

	{"id":6022,"date":"2020-04-05T14:20:31","date_gmt":"2020-04-05T14:20:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=6022"},"modified":"2020-04-05T14:20:31","modified_gmt":"2020-04-05T14:20:31","slug":"nos-temos-que-reinventar-um-novo-modo-de-vida-diz-ricardo-antunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2020\/04\/05\/nos-temos-que-reinventar-um-novo-modo-de-vida-diz-ricardo-antunes\/","title":{"rendered":"N\u00f3s temos que reinventar um novo modo de vida, diz Ricardo Antunes."},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Contrapoder<\/h6>\n<p>No contexto de aprofundamento da crise, conversamos com o professor Ricardo Antunes sobre os impactos da crise econ\u00f4mica, do Coronav\u00edrus e a luta de classes<\/p>\n<p><strong>Contrapoder: Como as crises da sa\u00fade e econ\u00f4mica impactar\u00e3o as lutas dos trabalhadores?<\/strong><\/p>\n<p><em>Ricardo Antunes:<\/em> A crise do coronav\u00edrus, a crise econ\u00f4mica e a imbrica\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica que h\u00e1 entre elas vai ter impacto profundo na luta da classe trabalhadora. Primeiro, teremos um processo de intensifica\u00e7\u00e3o do empobrecimento e miserabilidade de parcelas importantes da classe trabalhadora que j\u00e1 vivenciam formas intensas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho e de precariza\u00e7\u00e3o, uma vez que muitos dos seus contingentes est\u00e3o desprovidos de direitos. S\u00f3 para dar alguns exemplos: n\u00f3s temos hoje mais de 40% da classe trabalhadora na informalidade, n\u00f3s temos uma massa que n\u00e3o para de se expandir, em torno de 5 milh\u00f5es ou mais de trabalhadores que experimentam as condi\u00e7\u00f5es de uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho, o trabalho nas plataformas digitais e nos aplicativos, como Uber, Uber Eats, 99, Cabify, Rappi, Ifood, Amazon etc.<\/p>\n<p>Uma mir\u00edade de empresas que se utilizam de uma intensa explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, completamente desprovidos de direitos.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o segredo destas corpora\u00e7\u00f5es globais: trata-se de uma alquimia nefasta que propicia que estes grandes conglomerados (que n\u00e3o param de se enriquecer), apresentem os trabalhadores e as trabalhadoras (sempre nessa dimens\u00e3o \u201cd\u00faplice\u201d dada a divis\u00e3o sociossexual do trabalho) como sendo \u201cprestadores de servi\u00e7os\u201d, e assim praticam uma burla, t\u00edpica da raz\u00e3o instrumental, que \u00e9 exclu\u00ed-l\u00f3s completamente dos direitos do trabalho.<\/p>\n<p>E isso ocorre na fase mais destrutiva da raz\u00e3o instrumental, sob hegemonia do capital financeiro e em um per\u00edodo de\u00a0<em>crise estrutural prolongada<\/em>, que agora atinge o fundo do po\u00e7o, o lodo do po\u00e7o. O que estamos vendo, ent\u00e3o, \u00e9 uma corros\u00e3o, um desmoronamento, uma elimina\u00e7\u00e3o completa e brutal dos direitos do trabalho.<\/p>\n<p>Qual a maior consequ\u00eancia disso? N\u00f3s teremos uma massa de trabalhadores\/as sem condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia m\u00ednima, tangenciando uma fome profunda. Por exemplo, se as crian\u00e7as n\u00e3o v\u00e3o \u00e0s escolas p\u00fablicas nesse momento, para impedir a explos\u00e3o do coronav\u00edrus, elas n\u00e3o tem como se alimentar. Assim \u00e9 o capitalismo na sua express\u00e3o brasileira, perif\u00e9rica e do sul do mundo. O que estampa a sua trag\u00e9dia,\u00a0 sua brutal contradi\u00e7\u00e3o: \u00e9 preciso que haja isolamento social e, consequentemente, para se preservar do v\u00edrus letal, a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora precisa ficar em casa; se n\u00e3o ficarem, porque tem que trabalhar para sobreviver, elas adoecem e v\u00e3o morrer em maior quantidade. S\u00f3 mesmo o capitalismo \u00e9 capaz de vilip\u00eandio t\u00e3o desumano.<\/p>\n<p>O primeiro imperativo desse momento, a primeira luta decisiva hoje, \u00e9 a de que nenhum trabalhador\/a fique sem sal\u00e1rio, porque precisa alimentar a si e a sua fam\u00edlia. E n\u00e3o me venha com os 200 reais do Guedes, porque isso \u00e9 a express\u00e3o da indig\u00eancia do mundo que n\u00f3s estamos, da indig\u00eancia perif\u00e9rica e mesmo os 600 reais aprovados n\u00e3o pagam sequer o custo para alugar um quarto com banheiro e cozinha numa comunidade. E como far\u00e3o para comer? \u00c9 vexat\u00f3rio e inaceit\u00e1vel, \u00e9 necess\u00e1ria uma renda m\u00ednima emergencial, de pelo menos tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos, que permita ao trabalhador\/a sustentar a si e a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias sociais s\u00e3o profundas: o isolamento social, enquanto condi\u00e7\u00e3o para sobreviv\u00eancia, \u00e9 necess\u00e1ria, mas para mudar radicalmente esse quadro de trag\u00e9dias, s\u00f3 com grandes manifesta\u00e7\u00f5es de massa e de rua, onde se poderia externar a sua repulsa frente \u00e0 completa condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de vida.<\/p>\n<p>Mas isso agora n\u00e3o pode ocorrer, porque ampliam ainda mais as possibilidades de agravamento da crise do coronav\u00edrus na classes trabalhadora que n\u00e3o ter\u00e1\u00a0 hospitais p\u00fablicos dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Mesmo o SUS, sendo um sistema de sa\u00fade p\u00fablico digno,\u00a0 vem sendo destro\u00e7ado pelos governos neoliberais, situa\u00e7\u00e3o brutalmente agravada com o Temer, que aprovou a acintosa PEC do Fim do Mundo, que impede que novos recursos sejam feitos na sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e previd\u00eancia. Que dizer de uma burguesia que imp\u00f4s este monstrengo? Ent\u00e3o, este governo atual, o pior de toda a longa hist\u00f3ria republicana no Brasil, est\u00e1 incapacitado de fazer isso e\u00a0 \u00e9 contr\u00e1rio a qualquer medida social em profundidade.<\/p>\n<p><strong>Contrapoder: Qual deveria ser a atitude dos sindicatos para minimizar os efeitos perversos das crises sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores?<\/strong><\/p>\n<p><em>Ricardo Antunes<\/em>: Os desafios s\u00e3o profundos. Devem desde logo apresentar um conjunto de reivindica\u00e7\u00f5es absolutamente imprescind\u00edveis, por exemplo: a primeira, como disse acima, \u00e9 que todos os trabalhadores\/as precisam ter direito de remunera\u00e7\u00e3o imediata para sua sobreviv\u00eancia e da sua fam\u00edlia; a segunda \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais trabalhadores\/as na informalidade, esse \u00e9 o desafio crucial dos sindicatos, lutarem pela revoga\u00e7\u00e3o da contrarreforma trabalhista do Temer e aquelas do\u00a0<em>governo-de-tipo-lumpen<\/em>\u00a0de Bolsonaro. O trabalho intermitente, negocia\u00e7\u00e3o individual, a preval\u00eancia do negociado sob o legislado,tudo isso deve ser abolido completamente da pauta social da classe trabalhadora, isso \u00e9 vital.<\/p>\n<p>Isso porque quando se tem trabalho intermitente, informal, trabalho sem direitos, em condi\u00e7\u00f5es normais j\u00e1 \u00e9 uma brutalidade social; mas, em condi\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas e de calamidade, vira um inferno intermin\u00e1vel, sem fim, enquanto as classes burguesas e as classes m\u00e9dias altas podem se fechar e se isolar nas suas casas e condom\u00ednios, com seus privil\u00e9gios e confortos. O m\u00e1ximo do sofrimento que elas t\u00eam \u00e9 n\u00e3o poder sair \u00e0s ruas. Mas os assalariados pobres vivem um vilip\u00eandio incomparavelmente maior, n\u00e3o t\u00eam casas dignas para fazer o seu isolamento e, mais tr\u00e1gico ainda, s\u00e3o obrigadas a sair para procurar um trabalho qualquer, se n\u00e3o quiserem morrer de fome.<\/p>\n<p>Por fim, ainda no plano mais imediato, qualquer governo deveria drenar todos os recursos para salvar a vida da sua popula\u00e7\u00e3o trabalhadora, menos esse, por motivos que s\u00e3o \u00f3bvios. Mas \u00e9 preciso taxar os lucros do grande capital (com \u00eanfase particular nos lucros do sistema financeiro), tributar duramente as\u00a0 grandes fortunas e suspender a d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Contrapoder: Quais os desafios pol\u00edticos e sindicais mais urgentes?<\/strong><\/p>\n<p><em>Ricardo Antunes:<\/em> Os sindicatos e os partidos est\u00e3o obrigados a repensar um\u00a0<em>novo modo de vida<\/em>, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel aceitar esse mundo atual capitalista com seu sistema de metabolismo\u00a0<em>antissocial<\/em>\u00a0e profundamente\u00a0<em>destrutivo<\/em>, destr\u00f3i a natureza, destr\u00f3i o trabalho, aumenta as opress\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a e etnia, aumenta as discrimina\u00e7\u00f5es contra a popula\u00e7\u00e3o LGBT, vilipendia as comunidades ind\u00edgenas, que garante a \u201cboa vida\u201d para alguns poucos que controlam a riqueza mundial. Que mundo \u00e9 esse? E \u00e9 dura ver que ainda temos uma parte da esquerda que tenta\u00a0<em>consertar o inconsert\u00e1vel<\/em>.<\/p>\n<p>O desafio das esquerdas sociais, pol\u00edticas e sociais \u00e9\u00a0<em>reinventar um novo modo de vida,<\/em>\u00a0que parta da vida comunit\u00e1ria e n\u00e3o mais do\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0privatista. H\u00e1 aqui um ponto que considero muito importante, talvez o elemento mais importante que possa nascer dessa luta brutal que a classe trabalhadora est\u00e1 fazendo para sobreviver nas periferias, nos bairros oper\u00e1rios e nas comunidades populares, nas comunidades ind\u00edgenas, que \u00e9 o\u00a0<em>desafio da auto-organiza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Desse governo, \u00e9 preciso enfatizar, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esperar nada. \u00c9 uma variante de desgoverno que combina desqualifica\u00e7\u00e3o, desequil\u00edbrio, ide\u00e1rio fascista e capitalismo excludente e brutal; que \u00e9 completamente dependente dos interesses das mais distintas fra\u00e7\u00f5es burguesas, do imp\u00e9rio norte-americano e que implementa uma pol\u00edtica destrutiva desde o come\u00e7o que n\u00e3o faz outra coisa sen\u00e3o destro\u00e7ar a\u00a0<em>res publica<\/em>\u00a0(tudo que \u00e9 p\u00fablico e que funciona nesse pa\u00eds foi destru\u00eddo e agora estamos vendo as consequ\u00eancias profundas disso na sa\u00fade p\u00fablica). O \u00faltimo exemplo de monta foi a destrui\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia p\u00fablica, que ter\u00e1 tamb\u00e9m que ser revogada.<\/p>\n<p>Ou seja, a auto-organiza\u00e7\u00e3o popular talvez seja o principal elemento desse per\u00edodo. Sabemos que h\u00e1 uma fragiliza\u00e7\u00e3o dos sindicatos, al\u00e9m da\u00a0 acomoda\u00e7\u00e3o dos seus setores mais cupulistas e conciliadores, da acomoda\u00e7\u00e3o negocial dos seus setores mais burocratizados. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um real desafio para o sindicalismo de classe e de base, que est\u00e3o desafiados a representar um conjunto mais amplo, comp\u00f3sito e heterog\u00eaneo que comp\u00f5em a classe trabalhadora em sua nova morfologia.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, ent\u00e3o, reinventar um sindicalismo de classe, aut\u00f4nomo e ideologicamente anticapitalista, fundado nos interesses reais da classe trabalhadora e que n\u00e3o tenha nenhuma ilus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao papel do Estado, por exemplo. Claro que o estado tem que ser pressionado a tomar medidas que beneficiem a classe trabalhadora em momentos como esse, mas n\u00e3o se pode ter a ilus\u00e3o de que o estado ser\u00e1 o\u00a0<em>ente pol\u00edtico<\/em>\u00a0capaz de transformar a sociedade. Quem transforma a sociedade \u00e9 a coletividade e n\u00e3o o estado.<\/p>\n<p>Assim, as esquerdas majorit\u00e1rias e dominantes n\u00e3o podem mais continuar seguindo sua rota tradicional; o desafio da esquerda social, se quiser se reinventar, ser\u00e1 o de colar nos interesses cotidianos dos trabalhadores\/as e n\u00e3o ter vergonha de apresentar um\u00a0<em>novo projeto humano e social, um novo modo de vida.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Vejamos um exemplo muito claro deste tipo de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: como essa esquerda fica temerosa de apresentar um projeto de sociedade\u00a0<em>verdadeiramente novo,\u00a0<\/em>que toque nas quest\u00f5es vitais da vida da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora,\u00a0 para n\u00e3o \u201cperder a elei\u00e7\u00e3o\u201d, ela se confunde com a vala comum do centr\u00e3o. E se, por algumas circunst\u00e2ncia particulares, ela vence as elei\u00e7\u00f5es, sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o apresentar\u00e1 nada de novo, pois os \u201ccompromissos\u201d assumidos com todas as classes lhe impede de tomar qualquer medida mais ousada e de confronta\u00e7\u00e3o. A\u00ed, ela acaba por fazer o que a \u201cdireita gosta\u201d, at\u00e9 a hora em que esta se cansa e resolve\u00a0 trocar de governo, seja pelo golpe, seja pela elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O exemplo \u00e9 simples, mas seu elemento causal \u00e9 bastante complexo.<\/p>\n<p>O resultado ainda mais tr\u00e1gico de tudo isso: \u00e9 a extrema-direita, no mundo inteiro, est\u00e1 assumindo uma posi\u00e7\u00e3o agressiva, \u201cantissist\u00eamica\u201d, \u201ccapaz de mudar o mundo\u201d, mesmo sabendo que sua propositura aberrante \u00e9 a porta de entrada para o inferno de Dante, \u00e9 propriamente a da finitude a vida civilizada.<\/p>\n<p><strong>Contrapoder: Na It\u00e1lia explodiram greves selvagens, porque o governo inicialmente n\u00e3o decretou quarentena total, acha que pode acontecer no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><em>Ricardo Antunes:<\/em> Claro, a manchete da Folha de SP (29\/03) \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem alimentos e come\u00e7a a sair em busca de alimenta\u00e7\u00e3o. Quando a popula\u00e7\u00e3o se v\u00ea ante ao desespero completo e percebe que o estado e governos n\u00e3o tomam medidas para minimizar isso, quais s\u00e3o as alternativas que ela tem? \u00c9 evidente que teremos manifesta\u00e7\u00f5es desse tipo, como na It\u00e1lia, que tem visto a eclos\u00e3o de v\u00e1rias greves oper\u00e1rias exigindo a suspens\u00e3o de atividades que levam \u00e0 morte da classe trabalhadora.\u00a0 E hoje h\u00e1 cenas que mostram a que os setores mais empobrecidos da classe trabalhadora italiana tomando supermercados porque est\u00e1 com fome e necessita de alimentos e n\u00e3o tem recursos para compr\u00e1-los. E sabemos que a It\u00e1lia n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds fam\u00e9lico como o nosso, a fome l\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma trag\u00e9dia estrutural como aqui, onde a fome \u00e9 parte do cotidiano da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, essas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito importantes porque agora tem uma grita dos empres\u00e1rios predadores e predat\u00f3rios, onde se enquadra uma parte expressiva do empresariado brasileiro, exigindo a volta ao trabalho. Mas como a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora vai fazer, vai voltar ao trabalho, \u00e0s f\u00e1bricas e \u00e0s empresas, para se contaminar? Vai voltar aos call-center e para esse mundo do trabalho uberizado? Ela vai deixar de fazer o isolamento social sabendo que assim corre risco muito maior de ser contaminada?\u00a0 Mesmo quando estamos vendo no Brasil evid\u00eancias de que uma parcela expressiva, abaixo de 60 anos, tamb\u00e9m est\u00e1 sendo contaminada?<\/p>\n<p>Essa popula\u00e7\u00e3o trabalhadora precisa do apoio \u00e9 a\u00e7\u00e3o dura dos sindicatos e de seus \u00f3rg\u00e3os coletivos e comunit\u00e1rios, impedindo que a classe trabalhadora\u00a0 seja obrigada a aceitar a chantagem patronal; ela n\u00e3o deve voltar (ou se manter) no trabalho, salvo os trabalhos que s\u00e3o absolutamente vitais para a sobreviv\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o, como m\u00e9dicos, das enfermeiras e auxiliares, que trabalham heroicamente e sob condi\u00e7\u00f5es de absoluta precariedade, \u00e9 imprescind\u00edvel dizer, sem os quais a vida humana ser\u00e1 dizimada.<\/p>\n<p>Assim, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve trabalhar para enriquecer o empresariado predador, e quem tem trabalho deve receber seu sal\u00e1rio integral enquanto perdurar a pandemia e os desempregados devem receber do estado, como j\u00e1 indicamos, uma renda que permita sua sobreviv\u00eancia. E esse \u00e9 o primeiro desafio deste nosso tr\u00e1gico momento.<\/p>\n<p><strong>Contrapoder: A longo prazo, quais os impactos da crise do coronav\u00edrus na economia?<\/strong><\/p>\n<p><em>Ricardo Antunes:<\/em> N\u00e3o \u00e9 a longo prazo, \u00e9 j\u00e1; um modelo fundado na acumula\u00e7\u00e3o capitalista, de intensa explora\u00e7\u00e3o do trabalho, na corros\u00e3o dos direitos, em absoluto abandono e da quebra da legisla\u00e7\u00e3o do trabalho, est\u00e1 resultando, cada dias mais intensamente, na intensifica\u00e7\u00e3o desse quadro de recess\u00e3o econ\u00f4mica mundial e\u00a0 brasileira. Uma redu\u00e7\u00e3o significativa dos n\u00edveis de crescimento na China, s\u00f3 para dar esse exemplo, tem consequ\u00eancias imediatas e profundas em praticamente todos os pais do mundo, sendo que o Brasil tem na China um dos polos vitais das suas exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, agora o<em>\u00a0rei est\u00e1 nu<\/em>: a ess\u00eancia perversa e destrutiva do sistema de metabolismo antissocial do capital, que destr\u00f3i o trabalho e a humanidade, que destr\u00f3i a natureza, que explora e oprime intensamente as mulheres, negros e negras, os ind\u00edgenas e as ind\u00edgenas, que impede a felicidade da juventude, a liberdade de a\u00e7\u00e3o dos LGBTs e etc, tudo isso aflora de modo l\u00edmpido.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por outro motivo que os ide\u00f3logos das maravilhas do mundo financeiro, os que sempre atuaram de modo militante para que o modo de vida capitalista se interioriza-se na \u201calma\u201d da classe trabalhadora, est\u00e3o t\u00e3o assustados que n\u00e3o conseguem nem ter ideia de como ser\u00e1 o seu amanh\u00e3. \u00c9 por isso que hoje cr\u00edticas o governo que fez tudo o que eles mandaram.<\/p>\n<p>O grande escritor latinoamericano Ciro Alegria tem um livro forte com um bel\u00edssimo t\u00edtulo:\u00a0<em>El Mundo Es Ancho<\/em>\u00a0<em>y Ajeno<\/em>\u00a0(<em>O Mundo \u00e9 Grande e Estranho<\/em>), N\u00f3s temos, ent\u00e3o, que reinvent\u00e1-lo, reinventar um\u00a0<em>novo modo de vida<\/em>.<\/p>\n<p>Postado originalmente em:\u00a0https:\/\/contrapoder.net\/noticias\/nos-temos-que-reinventar-um-novo-modo-de-vida-diz-ricardo-antunes\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contrapoder No contexto de aprofundamento da crise, conversamos com o professor Ricardo Antunes sobre os impactos da crise econ\u00f4mica, do Coronav\u00edrus e a luta de classes Contrapoder: Como as crises da sa\u00fade e econ\u00f4mica impactar\u00e3o as lutas dos trabalhadores? 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