo, uma organiza\u00e7\u00e3o que, como diz Marx de maneira inteiramente correcta em a Guerra Civil, tinha de acabar por desembocar no comunismo, por conseguinte, no oposto directo da doutrina de Proudhon. E por isso, tamb\u00e9m, a Comuna foi o t\u00famulo da escola proudhoniana do socialismo. Hoje esta escola desapareceu dos c\u00edrculos oper\u00e1rios franceses; aqui domina agora de maneira incontroversa a teoria de Marx, entre os possibilistas[N133] n\u00e3o menos do que entre os \u00abmarxistas\u00bb. S\u00f3 entre a burguesia \u00abradical\u00bb h\u00e1 ainda proudhonianos.<\/p>\n<p>Os blanquistas n\u00e3o se sa\u00edram melhor. Educados na escola da conspira\u00e7\u00e3o, mantidos coesos pela r\u00edgida disciplina que \u00e0quela corresponde, partiam da opini\u00e3o que um n\u00famero relativamente pequeno de homens decididos, bem organizados, seria capaz, num dado momento favor\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 de tomar o leme do Estado mas tamb\u00e9m, pelo desdobramento de grande, de implac\u00e1vel energia, de o conservar at\u00e9 se conseguir arrastar a massa do povo para a revolu\u00e7\u00e3o e agrup\u00e1-la em torno do pequeno n\u00facleo dirigente. Para isso era necess\u00e1ria, antes de todas as coisas, a centraliza\u00e7\u00e3o mais estrita, ditatorial, na m\u00e3o do novo governo revolucion\u00e1rio. E que fez a Comuna, que na maioria era precisamente composta por estes blanquistas? Em todas as suas proclama\u00e7\u00f5es aos franceses da prov\u00edncia, exortava estes a uma livre federa\u00e7\u00e3o de todas as comunas francesas com Paris, a uma organiza\u00e7\u00e3o nacional que, pela primeira vez, haveria de ser criada efectivamente por toda a na\u00e7\u00e3o. Precisamente o poder repressivo do governo centralizado anterior \u2014 ex\u00e9rcito, pol\u00edcia pol\u00edtica, burocracia \u2014 que Napole\u00e3o tinha criado em 1798 e que, desde ent\u00e3o, cada novo governo tinha retomado como instrumento e utilizado contra os seus advers\u00e1rios, era precisamente esse poder que deveria cair por toda a parte, como j\u00e1 tinha ca\u00eddo em Paris.<\/p>\n<p>A Comuna teve mesmo de reconhecer, desde logo, que a classe oper\u00e1ria, uma vez chegada \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podia continuar a administrar com a velha m\u00e1quina de Estado; que esta classe oper\u00e1ria, para n\u00e3o perder de novo a sua pr\u00f3pria domina\u00e7\u00e3o, acabada de conquistar, tinha, por um lado, de eliminar a velha maquinaria de opress\u00e3o at\u00e9 a\u00ed utilizada contra si pr\u00f3pria, mas, por outro lado, de precaver-se contra os seus pr\u00f3prios deputados e funcion\u00e1rios, ao declarar estes, sem qualquer excep\u00e7\u00e3o, revog\u00e1veis a todo o momento. Em que consistia a qualidade caracter\u00edstica do Estado, at\u00e9 ent\u00e3o? A sociedade tinha criado originalmente os seus \u00f3rg\u00e3os pr\u00f3prios, por simples divis\u00e3o de trabalho, para cuidar dos seus interesses comuns. Mas estes \u00f3rg\u00e3os, cuja c\u00fapula \u00e9 o poder de Estado, tinham-se transformado com o tempo, ao servi\u00e7o dos seus pr\u00f3prios interesses particulares, de servidores da sociedade em senhores dela. Como se pode ver, por exemplo, n\u00e3o meramente na monarquia heredit\u00e1ria mas igualmente na rep\u00fablica democr\u00e1tica. Em parte alguma os \u00abpol\u00edticos\u00bb formam um destacamento da na\u00e7\u00e3o mais separado e mais poderoso do que precisamente na Am\u00e9rica do Norte. Ali, cada um dos dois grandes partidos aos quais cabe alternadamente a domina\u00e7\u00e3o \u00e9 ele pr\u00f3prio governado por pessoas que fazem da pol\u00edtica um neg\u00f3cio, que especulam com lugares nas assembleias legislativas da Uni\u00e3o e de cada um dos Estados, ou que vivem da agita\u00e7\u00e3o para o seu partido e s\u00e3o, ap\u00f3s a vit\u00f3ria deste, recompensados com cargos. \u00c9 sabido que os americanos procuram, desde h\u00e1 trinta anos, sacudir este jugo tornado insuport\u00e1vel e que, apesar de tudo, se atascam sempre mais fundo nesse p\u00e2ntano da corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 precisamente na Am\u00e9rica que podemos ver melhor como se processa esta autonomiza\u00e7\u00e3o do poder de Estado face \u00e0 sociedade, quando originalmente estava destinado a ser mero instrumento desta. N\u00e3o existe ali uma dinastia, uma nobreza, um ex\u00e9rcito permanente \u2014 exceptuados os poucos homens para a vigil\u00e2ncia dos \u00edndios \u2014 nem burocracia com emprego fixo ou direito \u00e0 reforma. E, n\u00e3o obstante, temos ali dois grandes bandos de especuladores pol\u00edticos que, revezando-se, tomam conta do poder de Estado e o exploram com os meios mais corruptos para os fins mais corruptos \u2014 e a na\u00e7\u00e3o \u00e9 impotente contra estes dois grandes cart\u00e9is de pol\u00edticos pretensamente ao seu servi\u00e7o, mas que na realidade a dominam e saqueiam.<\/p>\n<p>Contra esta transforma\u00e7\u00e3o, inevit\u00e1vel em todos os Estados at\u00e9 agora existentes, do Estado e dos \u00f3rg\u00e3os do Estado, de servidores da sociedade em senhores da sociedade, aplicou a Comuna dois meios infal\u00edveis. Em primeiro lugar, ocupou todos os cargos administrativos, judiciais, docentes, por meio de elei\u00e7\u00e3o por sufr\u00e1gio universal dos interessados, e mais, com revoga\u00e7\u00e3o a todo o momento por estes mesmos interessados. E, em segundo lugar, ela pagou por todos os servi\u00e7os, grandes e pequenos, apenas o sal\u00e1rio que outros oper\u00e1rios recebiam. O ordenado mais elevado que ela pagava era de 6000 francos. Assim se fechou a porta, eficazmente, \u00e0 ca\u00e7a aos cargos e \u00e0 gan\u00e2ncia da promo\u00e7\u00e3o, mesmo sem os mandatos imperativos que, al\u00e9m do mais, no caso dos delegados para corpos representativos ainda foram acrescentados.<\/p>\n<p>Esta destrui\u00e7\u00e3o do poder de Estado at\u00e9 aqui existente e a sua substitui\u00e7\u00e3o por um novo, na verdade democr\u00e1tico, est\u00e1 descrita em pormenor no terceiro cap\u00edtulo da Guerra Civil. Mas era necess\u00e1rio entrar resumidamente aqui, mais uma vez, nalguns tra\u00e7os daquele porque, precisamente na Alemanha, a supersti\u00e7\u00e3o do Estado transp\u00f4s-se da filosofia para a consci\u00eancia geral da burguesia e mesmo de muitos oper\u00e1rios. Segundo a representa\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, o Estado \u00e9 a \u00abrealiza\u00e7\u00e3o da Ideia\u00bb, ou o reino de Deus na terra traduzido para o filos\u00f3fico, dom\u00ednio onde se realizam ou devem realizar-se a verdade e a justi\u00e7a eternas. E da\u00ed resulta, pois, uma venera\u00e7\u00e3o supersticiosa do Estado e de tudo o que com o Estado se relaciona, a qual aparece tanto mais facilmente quanto se est\u00e1 habituado, desde crian\u00e7a, a imaginar que os assuntos e interesses comuns a toda a sociedade n\u00e3o poderiam ser tratados de outra maneira do que como t\u00eam sido at\u00e9 aqui, ou seja, pelo Estado e pelas suas autoridades bem providas. E cr\u00ea-se ter j\u00e1 dado um passo imensamente audaz quando algu\u00e9m se liberta da cren\u00e7a na monarquia heredit\u00e1ria e jura pela rep\u00fablica democr\u00e1tica. Mas, na realidade, o Estado n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma m\u00e1quina para a opress\u00e3o de uma classe por uma outra e, de facto, na rep\u00fablica democr\u00e1tica n\u00e3o menos do que na monarquia; no melhor dos casos, um mal que \u00e9 legado ao proletariado vitorioso na luta pela domina\u00e7\u00e3o de classe e cujos piores aspectos ele n\u00e3o poder\u00e1 deixar de cortar imediatamente o mais poss\u00edvel, tal como no caso da Comuna, at\u00e9 que uma gera\u00e7\u00e3o crescida em novas, livres condi\u00e7\u00f5es sociais, se torne capaz de se desfazer de todo o lixo do Estado.<\/p>\n<p>O filisteu social-democrata caiu recentemente, outra vez, em salutar terror, \u00e0 palavra: ditadura do proletariado. Ora bem, senhores, quereis saber que rosto tem esta ditadura? Olhai para a Comuna de Paris. Era a ditadura do proletariado.<\/p>\n<p>Londres, no vig\u00e9simo anivers\u00e1rio da Comuna de Paris, 18 de Mar\u00e7o de 1891. F. Engels<br \/>\nPublicado na revista Die Neue Zeit. Bd. 2, n.&quot; 28, 1890-1891, e no livro: Karl Marx, Der Burgerkrieg in Frankreich, Berlin, 1891. Publicado segundo o texto do livro, Traduzido do alem\u00e3o.<\/p>\n<p>________________________________________<br \/>\nNotas de rodap\u00e9:<br \/>\n(1*) Ver o presente tomo, p. 216. (Nota da edi\u00e7\u00e3o portuguesa.) (retornar ao texto)<br \/>\n(2*) Em franc\u00eas no texto: termo que designa, em Fran\u00e7a, uma divis\u00e3o territorial e administrativa. (Nota da edi\u00e7\u00e3o portuguesa.) (retornar ao texto)<br \/>\n(3*) Darboy. (retornar ao texto)<br \/>\n(4*) Em franc\u00eas no texto: fortifica\u00e7\u00e3o geralmente rodeada por um fosso. (Nota da edi\u00e7\u00e3o portuguesa.) (retornar ao texto)<br \/>\nNotas de fim de tomo:<br \/>\n[N21] Insurrei\u00e7\u00e3o de Junho: insurrei\u00e7\u00e3o her\u00f3ica dos oper\u00e1rios de Paris em 23-26 de Junho de 1848, reprimida com excepcional crueldade pela burguesia francesa. A insurrei\u00e7\u00e3o foi a primeira grande guerra civil da hist\u00f3ria entre o proletariado e a burguesia. (retornar ao texto)<br \/>\n[N102] Depois de derrotadas na guerra austro-prussiana de 1866, e quando se intensificava a crise do Estado austr\u00edaco multinacional, as classes dirigentes da \u00c1ustria estabeleceram conversa\u00e7\u00f5es com os latifundi\u00e1rios da Hungria e em 1867 subscreveram um acordo sobre a forma\u00e7\u00e3o da monarquia dualista da \u00c1ustria-Hungria. (retornar ao texto)<br \/>\n[N109] A 2 de Setembro o ex\u00e9rcito franc\u00eas foi derrotado em Sedan e feito prisioneiro, juntamente com o imperador. Entre 5 de Setembro de 1870 e 19 de Mar\u00e7o de 1871 Napole\u00e3o III e os comandantes do ex\u00e9rcito estiveram presos em Wilhelmsh\u00f6le (perto de Kassel), num castelo do rei da Pr\u00fassia. A cat\u00e1strofe de Sedan acelerou a derrocada do Segundo Imp\u00e9rio e levou \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica em Fran\u00e7a a 4 de Setembro de 1870. Foi formado um novo governo, o chamado \u00abgoverno da defesa nacional\u00bb. (retornar ao texto)<br \/>\n[N122] A presente introdu\u00e7\u00e3o foi escrita para a terceira edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 do trabalho de Marx A Guerra Civil em Fran\u00e7a, publicada em 1891 para comemorar o vig\u00e9simo anivers\u00e1rio da Comuna de Paris. Depois de apontar o significado hist\u00f3rico da experi\u00eancia daComuna de Paris e da sua generaliza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica por Marx em A Guerra Civil em Fran\u00e7a, Engels, na sua introdu\u00e7\u00e3o, acrescentou um certo n\u00famero de dados referentes \u00e0 hist\u00f3ria da Comuna de Paris, em particular sobre a actividade dos blanquistas e dos proudhonistas participantes na Comuna. Nesta edi\u00e7\u00e3o Engels incluiu a primeira e a segunda mensagens, escritas por Marx, do Conselho Geral da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores sobre a guerra franco-prussiana, que nas edi\u00e7\u00f5es posteriores nas diferentes l\u00ednguas foram tamb\u00e9m publicadas juntamente com A Guerra Civil em Fran\u00e7a. (retornar ao texto)<br \/>\n[N123] Trata-se da guerra de liberta\u00e7\u00e3o nacional do povo alem\u00e3o contra o dom\u00ednio napole\u00f3nico em 1813-1814. (retornar ao texto)<br \/>\n[N124] Demagogos era o termo com que, na Alemanha dos anos 20 do s\u00e9culo XIX, eram designados os participantes no movimento de oposi\u00e7\u00e3o entre a intelectualidade alem\u00e3, que actuavam contra o regime reaccion\u00e1rio nos Estados alem\u00e3es e exigiam a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha. Os \u00abdemagogos\u00bb foram cruelmente perseguidos pelas autoridades alem\u00e3s. (retornar ao texto)<br \/>\n[N125] A lei de excep\u00e7\u00e3o contra os socialistas foi adoptada na Alemanha em 21 de Outubro de 1878. De acordo com a lei foram proibidas todas as organiza\u00e7\u00f5es do Partido Social-Democrata, as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias de massas e a imprensa oper\u00e1ria, a literatura socialista foi confiscada e os sociais-democratas foram perseguidos. Sob a press\u00e3o do movimento oper\u00e1rio de massas a lei foi revogada a 1 de Outubro de 1890. (retornar ao texto)<br \/>\n[N126] Trata-se da revolu\u00e7\u00e3o burguesa de Julho de 1830 em Fran\u00e7a. (retornar ao texto)<br \/>\n[N127] Trata-se da guerra civil que se prolongou de 44 a 27 a.n.e, e que terminou com a instaura\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano. (retornar ao texto)<br \/>\n[N128] Trata-se dos legitimistas, dos orleanistas e dos bonapartistas.<br \/>\nLegitimistas: partid\u00e1rios da dinastia dos Bourbons, derrubada em Fran\u00e7a em 1792, que representava os interesses da grande aristocracia rural e do alto clero; formou-se como partido em 1830, depois do segundo derrubamento desta dinastia. Em 1871 os legitimistas participaram na campanha geral das for\u00e7as contra-revolucion\u00e1rias contra a Comuna de Paris.<br \/>\nOrleanistas: partid\u00e1rios dos duques de Orle\u00e3es, ramo da dinastia dos Bourbons que subiu ao poder durante a Revolu\u00e7\u00e3o de Julho de 1830 e que foi derrubado com a revolu\u00e7\u00e3o de 1848; representavam os interesses da aristocracia financeira e da grande burguesia. (retornar ao texto)<br \/>\n[N129] Trata-se do golpe de Estado realizado por Louis Bonaparte em 2 de Dezembro de 1851 e que marcou o in\u00edcio do regime bonapartista do Segundo Imp\u00e9rio. (retornar ao texto)<br \/>\n[N130] A primeira rep\u00fablica foi proclamada em 1792 durante a grande revolu\u00e7\u00e3o burguesa francesa do s\u00e9culo XVIII e substitu\u00edda em 1799 pelo Consulado e depois pelo Primeiro Imp\u00e9rio, de Napole\u00e3o I Bonaparte (1804-1814). Neste per\u00edodo a Fran\u00e7a travou numerosas guerras, em resultado das quais se alargaram consideravelmente as fronteiras do Estado. (retornar ao texto)<br \/>\n[N131] Trata-se do tratado de paz preliminar entre a Fran\u00e7a e a Alemanha, subscrito em Versalhes em 26 de Fevereiro de 1871 por Thiers e J. Favre, por um lado, e por Bismarck, por outro lado. De acordo com as condi\u00e7\u00f5es deste tratado, a Fran\u00e7a cedia \u00e0 Alemanha a Als\u00e1cia e a Lorena Oriental e pagava uma indemniza\u00e7\u00e3o de cinco mil milh\u00f5es de francos. O tratado de paz definitivo foi assinado em Frankfurt am Main a 10 de Maio de 1871. (retornar ao texto)<br \/>\n[N132] Blanquistas: partid\u00e1rios da corrente do movimento socialista franc\u00eas chefiada por Louis Auguste Blanqui, destacado revolucion\u00e1rio, representante do comunismo ut\u00f3pico franc\u00eas. O lado fraco dos blanquistas era a sua convic\u00e7\u00e3o de que a revolu\u00e7\u00e3o poderia ser realizada por um pequeno grupo de conspiradores, a sua incompreens\u00e3o da necessidade de atrair as massas oper\u00e1rias para o movimento revolucion\u00e1rio. (retornar ao texto)<br \/>\n[N133] Possibilistas: corrente oportunista do movimento socialista franc\u00eas, chefiada por Brousse, Malon e outros que em 1882 provocaram uma cis\u00e3o no Partido Oper\u00e1rio Franc\u00eas. Os dirigentes desta corrente proclamavam o princ\u00edpio reformista de procurar alcan\u00e7ar apenas o \u00abposs\u00edvel\u00bb; da\u00ed o seu nome. (retornar ao texto)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| marxists.org Introdu\u00e7\u00e3o de Friedrich Engels \u00e0 edi\u00e7\u00e3o de 1891 de &quot;A Guerra Civil em Fran\u00e7a&quot; (Karl Marx) Chegou-me inesperadamente a solicita\u00e7\u00e3o para editar de novo a Mensagem do Conselho Geral internacional sobre A Guerra Civil em Fran\u00e7a e para a acompanhar de uma introdu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-226","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=226"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/226\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=226"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}