

	{"id":6849,"date":"2020-06-02T13:08:30","date_gmt":"2020-06-02T13:08:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=6849"},"modified":"2020-06-02T13:08:30","modified_gmt":"2020-06-02T13:08:30","slug":"argentina-quem-sao-os-donos-dos-titulos-da-divida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2020\/06\/02\/argentina-quem-sao-os-donos-dos-titulos-da-divida\/","title":{"rendered":"ARGENTINA | Quem s\u00e3o os donos dos t\u00edtulos da d\u00edvida?"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\"><strong>Por:<\/strong> Jos\u00e9 Castillo, publicado em 20 de maio de 2020, no jornal El Socialista N\u00ba 460.\u00a0<strong>Traduzido por:\u00a0<\/strong>Pablo Andrada<\/h6>\n<hr \/>\n<p>Esta semana continua a partida de p\u00f4quer da renegocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida. &#8220;Existe disposi\u00e7\u00e3o m\u00fatua para chegar a um acordo&#8221;, afirmam tanto os altos funcion\u00e1rios do Minist\u00e9rio da Economia quanto os porta-vozes dos propriet\u00e1rios dos t\u00edtulos da d\u00edvida externa. Independentemente de como termine esta anedota da renegocia\u00e7\u00e3o, cujo final est\u00e1 previsto para esta sexta-feira 22, mas, como \u00e9 poss\u00edvel se antecipar, &#8220;poderia ter o prazo estendido um pouco al\u00e9m em acordo entre as partes&#8221;, algumas quest\u00f5es est\u00e3o ficando cada vez mais claras. Elas s\u00e3o as que queremos destacar aqui.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, ningu\u00e9m mais esconde quem s\u00e3o os famosos &#8220;detentores de t\u00edtulos&#8221;. Entre eles n\u00e3o h\u00e1 nenhum aposentado ou donos de pequenas poupan\u00e7as. Trata-se do pior do establishment financeiro internacional, os chamados &#8220;abutres dos abutres&#8221;, especuladores que sobrevoam o mundo obtendo lucros parasitas em quantidades colossais. Eles t\u00eam nome e sobrenome e at\u00e9 est\u00e3o agrupados em &#8220;clubes de credores&#8221; para pressionar e obter uma fatia maior do bolo. Assim sendo, os pesos pesados BlackRock e Fidelity encabe\u00e7am o autodenominado Grupo Argentina Ad Hoc (Ad Hoc Bondholders Group), juntamente com outros abutres menores, como Ashmore e T. Bowe Price. Eles s\u00e3o seguidos pelo Comit\u00ea de Credores da Argentina (Bondholders Group), coordenado por outro gigante, Greylock Capital, ao qual devem ser agregado os Gramercy e Fintech, dois &#8220;velhos conhecidos&#8221;, pois foram os grandes vencedores dos\u00a0<i>swaps<\/i>\u00a0dos Kirchner em 2005 e 2010, e agora v\u00eam para ficar com mais lucros. Por\u00e9m, como se tudo isso n\u00e3o bastasse, existe um terceiro clube de credores, o Grupo Ad Hoc de Bondholders de\u00a0<i>swap<\/i>\u00a0da Argentina (Exchange Bondholders Group), onde est\u00e3o agrupados outros fundos de investimento que tamb\u00e9m participaram dos\u00a0<i>swaps<\/i>1\u00a0de 2005-2010, como Monarch, HBK Capital, Cyrus Capital Partners LP e VR Capital Group. Fora desses &#8220;comit\u00eas&#8221; ou &#8220;clubes&#8221; de credores, outros grandes detentores de d\u00edvida argentina tamb\u00e9m est\u00e3o \u00e0 espreita, como Pimco e Templeton.<\/p>\n<p><b>Em que consiste a atual \u201cnegocia\u00e7\u00e3o\u201d?<\/b><\/p>\n<p>Vamos tentar sintetizar: o governo argentino lan\u00e7ou uma excelente e amig\u00e1vel oferta para credores conhecidos como \u201cpolvos\u201d (porque com seus tent\u00e1culos acaparam tudo que podem, sendo assim denominados pelos pr\u00f3prios altos funcion\u00e1rios do governo), sem tirar quase nada de capital, juros bem acima daqueles que s\u00e3o pagos no mundo hoje e um \u201cper\u00edodo gra\u00e7a\u201d (tempo que transcorre at\u00e9 que os primeiros pagamentos s\u00e3o feitos) de tr\u00eas anos. Tudo muito longe daquele discurso inicial de Alberto Fern\u00e1ndez que dizia &#8220;n\u00e3o podemos pagar com a fome do povo&#8221;. Os abutres credores, por sua vez, negociam de modo pesado e pressionam porque n\u00e3o aceitam nenhuma redu\u00e7\u00e3o de capital, querem mais juros e tamb\u00e9m que os pagamentos sejam realizados antes dos tr\u00eas anos propostos, al\u00e9m de algum &#8220;pr\u00eamio extra&#8221;, como o que N\u00e9stor Kirchner e seu ministro da Economia Roberto Lavagna lhes deram em 2005, com os chamados Cupons PBI, que geravam pagamentos adicionais de d\u00edvida caso o pa\u00eds crescesse al\u00e9m de certa porcentagem (que na \u00e9poca era de 3,2%).<\/p>\n<p>A resposta do governo \u00e9 que se encontra aberto e &#8220;flex\u00edvel&#8221; para negociar tudo. Traduzido, ele aceita analisar que comece a pagar antes de 2023, menos (ou nenhuma) redu\u00e7\u00e3o de capital, mais pagamentos de juros e discutir algum &#8220;pr\u00eamio&#8221; para os credores (incluindo algum pagamento &#8220;em dinheiro vivo&#8221; em um momento pr\u00f3ximo).<\/p>\n<p><b>Onde tudo isso nos leva?<\/b><\/p>\n<p>A d\u00edvida \u00e9 uma verdadeira bola de neve da qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sair mais. Vejamos alguns exemplos did\u00e1ticos: na pr\u00f3xima sexta-feira ser\u00e1 o vencimento de 503 milh\u00f5es de d\u00f3lares dos t\u00edtulos &#8220;globais&#8221; 21, 26 e 46. De onde surgiram esses t\u00edtulos? Eles s\u00e3o resultado de uma emiss\u00e3o feita pelo ex-presidente Mauricio Macri em 2016, que gerou novas d\u00edvidas no total de 14,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. De fato, apenas 13 bilh\u00f5es entraram no pa\u00eds. Mas \u00e9 interessante destacar onde foi usado todo esse dinheiro. A maioria, 9,3 bilh\u00f5es, foi para pagar os\u00a0<i>holdouts<\/i>2, ou seja, os fundos abutres que j\u00e1 estavam litigando contra a Argentina. Lembremos que esse famoso pagamento foi autorizado no in\u00edcio do governo Macri com o voto positivo da enorme maioria da bancada peronista de ent\u00e3o no parlamento. Como podemos ver: \u00e9 d\u00edvida para pagar uma d\u00edvida anterior.<\/p>\n<p>Vamos seguir o fio do racioc\u00ednio que nos levar\u00e1 ao segundo exemplo ilustrativo. Os fundos abutres foram aqueles que n\u00e3o aceitaram os\u00a0<i>swaps<\/i>\u00a0kirchneristas de 2005 e 2010. Ser\u00e1 que o restante da d\u00edvida j\u00e1 havia sido liquidado e, como a propaganda oficial daqueles anos declamava &#8220;est\u00e1vamos desendividados&#8221;? De maneira alguma, e como melhor exemplo disso \u00e9 que temos agora, na pr\u00f3pria reestrutura\u00e7\u00e3o, os fundos que aparecem como donos desses t\u00edtulos 2005 e 2010, unidos em dois dos grandes grupos de credores que est\u00e3o pressionando por uma &#8220;melhor proposta&#8221;. Traduzido, para receberem mais no pagamento, com mais juros e em prazos mais curtos.<\/p>\n<p>Este \u00e9 apenas um r\u00e1pido olhar na d\u00edvida que estamos pagando infinitamente. D\u00edvida cuja origem \u00faltima est\u00e1 na ditadura militar genocida, mais tarde reconhecida e renegociada por todos os governos posteriores, sem exce\u00e7\u00e3o. Com uso do\u00a0<i>swap<\/i>\u00a0primeiro por Menem, e pelos Kirchners depois. Sempre gerando novos vencimentos, sumas, juros e mais juros, e fazendo com que para \u201cpagar\u201d, uma nova d\u00edvida seja tomada dos \u201cpolvos\u201d do establishment, como nos casos mencionados. Mas, al\u00e9m de organismos internacionais, centralmente o FMI e outros como o Banco Mundial ou o BID. Inclusive, reconhecendo d\u00edvidas pendentes diretamente com outros Estados, como \u00e9 o caso do chamado Clube de Paris, que se originou de empr\u00e9stimos que os governos europeus da \u00e9poca fizeram \u00e0 ditadura do general Jorge Rafael Videla.<\/p>\n<p>Em suma, de qualquer maneira que este cap\u00edtulo de renegocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida acabar, nada ter\u00e1 sido solucionado. Ficar\u00e1 uma enorme hipoteca que dever\u00e1 continuar sendo paga a esses mesmos abutres. E ser\u00e1 apenas o prel\u00fadio de outras duas &#8220;negocia\u00e7\u00f5es&#8221;. Uma, a que ser\u00e1 feita com os &#8220;detentores de t\u00edtulos sob a legisla\u00e7\u00e3o local&#8221;, que na maioria dos casos s\u00e3o os mesmos \u201cpolvos\u201d, neste caso, encabe\u00e7ados pela Fidelity. E outra, aquele que vir\u00e1 com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional, por nada mais e nada menos que 49 bilh\u00f5es de d\u00f3lares e onde a pr\u00f3pria entidade internacional j\u00e1 antecipou que com eles n\u00e3o haver\u00e1 nenhum tipo de &#8220;redu\u00e7\u00e3o&#8221; de valores. Para que fique bem claro, tudo isso envolve bilh\u00f5es de d\u00f3lares em pagamentos que j\u00e1 foram agendados para os pr\u00f3ximos cem anos. Fome, mis\u00e9ria, saques e marginaliza\u00e7\u00e3o para quatro gera\u00e7\u00f5es do povo trabalhador argentino.<\/p>\n<p>Apesar de dezenas de economistas, estudiosos acerca do assunto do endividamento e l\u00edderes sociais de todo o mundo sa\u00edrem permanentemente para alertar sobre as consequ\u00eancias dos endividamentos astron\u00f4micos como o argentino e a impossibilidade de pag\u00e1-los, existe na atualidade uma coincid\u00eancia pol\u00edtica macabra: o governo peronista, a oposi\u00e7\u00e3o do\u00a0<i>Juntos por el Cambio<\/i>\u00a0(Macri), as centrais patronais, as burocracias sindicais da CGT e os CTA, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, s\u00e3o a favor de pagar a d\u00edvida p\u00fablica, com o argumento de que a pior coisa que pode nos acontecer \u00e9 &#8220;cair no\u00a0<i>default<\/i>3&#8243;. Nestes dias, juntou-se a Igreja Cat\u00f3lica na voz de Stefano Zamagni, presidente da Academia de Ci\u00eancias Sociais do Vaticano, que afirmou em uma recente teleconfer\u00eancia organizada pela\u00a0<i>Universidad de Tres de Febrero<\/i>\u00a0que \u00e9 necess\u00e1rio \u201cconvencer alguns bancos a aceitar o plano de reestrutura\u00e7\u00e3o, em especial o fundo BlackRock, que possui uma for\u00e7a de trilh\u00f5es de d\u00f3lares\u201d.<\/p>\n<p>Do lado oposto, apenas a esquerda e o sindicalismo combativo permanecemos. Insistindo uma e outra vez que pagando afundaremos de vez, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pagar agora nem em 2024 nem nunca. Que a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 deixar imediatamente de pagar essa d\u00edvida externa ilegal, imoral e ileg\u00edtima, romper com o FMI e o restante das organiza\u00e7\u00f5es financeiras internacionais. Se os \u201cpolvos\u201d do establishment formam clubes de credores, n\u00f3s temos que convocar a constitui\u00e7\u00e3o de um grande clube de devedores para todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, seguindo o exemplo do que foi feito por v\u00e1rios pa\u00edses africanos, que se uniram para solicitar a remi\u00e7\u00e3o total de suas d\u00edvidas p\u00fablicas externas. Em meio \u00e0 emerg\u00eancia da pandemia do coronav\u00edrus, mais do que nunca \u00e9 necess\u00e1rio usar todos os recursos que hoje est\u00e3o nas m\u00e3os dos abutres especulativos para aloc\u00e1-los a um grande fundo de emerg\u00eancia e, assim, atender \u00e0s mais urgentes necessidades da sa\u00fade e da crise Social.<\/p>\n<ol>\n<li>Um\u00a0<em>swap<\/em>\u00a0pode ser definido como um contrato entre dois agentes de troca de fluxo de rentabilidade associados a dois indexadores, que tem duas pontas as quais podem ser vistas como uma posi\u00e7\u00e3o comprada e outra vendida.<\/li>\n<li><i>Holdouts<\/i>\u00a0s\u00e3o os credores que negam sua participa\u00e7\u00e3o no processo de reestrutura\u00e7\u00e3o de uma d\u00edvida, quer dizer, ficam de fora.<\/li>\n<li>Entrar ou cair em\u00a0<i>Default<\/i>\u00a0\u00e9 deixar de pagar uma d\u00edvida, mais conhecido como calote.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Jos\u00e9 Castillo, publicado em 20 de maio de 2020, no jornal El Socialista N\u00ba 460.\u00a0Traduzido por:\u00a0Pablo Andrada Esta semana continua a partida de p\u00f4quer da renegocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida. &#8220;Existe disposi\u00e7\u00e3o m\u00fatua para chegar a um acordo&#8221;, afirmam tanto os altos funcion\u00e1rios do Minist\u00e9rio da<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6720,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[40,1026,663,1177],"class_list":["post-6849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-internacional","tag-argentina","tag-coronavirus","tag-divida-publica","tag-titulos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6849"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6849\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6720"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}