

	{"id":247,"date":"2012-11-21T12:53:00","date_gmt":"2012-11-21T12:53:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2012\/11\/21\/arquivoid-9271\/"},"modified":"2012-11-21T12:53:00","modified_gmt":"2012-11-21T12:53:00","slug":"arquivoid-9271","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2012\/11\/21\/arquivoid-9271\/","title":{"rendered":"Movimento negro e luta de classes no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Um resumo hist\u00f3rico (publicado na revista Negras e Negros do PSOL) | M\u00e1rio Maka\u00edba (1)<\/p>\n<p>INTRODU\u00c7\u00c3O<br \/>\nA trajet\u00f3ria do Movimento Negro no Brasil veio se forjando num processo de reelabora\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de constru\u00e7\u00e3o de um movimento de massa, em cada conjuntura hist\u00f3rica da luta de classes, desde a aboli\u00e7\u00e3o (1888) at\u00e9 os nossos dias. Nesse processo foram criadas v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es com base na identidade racial, com alguns de seus setores fazendo alian\u00e7as e assumindo compromissos com diversas for\u00e7as pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas, da \u201cdireita\u201d \u00e0 esquerda marxista. Entre essas tantas organiza\u00e7\u00f5es destacaremos aqui, por suas caracter\u00edsticas de movimento de massa e perfis ideol\u00f3gicos opostos, A Frente Negra Brasileira e o Movimento Negro Unificado.<\/p>\n<p>A FRENTE NEGRA: POR DEUS, P\u00c1TRIA, RA\u00c7A E FAM\u00cdLIA<br \/>\nA d\u00e9cada de 30 do s\u00e9culo passado foi um per\u00edodo agitado na hist\u00f3ria da luta de classes no Brasil. Come\u00e7ou com uma revolu\u00e7\u00e3o constitucionalista, viu surgirem movimentos de esquerda, como a intentona comunista, e de direita, como a a\u00e7\u00e3o integralista, e terminou com um golpe de estado em 1937 \u2013 o Estado Novo populista de Get\u00falio Vargas. Foi no meio dessa conjuntura de fogo cruzado que se deu a funda\u00e7\u00e3o da Frente Negra Brasileira, em 1931. Como toda frente pol\u00edtica, a F.N.B abrigou diversas tend\u00eancias, n\u00e3o sem conflitos \u2013 onde, inclusive, se encontravam monarquistas com simpatias pelo fascismo.  Mas, todos fretenegrinos se enquadravam na ideologia conservadora nacionalista de \u201cDeus, P\u00e1tria, Ra\u00e7a e Fam\u00edlia\u201d, subt\u00edtulo do jornal da Frente, \u201cA Voz da Ra\u00e7a\u201d. Apenas no termo \u201cra\u00e7a\u201d, \u00e9 que o lema da frente se diferenciava do movimento integralista. A Frente chegou a transformar-se em partido em 1936, com inten\u00e7\u00f5es de participar do processo eleitoral. Mas, suas pretens\u00f5es foram abortadas com a instaura\u00e7\u00e3o da ditadura varguista, em 37, que extinguiu todas as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da \u00e9poca.  No per\u00edodo de dura\u00e7\u00e3o da ditadura estadonovista (1937 \u2013 1945), foi imposs\u00edvel organizar qualquer movimento contestat\u00f3rio, fossem de classe ou de ra\u00e7a. Nessa fase, a luta anti-racista negra se limitou a afirma\u00e7\u00e3o racial no culto \u00e0 M\u00e3e-Preta em defesa da \u201csegunda aboli\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Do fim da ditadura varguista at\u00e9 o golpe militar de 1964, abriu-se um per\u00edodo de conjuntura democr\u00e1tica, que possibilitou o ressurgimento dos movimentos negros organizados (assim como a recomposi\u00e7\u00e3o do movimento sindical e das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda \u2013 como o PCB), mas sem o poder de aglutina\u00e7\u00e3o da Frente Negra Brasileira. Dessa \u00e9poca, um dos principais agrupamentos foi o Teatro Experimental do Negro, fundado no Rio de Janeiro, em 1944, e que tinha na sua dire\u00e7\u00e3o o militante Abdias do Nascimento (1914-2011). O TEM foi respons\u00e1vel por divulgar no Brasil as propostas do movimento pol\u00edtico dos negros franceses, que posteriormente serviu de base ideol\u00f3gica para a luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional dos pa\u00edses africanos. O grupo de Abdias foi praticamente extinto dois anos ap\u00f3s o golpe militar de 1964, quando mais uma vez todas as organiza\u00e7\u00f5es do movimento dos trabalhadores e popular foram suprimidas pela for\u00e7a da ditadura.<\/p>\n<p>MNU: A UNIFICA\u00c7\u00c3O DO MOVIMENTO NEGRO E A S\u00cdNTESE RA\u00c7A E CLASSE<br \/>\nFoi no ano de 1978 do s\u00e9culo passado &#8211; a partir do debate travado entre os movimentos negros sobre o que fazer, no dia 13 de Maio, data da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura &#8211; que aconteceu a unifica\u00e7\u00e3o do movimento negro no Brasil. O processo de constru\u00e7\u00e3o dessa unidade durante boa parte dos anos 70 sofreu forte influencia do movimento \u201cBlack Power\u201d: o nacionalismo negro dos EUA (que defendia a id\u00e9ia de uma \u201cidentidade coletiva negra\u201d acima das divis\u00f5es de classes). 1978 tamb\u00e9m foi o ano em que, tendo a frente \u00e0 classe trabalhadora, cresceram no movimento sindical, estudantil e popular as lutas democr\u00e1ticas contra a ditadura \u2013 iniciada com o golpe militar de 1964 que foi planejado e apoiado pelo imperialismo estadunidense. Da\u00ed que, para a esquerda marxista brasileira daquela \u00e9poca, a unifica\u00e7\u00e3o do movimento negro sob a influ\u00eancia do \u201cBlack Power\u201d, significava a submiss\u00e3o da luta anti-racista dos negros brasileiros ao colonialismo do imp\u00e9rio ianque. O fato \u00e9 que, se por um lado, na pr\u00e1tica, isolado, o fen\u00f4meno da unifica\u00e7\u00e3o do movimento negro \u2013 com a sua vanguarda sob a influ\u00eancia de um nacionalismo negro importado \u2013 ainda seguia a l\u00f3gica de contesta\u00e7\u00e3o pura e simples de tudo o que fosse \u201cbranco\u201d, inclusive a teoria marxista revolucion\u00e1ria da luta de classes, vista como \u201ceuroc\u00eantrica\u201d, por outro lado, at\u00e9 aquele momento a s\u00edntese ra\u00e7a-e-classe n\u00e3o fazia parte da forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica cl\u00e1ssica e classista da esquerda brasileira.  <\/p>\n<p>O nacionalismo negro importado dos EUA cumpriu o papel importante de resgatar a dignidade de ra\u00e7a aos negros brasileiros. Ao exacerbar a negritude, dando visibilidade ao indiv\u00edduo negro, n\u00e3o s\u00f3 junto aos brancos, mas tamb\u00e9m entre os pr\u00f3prios negros, tornou palp\u00e1vel para as lideran\u00e7as negras reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e de poder. Emergiu da\u00ed uma vanguarda negra de classe m\u00e9dia que assumindo sua afrodescend\u00eancia, confrontou-se com o orgulho que t\u00eam de sua origem \u00e9tnica os indiv\u00edduos brancos da pequena e da grande burguesia brasileira. Dessa classe m\u00e9dia negra emergente surgiram novas lideran\u00e7as que juntos as antigas, foram depois \u2013 nos anos 80 &#8211; acolhidas por partidos criados dentro de uma conjuntura pol\u00edtica da luta de classes de redemocratiza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, com tr\u00e2nsito no movimento sindical e popular, como PT e PDT. <\/p>\n<p>A entrada de militantes do movimento negro nos rec\u00e9m criados partidos pol\u00edticos de perfis sindical e popular foi determinada pela nova realidade da luta de classes p\u00f3s 1978, que se deu sob uma conjuntura de ascenso das lutas da classe trabalhadora brasileira que naquele per\u00edodo, do final dos anos 70 at\u00e9 meados dos anos 80, foi a vanguarda de toda luta dos movimentos sociais contra a ditadura e pela volta da democracia ao pa\u00eds.  \u00c9 que para a necessidade de sobreviv\u00eancia de todo movimento social, o gheto \u00e9 um suic\u00eddio pol\u00edtico. Pelo seu instinto de luta contra a opress\u00e3o que comprime e a explora\u00e7\u00e3o que esvazia, todo movimento social tende ao sentido de sua expans\u00e3o. Do contr\u00e1rio, ser\u00e1 asfixiado pela capitula\u00e7\u00e3o, assimila\u00e7\u00e3o e coopta\u00e7\u00e3o de sua milit\u00e2ncia. E para que esse destino tr\u00e1gico n\u00e3o se cumpra, \u00e9 necess\u00e1rio encontrar aliados contra o inimigo comum. Esse foi o caminho daquela nova vanguarda de militantes negros que com muito esfor\u00e7o ingressaram na classe oper\u00e1ria e no meio da intelectualidade \u201cprogressista\u201d e de esquerda como L\u00e9lia Gonz\u00e1les, Hamilton Cardoso e o veterano Abdias do Nascimento, que ao lado de lideran\u00e7as mesti\u00e7as, ind\u00edgenas e brancas combinaram, pela primeira vez no Brasil, na pr\u00e1tica a luta anti-racista com a luta de todos os trabalhadores contra o capital naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Mas o \u201cgiro\u201d dessa milit\u00e2ncia negra para escapar do isolamento, n\u00e3o foi por acaso. Do processo de unifica\u00e7\u00e3o do movimento negro no Brasil surgiu o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado naquele mesmo ano de 1978 por um grupo de militantes negros da organiza\u00e7\u00e3o marxista-trotskista, Converg\u00eancia Socialista (Hamilton Cardoso, Fl\u00e1vio Carran\u00e7a, Vanderlei Jos\u00e9 Maria, Milton Barbosa, Rafael Pinto, Jamu Minka e Neuza Pereira). Na concep\u00e7\u00e3o desses militantes, o capitalismo era o sistema que alimentava e se beneficiava do racismo. Assim, s\u00f3 com a ruptura revolucion\u00e1ria com esse sistema e a instaura\u00e7\u00e3o do socialismo a partir de um governo de todos os trabalhadores seria poss\u00edvel a supera\u00e7\u00e3o do racismo. A pol\u00edtica que conjugava ra\u00e7a e classe na forma\u00e7\u00e3o desses militantes negros cumpriu um papel decisivo na funda\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado. Dali por diante as posturas t\u00e1ticas e ideol\u00f3gicas adotadas pelo MNU passaram a influenciar a luta anti-racista e suplantar a postura conformista e assimilacionista predominantes na hist\u00f3ria do movimento negro em geral desde a aboli\u00e7\u00e3o at\u00e9 a data de conclus\u00e3o de sua unifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do MNU tornou-se um marco na hist\u00f3ria do movimento negro no Brasil, porque tinha como estrat\u00e9gia, al\u00e9m de propor a unifica\u00e7\u00e3o da luta de todos os grupos e organiza\u00e7\u00f5es anti-racistas em um movimento nacional, objetivava tamb\u00e9m, combinar a luta desse movimento unificado com a de todos os oprimidos da sociedade. Em seu Programa de A\u00e7\u00e3o defendia as seguintes reivindica\u00e7\u00f5es \u201cm\u00ednimas\u201d: desmistifica\u00e7\u00e3o da democracia racial brasileira, organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da popula\u00e7\u00e3o negra, transforma\u00e7\u00e3o do Movimento Negro em um movimento de massas, forma\u00e7\u00e3o de um amplo leque de alian\u00e7as na luta contra o racismo e a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores negros e pobres para enfrentar a viol\u00eancia policial, organiza\u00e7\u00e3o nos sindicatos e partidos pol\u00edticos, luta pela introdu\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria da \u00c1frica e do Negro no curr\u00edculo escolar e a busca de apoio internacional contra o racismo no Brasil. Uma Carta Aberta foi distribu\u00edda \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e lida em pra\u00e7a p\u00fablica no Largo do Paisandu em S\u00e3o Paulo no dia 13 de maio de 1978, entre faixas e cartazes que questionavam a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura e denunciavam a brutalidade policial, chamando os negros a formarem \u201cCentros de Luta\u201d (no estilo dos Sovietes) nos bairros, nas vilas, nas pris\u00f5es, nos terreiros de candombl\u00e9 e umbanda, nos locais de trabalho e nas escolas com a finalidade de organizar a luta contra a opress\u00e3o racial e a explora\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Dez anos depois da funda\u00e7\u00e3o do MNU, a sua s\u00edntese pol\u00edtica de ra\u00e7a e classe para a unifica\u00e7\u00e3o dos movimentos negros no Brasil influenciou tamb\u00e9m no esp\u00edrito e na forma de organiza\u00e7\u00e3o da I Marcha Contra o Racismo no dia 11 de Maio de 1988 no Rio de Janeiro. Principalmente na forma\u00e7\u00e3o dos \u201ccomit\u00eas\u201d de mobiliza\u00e7\u00e3o e na articula\u00e7\u00e3o dos apoios do movimento comunit\u00e1rio, estudantil e sindical. J\u00e1 a exposi\u00e7\u00e3o de bandeiras e outros s\u00edmbolos que significassem a presen\u00e7a de partidos dentro da marcha, foram \u201cevitados\u201d pelo comando do evento que preferiu d\u00e1 aquela mobiliza\u00e7\u00e3o um car\u00e1ter \u201cn\u00e3o partid\u00e1rio\u201d- mesmo que muitos de seus militantes fossem tamb\u00e9m filiados as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. A Marcha Contra o Racismo que contou com mais de 20 mil participantes, teve o objetivo pol\u00edtico de se contrapor aos festejos oficiais do centen\u00e1rio da aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a orienta\u00e7\u00e3o do I Comando Militar do Leste foi montado um forte aparato repressivo com militares das for\u00e7as armadas e da for\u00e7a policial do Estado para impedir o deslocamento da Marcha contra a farsa da aboli\u00e7\u00e3o, programada para seguir o percurso da Candel\u00e1ria \u00e0 Central do Brasil, sob a alega\u00e7\u00e3o de que os manifestantes causariam danos \u00e0 est\u00e1tua de Caxias (que fica na Presidente Vargas, em frente \u00e0 sede do I CML). <\/p>\n<p>O governador do estado na \u00e9poca, Moreira Franco &#8211; PMDB &#8211; (atual ministro de Assuntos Estrat\u00e9gicos da \u201cpresidenta\u201d Dilma), designou o pr\u00f3prio secret\u00e1rio de pol\u00edcia civil do seu governo, H\u00e9lio Sab\u00f3ya, para informar oficialmente ao comando da Marcha que a pol\u00edcia n\u00e3o iria permitir de modo algum o deslocamento da mesma. Mas a repress\u00e3o a Marcha n\u00e3o se limitou a impedir a passeata dos manifestantes. Horas antes do in\u00edcio da marcha, os militares cercaram e puseram abaixo o palanque montado em frente \u00e0 Central, enquanto a pol\u00edcia reprimia e prendia v\u00e1rios militantes que sa\u00edam dos trens com faixas e cartazes, chegando do sub\u00farbio e da baixada fluminense para a concentra\u00e7\u00e3o da Marcha no in\u00edcio da Presidente Vargas na Candel\u00e1ria, onde j\u00e1 havia um grande n\u00famero de policiais. Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, mesmo com a disposi\u00e7\u00e3o dos militantes para enfrentar o cerco repressivo, no intuito de evitar um confronto com a repress\u00e3o que pusesse em perigo os participantes da Marcha, o comando da manifesta\u00e7\u00e3o orientou os militantes a seguirem com a passeata somente \u201cat\u00e9 onde o racismo deixar\u201d. E a Marcha parou antes de completar o seu percurso, impedida por uma \u201cmuralha\u201d de policiais. Mesmo assim, a maioria dos participantes da Marcha Contra o Racismo comemorou o sucesso daquela manifesta\u00e7\u00e3o que teve uma cobertura da imprensa nacional e estrangeira.<\/p>\n<p>O PROJETO LULISTA DE CONCILIA\u00c7\u00c3O DE CLASSES E A COOPTA\u00c7\u00c3O DE GRANDE PARTE DAS LIDERAN\u00c7AS DO MOVIMENTO NEGRO.<br \/>\n    Os efeitos positivos dessa unifica\u00e7\u00e3o dos movimentos negros ficaram evidentes, tamb\u00e9m, na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 quando o racismo passou a ser enquadrado nos termos da lei como um crime inafian\u00e7\u00e1vel. Antes era apenas uma contraven\u00e7\u00e3o. Porem, como todo o movimento social do final dos anos 80 do s\u00e9culo passado at\u00e9 hoje em 2011, a constru\u00e7\u00e3o dessa unifica\u00e7\u00e3o sofreu a eros\u00e3o pol\u00edtica, resultante do refluxo da luta da classe trabalhadora no Brasil e do pacto social promovido e posto em pr\u00e1tica nos dois mandatos de Lula. Boa parte dos militantes negros filiados aos principais partidos que comp\u00f5e a base do \u201clulismo\u201d \u2013 PT, PC do B, PDT e PMDB &#8211; foi cooptada e aderiu ao projeto pol\u00edtico ideol\u00f3gico de concilia\u00e7\u00e3o de classes que define essa frente partid\u00e1ria. Como conseq\u00fc\u00eancia dessa ades\u00e3o da maioria das lideran\u00e7as negras ao projeto de concilia\u00e7\u00e3o de classes lulista, veio a degenera\u00e7\u00e3o da unidade do movimento negro e o retrocesso da consci\u00eancia, da estrat\u00e9gia e t\u00e1ticas de lutas. Praticamente, a degenera\u00e7\u00e3o e o retrocesso decretaram o esfacelamento do processo de unifica\u00e7\u00e3o do movimento.<\/p>\n<p>A prova evidente da degenera\u00e7\u00e3o e do retrocesso \u00e9 o Estatuto da Igualdade Racial em vigor desde o ano passado, depois de tramitar 10 anos pelo Congresso. Assim que o Estatuto foi aprovado pelo Senado, em 16 de junho de 2010, setores do movimento negro protestaram e se posicionaram contra a san\u00e7\u00e3o pelo presidente Lula. O protesto desses setores era contra a retirada do Estatuto das reivindica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do movimento, que foram debatidas, acumuladas e sistematizadas durante todo o processo de unifica\u00e7\u00e3o como: demarca\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios Quilombolas, as disposi\u00e7\u00f5es relacionadas a medidas de fato no campo da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas de cotas. J\u00e1 as lideran\u00e7as negras do campo lulista sa\u00edram em defesa do Estatuto aprovado sob a alega\u00e7\u00e3o de que ele significava o avan\u00e7o poss\u00edvel na promo\u00e7\u00e3o da igualdade racial no Brasil. Porem, o \u201cposs\u00edvel\u201d foi mais uma, de tantas outras manobras pol\u00edticas utilizadas pelos representantes da elite branca capitalista brasileira no Congresso Nacional e em todo o aparelho do Estado desde a aboli\u00e7\u00e3o, para impedir, ou no m\u00ednimo, dificultar a cria\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria que removam as barreiras sociais refor\u00e7adas pela discrimina\u00e7\u00e3o racial nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi por acaso, que todos os cortes no texto original do Estatuto foram feitos pelo senador direitista Dem\u00f3stenes Torres do DEM com o aval do senador \u201cnegro\u201d do PT Paulo Paim, apresentador no Congresso do Estatuto original. Todo o esvaziamento no conte\u00fado original resultou em um Estatuto da Igualdade Racial que s\u00f3 serve para dissimular os verdadeiros interesses de classe da elite branca capitalista brasileira e de seus s\u00f3cios internacionais. Uma elite de novos senhores de escravos que sob o manto de uma hip\u00f3crita \u201cdemocracia racial\u201d corroborada agora pelo Estatuto em vigor, arranjou um pacto pol\u00edtico racial com lideran\u00e7as negras governistas, como o fez com lideran\u00e7as de outros setores do movimento social e dos trabalhadores atrav\u00e9s do governo Lula, para garantir a manuten\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, promovida pelo lulismo com continuidade no governo de Dilma Rouseff.<\/p>\n<p>CONCLUS\u00c3O<br \/>\nA derrota do Estatuto da Igualdade Racial rep\u00f5e na ordem do dia a necessidade de se recompor a unidade do Movimento Negro no Brasil, retomando o ponto de partida da estrat\u00e9gia da unidade necess\u00e1ria de todos os oprimidos e explorados pelo capital: a unidade inter-racial da classe trabalhadora brasileira. Do ponto de vista da esquerda marxista revolucion\u00e1ria, a luta contra o racismo n\u00e3o pode ser menosprezada e encarada apenas como uma obscenidade moral, como \u00e9 de fato. Mas, uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que pretenda se inserir na classe trabalhadora brasileira e n\u00e3o enfrenta de fato o racismo que existe nesse pa\u00eds, n\u00e3o vai conseguir dirigir a totalidade da classe e derrotar o capital por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o, porque no Brasil est\u00e1 a segunda maior popula\u00e7\u00e3o de negros do mundo, ficando atr\u00e1s apenas da \u00c1frica. \u00cais, porque, tornou-se necess\u00e1rio entendermos, que a luta contra a opress\u00e3o racial \u00e9 parte indispens\u00e1vel do projeto socialista revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>(1)   Militante da CST, filiado ao PSOL-RJ e colaborador do C\u00edrculo Palmarino<br \/>\nBibliografia:<br \/>\nBARBOSA, M\u00e1rcio \u2013 Frente Negra Brasileira (depoimentos) \/ Ed: Quilombhoje, 1998<br \/>\nCALLINICOS, Alex \u2013 Racismo e Capitalismo \/ Cadernos Socialistas. Ed: Revolutas, 2004 &#8211; SP<br \/>\nCARDOSO, Hamilton \u2013 Hist\u00f3ria Recente (dez anos de movimento negro) \/ TEORIA E DEBATE, Ed: S. F. P &#8211; PT, 1988. Revista Teoria e Debate \u2013 SP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um resumo hist\u00f3rico (publicado na revista Negras e Negros do PSOL) | M\u00e1rio Maka\u00edba (1) INTRODU\u00c7\u00c3O A trajet\u00f3ria do Movimento Negro no Brasil veio se forjando num processo de reelabora\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de constru\u00e7\u00e3o de um movimento de massa, em cada conjuntura hist\u00f3rica da luta de<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-247","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=247"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/247\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}