

	{"id":239,"date":"2012-11-13T15:57:00","date_gmt":"2012-11-13T15:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2012\/11\/13\/arquivoid-9263\/"},"modified":"2012-11-13T15:57:00","modified_gmt":"2012-11-13T15:57:00","slug":"arquivoid-9263","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2012\/11\/13\/arquivoid-9263\/","title":{"rendered":"Karl Marx: O que \u00e9 a Comuna?"},"content":{"rendered":"<p>| A Guerra Civil em Fran\u00e7a, Parte III<\/p>\n<p>Na madrugada do 18 de Mar\u00e7o, Paris acordou com o rebentamento do trov\u00e3o de \u00abVive la Commune!\u00bb.(23*) Que \u00e9 a Comuna, essa esfinge que tanto atormenta o esp\u00edrito burgu\u00eas?<br \/>\n\u00abOs prolet\u00e1rios da capital\u00bb \u2014 dizia o Comit\u00e9 Central no seu manifesto do 18 de Mar\u00e7o \u2014 \u00abno meio dos desfalecimentos e das trai\u00e7\u00f5es das classes governantes, compreenderam que para eles tinha chegado a hora de salvar a situa\u00e7\u00e3o tomando em m\u00e3os a direc\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios p\u00fablicos&#8230; O proletariado&#8230; compreendeu que era seu dever imperioso e seu direito absoluto tomar em m\u00e3os os seus destinos e assegurar-lhes o triunfo conquistando o poder.\u00bb<\/p>\n<p>Mas a classe oper\u00e1ria n\u00e3o pode apossar-se simplesmente da maquinaria de Estado j\u00e1 pronta e faz\u00ea-la funcionar para os seus pr\u00f3prios objectivos.<\/p>\n<p>O poder centralizado do Estado, com os seus \u00f3rg\u00e3os omnipresentes: ex\u00e9rcito permanente, pol\u00edcia, burocracia, clero e magistratura \u2014 \u00f3rg\u00e3os forjados segundo o plano de uma sistem\u00e1tica e hier\u00e1rquica divis\u00e3o de trabalho \u2014 tem origem nos dias da monarquia absoluta, ao servi\u00e7o da classe m\u00e9dia nascente como arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo. Contudo, o seu desenvolvimento permanecia obstru\u00eddo por toda a esp\u00e9cie de entulho medieval, direitos senhoriais, privil\u00e9gios locais, monop\u00f3lios municipais e de guilda e constitui\u00e7\u00f5es provinciais. A gigantesca vassourada da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa do s\u00e9culo dezoito levou todas estas rel\u00edquias de tempos idos, limpando assim, simultaneamente, o terreno social dos seus \u00faltimos embara\u00e7os para a superstrutura do edif\u00edcio do Estado moderno erguido sob o primeiro Imp\u00e9rio, ele pr\u00f3prio fruto das guerras de coaliz\u00e3o da velha Europa semi-feudal contra a Fran\u00e7a moderna. Durante os regimes(24*) subsequentes, o governo, colocado sob controlo parlamentar \u2014 isto \u00e9, sob o controlo directo das classes possidentes \u2014, n\u00e3o apenas se tornou um alfobre de enormes d\u00favidas nacionais e de impostos esmagadores; com os seus irresist\u00edveis atractivos de lugares, proventos e clientela, n\u00e3o apenas se tornou o pomo de disc\u00f3rdia entre fac\u00e7\u00f5es rivais e aventureiros das classes dirigentes; mas o seu car\u00e1cter pol\u00edtico mudou simultaneamente com as mudan\u00e7as econ\u00f3micas da sociedade. <\/p>\n<p>Do mesmo passo em que o progresso da ind\u00fastria moderna desenvolvia, alargava, intensificava o antagonismo de classe entre capital e trabalho, o poder de Estado assumia cada vez mais o car\u00e1cter do poder nacional do capital sobre o trabalho, de uma for\u00e7a p\u00fablica organizada para a escraviza\u00e7\u00e3o social, de uma m\u00e1quina de despotismo de classe. Depois de qualquer revolu\u00e7\u00e3o que marque uma fase progressiva na luta de classes, o car\u00e1cter puramente repressivo do poder de Estado abre caminho com um relevo cada vez mais acentuado. A Revolu\u00e7\u00e3o de 1830, que resultou na transfer\u00eancia de governo dos senhores da terra para os capitalistas, transferiu-o dos mais remotos para os mais directos antagonistas dos oper\u00e1rios. Os republicanos burgueses, que em nome da Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro tomaram o poder de Estado, serviram-se dele para os massacres de Junho, a fim de convencerem a classe oper\u00e1ria de que a rep\u00fablica \u00absocial\u00bb significava a Rep\u00fablica que assegurava a sua sujei\u00e7\u00e3o social e a fim de convencerem a massa realista(25*) da classe burguesa e dos senhores da terra de que podiam deixar com seguran\u00e7a os cuidados e emolumentos do governo aos \u00abrepublicanos\u00bb burgueses. Contudo, ap\u00f3s o seu \u00fanico feito her\u00f3ico de Junho, os republicanos burgueses tiveram de recuar da frente para a retaguarda do \u00abpartido da ordem\u00bb \u2014 uma combina\u00e7\u00e3o formada por todas as frac\u00e7\u00f5es e fac\u00e7\u00f5es rivais de entre as classes apropriadoras, no seu antagonismo agora abertamente declarado contra as classes produtoras. A forma adequada do seu governo de sociedade por ac\u00e7\u00f5es foi a rep\u00fablica parlamentar, com Louis Bonaparte por presidente. Foi um regime de confessado terrorismo de classe e de insulto deliberado para com a \u00abvil multid\u00e3o\u00bb. Se a rep\u00fablica parlamentar, como dizia M. Thiers, \u00abas dividia ao m\u00ednimo\u00bb (as diferentes frac\u00e7\u00f5es da classe dirigente), ela abria um abismo entre esta classe e o corpo inteiro da sociedade fora das suas esparsas fileiras. As restri\u00e7\u00f5es com que as suas pr\u00f3prias divis\u00f5es ainda tinham refreado o poder de Estado sob osregimes anteriores foram removidas com a sua uni\u00e3o; e em face da amea\u00e7a de levantamento do proletariado, ela servia-se agora do poder de Estado, impiedosa e ostentosamente, como m\u00e1quina de guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua ininterrupta cruzada contra as massas produtoras, ela foi for\u00e7ada, contudo, n\u00e3o s\u00f3 a investir o executivo de poderes de repress\u00e3o continuamente acrescidos mas, ao mesmo tempo, a despojar a sua pr\u00f3pria fortaleza parlamentar \u2014 a Assembleia Nacional \u2014 de todos os seus meios de defesa, um ap\u00f3s outro, contra o executivo. Na pessoa de Louis Bonaparte, o executivo p\u00f4-la fora. O fruto natural da rep\u00fablica do \u00abpartido-da-ordem\u00bb foi o segundo Imp\u00e9rio<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio, com o golpe de estado por certid\u00e3o de nascimento, o sufr\u00e1gio universal por san\u00e7\u00e3o e a espada por ceptro, declarava apoiar-se no campesinato, essa larga massa de produtores n\u00e3o envolvida diretamente na luta do capital e do trabalho. Declarava salvar a classe oper\u00e1ria quebrando o parlamentarismo e, com ele, a indisfar\u00e7ada subservi\u00eancia do governo \u00e0s classes possidentes. Declarava salvar a classe oper\u00e1ria quebrando o parlamentarismo e, com ele, a indisfar\u00e7ada subservi\u00eancia do governo \u00e0s classes possidentes.Declarava salvar as classes possidentes mantendo a supremacia econ\u00f3mica destas sobre a classe oper\u00e1ria; e declarava, finalmente, unir todas as classes, fazendo reviver para todas a quimera da gl\u00f3ria nacional. Na realidade, era a \u00fanica forma de governo poss\u00edvel num tempo em que a burguesia j\u00e1 tinha perdido a faculdade de governar a na\u00e7\u00e3o e a classe oper\u00e1ria ainda a n\u00e3o tinha adquirido. Foi aclamado atrav\u00e9s do mundo como o salvador da sociedade. Sob o seu dom\u00ednio, a sociedade burguesa, liberta de cuidados pol\u00edticos, atingiu um desenvolvimento inesperado, at\u00e9 para ela pr\u00f3pria. A sua ind\u00fastria e o seu com\u00e9rcio expandiram-se em dimens\u00f5es colossais; a burla financeira celebrou orgias cosmopolitas; a mis\u00e9ria das massas era contrabalan\u00e7ada por uma exibi\u00e7\u00e3o sem pudor de lux\u00faria sumptuosa, meretr\u00edcia e degradante. O poder de Estado, aparentemente voando alto acima da sociedade, era ele pr\u00f3prio, ao mesmo tempo, o maior esc\u00e2ndalo desta sociedade e o alfobre mesmo de todas as suas corrup\u00e7\u00f5es. A sua pr\u00f3pria podrid\u00e3o e a podrid\u00e3o da sociedade que ele havia salvo foram postas a nu pela baioneta da Pr\u00fassia, ela pr\u00f3pria \u00e1vida por transferir de Paris para Berlim a sede suprema deste regime . Ao mesmo tempo, o imperialismo(26*) \u00e9 a forma mais prostitu\u00edda e derradeira do poder de Estado que a sociedade da classe m\u00e9dia nascente tinha come\u00e7ado a elaborar como um meio da sua pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o do feudalismo e que a sociedade burguesa plenamente desenvolvida tinha finalmente transformado num meio para a escraviza\u00e7\u00e3o do trabalho pelo capital.<\/p>\n<p>A ant\u00edtese directa do Imp\u00e9rio foi a Comuna. O grito de \u00abrep\u00fablica social\u00bb com o qual a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro foi anunciada pelo proletariado de Paris n\u00e3o fez mais do que expressar uma vaga aspira\u00e7\u00e3o por uma rep\u00fablica que n\u00e3o apenas havia de p\u00f4r de lado a forma mon\u00e1rquica da domina\u00e7\u00e3o de classe. A Comuna foi a forma positiva desta rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Paris, a sede central do velho poder governamental e, ao mesmo tempo, a fortaleza social da classe oper\u00e1ria francesa, levantara-se em armas contra a tentativa de Thiers e dos Rurais para restaurar e perpetuar o velho poder governamental que o Imp\u00e9rio lhes legara. Paris apenas p\u00f4de resistir porque, em consequ\u00eancia do cerco, se tinha desembara\u00e7ado do ex\u00e9rcito e o tinha substitu\u00eddo por uma Guarda Nacional que era, na sua massa, composta por oper\u00e1rios. Este facto tinha agora de ser transformado numa institui\u00e7\u00e3o. O primeiro decreto da Comuna, por isso, foi a supress\u00e3o do ex\u00e9rcito permanente e a sua substitui\u00e7\u00e3o pelo povo armado.<\/p>\n<p>A Comuna foi formada por conselheiros municipais, eleitos por sufr\u00e1gio universal nos v\u00e1rios bairros da cidade, respons\u00e1veis e revog\u00e1veis em qualquer momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente oper\u00e1rios ou representantes reconhecidos da classe oper\u00e1ria. A Comuna havia de ser n\u00e3o um corpo parlamentar mas operante, executivo e legislativo ao mesmo tempo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a pol\u00edcia foi logo despojada dos seus atributos pol\u00edticos e transformada no instrumento da Comuna, respons\u00e1vel e revog\u00e1vel em qualquer momento. O mesmo aconteceu com os funcion\u00e1rios de todos os outros ramos da administra\u00e7\u00e3o. Desde os membros da Comuna para baixo, o servi\u00e7o p\u00fablico tinha de ser feito em troca de sal\u00e1rios de oper\u00e1rios. Os direitos adquiridos e os subs\u00eddios de representa\u00e7\u00e3o dos altos dignit\u00e1rios do Estado desapareceram com os pr\u00f3prios dignit\u00e1rios do Estado. As fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas deixaram de ser a propriedade privada dos testas-de-ferro do governo central. N\u00e3o s\u00f3 a administra\u00e7\u00e3o municipal mas toda a iniciativa at\u00e9 ent\u00e3o exercida pelo Estado foram entregues nas m\u00e3os da Comuna.<\/p>\n<p>Uma vez desembara\u00e7ada do ex\u00e9rcito permanente e da pol\u00edcia, elementos da for\u00e7a f\u00edsica do antigo governo, a Comuna estava desejosa de quebrar a for\u00e7a espiritual de repress\u00e3o, o \u00abpoder dos curas\u00bb, pelo desmantelamento e expropria\u00e7\u00e3o de todas as igrejas enquanto corpos possidentes. Os padres foram devolvidos aos retiros da vida privada, para terem ai o sustento das esmolas dos fi\u00e9is, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o dos seus predecessores, os ap\u00f3stolos. Todas as institui\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o foram abertas ao povo gratuitamente e ao mesmo tempo desembara\u00e7adas de toda a interfer\u00eancia de Igreja e Estado. Assim, n\u00e3o apenas a educa\u00e7\u00e3o foi tornada acess\u00edvel a todos mas a pr\u00f3pria ci\u00eancia liberta das grilhetas que os preconceitos de classe e a for\u00e7a governamental lhe tinham imposto.<\/p>\n<p>Os funcion\u00e1rios judiciais haviam de ser despojados daquela falsa independ\u00eancia que s\u00f3 tinha servido para mascarar a sua abjecta subservi\u00eancia a todos os governos sucessivos, aos quais, um ap\u00f3s outro, eles tinham prestado e quebrado juramento de fidelidade. Tal como os restantes servidores p\u00fablicos, magistrados e juizes haviam de ser electivos, respons\u00e1veis e revog\u00e1veis.<\/p>\n<p>A Comuna de Paris havia obviamente de servir de modelo a todos os grandes centros industriais da Fran\u00e7a. Uma vez estabelecido o regime comunal em Paris e nos centros secund\u00e1rios, o velho governo centralizado teria de dar lugar, nas prov\u00edncias tamb\u00e9m, ao autogoverno dos produtores. Num esbo\u00e7o tosco de organiza\u00e7\u00e3o nacional que a Comuna n\u00e3o teve tempo de desenvolver, estabeleceu-se claramente que a Comuna havia de ser a forma pol\u00edtica mesmo dos mais pequenos povoados do campo, e que nos distritos rurais o ex\u00e9rcito permanente havia de ser substitu\u00eddo por uma mil\u00edcia nacional com um tempo de servi\u00e7o extremamente curto. As comunas rurais de todos os distritos administrariam os seus assuntos comuns por uma assembleia de delegados na capital de distrito e estas assembleias distritais, por sua vez, enviariam deputados \u00e0 Delega\u00e7\u00e3o Nacional em Paris, sendo cada delegado revog\u00e1vel a qualquer momento e vinculado pelo mandai imperatif(27*) (instru\u00e7\u00f5es formais) dos seus eleitores. As poucas mas importantes fun\u00e7\u00f5es que ainda restariam a um governo central n\u00e3o seriam suprimidas, como foi intencionalmente dito de maneira deturpada, mas executadas por agentes comunais, e por conseguinte estritamente respons\u00e1veis. A unidade da na\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia de ser quebrada, mas, pelo contr\u00e1rio, organizada pela Constitui\u00e7\u00e3o comunal e tornada realidade pela destrui\u00e7\u00e3o do poder de Estado, o qual pretendia ser a encarna\u00e7\u00e3o dessa unidade, independente e superior \u00e0 pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o, de que n\u00e3o era sen\u00e3o uma excresc\u00eancia parasit\u00e1ria. Enquanto os \u00f3rg\u00e3os meramente repressivos do velho poder governamental haviam de ser amputados, as suas fun\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas haviam de ser arrancadas a uma autoridade que usurpava a preemin\u00eancia sobre a pr\u00f3pria sociedade e restitu\u00eddas aos agentes respons\u00e1veis da sociedade. Em vez de decidir uma vez cada tr\u00eas ou seis anos que membro da classe governante havia de representar mal o povo no Parlamento, o sufr\u00e1gio universal havia de servir o povo, constitu\u00eddo em Comunas, assim como o sufr\u00e1gio individual serve qualquer outro patr\u00e3o em busca de oper\u00e1rios e administradores para o seu neg\u00f3cio. E \u00e9 bem sabido que as companhias, como os indiv\u00edduos, em mat\u00e9ria de neg\u00f3cio real sabem geralmente como colocar o homem certo no lugar certo e, se alguma vez cometem um erro, como repar\u00e1-lo prontamente. Por outro lado, nada poderia ser mais estranho ao esp\u00edrito da Comuna do que substituir o sufr\u00e1gio universal pela investidura[N180] hier\u00e1rquica.<\/p>\n<p>\u00c9 em geral a sorte de cria\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas completamente novas serem tomadas erradamente como a r\u00e9plica de formas mais antigas e mesmo defuntas da vida social, com as quais podem sustentar uma certa semelhan\u00e7a. Assim, esta Comuna nova, que quebra o moderno poder de Estado, foi tomada erradamente como uma reprodu\u00e7\u00e3o das Comunas medievais que precederam, primeiro, esse mesmo poder de Estado, e se tornaram depois o seu substrato. A Constitui\u00e7\u00e3o Comunal foi tomada erradamente como uma tentativa para dispersar numa federa\u00e7\u00e3o de pequenos Estados \u2014 como a sonharam Montesquieu e os Girondinos[N181] \u2014 essa unidade de grandes na\u00e7\u00f5es que, embora realizada originalmente pela for\u00e7a pol\u00edtica, agora se tornou um poderoso coeficiente de produ\u00e7\u00e3o social. O antagonismo da Comuna contra o poder de Estado foi tornado erradamente como uma forma exagerada da antiga luta contra a ultra centraliza\u00e7\u00e3o. Circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas peculiares podem ter impedido o desenvolvimento cl\u00e1ssico, como na Fran\u00e7a, da forma burguesa de governo e podem ter permitido, como na Inglaterra, completar os grandes \u00f3rg\u00e3os centrais de Estado por assembleias paroquiais [vestries] corruptas, por conselheiros traficantes, por ferozes administradores da assist\u00eancia p\u00fablica [poor-law guardians] nas cidades e por magistrados virtualmente heredit\u00e1rios nos condados. A Constitui\u00e7\u00e3o Comunal teria restitu\u00eddo ao corpo social todas as for\u00e7as at\u00e9 ent\u00e3o absorvidas pelo Estado parasita, que se alimenta da sociedade e lhe estorva o livre movimento. Por este \u00fanico acto ela teria iniciado a regenera\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a. A classe m\u00e9dia francesa provincial viu na Comuna uma tentativa para restaurar a preponder\u00e2ncia que a sua ordem manteve sobre o campo com Louis-Philippe e que foi suplantada, com Louis-Napol\u00e9on, pela pretensa domina\u00e7\u00e3o do campo sobre as cidades. Na realidade, a Constitui\u00e7\u00e3o Comunal colocaria os produtores rurais sob a direc\u00e7\u00e3o intelectual das capitais dos seus distritos e estas ter-lhes-iam assegurado, nos oper\u00e1rios, os naturais procuradores dos seus interesses. A pr\u00f3pria exist\u00eancia da Comuna implicava, como uma coisa evidente, liberdade municipal local, mas j\u00e1 n\u00e3o como um obst\u00e1culo ao poder de Estado, agora substitu\u00eddo. S\u00f3 podia passar pela cabe\u00e7a de um Bismarck, o qual, quando n\u00e3o comprometido nas suas intrigas de sangue e ferro, gosta sempre de retomar a sua velha ocupa\u00e7\u00e3o, t\u00e3o conveniente ao seu calibre mental, de colaborador doKladderadatsch[N182] (o Punch de Berlim[N183]), s\u00f3 em tal cabe\u00e7a podia entrar o atribuir \u00e0 Comuna de Paris aspira\u00e7\u00f5es a essa caricatura da velha organiza\u00e7\u00e3o municipal francesa de 1791 \u2014 a constitui\u00e7\u00e3o municipal prussiana \u2014 que rebaixa os governos de cidade a meras rodas secund\u00e1rias na maquinaria policial do Estado prussiano. A Comuna fez uma realidade dessa deixa das revolu\u00e7\u00f5es burguesas \u2014 governo barato \u2014 destruindo as duas maiores fontes de despesa: o ex\u00e9rcito permanente e o funcionalismo de Estado. A sua pr\u00f3pria exist\u00eancia pressupunha a n\u00e3o exist\u00eancia de monarquia, a qual, pelo menos na Europa, \u00e9 o lastro normal e o disfarce indispens\u00e1vel da domina\u00e7\u00e3o de classe. Ela fornecia \u00e0 Rep\u00fablica a base de institui\u00e7\u00f5es realmente democr\u00e1ticas. Mas nem governo barato nem \u00abRep\u00fablica verdadeira\u00bb eram o seu alvo \u00faltimo; eram-lhe meramente concomitantes.<\/p>\n<p>A multiplicidade de interpreta\u00e7\u00f5es a que a Comuna esteve sujeita e a multiplicidade de interesses que a explicaram em seu favor mostram que ela era uma forma pol\u00edtica inteiramente expansiva, ao passo que todas as formas anteriores de governo t\u00eam sido marcadamente repressivas. Era este o seu verdadeiro segredo: ela era essencialmente um governo da classe oper\u00e1ria, o produto da luta da classe produtora contra a apropriadora, a forma pol\u00edtica, finalmente descoberta, com a qual se realiza a emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do trabalho.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse esta \u00faltima condi\u00e7\u00e3o, a Constitui\u00e7\u00e3o Comunal teria sido uma impossibilidade e um engano. A domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do produtor n\u00e3o pode coexistir com a perpetua\u00e7\u00e3o da sua escravid\u00e3o social. AComuna havia pois de servir como uma alavanca para extirpar os fundamentos econ\u00f3micos sobre os quais assenta a exist\u00eancia de classes e, por conseguinte, a domina\u00e7\u00e3o de classe. Emancipado o trabalho, todo o homem se torna um trabalhador e o trabalho produtivo deixa de ser um atributo de classe.<\/p>\n<p>\u00c9 um estranho facto. Apesar de toda a conversa grandiloquente e toda a imensa literatura dos \u00faltimos sessenta anos sobre a Emancipa\u00e7\u00e3o do Trabalho, assim que em qualquer parte os trabalhadores tomam o assunto nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os com determina\u00e7\u00e3o, surge logo toda a fraseologia apolog\u00e9tica dos porta-vozes da presente sociedade com os seus dois p\u00f3los: Capital e Escravatura Assalariada (o senhor da terra n\u00e3o \u00e9 agora sen\u00e3o o s\u00f3cio comandit\u00e1rio do capitalista), como se a sociedade capitalista ainda estivesse no seu mais puro estado de inoc\u00eancia virginal, com os seus antagonismos ainda n\u00e3o desenvolvidos, os seus enganos ainda n\u00e3o desmascarados, as suas realidades prostitu\u00eddas ainda n\u00e3o postas a nu. A Comuna, exclamam eles, tenciona abolir a propriedade, base de toda a civiliza\u00e7\u00e3o! Sim, senhores, a Comunatencionava abolir toda essa propriedade de classe que faz do trabalho de muitos a riqueza de poucos. Ela aspirava \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o dos expropriadores. Queria fazer da propriedade individual uma realidade transformando os meios de produ\u00e7\u00e3o, terra e capital, agora principalmente meios de escravizar e explorar o trabalho, em meros instrumentos de trabalho livre e associado. \u2014 Mas isto \u00e9 comunismo, comunismo \u00abimposs\u00edvel\u00bb! Ora pois, aqueles membros das classes dominantes que s\u00e3o bastante inteligentes para perceber a impossibilidade de continuar o sistema presente \u2014 e s\u00e3o muitos \u2014 tornaram-se os ap\u00f3stolos, importunos e de voz cheia, da produ\u00e7\u00e3o cooperativa. Se n\u00e3o cabe \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cooperativa permanecer uma fraude e uma armadilha; se lhe cabe suplantar o sistema capitalista; se cabe \u00e0s sociedades cooperativas unidas regular a produ\u00e7\u00e3o nacional segundo um plano comum, tomando-a assim sob o seu pr\u00f3prio controlo e pondo termo \u00e0 anarquia constante e \u00e0s convuls\u00f5es peri\u00f3dicas que s\u00e3o a fatalidade da produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2014 que seria isto, senhores, sen\u00e3o comunismo, comunismo \u00abposs\u00edvel\u00bb?<\/p>\n<p>A classe oper\u00e1ria n\u00e3o esperou milagres da Comuna. Ela n\u00e3o tem utopias prontas a introduzir par d\u00e9cret du peuple(28*). Sabe que para realizar a sua pr\u00f3pria emancipa\u00e7\u00e3o \u2014 e com ela essa forma superior para a qual tende irresistivelmente a sociedade presente pela sua pr\u00f3pria actividade econ\u00f3mica \u2014 ter\u00e1 de passar por longas lutas, por uma s\u00e9rie de processos hist\u00f3ricos que transformam circunst\u00e2ncias e homens. N\u00e3o tem de realizar ideais mas libertar os elementos da sociedade nova de que est\u00e1 gr\u00e1vida a pr\u00f3pria velha sociedade burguesa em colapso. Na plena consci\u00eancia da sua miss\u00e3o hist\u00f3rica e com a resolu\u00e7\u00e3o her\u00f3ica de agir \u00e0 altura dela, a classe oper\u00e1ria pode permitir-se sorrir \u00e0 invectiva grosseira dos lacaios de pluma e tinteiro e ao patroc\u00ednio did\u00e1ctico dos doutrinadores burgueses de boas inten\u00e7\u00f5es, que derramam as suas trivialidades ignorantes e as suas manias sect\u00e1rias no tom oracular da infalibilidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Quando a Comuna de Paris tomou a direc\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os; quando simples oper\u00e1rios ousaram pela primeira vez infringir o privil\u00e9gio governamental dos seus \u00absuperiores naturais\u00bb e, em circunst\u00e2ncias de dificuldade sem exemplo, executaram a sua obra modestamente, conscienciosamente e eficazmente \u2014 executaram-na com sal\u00e1rios, o mais elevado dos quais mal atingia, segundo uma alta autoridade cient\u00edfica(29*), um quinto do m\u00ednimo requerido para uma secret\u00e1ria de certo conselho escolar de Londres \u2014 o velho mundo contorceu-se em convuls\u00f5es de raiva, \u00e0 vista da Bandeira Vermelha, s\u00edmbolo da Rep\u00fablica do Trabalho, a flutuar sobre o Hotel de Ville.<\/p>\n<p>E, contudo, era a primeira revolu\u00e7\u00e3o em que a classe oper\u00e1ria era abertamente reconhecida como a \u00fanica classe capaz de iniciativa social, mesmo pela grande massa da classe m\u00e9dia de Paris \u2014 lojistas, comerciantes, negociantes \u2014 exceptuados s\u00f3 os capitalistas ricos. A Comuna tinha salvo aqueles por uma sagaz regulamenta\u00e7\u00e3o dessa causa permanentemente repetida de disputa entre as pr\u00f3prias classes m\u00e9dias: as contas de deve e haver[N184]. A mesma parte da classe m\u00e9dia, depois de ter ajudado a derrotar a insurrei\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria de Junho de 1848, foi logo sacrificada sem cerim\u00f3nias aos seus credores[N185]pela ent\u00e3o Assembleia Constituinte. Mas este n\u00e3o era o seu \u00fanico motivo para se juntar agora em torno da classe oper\u00e1ria. Ela sentia que s\u00f3 havia uma alternativa \u2014 a Comuna ou o Imp\u00e9rio \u2014 qualquer que fosse o nome com que pudesse reaparecer. O Imp\u00e9rio tinha-a arruinado economicamente pela devasta\u00e7\u00e3o que fez da riqueza p\u00fablica, pela burla financeira em grande escala, que encorajou, pelos adere\u00e7os que emprestou \u00e0 centraliza\u00e7\u00e3o artificialmente acelerada de capital e pela expropria\u00e7\u00e3o concomitante nas suas pr\u00f3prias fileiras. Ele tinha-a suprimido politicamente, tinha-a escandalizado moralmente pelas suas orgias, tinha insultado o seu voltairianismo ao entregar a educa\u00e7\u00e3o dos seus filhos aos fr\u00e8res Ignorantins[N186], tinha revoltado o seu sentimento nacional franc\u00eas ao precipit\u00e1-la de cabe\u00e7a numa guerra que s\u00f3 deixava um equivalente para as ru\u00ednas que fizera: o desaparecimento do Imp\u00e9rio. De facto, ap\u00f3s o \u00eaxodo de Paris de toda a alta boh\u00eame(30*) bonapartista e capitalista, o verdadeiro partido da ordem da classe m\u00e9dia apareceu na forma da \u00abUnion R\u00e9publicaine\u00bb[N187], alistando-se sob as cores da Comuna e defendendo-a contra a deturpa\u00e7\u00e3o premeditada de Thiers. O tempo ter\u00e1 de mostrar se a gratid\u00e3o deste grande corpo da classe m\u00e9dia resistir\u00e1 \u00e0 severa prova actual.<\/p>\n<p>A Comuna tinha inteira raz\u00e3o ao dizer aos camponeses: \u00abA nossa vit\u00f3ria \u00e9 a vossa \u00fanica esperan\u00e7a.\u00bb De todas as mentiras sa\u00eddas da casca em Versalhes e repercutidas pelo glorioso Europeu penny-a-liner(31*), uma das mais tremendas foi a de que os Rurais representavam o campesinato franc\u00eas. Pense-se s\u00f3 no amor do campon\u00eas franc\u00eas pelos homens a quem teve de pagar, depois de 1815, os mil milh\u00f5es de indemniza\u00e7\u00e3o[N188]. Aos olhos do campon\u00eas franc\u00eas, a pr\u00f3pria exist\u00eancia de um grande propriet\u00e1rio fundi\u00e1rio \u00e9 em si uma usurpa\u00e7\u00e3o sobre as suas conquistas de 1789. O burgu\u00eas, em 1848, tinha-lhe sobrecarregado a parcela de terra com a taxa adicional de quarenta e cinco c\u00eantimos por franco; mas f\u00ea-lo, ent\u00e3o, em nome da revolu\u00e7\u00e3o; ao passo que, agora, tinha fomentado uma guerra civil contra a revolu\u00e7\u00e3o para atirar sobre os ombros do campon\u00eas o fardo principal dos cinco mil milh\u00f5es de indemniza\u00e7\u00e3o a pagar ao prussiano. A Comuna, por outro lado, numa das suas primeiras proclama\u00e7\u00f5es, declarava que os verdadeiros causadores da guerra teriam de ser levados a pagar o seu custo. A Comuna teria libertado o campon\u00eas do imposto de sangue \u2014 ter-lhe-ia dado um governo barato \u2014, teria transformado as suas actuais sanguessugas, o not\u00e1rio, o advogado, o oficial de dilig\u00eancias e outros vampiros judiciais, em agentes comunais assalariados, eleitos por ele e perante ele respons\u00e1veis. T\u00ea-lo-ia livrado da tirania do garde champ\u00eatre(32*), do gendarme e do prefeito; teria posto o esclarecimento pelo mestre-escola no lugar da estultifica\u00e7\u00e3o pelo padre. E o campon\u00eas franc\u00eas \u00e9, acima de tudo, um homem de c\u00e1lculo. Teria achado extremamente razo\u00e1vel que a paga do padre, em vez de ser extorquida pelo cobrador de impostos, estivesse apenas dependente da ac\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea dos instintos religiosos dos paroquianos. Tais eram as grandes vantagens imediatas que o governo da Comuna \u2014 e s\u00f3 esse governo \u2014 oferecia ao campesinato franc\u00eas. \u00c9 pois inteiramente sup\u00e9rfluo desenvolver aqui os problemas mais complicados, mas vitais, que s\u00f3 a Comuna estava apta, e ao mesmo tempo for\u00e7ada, a resolver em favor do campon\u00eas, isto \u00e9, a d\u00edvida hipotec\u00e1ria, jazendo como um pesadelo sobre a sua parcela de solo, o prol\u00e9tariat foncier (o proletariado rural) que sobre ela crescia diariamente, e a sua expropria\u00e7\u00e3o dessa parcela, imposta a um ritmo cada vez mais r\u00e1pido pelo pr\u00f3prio desenvolvimento da agricultura moderna e da concorr\u00eancia da lavoura capitalista.<br \/>\nO campon\u00eas franc\u00eas tinha eleito Louis Bonaparte presidente da Rep\u00fablica; mas o partido da ordem criou o Imp\u00e9rio. Aquilo que o campon\u00eas franc\u00eas quer realmente, come\u00e7ou a mostr\u00e1-lo em 1849 e 1850, opondo o seu maire ao prefeito do governo, o seu mestre-escola ao padre do governo e opondo-se ele pr\u00f3prio ao gendarme do governo. Todas as leis feitas pelo partido da ordem em Janeiro e Fevereiro de 1850 eram medidas confessas de repress\u00e3o contra o campon\u00eas. O campon\u00eas era bonapartista porque a grande Revolu\u00e7\u00e3o, com todos os benef\u00edcios que lhe trouxe, estava personificada, aos seus olhos, em Napole\u00e3o. Esta ilus\u00e3o, rapidamente destru\u00edda sob o segundo Imp\u00e9rio (e, pela sua pr\u00f3pria natureza, hostil aos Rurais), este preconceito do passado, como poderia ter resistido ao apelo da Comuna aos interesses vitais e necessidades urgentes do campesinato?<\/p>\n<p>Os Rurais \u2014 era essa, de facto, a sua principal apreens\u00e3o \u2014 sabiam que tr\u00eas meses de comunica\u00e7\u00e3o livre da Paris da Comuna com as prov\u00edncias levaria a um levantamento geral dos camponeses; da\u00ed a sua \u00e2nsia em estabelecer um bloqueio de pol\u00edcia \u00e0 volta de Paris, como para fazer parar a propaga\u00e7\u00e3o da peste bovina.<\/p>\n<p>Se a Comuna era, assim, o verdadeiro representante de todos os elementos s\u00e3os da sociedade francesa e, portanto, o verdadeiro governo nacional, ela era ao mesmo tempo, como governo de oper\u00e1rios, como campe\u00e3 intr\u00e9pida da emancipa\u00e7\u00e3o do trabalho, expressivamente internacional. A vista do ex\u00e9rcito prussiano, que tinha anexado \u00e0 Alemanha duas prov\u00edncias francesas, a Comuna anexava \u00e0 Fran\u00e7a o povo trabalhador do mundo inteiro.<\/p>\n<p>O segundo Imp\u00e9rio tinha sido o jubileu da vigarice cosmopolita, com os devassos de todos os pa\u00edses a precipitarem-se ao seu chamamento para participarem nas suas orgias e na pilhagem do povo franc\u00eas. Mesmo neste momento, o bra\u00e7o direito de Thiers \u00e9 Ganesco, o val\u00e1quio imundo, e o seu bra\u00e7o esquerdo \u00e9 Markovski, o espi\u00e3o russo. A Comuna concedeu a todos os estrangeiros a honra de morrer por uma causa imortal. Entre a guerra estrangeira, perdida pela trai\u00e7\u00e3o da burguesia, e a guerra civil, provocada pela sua conspira\u00e7\u00e3o com o invasor estrangeiro, a burguesia tinha encontrado tempo para exibir o seu patriotismo organizando ca\u00e7adas policiais aos alem\u00e3es em Fran\u00e7a. A Comuna fez de um oper\u00e1rio alem\u00e3o(33*) o seu ministro do Trabalho. Thiers, a burguesia, o segundo Imp\u00e9rio, tinham continuamente enganado a Pol\u00f3nia com ruidosas profiss\u00f5es de simpatia, entregando-a, na realidade, \u00e0 R\u00fassia, e fazendo o trabalho sujo desta. A Comuna honrou os filhos her\u00f3icos da Pol\u00f3nia(34*) colocando-os \u00e0 cabe\u00e7a dos defensores de Paris. E, para marcar amplamente a nova era da hist\u00f3ria que ela estava consciente de iniciar, a Comuna deitou abaixo esse s\u00edmbolo colossal da gl\u00f3ria marcial, a coluna Vend\u00f4me[N189], sob os olhos dos vencedores prussianos, por um lado, e do ex\u00e9rcito bonapartista dirigido por generais bonapartistas, por outro.<br \/>\nA grande medida social da Comuna foi a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia actuante. As suas medidas especiais n\u00e3o podiam sen\u00e3o denotar a tend\u00eancia de um governo do povo pelo povo. Tais foram a aboli\u00e7\u00e3o do trabalho nocturno dos oficiais de padaria; a proibi\u00e7\u00e3o, com penaliza\u00e7\u00e3o, da pr\u00e1tica dos patr\u00f5es que consistia em reduzir sal\u00e1rios cobrando multas a gente que trabalha para eles, sob variados pretextos \u2014 um processo em que o patr\u00e3o combina na sua pr\u00f3pria pessoa os pap\u00e9is de legislador, de juiz e de executor, e surripia o dinheiro para o bolso. Outra medida desta esp\u00e9cie foi a entrega a associa\u00e7\u00f5es de oper\u00e1rios, sob reserva de compensa\u00e7\u00e3o, de todas as oficinas e f\u00e1bricas fechadas, quer os capitalistas respectivos tivessem fugido quer tivessem preferido parar o trabalho.<br \/>\nAs medidas financeiras da Comuna, not\u00e1veis pela sua sagacidade e modera\u00e7\u00e3o, s\u00f3 podiam ser as que eram compat\u00edveis com o estado de uma cidade cercada. Considerando os roubos colossais cometidos sobre a cidade de Paris pelas grandes companhias financeiras e pelos empreiteiros, com a protec\u00e7\u00e3o de Haussmann(35*), a Comuna teria tido um direito [title] incomparavelmente melhor para lhes confiscar a propriedade do que Louis-Napol\u00e9on teve contra a fam\u00edlia Orl\u00e9ans. Os Hohenzollern e os oligarcas ingleses, que colheram, uns e outros, uma grande parte das suas propriedades da pilhagem da Igreja, ficaram grandemente chocados, naturalmente, com os apenas 8000 francos que a Comuna retirou da seculariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto o governo de Versalhes, mal recuperou algum \u00e2nimo e alguma for\u00e7a, usava os meios mais violentos contra a Comuna; enquanto suprimia a livre express\u00e3o da opini\u00e3o por toda a Fran\u00e7a, proibindo mesmo reuni\u00f5es de delegados das grandes cidades; enquanto submetia Versalhes e o resto da Fran\u00e7a a uma espionagem que ultrapassou de longe a do segundo Imp\u00e9rio; enquanto fazia queimar pelos seus inquisidores-gendarmes todos os jornais impressos em Paris e inspeccionava toda a correspond\u00eancia de e para Paris; enquanto na Assembleia Nacional as mais t\u00edmidas tentativas para colocar uma palavra a favor de Paris eram submergidas em gritaria, de uma maneira desconhecida mesmo da Chambre introuvable de 1816[N164]; com a guerra selvagem de Versalhes fora de Paris e, dentro, as suas tentativas de corrup\u00e7\u00e3o e conspira\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o teria a Comuna atrai\u00e7oado vergonhosamente a sua seguran\u00e7a, pretendendo respeitar todas as boas maneiras e apar\u00eancias de liberalismo como num tempo de profunda paz? Tivesse o governo da Comuna sido semelhante ao de M. Thiers e n\u00e3o teria havido mais ocasi\u00e3o para suprimir jornais do partido da ordem em Paris do que houve para suprimir jornais da Comuna em Versalhes.<\/p>\n<p>Era na verdade irritante para os Rurais que, no pr\u00f3prio momento em que declaravam ser o regresso \u00e0 Igreja o \u00fanico meio de salva\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, a Comuna infiel desenterrasse os mist\u00e9rios peculiares do convento de freiras de Picpus e da Igreja de Saint-Laurent[N190]. Era uma s\u00e1tira contra M. Thiers o facto de que, enquanto ele fazia chover gr\u00e3-cruzes sobre os generais bonapartistas, em reconhecimento da sua mestria a perder batalhas, a assinar capitula\u00e7\u00f5es e a enrolar cigarros em Wilhelmsh\u00f5he[N191], a Comuna demitia e prendia os seus generais sempre que eram suspeitos de neglig\u00eancia para com os seus deveres. A expuls\u00e3o e pris\u00e3o, pela Comuna, de um dos seus membros(36*), que nela se tinha esgueirado sob um falso nome e sofrido seis dias de pris\u00e3o em Lyon por bancarrota simples, n\u00e3o era um insulto deliberado, atirado a Jules Favre, o fals\u00e1rio, ent\u00e3o ainda ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros de Fran\u00e7a, ainda a vender a Fran\u00e7a a Bismarck e ainda a ditar as suas ordens a esse governo-modelo da B\u00e9lgica? Mas, na verdade, a Comuna n\u00e3o aspirava \u00e0 infalibilidade, o atributo invari\u00e1vel de todos os governos de velho cunho. Ela publicava os seus ditos e feitos, inteirava o p\u00fablico de todas as suas falhas.<\/p>\n<p>Em cada revolu\u00e7\u00e3o intrometem-se, ao lado dos seus representantes verdadeiros, homens de um cunho diferente; alguns deles sobreviventes e devotos de revolu\u00e7\u00f5es passadas, sem discernimento do movimento presente, mas conservando influ\u00eancia popular pela sua honestidade e coragem conhecidas ou pela simples for\u00e7a da tradi\u00e7\u00e3o; outros, meros vociferadores, que \u00e0 for\u00e7a de repetir ano ap\u00f3s ano o mesmo sortido de declama\u00e7\u00f5es estereotipadas contra o governo do dia, se insinuaram na reputa\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios da primeira \u00e1gua. Depois do 18 de Mar\u00e7o tamb\u00e9m surgiram tais homens e, nalguns casos, imaginaram desempenhar pap\u00e9is preeminentes. A tanto quanto chegou o seu poder, estorvaram a ac\u00e7\u00e3o real da classe oper\u00e1ria, exactamente como homens desta esp\u00e9cie tinham estorvado o pleno desenvolvimento de cada revolu\u00e7\u00e3o anterior. S\u00e3o um mal inevit\u00e1vel: com o tempo s\u00e3o sacudidos; mas tempo n\u00e3o foi concedido \u00e0 Comuna.<\/p>\n<p>Prodigiosa, na verdade, foi a mudan\u00e7a que a Comuna operou em Paris! N\u00e3o mais qualquer tra\u00e7o da Paris meretr\u00edcia do segundo Imp\u00e9rio. Paris j\u00e1 n\u00e3o era o ponto de encontro dos senhores da terra brit\u00e2nicos, dos absentistas irlandeses[N192], dos ex-escravistas e ricos feitos \u00e0 pressa[N97] americanos, dos ex-propriet\u00e1rios de servos russos e dos boiardos val\u00e1quios. N\u00e3o mais cad\u00e1veres na morgue nem arrombamentos nocturnos, quase nenhuns roubos; de facto, pela primeira vez desde os dias de Fevereiro de 1848, as ruas de Paris eram seguras, e isto sem qualquer pol\u00edcia de qualquer esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u00abJ\u00e1 n\u00e3o ouvimos falar\u00bb, dizia um membro da Comuna, \u00abde assass\u00ednios, de roubos nem de agress\u00f5es; dir-se-ia que a pol\u00edcia levou mesmo com ela para Versalhes toda a sua clientela conservadora.\u00bb<\/p>\n<p>As cocottes(37*) tinham reencontrado o rasto dos seus protectores \u2014 os homens de fam\u00edlia, de religi\u00e3o e, acima de tudo, de propriedade, em fuga. Em vez daquelas, as verdadeiras mulheres de Paris apareceram de novo \u00e0 superf\u00edcie, her\u00f3icas, nobres e dedicadas, como as mulheres da antiguidade. A Paris oper\u00e1ria, pensante, combatente, a sangrar \u2014 quase esquecida, na sua incuba\u00e7\u00e3o de uma sociedade nova, dos canibais \u00e0s suas portas \u2014 radiante no entusiasmo da sua iniciativa hist\u00f3rica!<br \/>\nOposto a este mundo novo em Paris, observe-se o mundo velho em Versalhes \u2014 essa assembleia dos vampiros de todos os regimes defuntos, legitimistas e orleanistas, \u00e1vidos de se alimentarem da carca\u00e7a da na\u00e7\u00e3o \u2014 com uma cauda de republicanos antediluvianos, sancionando com a sua presen\u00e7a na Assembleia a rebeli\u00e3o dos escravistas, fiando-se, para a manuten\u00e7\u00e3o da sua rep\u00fablica parlamentar, na vaidade do charlat\u00e3o senil \u00e0 sua cabe\u00e7a, e caricaturando 1789 ao realizarem as suas reuni\u00f5es de espectros no Jeu de Paume(38*). Ali estava ela, essa Assembleia, a representante de tudo o que estava morto em Fran\u00e7a, mantida numa apar\u00eancia de vida s\u00f3 pelos sabres dos generais de Louis Bonaparte. Paris toda ela verdade, Versalhes toda ela mentira; e essa mentira, exalada pela boca de Thiers.<br \/>\nThiers diz a uma deputa\u00e7\u00e3o de presidentes de munic\u00edpio de Seine-et-Oise:<br \/>\n\u00abPodeis contar com a minha palavra, nunca faltei a ela.\u00bb<br \/>\nDiz \u00e0 pr\u00f3pria Assembleia que \u00abela \u00e9 a mais livremente eleita e a mais liberal que a Fran\u00e7a teve alguma vez\u00bb; diz a sua soldadesca heterog\u00e9nea que ela era \u00aba admira\u00e7\u00e3o do mundo e o mais belo ex\u00e9rcito que a Fran\u00e7a teve alguma vez\u00bb; diz \u00e0s prov\u00edncias que o bombardeamento de Paris, por ele, era um mito:<br \/>\n\u00abSe foram atirados alguns tiros de canh\u00e3o, n\u00e3o foi pelo ex\u00e9rcito de Versalhes, mas por alguns insurrectos, para fazer crer que se batem quando nem sequer ousam mostrar-se.\u00bb<br \/>\nDiz outra vez \u00e0s prov\u00edncias que<br \/>\n\u00aba artilharia de Versalhes n\u00e3o bombardeia Paris, apenas a canhoneia\u00bb.<br \/>\nDiz ao arcebispo de Paris que as pretensas execu\u00e7\u00f5es e repres\u00e1lias(!) atribu\u00eddas \u00e0s tropas de Versalhes era tudo disparate. Diz a Paris que s\u00f3 estava ansioso \u00abpor libert\u00e1-la dos horr\u00edveis tiranos que a oprimem\u00bb e que, na realidade, a Paris da Comuna n\u00e3o era \u00abmais do que um punhado de celerados\u00bb.<br \/>\nA Paris de M. Thiers n\u00e3o era a Paris real da \u00abvil multid\u00e3o\u00bb mas uma Paris fantasma, a Paris dos franc-fileurs[N194], a Paris macho e f\u00eamea dos Boulevards(39*) \u2014 a Paris rica, capitalista, dourada, pregui\u00e7osa, que se apinhava agora em Versalhes, Saint-Denis, Rueil e Saint-Germain com os seus lacaios, os seus fura-greves, a sua boh\u00eame liter\u00e1ria e as suas cocottes; que considerava a guerra civil s\u00f3 uma divers\u00e3o agrad\u00e1vel, que olhava o desenrolar da batalha atrav\u00e9s de telesc\u00f3pios, que contava os tiros de canh\u00e3o e jurava pela sua pr\u00f3pria honra e pela das suas prostitutas que o espect\u00e1culo estava de longe mais bem montado do que o que costumava ser \u00e0 Porte-Saint-Martin. Os homens que ca\u00edam estavam realmente mortos; os gritos dos feridos eram gritos mesmo a s\u00e9rio; e, al\u00e9m disso, a coisa era toda ela t\u00e3o intensamente hist\u00f3rica.<br \/>\n\u00c9 esta a Paris de M. Thiers, como a emigra\u00e7\u00e3o de Koblenz[N195] era a Fran\u00e7a de M. de Calonne.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| A Guerra Civil em Fran\u00e7a, Parte III Na madrugada do 18 de Mar\u00e7o, Paris acordou com o rebentamento do trov\u00e3o de \u00abVive la Commune!\u00bb.(23*) Que \u00e9 a Comuna, essa esfinge que tanto atormenta o esp\u00edrito burgu\u00eas? \u00abOs prolet\u00e1rios da capital\u00bb \u2014 dizia o Comit\u00e9<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-239","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/239","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=239"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/239\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=239"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=239"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}