

	{"id":7242,"date":"2020-08-05T21:41:07","date_gmt":"2020-08-05T21:41:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=7242"},"modified":"2020-08-05T21:48:05","modified_gmt":"2020-08-05T21:48:05","slug":"historia-58-anos-da-libertacao-da-argelia-a-luta-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2020\/08\/05\/historia-58-anos-da-libertacao-da-argelia-a-luta-continua\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIA | 58 anos da liberta\u00e7\u00e3o da Arg\u00e9lia, a luta continua"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Por Silvia Santos, dirigente da UIT-QI<\/strong><br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o Lucas Schlabendorff<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>Ap\u00f3s um combate feroz por sua liberta\u00e7\u00e3o, a Arg\u00e9lia conquistou sua independ\u00eancia no dia 3 de julho de 1962. Foi uma luta heroica contra o imperialismo franc\u00eas, cujos m\u00e9todos de contrainsurg\u00eancia \u2013 torturas e ataques \u00e0 popula\u00e7\u00e3o civil \u2013 fizeram escola no mundo. Quase um milh\u00e3o de argelinos deram suas vidas nessa luta. No entanto, esta revolu\u00e7\u00e3o que poderia ter avan\u00e7ado com medidas anticapitalistas, uma vez que o regime colonial estava em peda\u00e7os, retrocedeu devido \u00e0 pol\u00edtica de sua dire\u00e7\u00e3o e reconstruiu o Estado burgu\u00eas, transformando o pa\u00eds em uma semicol\u00f4nia do imperialismo ianque e franc\u00eas. Essa rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia explica a rebeli\u00e3o popular de 22 de fevereiro de 2019, processo que ainda est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p><strong>A luta pela liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A invas\u00e3o francesa na Arg\u00e9lia come\u00e7ou em 1830, quando seu ex\u00e9rcito derrotou o imp\u00e9rio turco-otomano que dominava essa regi\u00e3o. Essa a\u00e7\u00e3o foi resistida durante quase uma d\u00e9cada, at\u00e9 que a Fran\u00e7a, em 1840, desembarcou 115 mil soldados para assegurar sua ocupa\u00e7\u00e3o. Anos mais tarde, quase meio milh\u00e3o de colonos franceses se instalaram na Arg\u00e9lia e se apoderaram das terras mais f\u00e9rteis. Os colonos europeus, que eram minoria diante dos argelinos, cerraram fileiras em defesa de seus privil\u00e9gios, apoiados pelos setores mais plebeus, que foram chamados de pieds-noirs (p\u00e9s negros), que colaboraram com os m\u00e9todos fascistas dos gauleses e com a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncolonial.<\/p>\n<p>Foi mais de um s\u00e9culo de ocupa\u00e7\u00e3o atravessado por intermin\u00e1veis lutas da resist\u00eancia nacionalista que, em 1945, teve um dos seus principais cap\u00edtulos. O 1\u00ba de maio, um ato com a presen\u00e7a de 10 mil mu\u00e7ulmanos que comemoravam a derrota do nazismo, se converteu em uma grande rebeli\u00e3o popular que foi afogada em sangue pelas tropas francesas e deixou mais de 20 mil argelinos mortos. Apesar disso, a burguesia francesa se encontrava debilitada ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial (ainda que a Fran\u00e7a fizesse parte dos Aliados) diante do novo gigante norte-americano e ap\u00f3s sua derrota acachapante na Indochina (Vietn\u00e3, Laos e Camboja) em 1954. Em 1956 foi novamente derrotada quando, junto com as tropas do Reino Unido, invadiu Port Said para impedir a nacionaliza\u00e7\u00e3o do canal de Suez, levada adiante pelo governo eg\u00edpcio de Abdel Nasser. Por esse motivo, decidiu lutar com unhas e dentes contra a emancipa\u00e7\u00e3o da Arg\u00e9lia, apesar de que em 1956 havia sido obrigada a conceder a independ\u00eancia de Marrocos e Tun\u00edsia.<\/p>\n<p><strong>A funda\u00e7\u00e3o da FLN<\/strong><\/p>\n<p>Em 1954 foi fundada a Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FLN) e seu bra\u00e7o armado, o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ELN), que estava composto por muitos soldados argelinos que haviam lutado na Indochina sob o comando franc\u00eas. A Fran\u00e7a n\u00e3o tardou em reagir e mandou 500 mil soldados para a Arg\u00e9lia que destru\u00edram aldeias e mataram mais de um milh\u00e3o de argelinos.<\/p>\n<p>A superioridade em armamentos era not\u00e1vel. Al\u00e9m disso, contavam com o apoio da Organiza\u00e7\u00e3o Armada Secreta (OAS), for\u00e7a da direita colonialista que atuava com m\u00e9todos fascistas em defesa dos privil\u00e9gios dos colonos franceses. Praticava torturas em massa, execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias e desapari\u00e7\u00f5es de dirigentes, bombardeava aldeias, assassinava civis e queimava as planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A batalha de Argel, que ocorreu no ano de 1958, ficou muito bem registrada no famoso filme dirigido por Gillo Pontecorvo (A Batalha de Argel) onde se mostrou, de forma quase documental, que a Fran\u00e7a da \u201cliberdade, igualdade e fraternidade\u201d havia sido uma bela consigna, mas nada mais que isso. O filme mostra a luta casa por casa nas vilas, chamadas casbah, parecidas com as favelas brasileiras, localizadas nos morros de Argel e atravessadas por vielas e corredores estreitos. A FLN respondeu com<br \/>\natentados contra alvos militares e civis franceses, mas por fim acabou derrotada pelas tropas de ocupa\u00e7\u00e3o e seus m\u00e9todos de contra insurg\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas a rebeli\u00e3o anticolonial era impar\u00e1vel. A heroica resist\u00eancia argelina ia conseguindo apoios pelo mundo, sobretudo na pr\u00f3pria Fran\u00e7a. Depois de uma profunda crise causada pela guerra da Arg\u00e9lia, no final de 1958, Charles De Gaulle assumiu o governo e, consciente de que uma nova derrota como a da Indochina afundaria a Fran\u00e7a, decidiu negociar. Em um plebiscito realizado em 1961, 75% dos franceses votaram a favor da independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1962 houve uma reuni\u00e3o entre a FLN e representantes do governo franc\u00eas na cidade de Evian, na Fran\u00e7a. No dia 1\u00ba de julho foi realizado um plebiscito que culminou com a independ\u00eancia e o triunfo do povo argelino e da FLN. No dia 3 de julho foi proclamada a independ\u00eancia da Arg\u00e9lia e no dia 5 foi formalmente reconhecida pelo governo franc\u00eas.<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o abortada<\/strong><\/p>\n<p>A guerra de independ\u00eancia da Arg\u00e9lia se deu no segundo p\u00f3s-guerra, quando aconteciam numerosas lutas pela liberta\u00e7\u00e3o nacional aproveitando a situa\u00e7\u00e3o do imperialismo que precisava concentrar suas for\u00e7as nas metr\u00f3poles. Assim, foram surgindo na\u00e7\u00f5es livres do jugo colonial, como Marrocos, Tun\u00edsia, Egito e L\u00edbia no norte da \u00c1frica. Processos encabe\u00e7ados por dirigentes pequeno burgueses ou burgueses e governos nacionalistas burgueses que, a n\u00edvel internacional, se organizaram como \u201cn\u00e3o alinhados\u201d, que se diziam equidistantes tanto de Moscou como de Washington.<\/p>\n<p>A Arg\u00e9lia foi um dos triunfos mais espetaculares da luta por liberta\u00e7\u00e3o nacional contra o colonialismo, no entanto, pela pol\u00edtica de sua dire\u00e7\u00e3o, a FLN, encabe\u00e7ada por Ben Bella, n\u00e3o avan\u00e7ou ao \u201csocialismo\u201d, como afirmava a sua nova constitui\u00e7\u00e3o. Havia possibilidades? Afirmamos que sim, os colonos, burgueses e plebeus fugiram para a Fran\u00e7a, abandonando suas propriedades. A FLN ficou sozinha, sem nenhum setor burgu\u00eas importante com quem formar um governo de frente popular. Era o momento de construir o novo Estado, mas decidiram reconstruir o Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Como em todo processo revolucion\u00e1rio, ou se avan\u00e7a, ou acaba-se por retroceder. Lamentavelmente, foi o que ocorreu. Depois de um per\u00edodo de atrito com o imperialismo, mantendo certa independ\u00eancia pol\u00edtica, a dire\u00e7\u00e3o da FLN come\u00e7ou a pactuar com a Fran\u00e7a e os Estados Unidos, e a Arg\u00e9lia se converteu em uma semicol\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>2019: um novo processo revolucion\u00e1rio irrompe na Arg\u00e9lia<\/strong><\/p>\n<p>No dia 22 de fevereiro de 2019, em um processo sem precedentes, surge um movimento popular que toma as ruas de todo o pa\u00eds. A gota d\u2019\u00e1gua foi que o presidente Abdelaziz Bouteflika, da FLN, anunciou que seria candidato a presidente pela quinta vez. O povo saiu em peso para as ruas expressando seu \u00f3dio contra o regime.<\/p>\n<p>Bouteflika, j\u00e1 velho, doente e em cadeira de rodas ap\u00f3s ter sofrido um AVC, precisava ser derrotado. Isso era visto principalmente pela juventude, protagonista do movimento de desempregados e vanguarda das revoltas de Cab\u00edlia. Como resultado da ira popular, expressada nas gigantes mobiliza\u00e7\u00f5es, antigos dirigentes pol\u00edticos da FLN ou com v\u00ednculos com a Frente acabaram presos, entre eles o irm\u00e3o de Bouteflika, acusado de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As massas conquistaram um triunfo importante, a ren\u00fancia de Bouteflika. Mas, apesar da espetacular mobiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se conseguiu mudar o regime, que segue controlado pelos militares que continuam com sua pol\u00edtica corrupta e pr\u00f3-imperialista. As revoltas seguiram com maior ou menor participa\u00e7\u00e3o todas as sextas at\u00e9 que a pandemia de mar\u00e7o de 2020 abriu um impasse. O regime tentou acabar com esse movimento atrav\u00e9s da quarentena, no entanto n\u00e3o conseguiu derrot\u00e1-lo e certamente ele voltar\u00e1 a atuar quando as condi\u00e7\u00f5es permitirem.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria da FLN n\u00e3o deve nos causar estranheza. Assim terminaram os governos nacionalistas burgueses e de concilia\u00e7\u00e3o de classes. Foi assim tamb\u00e9m com o regime sandinista, com Ortega massacrando a rebeli\u00e3o popular que exige sua sa\u00edda. N\u00f3s, da Izquierda Socialista e da UIT-QI, apoiamos a luta do povo argelino por sua segunda e definitiva independ\u00eancia. Para isso, o povo argelino se prepara lutando contra o regime opressor, da fome e do desemprego, encabe\u00e7ado pelos militares e pela FLN, exigindo justi\u00e7a social, democracia, liberdade e igualdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Silvia Santos, dirigente da UIT-QI Tradu\u00e7\u00e3o Lucas Schlabendorff Ap\u00f3s um combate feroz por sua liberta\u00e7\u00e3o, a Arg\u00e9lia conquistou sua independ\u00eancia no dia 3 de julho de 1962. 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