

	{"id":537,"date":"2015-04-01T17:27:00","date_gmt":"2015-04-01T17:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2015\/04\/01\/arquivoid-9572\/"},"modified":"2015-04-01T17:27:00","modified_gmt":"2015-04-01T17:27:00","slug":"arquivoid-9572","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2015\/04\/01\/arquivoid-9572\/","title":{"rendered":"Os 80 anos da ANL e o debate entre Stalinistas e Trotskistas no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>|<\/p>\n<p>Por Diego Silva \u2013 CST\/PSOL SP<\/p>\n<p>O que foi a ANL?<\/p>\n<p>A Alian\u00e7a Nacional Libertadora, criada oficialmente em mar\u00e7o de 1935, foi um movimento pol\u00edtico que continha pautas democr\u00e1ticas e que tinha como objetivo dos seus fundadores lutar contra a influ\u00eancia do fascismo no Brasil. Foi uma frente policlassista, que reuniu nas suas fileiras desde militantes do PCB at\u00e9 membros da burguesia. Em sua composi\u00e7\u00e3o social, a ANL teve influ\u00eancia pol\u00edtica fundamental dos tenentes descontentes com a pol\u00edtica do Governo Vargas. Os tenentistas (movimento pequeno-burgu\u00eas que reunia setores do baixo oficialato do ex\u00e9rcito pela \u201cmoraliza\u00e7\u00e3o\u201dda pol\u00edtica) tiveram, ao lado do PCB, um papel dirigente no interior da ANL. Como resultado disso, Herculino Cascardo, antigo l\u00edder do movimento tenentista, foi eleito o presidente do diret\u00f3rio nacional da ANL. Para simbolizar essa unidade dos tenentistas com o PCB, foi escolhido como presidente de honra da ANL, Lu\u00eds Carlos Prestes, que no momento de sua funda\u00e7\u00e3o se encontrava na URSS.<\/p>\n<p>Em Julho de 1935, ap\u00f3s o lan\u00e7amento de um manifesto com duras cr\u00edticas ao governo Vargas, a ANL foi posta na ilegalidade. Ainda assim, funcionou at\u00e9 novembro de 1935. Ap\u00f3s o desastroso levante armado de 1935, fruto de uma an\u00e1lise da realidade completamente equivocada que fez a dire\u00e7\u00e3o do PCB, a ANL foi completamente desmantelada. Apesar do per\u00edodo de curta dura\u00e7\u00e3o, a ANL teve um peso de massas, o que fortalece a necessidade do seu estudo. Chegou a atingir em poucos meses a marca de 50 mil filiados.<\/p>\n<p>O ascenso do Integralismo no in\u00edcio dos anos 30<\/p>\n<p>Para o estudo e debate sobre a ANL, nos ajuda precisarmos historicamente os avan\u00e7os concretos do fascismo brasileiro \u00e0 \u00e9poca. Poucos anos antes, em 1932, havia sido fundada a A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira, organiza\u00e7\u00e3o com car\u00e1ter abertamente fascista que estava influenciada diretamente pelas experi\u00eancias europeias. Na It\u00e1lia, Mussolini estava no poder desde 1923; e, na Alemanha, Hitler chega ao poder em 1933, no contexto de alguns anos de fortalecimento pol\u00edtico ap\u00f3s a crise de 29 que leva a economia do pa\u00eds \u00e0 ru\u00edna. Aqui no Brasil, os fascistas tiveram forte ascen\u00e7\u00e3o nos anos 30, chegando a editar 114 jornais e 4 revistas em todo pa\u00eds, e contar com mais de um milh\u00e3o de membros filiados na AIB. Desde sua funda\u00e7\u00e3o, os integralistas e seu chefe Pl\u00ednio Salgado, tiveram boa rela\u00e7\u00e3o com o governo Vargas, que os deixava atuar livremente e combater pela for\u00e7a o movimento oper\u00e1rio e suas correntes pol\u00edticas. Por\u00e9m, em 1937, com o golpe de Vargas e cria\u00e7\u00e3o do Estado Novo, Vargas coloca a AIB na ilegalidade, junto com diversas correntes pol\u00edticas a sua direita e a sua esquerda, concentrando praticamente a totalidade do poder em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Os stalinistas brasileiros e a ANL<\/p>\n<p>O Partido Comunista Brasileiro foi uma for\u00e7a pol\u00edtica fundamental da ANL. Fundado em 1922, o PCB j\u00e1 contava com certa implementa\u00e7\u00e3o na classe oper\u00e1ria. O contexto no qual o PCB aposta suas fichas na funda\u00e7\u00e3o da ANL, deve ser entendido no marco internacional.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, o partido era filiado \u00e0 Internacional Comunista, organiza\u00e7\u00e3o que centralizava a atua\u00e7\u00e3o dos PCs no mundo inteiro. J\u00e1 completamente dominada por Stalin e pela burocracia sovi\u00e9tica, a Internacional n\u00e3o passava mais de um aparato pol\u00edtico burocr\u00e1tico a servi\u00e7o de manter os interesses e privil\u00e9gios da burocracia stalinista dominante na URSS. Foi nessa \u00e9poca, em seu VII Congresso, ocorrido em Moscou no ano de 1935, que a Internacional Comunista vota a pol\u00edtica da Frente Popular. Esta orienta\u00e7\u00e3o, em s\u00edntese, significava a unidade de todas as for\u00e7as que se diziam contra o fascismo. Como havia, em todos os pa\u00edses capitalistas, um setor da burguesia que se autodenominava \u201cdemocr\u00e1tico&quot;, era preciso formar Frentes Populares com estes setores, onde se agregaria tamb\u00e9m a pequena-burguesia democr\u00e1tica. Essa orienta\u00e7\u00e3o levou ao completo desastre, j\u00e1 que os fortes partidos comunistas do mundo todo tinham como centro da sua pol\u00edtica se aliar a um setor \u201cdemocr\u00e1tico\u201d da burguesia nacional.<\/p>\n<p>Seguindo claramente a orienta\u00e7\u00e3o de moscou, a pol\u00edtica do PCB j\u00e1 come\u00e7ava a mudar em rela\u00e7\u00e3o ao chefe militar pequeno-burgu\u00eas Luis Carlos Prestes. Este mesmo esteve na URSS em 1934, de onde voltou convertido ao Stalinismo. Na funda\u00e7\u00e3o da ANL, Prestes se encontrava em Moscou, mas mesmo assim foi aclamado por unanimidade o Presidente de Honra da ANL. O manifesto, supostamente \u201cradical\u201dde Prestes de Julho de 1935, que combinava capitula\u00e7\u00f5es \u00e0 burguesia com um palavreado \u201cradical\u201d, dizia claramente sua estrat\u00e9gia: \u201cS\u00f3 as grandes massas juntamente com a parte da burguesia nacional, n\u00e3o vendida ao imperialismo, ser\u00e3o capazes de, atrav\u00e9s de um governo popular revolucion\u00e1rio, acabar com esse regionalismo, com a desigualdade monstruosa que a domina\u00e7\u00e3o dos fazendeiros e imperialistas imp\u00f4s ao pa\u00eds.\u201d Ou seja, nesta curta frase, em meio a um manifesto cheio de fraseologia oca politicamente, onde se chegou a dizer \u201cTodo Poder \u00e0 ANL\u201d, Prestes e o PCB clarificavam sua estrat\u00e9gia, que os trabalhadores e as grandes massas deveriam marchar ao lado do setor da burguesia nacional, \u201cn\u00e3o vendido\u201d ao imperialismo. Essa foi a express\u00e3o de uma pol\u00edtica suicida para os trabalhadores, confiar que havia um setor da burguesia nacional que poderia ser aliada na instala\u00e7\u00e3o de um governo revolucion\u00e1rio, que retirasse o pa\u00eds da domina\u00e7\u00e3o do imperialismo.<\/p>\n<p>Os trotskistas brasileiros e a ANL<\/p>\n<p>Havia, no Brasil, desde o final da d\u00e9cada de 20, um importante grupo de seguidores de Leon Trotsky. Este pequeno e seleto grupo contava com importantes intelectuais como M\u00e1rio Pedrosa e Rodolfo Coutinho. Tamb\u00e9m contava com certa implementa\u00e7\u00e3o na classe oper\u00e1ria, com o grande dirigente oper\u00e1rio Jo\u00e3o da Costa Pimenta e importantes dirigentes da combativa Uni\u00e3o dos Trabalhadores Gr\u00e1ficos, que foi um importante laborat\u00f3rio do trotskismo brasileiro em sua estrat\u00e9gia de implementa\u00e7\u00e3o no seio da classe. Este grupo se chama \u00e0 \u00e9poca Liga Comunista Internacionalista. Estavam armados pela teoria da revolu\u00e7\u00e3o permanente de Trotsky, que via que somente o proletariado com o poder em m\u00e3os poderia executar as tarefas democr\u00e1ticas pendentes nos pa\u00edses de capitalismo atrasado. Aplicando a revolu\u00e7\u00e3o permanente de Trotsky \u00e0 realidade objetiva do Brasil dos anos 30, os trotskistas viam que n\u00e3o havia nenhuma possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o que retirasse o Brasil do dom\u00ednio imperialista ao lado da burguesia nacional. Ao contr\u00e1rio do PCB, que via a revolu\u00e7\u00e3o brasileira como uma revolu\u00e7\u00e3o feita por etapas, onde primeiro era preciso o proletariado se aliar \u00e0 burguesia nacional e um setor desta encabe\u00e7aria a revolu\u00e7\u00e3o nacional e antiimperialista, desenvolvendo de forma independente o capitalismo nacional, para que um dia, num futuro incerto, fosse colocado ao proletariado a possiblidade de tomada do poder. Os trotskistas colocavam que burguesia brasileira, assim como foi a com burguesia russa na Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917, n\u00e3o era capaz de desenvolver o capitalismo de forma independente e nem conceder as grandes massas conquistas democr\u00e1ticas como a reforma agr\u00e1ria e o fim do latif\u00fandio, para isso era preciso que o proletariado, encabe\u00e7ado por um partido bolchevique, tomasse o poder em suas m\u00e3os, aliados aos camponeses pobres.<\/p>\n<p>Essa profunda diverg\u00eancia te\u00f3rica levou o PCB a durante quase toda sua trajet\u00f3ria buscar alian\u00e7as com setores da burguesia, o que s\u00f3 levou a derrotas e grosseiras capitula\u00e7\u00f5es. Enquanto isso, os trotskistas dos anos 30 batalharam sempre pela independ\u00eancia pol\u00edtica do proletariado frente a qualquer setor da burguesia nacional.<br \/>\nSobre estas diverg\u00eancias acerca do car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o no Brasil, os trotskistas criticaram profundamente o programa da ANL. No Jornal a Luta de Classe diziam: \u201cO programa da ANL \u00e9 uma abjecta sopa ideol\u00f3gica na qual entram alguns detalhes do \u201cmarxismo\u201d para lhe dar um sabor mais picante a seu nacionalismo patriota. O programa e a dire\u00e7\u00e3o completam a receita: pois foi em favor dessa confus\u00e3o, em todos os sentidos, que o chamado Partido Comunista Brasileiro abdicou de sua pretens\u00e3o de dirigir a luta antiimperialista das massas. [&#8230;] A for\u00e7a motriz principal da revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o  proletariado, sen\u00e3o a pequena burguesia. O instrumento principal da revolu\u00e7\u00e3o, da realiza\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a oper\u00e1ria e camponesa, n\u00e3o \u00e9 o partido da vanguarda prolet\u00e1ria, o partido forjado por Lenin, o partido bolchevique, sen\u00e3o um \u201cmovimento\u201d de pequeno- burgueses pela liberta\u00e7\u00e3o nacional do Brasil, encabe\u00e7ada pela burguesia nacional\u201d<\/p>\n<p>Um debate que segue vivo<\/p>\n<p>O debate entre trotskistas e stalinistas no Brasil dos anos 30 tem tremenda atualidade.<br \/>\nNo que diz respeito ao debate sobre o papel da burguesia nacional no enfrentamento ao imperialismo, a imensa maioria da esquerda brasileira n\u00e3o tirou conclus\u00f5es necess\u00e1rias sobre a hist\u00f3ria do PCB, marcada por capitula\u00e7\u00f5es fruto de uma vis\u00e3o etapista do processo revolucion\u00e1rio no Brasil. A ANL \u00e9 apenas mais um cap\u00edtulo dela. <\/p>\n<p>Os que insistem em procurar com uma lupa algum setor progressivo da \u201cnossa\u201d burguesia, somente estar\u00e3o pavimentando o caminho de novas derrotas. O exemplo da trai\u00e7\u00e3o do PT, que optou por governar com a burguesia e inevitavelmente acabou governando para a burguesia e contra os trabalhadores, provavelmente \u00e9 o exemplo mais pr\u00f3ximo que temos na esquerda brasileira.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de \u201crevolu\u00e7\u00e3o por etapas\u201d que levou a partidos o PCB a frentes permanentes com setores da burguesia e a prestar seu apoio pol\u00edtico a governos como Vargas e Jo\u00e3o Goulart, foi um verdadeiro desastre para a esquerda. Por isso, \u00e9 fundamental estudar e tirar conclus\u00f5es pr\u00e1ticas das experi\u00eancias fracassadas do PCB, que foi durante d\u00e9cadas o principal partido de esquerda que tivemos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os trotskistas dos anos 30 foram uma corrente pol\u00edtica que deixou um grande legado de elabora\u00e7\u00e3o sobre a realidade brasileira. Acreditamos que as novas gera\u00e7\u00f5es de revolucion\u00e1rios tem o dever de aprender com os escritos e a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deste agrupamento pol\u00edtico que, sob fort\u00edssima press\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o da burguesia, dos integralistas e tamb\u00e9m do pr\u00f3prio PCB, manteve viva a tradi\u00e7\u00e3o do marxismo revolucion\u00e1rio no conturbado e polarizado Brasil dos anos 30.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Por Diego Silva \u2013 CST\/PSOL SP O que foi a ANL? 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