

	{"id":697,"date":"2015-12-15T00:12:00","date_gmt":"2015-12-15T00:12:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/index.php\/2015\/12\/15\/arquivoid-9732\/"},"modified":"2016-02-23T03:56:36","modified_gmt":"2016-02-23T03:56:36","slug":"arquivoid-9732","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2015\/12\/15\/arquivoid-9732\/","title":{"rendered":"Saiu Cristina, assumiu Macri: O que muda na Argentina?"},"content":{"rendered":"<p>| Esquerda Socialista*<\/p>\n<p>2015 ser\u00e1 lembrado como o ano do fim do governo kirchnerista, inclusive com o papel\u00e3o da transfer\u00eancia do comando do pa\u00eds. Milh\u00f5es de pessoas interpretam esses fatos desde pontos de vistas opostos. Uns com alegria e outros com tristeza. Em especial os que consideram, em que pese tudo, o governo K como \u201cpopular e progressista\u201d e o de Macri como de \u201cdireita\u201d. Dizemos desde j\u00e1 que o governo de Cambiemos ser\u00e1 um governo patronal e anti-oper\u00e1rio e nada de bom podem esperar os trabalhadores. Por\u00e9m, \u00e9 equivocada a vis\u00e3o, induzida pelos porta-vozes do peronismo K, de que ser\u00e1 uma mudan\u00e7a qualitativa em rela\u00e7\u00e3o ao suposto \u201cgoverno progressista e popular\u201d. Que Argentina nos deixa o kirchnerismo? Que Argentina teremos com Macri? Haver\u00e1 mudan\u00e7as, por\u00e9m essencialmente haver\u00e1 mais continuidade que mudan\u00e7a. Na Argentina de 2016 seguir\u00e1 o ajuste, o ataque ao sal\u00e1rio, o pagamento da d\u00edvida e a alian\u00e7a com os empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na Argentina e na Am\u00e9rica Latina (pela crise do chavismo na Venezuela e no Brasil pela do governo Dilma-PT) est\u00e1 instalada uma falsa op\u00e7\u00e3o entre \u201cdireita\u201d e \u201cesquerda\u201d. Coisa que, lamentavelmente, setores da esquerda revolucion\u00e1ria repetem, contribuindo para a confus\u00e3o. Os governos tipo K, Maduro ou Dilma, s\u00e3o falsos governos \u201cpopulares\u201d ou de \u201cesquerda\u201d, que acabaram governando defendendo as multinacionais e com pol\u00edticas de ajuste, por tr\u00e1s de um duplo discurso. Nesse sentido, \u00e9 muito importante que os lutadores fa\u00e7amos um balan\u00e7o sobre o que significaram os 12 anos de peronismo kirchnerista e que pa\u00eds deixaram.<\/p>\n<p>Os 12 anos de peronismo K: um governo patronal de duplo discurso<\/p>\n<p>Na campanha eleitoral, a Frente para La Victoria tratou de recuperar votos de trabalhadores e jovens, instalando o \u201cperigo de que voltar\u00edamos aos \u201c90\u201d, ao desastre do \u201ccorralito\u201d e que havia que \u201cdefender o modelo nacional e popular\u201d da \u201cindustrializa\u00e7\u00e3o\u201d e contra \u201cas corpora\u00e7\u00f5es\u201d. Por\u00e9m, a realidade \u00e9 que o kircherismo, desde que assumiu, em 2003, n\u00e3o fez nenhuma mudan\u00e7a qualitativa na estrutura capitalista semicolonial do pa\u00eds, atrelada \u00e0s multinacionais e ao capital financeiro.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, tudo isso o escondeu em seu duplo discurso inaugurado por N\u00e9stor Kirchner. Foi desde o in\u00edcio um governo patronal distinto ao que havia sido Menem ou De La Rua, que eram odiados pelas massas. Justamente o kirchnerismo teve que assumir com um discurso de centro esquerda fruto do processo do Argentinazo de 2001, a rebeli\u00e3o popular que derrubou o governo de De La Rua e Cavallo e levantou o \u201cque se vayan todos\u201d. Tal foi a crise pol\u00edtica do regime que Kirchner chega ao governo com 22% dos votos.<\/p>\n<p>A patronal argentina necessitava de um governo que buscasse desviar e amortecer essas mobiliza\u00e7\u00f5es e o recha\u00e7o a todos os pol\u00edticos patronais. Por isso o governo peronista kirchnerista foi um governo patronal de concilia\u00e7\u00e3o de classes e em certa forma de centro esquerda. Para ganhar apoio saiu com um discurso antimenemista, contra a \u201cconcentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica\u201d, os militares genocidas e o FMI. Assumiu rodeado das M\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio, as Av\u00f3s, Lula, Ch\u00e1vez e Fidel Castro. Em seu in\u00edcio, logrou economicamente um suspiro com a morat\u00f3ria da d\u00edvida (que decidiu Rodr\u00edguez Sa\u00e1 no calor da rebeli\u00e3o popular de 2001 em sua breve presid\u00eancia provis\u00f3ria) e a melhoria dos pre\u00e7os mundiais da soja e os cereais (o \u201cvento de cola\u201d). Dessa maneira p\u00f4de reativar parcialmente o aparato produtivo (com 4 milh\u00f5es de novos empregos embora em sua maioria prec\u00e1rios e com baixos sal\u00e1rios) e mantendo subs\u00eddios nas tarifas e nos planos sociais.<\/p>\n<p>O que significa que foi um governo de duplo discurso? Que enquanto fazia fortes discursos criticando as \u201ccorpora\u00e7\u00f5es\u201d e aos \u201cgrupos hegem\u00f4nicos\u201d, terminou governando para eles. Nem sequer chegou a ser um governo nacionalista-burgu\u00eas como Per\u00f3n em 1945-1955. Retoricavam contra a d\u00edvida que ao longo de 12 anos de governo n\u00e3o deixou de crescer. Em 2005 era de 126 bilh\u00f5es de d\u00f3lares e em 2015 chegou a 250 bilh\u00f5es (Dados Clar\u00edn 3\/12\/2015). O processo de concentra\u00e7\u00e3o capitalista e de estrangeiriza\u00e7\u00e3o da economia continuou. Em 2007, com N\u00e9stor Kichner, das 220 empresas que mais faturaram, 128 eram estrangeiras, quando em 1997 eram 104 (La Naci\u00f3n 21\/6\/2009). Entre as primeiras empresas continuam qualificando os grandes grupos exportadores de cereais como Cargill, Dreyfus, Nidera, Bunge e as automotrizes estrangeiras. Com todo tipo de regalias, cresceu a invers\u00e3o estrangeira em minera\u00e7\u00e3o com a canadense Barrik, Cerro Vanguardia (Anglo Cod, \u00c1frica do Sul) e Alumbrera (australiana-canadense). O governo K nos deixa a Monsanto e o acordo \u201csecreto\u201d com a petroleira ianque Chevron, associada a YPF, que somente em 51% \u00e9 estatal. Teve atritos com os grandes grupos patronais do campo, por\u00e9m usou parte da renda agr\u00e1ria (reten\u00e7\u00f5es) para favorecer a um setor patronal \u201cnacional\u201d ligado a seus negociados (via os De Vido, Boudou, Jaime e outros \u201cpinguins\u201d) como o grupo Crist\u00f3bal Lopez (cassinos-m\u00eddia), L\u00e1zaro B\u00e1ez (constru\u00e7\u00e3o), Eskenazi (bancos e petr\u00f3leo) ou Avila-Manzano (m\u00eddia).<\/p>\n<p>A outra cara da heran\u00e7a K foi sua pol\u00edtica anti-oper\u00e1ria para favorecer os lucros desses patr\u00f5es. As crises da economia capitalista mundial iniciada em 2007-2008 levou a desnudar a verdadeira cara patronal do kirchnerismo. Aplicou a receita do ajuste sobre o povo, que \u00e9 o que explica seu paulatino retrocesso e o final com o voto castigo. Seu centro foi o ataque ao sal\u00e1rio, a ponto de impor um imposto sobre o sal\u00e1rio. A infla\u00e7\u00e3o diminuiu o sal\u00e1rio e o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o. Continuou o baixo or\u00e7amento para sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Criminalizou os protestos pelas m\u00e3os de Berni, secret\u00e1rio de seguran\u00e7a. Continuou a sustentar a burocracia sindical. A corrup\u00e7\u00e3o e os acordos primaram no seio do governo. Essa \u00e9 a Argentina que nos deixa o fim do kirchnerismo. <\/p>\n<p>O que vir\u00e1 com Macri<\/p>\n<p>O tempo do peronismo K terminou. Temos um novo governo. Foi-se um governo patronal de \u201cduplo discurso\u201d e vem um governo patronal da centro direita liberal argentina. Por\u00e9m, como vemos dizendo, nada de bom podem esperar os trabalhadores e setores populares desse governo patronal. <\/p>\n<p>Desde o ponto de vista patronal, o novo governo de Cambiemos (PRO, UCR e outros) vai refletir mais diretamente os grandes grupos econ\u00f4micos nacionais e estrangeiros, em especial os do campo (os Grobo e outros grupos exportadores de gr\u00e3os) e as multinacionais. V\u00e3o governar sem os intermedi\u00e1rios do tipo dos De Vido, Randazzo ou Guillermo Moreno, com os quais  negociavam e pactuavam. Essa ser\u00e1 uma das mudan\u00e7as. <\/p>\n<p>Para os trabalhadores e o povo, o governo de Macri vir\u00e1 a aprofundar o ajuste que j\u00e1 havia iniciado Cristina Kirchner. Far\u00e1 sem \u201canestesia\u201d e sem o discurso \u201cpopular\u201d mentiroso K. Os \u201cbons modos\u201d de Macri, Marcos Pe\u00f1a e a governadora Maria Eugenia Vidal n\u00e3o escondem mais que a prepara\u00e7\u00e3o de novos ajustes contra o povo trabalhador. <\/p>\n<p>O governo de Macri sabe que \u00e9 d\u00e9bil para essa tarefa. \u00c9 consciente que j\u00e1 o kirchnerismo sofreu v\u00e1rias greves gerais e muitas de docentes, trabalhadores da sa\u00fade e servidores p\u00fablicos. Parte disso refletiu no voto castigo. <\/p>\n<p>Uma das debilidades estruturais do novo governo \u00e9 que n\u00e3o conta com uma s\u00f3lida base oper\u00e1ria e popular. E n\u00e3o se engana com os \u201cvotos \u00fateis\u201d que teve. Por isso trata de armar acordos com setores do peronismo, como os renovadores Massa e De la Sota, e inclui no governo funcion\u00e1rios dessa origem, como Jorge Todesca no Indec, Lino Bara\u00f1ao continua como ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia e no Sedronar designaram o peronista pampeano Roberto Moro. O novo ministro da economia, Prat Gay, j\u00e1 anunciou a busca de um \u201cdi\u00e1logo social\u201d (muito parecido ao \u201cPacto Social\u201d peronista) com \u201ctrabalhadores e empres\u00e1rios\u201d. Uma das primeiras reuni\u00f5es de Macri foi com a CGT de Hugo Moyano.<\/p>\n<p>J\u00e1, ao assumir, mostrou seu verdadeiro rosto ajustador. A promessa de suspender o imposto ao sal\u00e1rio foi postergada para mar\u00e7o de 2016, atrav\u00e9s de um projeto de lei. E s\u00f3 vai suspend\u00ea-lo em metade nas gratifica\u00e7\u00f5es de natal.<\/p>\n<p>2016: nos preparamos para um ano de novas lutas<\/p>\n<p>Os trabalhadores sabem por sua experi\u00eancia que os \u201cdi\u00e1logos\u201d e \u201cpactos sociais\u201d s\u00e3o armadilhas para tentar rebaixar o sal\u00e1rio, assegurar os interesses dos empres\u00e1rios e privil\u00e9gios da burocracia sindical. Tamb\u00e9m sabem que a \u00fanica maneira de enfrentar esses \u201cpactos\u201d \u00e9 com a mobiliza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular. <\/p>\n<p>O governo Macri buscar\u00e1 que lhe \u201cd\u00eaem tempo\u201d com a eterna desculpa da \u201cheran\u00e7a recebida\u201d. Seu centro ser\u00e1 buscar um pacto com Moyano e o resto da burocracia sindical a troca de cargos e, essencialmente, o manejo dos fundos das obras sociais.<\/p>\n<p>Por isso, a perspectiva para o pr\u00f3ximo ano, al\u00e9m das tend\u00eancias, estar\u00e1 marcada pela resist\u00eancia da classe trabalhadora e o povo ao ajuste macrista. Na medida que a crise do capitalismo mundial segue seu curso, sem solu\u00e7\u00e3o a vista, a pol\u00edtica do imperialismo e das multinacionais n\u00e3o \u00e9 nenhum \u201cchoque\u201d de invers\u00f5es sen\u00e3o continuar com o ajuste e saque dos pa\u00edses \u201cemergentes\u201d. O macrismo est\u00e1 obrigado, mais cedo que tarde, a aprofundar o ajuste. Por isso a tend\u00eancia ser\u00e1 haver novos conflitos sociais e a novas express\u00f5es de desgaste pol\u00edtico do novo governo e do regime. Nesse marco \u00e9 previs\u00edvel que siga o processo de surgimento de novos dirigentes sindicais combativos e antiburocr\u00e1ticos e o fortalecimento da Frente de Izquierda como a \u00fanica alternativa pol\u00edtica dos trabalhadores e da esquerda. Para tudo isso nos preparamos e somaremos esfor\u00e7os enquanto Esquerda Socialista. Esse \u00e9 nosso brinde de fim de ano. <\/p>\n<p>*Esquerda Socialista \u00e9 um partido trotskysta argentino, se\u00e7\u00e3o da Unidade Internacional dos Trabalhadores &#8211; Quarta Internacional (UIT-QI), organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da qual a Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST) faz parte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Esquerda Socialista* 2015 ser\u00e1 lembrado como o ano do fim do governo kirchnerista, inclusive com o papel\u00e3o da transfer\u00eancia do comando do pa\u00eds. Milh\u00f5es de pessoas interpretam esses fatos desde pontos de vistas opostos. Uns com alegria e outros com tristeza. 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