

	{"id":4472,"date":"2019-07-17T00:08:04","date_gmt":"2019-07-17T00:08:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=4472"},"modified":"2019-07-17T00:09:47","modified_gmt":"2019-07-17T00:09:47","slug":"chernobyl-o-que-devemos-discutir-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2019\/07\/17\/chernobyl-o-que-devemos-discutir-hoje\/","title":{"rendered":"Chernobyl: o que devemos discutir hoje?"},"content":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Castillo (El Socialista, Argentina)<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Priscila Guedes<\/p>\n<p>A s\u00e9rie, co-produzida pelos canais HBO dos Estados Unidos e Sky da Gr\u00e3-Bretanha, se transformou em sucesso mundial. Milh\u00f5es reviveram o desastre ocorrido em 1986 na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e se horrorizaram com o papel decadente e irrespons\u00e1vel cumprido ent\u00e3o pela burocracia stalinista. Mas falta um elemento nesse quadro: o papel criminoso da corrida armamentista e o uso da energia nuclear por parte do capitalismo imperialista.<\/p>\n<p>Chernobyl, a miniss\u00e9rie em cinco cap\u00edtulos escrita por Craig Mazin e dirigida por Johan Renck, \u00e9 cativante e artisticamente impec\u00e1vel. Trata-se, sem d\u00favidas, de uma das melhores produ\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos anos. A recria\u00e7\u00e3o do ambiente dos \u00faltimos anos da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e, inclusive, a precis\u00e3o com que encara os detalhes do ocorrido s\u00e3o impressionantes (os debates sobre se aconteceu exatamente assim ou n\u00e3o s\u00e3o os mesmos que ficaram em aberto depois da cat\u00e1strofe e de forma alguma se devem a inexatid\u00f5es ou falta de investiga\u00e7\u00e3o). A humanidade, dita com todas as letras, que se desprende das hist\u00f3rias de vida dos distintos personagens \u00e9 transcendente. Vale a pena ver a s\u00e9rie e a recomendamos muit\u00edssimo. Mas, n\u00e3o nos escapa que, como produto da ind\u00fastria cultural globalizada, o fato de que seja co-prodizida por dois &#8220;gigantes&#8221; como a ianque HBO e a brit\u00e2nica Sky, nos obriga a discutir qual a intencionalidade pol\u00edtica por tr\u00e1s da s\u00e9rie: tentam mostrar, por meio de um fato hist\u00f3rico real, que &#8220;o socialismo n\u00e3o funciona&#8221; e leva a desastres desse tipo, contrastando subliminarmente com um mundo capitalista onde &#8220;essas coisas n\u00e3o acontecem&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Chernobyl e as responsabilidades da burocracia sovi\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>Dizemos com todas as letras: o papel da burocracia sovi\u00e9tica, conduzida por Gorbachov, foi criminal. Em 26 de abril de 1986, aconteceu o acidente na central nuclear localizada na Ucr\u00e2nia (parte, ent\u00e3o, da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a apenas 17km da fronteira com a tamb\u00e9m ent\u00e3o rep\u00fablica sovi\u00e9tica da Bielorr\u00fassia. Tanto a tecnologia e os materiais utilizados pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para a constru\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria central, como a pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o e, pior ainda, o ocultamento da magnitude do acidente, revelam o car\u00e1ter de uma burocracia stalinista j\u00e1 em sua decad\u00eancia final. A URSS seguia &#8220;correndo atr\u00e1s&#8221; na corrida nuclear contra os Estados Unidos utilizando materiais mais baratos e tecnologias obsoletas. Os privil\u00e9gios dos burocratas e a absoluta falta de democracia e transpar\u00eancia na tomada de decis\u00f5es pol\u00edticas foram parte dos motivos que amplificaram a n\u00edveis indescrit\u00edveis o desastre. Basta mencionar que, em um primeiro momento, o governo de Gorbachov somente reconheceu 9 mortos e 300 hospitalizados quando o tema estava vindo \u00e0 luz pelas medi\u00e7\u00f5es de radia\u00e7\u00e3o que estavam sendo conhecidas nos pa\u00edses ocidentais. As tentativas de se ocultar os fatos, ou as responsabilidades (tentou-se argumentar um suposto &#8220;atentado&#8221; preparado no Ocidente), foram uma constante: o governo sovi\u00e9tico nunca terminou de reconhecer suas responsabilidades e a magnitude do desastre. Mas a realidade n\u00e3o pode ser ocultada: a explos\u00e3o do reator 4 de Chernobyl causou 31 mortes diretas (duas imediatas e 29 nos dias posteriores), mas houve 200mil pessoas submetidas a altas doses de radia\u00e7\u00e3o nos dias seguintes e 600mil durante os trabalhos de descontamina\u00e7\u00e3o. Ainda hoje, a cidade fantasma de Pripyat (evacuada nos dias posteriores a explos\u00e3o) segue registrando niveis de radia\u00e7\u00e3o superiores ao normal, e 5 milh\u00f5es de pessoas vivem em zonas consideradas contaminadas, majoritariamente na Bielorr\u00fassia. Tudo isso produto, sem d\u00favidas, da irresponsabilidade criminosa da burocracia sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>No capitalismo isso n\u00e3o acontece? Three Mile Island e Fukushima<\/strong><\/p>\n<p>As ind\u00fastrias culturais ianque e brit\u00e2nica, nunca inocentes e sempre funcionais aos interesses do capitalismo imperialista, utilizam Chernobyl para &#8220;demonstrar&#8221; os desastres aos quais, supostamente, nos levaria o &#8220;socialismo&#8221;. No entanto, a pr\u00f3pria utiliza\u00e7\u00e3o da tecnologia nuclear nos pa\u00edses imperialistas, primeiro \u00e0 servi\u00e7o da corrida armamentista e depois dos neg\u00f3cios das multinacionais, j\u00e1 deu lugar a acidentes similares. Os dois maiores ocorreram em pa\u00edses capitalistas: Three Mile Island, nos Estados Unidos (1979) e Fukushima, no Jap\u00e3o (2011). Podemos acrescentar outros eventos menores: Chalk River (1952 e 1958), no Canad\u00e1, Tokaimura (1999), no Jap\u00e3o, Vandell\u00f3s I (1989), na Espanha, e Windscale Pile (1957), na Gr\u00e3 Bretanha.<\/p>\n<p>Hoje, que o desastre de Chernobyl volta ao debate a partir da miniss\u00e9rie da HBO e Sky, segue tendo plena vig\u00eancia o que dissemos ent\u00e3o a partir de nossa corrente internacional: &#8220;Sob pretexto de qualificar as usinas nucleares sovi\u00e9ticas de &#8216;r\u00fasticas&#8221; e inseguras, ocultam ao mundo que um desastre nuclear tamb\u00e9m pode acontecer no Ocidente. O af\u00e3 de lucro dos monop\u00f3lios imperialistas faz com que eles pr\u00f3prios desenvolvam usinas nucleares, talvez mais seguras, mas que tampouco levam em conta o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o faz muito que ficou demonstrado pelo grave acidente de Three Mile Island, em pleno cora\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos. (&#8230;) A energia at\u00f4mica \u00e9 qualitativamente superior a outras energias descobertas e aproveitadas pelo homem. \u00c9 a mais alta express\u00e3o do progresso tecnol\u00f3gico e dos desenvolvimento das for\u00e7as produtivas materiais da civiliza\u00e7\u00e3o atual. (&#8230;) O maior perigo prov\u00e9m de quem controla a energia at\u00f4mica: imperialistas e burocratas que impedem os povos de terem controle direto. (&#8230;) Frente esse perigo, todos os governos que produzem armas at\u00f4micas s\u00e3o irrespons\u00e1veis! N\u00e3o temos confian\u00e7a nos governos e nos monop\u00f3lios imperialistas que, para garantir o lucro de seus empres\u00e1rios, est\u00e3o dispostos a ir \u00e0 guerra nuclear. (&#8230;) N\u00e3o questionamos a t\u00e9cnica e o progresso! Questionamos o uso irrespons\u00e1vel dessa t\u00e9cnica que leva \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o de nossa civiliza\u00e7\u00e3o! (&#8230;) Para evitar um desastre at\u00f4mico, coloquemos fim a utiliza\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel da energia nuclear pelo imperialismo e a burocracia! (Declara\u00e7\u00e3o do Secretariado da LIT-QI, corrente antecessora da UIT-QI, a qual pertence Izquierda Socialista, no Correio Internacional, Ano III, N\u00famero 20, junho de 1986).<\/p>\n<p><strong>Svetlana Alexievich: Vozes de Chernobyl<\/strong><\/p>\n<p>A escritora bielorrusa recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura em 2015. Uma de suas obras mais destacadas foi, justamente, &#8220;Vozes de Chernobyl&#8221;, em que, utilizando de seu particular estilo (similar a reportagens onde se d\u00e1 palavra aos testemunhos dos fatos), apresenta v\u00e1rias das hist\u00f3rias que depois apareceram na miniss\u00e9rie. Vergonhosamente, seu nome n\u00e3o aparece sequer nos cr\u00e9ditos da produ\u00e7\u00e3o da HBO e Sky.<\/p>\n<p>Alexievich \u00e9 uma das melhores escritoras da realidade sovi\u00e9tica. Suas obras comprovam isso. &#8220;Os meninos de zinco&#8221; s\u00e3o testemunhos sobre os soldados sovi\u00e9ticos enviados aos Afeganist\u00e3o entre 1979 e 1986. Seus dois livros sobre a Segunda Guerra Mundial (&#8220;\u00daltimas testumanhas. Crian\u00e7as na Segunda Guerra Mundial&#8221; e &#8220;A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher&#8221;) s\u00e3o imperd\u00edveis. E seus trabalhos sobre a sociedade russa e bielorussa depois da dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (&#8220;Fascinados pela morte&#8221; e &#8220;O fim do homem sovi\u00e9tico&#8221;) s\u00e3o o que h\u00e1 de melhor para compreender o que passou ent\u00e3o, mostrando a fundo a contradi\u00e7\u00e3o entre uma sociedade que queria p\u00f4r abaixo (e conseguiu) a ditadura burocr\u00e1tica, mas que o fazia com tremendas expectativas, posteriormente frustradas, no capitalismo. Karl Marx havia dito: &#8220;Nada de humano me \u00e9 estranho&#8221;. Svetlana, com sua obra, leva essa frase a sua m\u00e1xima express\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A corrida armamentista desatada pelo imperialismo ianque<\/strong><\/p>\n<p>Por que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica construiu usinas nucleares com tecnologia obsoleta e materiais perigosos? Mais ainda, por que tratou de esconder do mundo o acidente, temerosos de que a URSS perdesse o &#8220;prest\u00edgio&#8221; como pot\u00eancia nuclear?<\/p>\n<p>A origem disso tudo se encontra na corrida armamentista desatada pelo imperialismo ianque ao final da Segunda Guerra Mundial. De fato, mal se havia dado o passo extraordin\u00e1rio de come\u00e7ar a operar a tecnologia nuclear e todos os esfor\u00e7os foram voltados para a produ\u00e7\u00e3o de armamentos. Assim, o mundo conheceu o poder demolidor das bombas at\u00f4micas quando foram lan\u00e7adas em 1945 contra Hiroshima e Nagasaki. Nos anos posteriores, se desencadeou uma corrida armamentista que fez com que, em poucos anos, as pot\u00eancias imperialistas, de longe com os Estados Unidos a frente, tivessem uma pot\u00eancia nuclear destrutiva capaz de destruir v\u00e1rias vezes o planeta. Tudo a servi\u00e7o de manter a supremacia pol\u00edtica, econ\u00f4mica e militar. A burocracia sovi\u00e9tica, que havia acordado as zonas de influ\u00eancia por meio dos acordos de Yalta e Potsdam, ao mesmo tempo que cumpria o papel contrarrevolucion\u00e1rio de fiador desse pacto, se viu empurrada a ter que &#8220;competir&#8221; em armamento (e, portanto, investiga\u00e7\u00e3o e desenvolvimento at\u00f4mico em geral) com os Estados Unidos. Junto com a falta de democracia oper\u00e1ria, o sigilo e a defesa dos privil\u00e9gios da casta burocr\u00e1tica (que inclu\u00eda os respons\u00e1veis do desenvolvimento nuclear), constituiu um &#8220;combo&#8221; que terminou explodindo com o desastre de Chernobyl.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Castillo (El Socialista, Argentina) Tradu\u00e7\u00e3o: Priscila Guedes A s\u00e9rie, co-produzida pelos canais HBO dos Estados Unidos e Sky da Gr\u00e3-Bretanha, se transformou em sucesso mundial. 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