

	{"id":7622,"date":"2020-10-21T22:45:50","date_gmt":"2020-10-21T22:45:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=7622"},"modified":"2020-10-21T22:45:50","modified_gmt":"2020-10-21T22:45:50","slug":"os-negros-e-o-financiamento-privado-das-campanhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2020\/10\/21\/os-negros-e-o-financiamento-privado-das-campanhas\/","title":{"rendered":"Os negros e o financiamento privado das campanhas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Comiss\u00e3o de Negras e Negros da CST<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<ol>\n<li>As hist\u00f3ricas mobiliza\u00e7\u00f5es antirracistas que varreram os Estados Unidos e se espalharam pelos quatro cantos do mundo, ap\u00f3s o assassinato de George Floyd, colocaram, a quest\u00e3o do racismo e do seu enfrentamento, no centro das discuss\u00f5es, ao longo dos \u00faltimos meses. E, como n\u00e3o poderia deixar de ser, o tema tem ocupado um lugar de destaque tamb\u00e9m nos debates eleitorais. N\u00e3o por acaso, nos Estados Unidos, o candidato democrata Joe Biden escolheu a senadora negra Kamala Harris para ser sua candidata \u00e0 vice-presid\u00eancia, em uma tentativa evidente de \u201csurfar\u201d na onda dos protestos antirracistas, e angariar algum apoio junto a uma juventude cada vez mais rebelde que tem sa\u00eddo \u00e0s ruas, e que n\u00e3o via o seu nome com muita simpatia.<\/li>\n<\/ol>\n<p>No Brasil, a discuss\u00e3o a respeito da luta antirracista e da participa\u00e7\u00e3o de negros e negras da pol\u00edtica institucional, ganhou um novo impulso ap\u00f3s o STF decidir que a nova regra elaborada pelo TSE, obrigando os partidos a distribuir de maneira proporcional a verba eleitoral e o tempo de propaganda, entre candidaturas negras e brancas, seja aplicada j\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es municipais desse ano, o que foi comemorado por setores da pol\u00edtica e do pr\u00f3prio Judici\u00e1rio, como mais um passo no \u201ccombate\u201d \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o racial. Fala-se, inclusive, em um aumento in\u00e9dito no n\u00famero de candidaturas registradas que se autodeclararam enquanto negras.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que vem repercutindo, h\u00e1 alguns dias, a pol\u00eamica envolvendo Wesley Teixeira, jovem negro, candidato a vereador pelo PSOL em Duque de Caxias (RJ), que tem entre os contribuintes da sua campanha, figuras ilustres do mercado financeiro, como Arm\u00ednio Fraga \u2013 ex-presidente do Banco Central durante o governo de FHC \u2013 e herdeiros do banco Ita\u00fa, algo que contraria o pr\u00f3prio estatuto do partido. Segundo Wesley o recebimento desse tipo de recurso seria justific\u00e1vel diante da necessidade de eleger candidaturas engajadas no combate ao racismo e \u00e0 extrema-direita, por\u00e9m acreditamos que se trata de um erro grave. Se por um lado entendemos que \u00e9 importante lutar de maneira unificada com todos aqueles setores que reivindiquem a defesa das liberdades democr\u00e1ticas quando estas s\u00e3o atacadas, e o combate a qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 disso que se trata nesse caso, e receber dinheiro de agentes diretos da burguesia, compromete totalmente a independ\u00eancia pol\u00edtica de um partido, movimento, ou mesmo de um mandato. Como diz o velho ditado, \u201cquem paga a banda, escolhe a m\u00fasica\u201d, e a m\u00fasica que Arm\u00ednio Fraga, Beatriz Bracher e os irm\u00e3os Moreira Salles do Ita\u00fa, bem como outros setores empresariais que se vendem como \u201cprogressistas\u201d, querem tocar, \u00e9 o velho canto da sereia, que diz que \u00e9 poss\u00edvel haver um capitalismo mais humano, diverso e inclusivo, e que para isso basta alguns pequenos ajustes na sua fachada, sem que a estrutura precise ser tocada.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>O argumento de Wesley, de que seria v\u00e1lido receber dinheiro de figuras como essas, em nome da luta contra o bolsonarismo e o racismo, especialmente em uma conjuntura de \u201ccruel amea\u00e7a a direitos b\u00e1sicos e aumento da viol\u00eancia contra os mais pobres\u201d, parece ignorar que toda a pol\u00edtica de retirada de direitos implementada por diferentes governos e intensificada pelas m\u00e3os de Paulo Guedes, Bolsonaro e Rodrigo Maia, serve justamente \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o e \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o dos lucros obscenos dos banqueiros e dos especuladores. Esse \u00e9 o verdadeiro motivo por tr\u00e1s de ataques brutais como a Reforma Trabalhista, a EC do Teto dos Gastos, a Reforma da Previd\u00eancia, e mais recentemente, a Reforma Administrativa que quer extinguir os servi\u00e7os p\u00fablicos, tudo em nome do pagamento dos juros da D\u00edvida P\u00fablica, para onde tamb\u00e9m escoa todo o dinheiro que deveria ser investido em sa\u00fade e prote\u00e7\u00e3o social para enfrentar a Pandemia do novo Coronav\u00edrus.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Ao mesmo tempo, a luta contra o bolsonarismo e as amea\u00e7as da extrema-direita \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas, se d\u00e1 nas ruas, atrav\u00e9s de mobiliza\u00e7\u00f5es como as que encabe\u00e7aram as torcidas Antifascistas e a juventude negra h\u00e1 alguns meses. Esse \u00e9 o terreno onde deve-se materializar a unidade de a\u00e7\u00e3o contra o autoritarismo, n\u00e3o em acordos e compromissos pol\u00edticos com quem defende interesses irreconcili\u00e1veis com os da nossa classe.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 capitalismo sem racismo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se pode ter capitalismo sem racismo\u201d, a conhecida frase proferida por Malcolm X, uma das principais figuras do movimento negro internacional, h\u00e1 mais de 50 anos, denuncia a rela\u00e7\u00e3o estrutural entre o racismo e o capitalismo. O racismo \u00e9 um subproduto do sistema capitalista imperialista, e tem sido utilizado por este h\u00e1 s\u00e9culos para se sustentar e para legitimar tanto a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o de trabalhadoras e trabalhadores, quanto o saqueio que as grandes pot\u00eancias promovem contra diferentes pa\u00edses perif\u00e9ricos, inclusive do continente africano. Al\u00e9m disso, \u00e9 sempre bom lembrar que o sistema escravista est\u00e1 na base da acumula\u00e7\u00e3o primitiva de capital, ou seja, o capitalismo j\u00e1 nasceu com o \u201cpecado original\u201d da opress\u00e3o e do massacre do povo negro e ind\u00edgena.<\/p>\n<p>\u00c9 o racismo enquanto arma ideol\u00f3gica do capitalismo que ajuda a naturalizar o fato de serem os negros (e as mulheres negras, sobretudo) os que ocupam os piores postos de trabalho e os que recebem as menores remunera\u00e7\u00f5es. \u00c9 gra\u00e7as ao racismo, a servi\u00e7o dos aparelhos repressivos do Estado, que \u00e9 encarado quase de maneira banal o genoc\u00eddio da juventude negra no Brasil, e o encarceramento em massa de negros e pobres, sob o discurso fajuto de combate ao tr\u00e1fico de drogas. A pr\u00f3pria pol\u00edtica de erradica\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas e sociais, de privatiza\u00e7\u00e3o, e de sucateamento dos sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, da qual os banqueiros e os grandes empres\u00e1rios s\u00e3o os maiores entusiastas, atinge especialmente os trabalhadores e as trabalhadoras negras do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Sendo funcional ao modelo capitalista, o racismo, assim como o machismo, por exemplo, n\u00e3o pode ser erradicado nos marcos desse sistema, e muito menos de m\u00e3os dadas com aqueles que se beneficiam diretamente com ele. \u00c9 por isso que \u00e9 imposs\u00edvel pensar em uma verdadeira luta antirracista que n\u00e3o seja, por consequ\u00eancia, anticapitalista. Citando mais uma vez Malcolm X, \u201cN\u00e3o se tem uma revolu\u00e7\u00e3o quando se ama o inimigo; n\u00e3o se tem uma revolu\u00e7\u00e3o quando se est\u00e1 implorando ao sistema de explora\u00e7\u00e3o para que ele te integre. Revolu\u00e7\u00f5es derrubam sistemas, revolu\u00e7\u00f5es destroem sistemas.\u201d<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>O papel das lideran\u00e7as ne<\/strong><strong>gras e a necessidade de uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o negra foi alijada de todos os espa\u00e7os da sociedade brasileira, os direitos sociais como educa\u00e7\u00e3o, trabalho, sa\u00fade e moradia nos foram negados no per\u00edodo p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o. Os negros tornaram-se livres das araras, mas ref\u00e9ns de uma nova classe social.<\/p>\n<p>A politica estatal de embranquecer a sociedade pode ser verificada na importa\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra europeia, mesmo depois de tantas lutas para acabar com a escravid\u00e3o, os trabalhadores negros entraram tardiamente no mercado de trabalho e quando entraram, foram designados pap\u00e9is sociais sem perspectiva de vida. As origens do racismo estrutural no pa\u00eds pavimentou o caminho para que a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se visse representada na novela, no jornal, nos filmes, no trabalho intelectual, tampouco na politica institucional.<\/p>\n<p>\u00c9 progressivo todo o questionamento que fazemos e a batalha para estar em lugares que nos foram negados, inclusive no parlamento, mas devemos nos perguntar sempre quem s\u00e3o os nossos aliados. Nesse caso a burguesia e seus agentes (presidentes, senadores, ju\u00edzes, deputados, prefeitos e vereadores) atrav\u00e9s dos partidos patronais s\u00e3o aqueles que se beneficiam do racismo, s\u00e3o aqueles que enfrentamos nas greves, passeatas, ocupa\u00e7\u00f5es, seus interesses s\u00e3o opostos aos nossos e\u00a0irreconcili\u00e1veis. Acreditar que o vale-tudo eleitoral sem princ\u00edpios ser\u00e1 um avan\u00e7o para a luta antirracista \u00e9 ilus\u00e3o, \u00e9 preciso ter os dois p\u00e9s fincados no ch\u00e3o defendendo as pautas negras que s\u00e3o incompat\u00edveis com banqueiros \u201caliados\u201d, sobretudo numa conjuntura onde o movimento antirracista obriga as velhas raposas a se adaptarem, o grande objetivo dos nossos inimigos \u00e9 cooptar as principais lideran\u00e7as do movimento negro para a roda para evitar um Black Lives Matter no pa\u00eds. E o papel das lideran\u00e7as negras \u00e9 n\u00e3o se perder nas amarras da concilia\u00e7\u00e3o de classes, mantendo firme a luta antirracista com a luta anticapitalista (ou seja contra os governo capitalistas, contra os banqueiros, contra os empres\u00e1rios e o imperialismo).<\/p>\n<p>3.1-A luta antirracista na uni\u00e3o de todos os explorados e oprimidos<\/p>\n<p>\u00c9 urgente fortalecer uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria para o movimento negro no Brasil, presente nas pequenas e nas grandes lutas, soltar a m\u00e3o dos nossos inimigos que nunca dever\u00edamos ter apertado, como fizeram os libertos de maioria nag\u00f4 na Greve Negra na Bahia, levando os jornais da \u00e9poca ao desespero por temer uma Bahia \u201cgovernada por africanos\u201d. \u00c9 retomar a luta dos quilombos ou da revolta da chibata. Historicamente a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, de unidade com burgueses, sempre significou o abrandamento das pautas antirracistas, al\u00e9m da capitula\u00e7\u00e3o a governos que massacravam o povo negro. No Brasil, por exemplo, as pautas negras ou feministas, foram rifadas no governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes do PT em nome da governabilidade, dos pactos com o \u201ccentr\u00e3o\u201d, com os fundamentalistas e os fazendeiros da CNA.<\/p>\n<p>A luta direta, como fizemos nos atos antirracistas de maio junto as torcidas antifascistas, \u00e9 o caminho para enfrentar a extrema direita, o governo capitalista de Bolsonaro, os governadores racistas, a repress\u00e3o da PM, defender nossas liberdades democr\u00e1ticas e nossos direitos econ\u00f4micos e sociais. Atrav\u00e9s da luta unificada, como fizemos no breque dos Apps, junto as lutas feministas ou nas greves, podemos enfrentar a retirada de direitos, o racismo e a exclus\u00e3o social que a burguesia e seus governos tentam aprofundar. Nossos aliados s\u00e3o os movimentos ambientalistas que protestam contra as queimadas juntos aos povos ind\u00edgenas, s\u00e3o os camponeses que lutam contra o agroneg\u00f3cio e os ribeirinhos contra o hidroneg\u00f3cio, s\u00e3o os movimentos LGBTs. No RJ, onde o debate do financiamento est\u00e1 mais forte, devemos \u00e9 fortalecer o movimento em defesa dos direitos das terceirizadas, apoiando o exemplo das merendeiras e porteiros. Al\u00e9m de manter as campanhas em defesa das lutas dos garis. E \u00e9 justamente por isso que nas elei\u00e7\u00f5es, as vozes negras devem se expressar com independ\u00eancia dos patr\u00f5es e dos banqueiros, para o qual \u00e9 uma necessidade n\u00e3o ser financiando pelos capitalistas. Estar em espa\u00e7os institucionais t\u00eam que estar a servi\u00e7o de ajudar a construir, organizar e desenvolver as lutas de quem se choca com os patr\u00f5es, convive com o abandono e rala muitas vezes cumprindo o papel do estado nas quebradas. N\u00f3s socialistas negra e negros da CST estamos a servi\u00e7o dessa batalha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comiss\u00e3o de Negras e Negros da CST As hist\u00f3ricas mobiliza\u00e7\u00f5es antirracistas que varreram os Estados Unidos e se espalharam pelos quatro cantos do mundo, ap\u00f3s o assassinato de George Floyd, colocaram, a quest\u00e3o do racismo e do seu enfrentamento, no centro das discuss\u00f5es, ao longo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7623,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[103],"tags":[127,1310,1540,1519,1509,102,101,37,1323,1080],"class_list":["post-7622","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-negros-e-negras","tag-campanha","tag-cstpsol","tag-doacao","tag-eleitoral","tag-financiamento","tag-negras","tag-negros","tag-psol","tag-psolrj","tag-socialistas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7622"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7622\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7623"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}