

	{"id":7332,"date":"2020-08-22T21:48:05","date_gmt":"2020-08-22T21:48:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=7332"},"modified":"2020-08-23T20:05:32","modified_gmt":"2020-08-23T20:05:32","slug":"8-de-agosto-de-1966-mao-anuncia-a-revolucao-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2020\/08\/22\/8-de-agosto-de-1966-mao-anuncia-a-revolucao-cultural\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIA | 8 de agosto de 1966: Mao anuncia a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong>Por Silvia Santos, dirigente da UIT-QI<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Lucas Schlabendorff<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>Este texto que compartilhamos se apoia nas elabora\u00e7\u00f5es de Nahuel Moreno, dirigente do trotskismo latino-americano e mundial, contidas no livro <em>\u201cChina de la Revoluci\u00f3n a la restauraci\u00f3n capitalista<\/em>\u201d (junto com outros autores) e em pol\u00eamicas com a dire\u00e7\u00e3o do SU da IV Internacional. [1]<\/p>\n<p>A maioria das e dos jovens lutadores e lutadoras que se aproximam da milit\u00e2ncia revolucion\u00e1ria conhecem pouco do fen\u00f4meno da revolu\u00e7\u00e3o cultural chinesa, um fato ocorrido h\u00e1 54 anos. As imagens mais simb\u00f3licas que guardamos daquele processo s\u00e3o os milhares ou milh\u00f5es de jovens se manifestando com o \u201clivro vermelho de Mao\u201d nas suas m\u00e3os, que continha cita\u00e7\u00f5es e discursos do l\u00edder.<\/p>\n<p>Esse movimento, que chamou a aten\u00e7\u00e3o da vanguarda mundial, teve mais de uma interpreta\u00e7\u00e3o. Para alguns, foi uma genu\u00edna manifesta\u00e7\u00e3o de uma nova democracia surgida de baixo. Para outros, pelo contr\u00e1rio, expressava uma luta feroz entre dois setores da burocracia. Nossa corrente, dirigida por Nahuel Moreno, entendeu que se tratava de uma luta interburocr\u00e1tica. Um desses setores, liderado por Mao Ts\u00e9 Tung e Lin Piao, apoiando-se na mobiliza\u00e7\u00e3o da juventude e dos trabalhadores, encabe\u00e7ou o que ficou conhecido como a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural.<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o chinesa<\/strong><\/p>\n<p>Em 1\u00ba de outubro de 1949, o Ex\u00e9rcito Vermelho entra em Pequim, derrotando o Kuomintang, partido dos latifundi\u00e1rios, da burguesia e dos camponeses ricos, que contava com o apoio do imperialismo. Ap\u00f3s uma prolongada guerra de guerrilhas, foi derrotado Chiang Kai-shek, o ditador sanguin\u00e1rio e dirigente do Kuomintang; e o Partido Comunista chin\u00eas, dirigido por Mao, tomou o poder. Mao encabe\u00e7ava o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, e protagonizou uma multitudin\u00e1ria revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, tendo como eixo o campesinato.<\/p>\n<p>O fato de que esse grande processo revolucion\u00e1rio tenha sido protagonizado pelo campesinato e, portanto, com aus\u00eancia de democracia oper\u00e1ria, deu ao mao\u00edsmo um car\u00e1ter burocr\u00e1tico. No entanto, apesar das limita\u00e7\u00f5es, uma combina\u00e7\u00e3o entre o processo objetivo interno e a situa\u00e7\u00e3o internacional gerada no p\u00f3s-guerra, permitiu a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia, apesar dessa tarefa n\u00e3o fazer parte do programa do PC chin\u00eas. [1.1]<\/p>\n<p>Para Mao, a revolu\u00e7\u00e3o que estava colocada na China era essencialmente antifeudal e anti-imperialista, dirigida por um \u201cbloco de quatro classes\u201d: o proletariado, campesinato, pequena burguesia urbana e burguesia nacional. Apesar das diferen\u00e7as com o estalinismo, o mao\u00edsmo, igual \u00e0 burocracia da URSS, defendia alian\u00e7as com a burguesia nacional e o socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds. Ou seja, o avassalador processo de revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria que levavam adiante milh\u00f5es de camponeses, em um pa\u00eds que contava naquele momento com 700 milh\u00f5es de habitantes, deveria ficar apenas na tarefa democr\u00e1tica de derrubar a ditadura do Kuomintang.<\/p>\n<p>Mas, por mais que Mao tentasse manter a revolu\u00e7\u00e3o dentro do marco democr\u00e1tico, a l\u00f3gica da revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, com milh\u00f5es de camponeses ocupando terras, deu origem a um governo oper\u00e1rio e campon\u00eas. Nesse sentido, Moreno assinalava a import\u00e2ncia do contexto internacional. Nos lembra que, enquanto a contrarrevolu\u00e7\u00e3o estalinista se deu nos anos de retrocesso das massas e de triunfos contrarrevolucion\u00e1rios entre 1923 e 1943, a revolu\u00e7\u00e3o chinesa se deu na \u00e9poca que se seguiu ap\u00f3s a segunda guerra mundial, acompanhando o processo de lutas anticoloniais vitoriosas e de revolu\u00e7\u00f5es como a iugoslava ou cubana, que se deram de forma independente do aparato contrarrevolucion\u00e1rio de Moscou.<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o cultural<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 apenas nesse contexto que podemos compreender o significa da revolu\u00e7\u00e3o cultural. Foi uma express\u00e3o do enfrentamento que eclodiu entre as massas de jovens e trabalhadores contra os aparatos burocr\u00e1ticos, gerando uma crise no regime, com questionamentos \u00e0 dire\u00e7\u00e3o. Nesse cen\u00e1rio, se abriu uma luta interburocr\u00e1tica. Para levar adiante sua luta, Maio se apoia na mobiliza\u00e7\u00e3o dos jovens e alega que h\u00e1 elementos capitalistas infiltrados no governo. Com essa acusa\u00e7\u00e3o, insiste que os revisionistas deveriam ser derrotados atrav\u00e9s da luta de classes.<\/p>\n<p>A juventude respondeu ao chamado de Mao, formando grupos da Guarda Vermelha em todo o pa\u00eds. O movimento se estendeu ao ex\u00e9rcito, aos trabalhadores urbanos e \u00e0 pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista. Nesse processo, se abriu uma s\u00e9rie de lutas entre fra\u00e7\u00f5es, generalizadas em todos os \u00e2mbitos da vida. Na c\u00fapula, conduziu um expurgo massivo de altos funcion\u00e1rios, em particular Liu Shaoqi e Deng Xiaoping. Durante o mesmo per\u00edodo, o culto \u00e0 personalidade de Mao cresceu em propor\u00e7\u00f5es gigantescas.<\/p>\n<p>Iniciada em 1966, j\u00e1 em janeiro de 1967 havia se convertido em uma mobiliza\u00e7\u00e3o de massas em todo o pa\u00eds, numa tal magnitude que tamb\u00e9m come\u00e7ava a envolver setores oper\u00e1rios urbanos. Foi ent\u00e3o que Mao, vendo que o processo podia sair do controle, em 1969 tenta dar por acabada a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Cultural\u201d que lhe havia permitido eliminar seus inimigos e se reafirmar como l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o. No entanto, o processo se estendeu at\u00e9 a sua morte em setembro de 1976. Com a morte do l\u00edder, a China tomou outro rumo, ocorreu a pris\u00e3o de seus sucessores, conhecidos como o Bando dos Quatro, entre os quais estava a mulher de Mao, Jiang Qing, e assim a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural chegou ao fim.<\/p>\n<p>A partir dali, come\u00e7ou um novo processo onde os \u201creformistas\u201d, dirigidos pelo reabilitado Deng Xiaoping, come\u00e7am a desarmar o andaime sobre o qual havia se montado o mao\u00edsmo. Em 1978, Deng se torna o novo l\u00edder a partir do qual come\u00e7a uma fase de reformas e abertura econ\u00f4mica. Uma fase que havia sido iniciada pelo pr\u00f3prio Mao durante a visita de Richard Nixon \u00e0 China em 1972. [2]<\/p>\n<p><strong>China, uma ditadura capitalista<\/strong><\/p>\n<p>No \u00faltimo trabalho escrito por Moreno sobre a China no Correio Internacional n\u00ba 13, em 1985, resenha a direitiza\u00e7\u00e3o do regime chin\u00eas e o giro para uma concilia\u00e7\u00e3o com o imperialismo ianque iniciado por Mao nos anos 70. Com seu sucessor, Deng Xiaoping, esse giro \u00e0 direita se aprofunda ainda mais e chega ao ponto sem retorno da abertura ao capitalismo.<\/p>\n<p>Em 2008, o trabalho de Miguel Sorans (dirigente da UIT-QI) retoma a evolu\u00e7\u00e3o do processo chin\u00eas, o caminho at\u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o que converteu a China em uma grande economia capitalista. Ao contr\u00e1rio da R\u00fassia, Alemanha e outros pa\u00edses do leste europeu, onde o movimento de massas derrubou as ditaduras burocr\u00e1ticas, foi o esmagamento das mobiliza\u00e7\u00f5es de milh\u00f5es de jovens estudantes e oper\u00e1rios, com o massacre de milhares de jovens em maio de 1989 na Pra\u00e7a Tiananmen, que explica que tenham se instalado 70 mil multinacionais na China, e que a considerem \u201ca f\u00e1brica do mundo\u201d.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 conclu\u00eddo com a caracteriza\u00e7\u00e3o do estado chin\u00eas como capitalista, e seu regime como uma ditadura do Partido Comunista. Destaca tamb\u00e9m as inumer\u00e1veis lutas oper\u00e1rias e populares que se desenvolvem espontaneamente em todos os rinc\u00f5es desse imenso pa\u00eds.<\/p>\n<p>O futuro da China depender\u00e1 da repercuss\u00e3o da crise econ\u00f4mica mundial e da atual pandemia da Covid-19 no pa\u00eds, e, fundamentalmente do desenvolvimento da luta de classes. Finalizamos este texto com um chamado aos revolucion\u00e1rios do mundo, para apoiarmos as lutas da classe oper\u00e1ria e da juventude chinesa por suas reivindica\u00e7\u00f5es e para nos posicionarmos pelo fim da ditadura capitalista chinesa.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>[1 e 1.1] <strong>Os debates na IV Internacional (SU)<\/strong>. O triunfo de Mao e o avan\u00e7o at\u00e9 a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia, ao calor da colossal revolu\u00e7\u00e3o camponesa, abriu um debate na IV Internacional. Deslumbrado pelo \u00eaxito revolucion\u00e1rio, o setor encabe\u00e7ado por Ernest Mandel e Livio Mait\u00e1n argumentou \u201caqueles que encabe\u00e7am revolu\u00e7\u00f5es vitoriosas s\u00e3o revolucion\u00e1rios\u201d. Minimizava o car\u00e1ter burocr\u00e1tico da condu\u00e7\u00e3o de Mao e sua pol\u00edtica de unidade com a burguesia e de \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Capitulava, assim, ao mao\u00edsmo; assim como capitou diante da dire\u00e7\u00e3o cubana e diversas dire\u00e7\u00f5es de processos de luta que ocorreram no mundo.<\/p>\n<p>[2] <strong>A rela\u00e7\u00e3o entre China e Estados Unidos<\/strong>. A primeira visita de um presidente dos Estados Unidos \u00e0 Rep\u00fablica Popular da China, realizada por Richard Nixon, foi precedida por uma visita secreta do Secret\u00e1rio de Estado Henry Kissinger. Foi um fato important\u00edssimo para normalizar as rela\u00e7\u00f5es entre os EUA e a Rep\u00fablica Popular da China. Para compreender o significado, Nixon declarou: \u201cFoi uma semana que mudou o mundo\u201d. Assim, fica evidente que Mao foi parte da burocracia que impulsionou a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, diferente do que acreditam alguns setores da esquerda, que acham que foi com Deng Xiaoping que se iniciou o processo restauracionista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Silvia Santos, dirigente da UIT-QI Tradu\u00e7\u00e3o: Lucas Schlabendorff Este texto que compartilhamos se apoia nas elabora\u00e7\u00f5es de Nahuel Moreno, dirigente do trotskismo latino-americano e mundial, contidas no livro \u201cChina de la Revoluci\u00f3n a la restauraci\u00f3n capitalista\u201d (junto com outros autores) e em pol\u00eamicas com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7333,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[808,1429,1428,532,1426,1427,50],"class_list":["post-7332","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-e-formacao-politica","tag-china","tag-chinesa","tag-chineses","tag-historia","tag-mao","tag-maotse","tag-revolucao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7332","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7332"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7332\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7333"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7332"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7332"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7332"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}