

	{"id":7736,"date":"2020-12-04T18:35:47","date_gmt":"2020-12-04T18:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=7736"},"modified":"2020-12-04T18:47:53","modified_gmt":"2020-12-04T18:47:53","slug":"sobre-o-processo-eleitoral-de-2020-e-a-politica-dos-revolucionarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2020\/12\/04\/sobre-o-processo-eleitoral-de-2020-e-a-politica-dos-revolucionarios\/","title":{"rendered":"Sobre o processo eleitoral de 2020 e a pol\u00edtica dos revolucion\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Caio Dorsa \u2013 Cipista do Metr\u00f4 de SP<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Diego Vitello \u2013 Coordena\u00e7\u00e3o Nacional da CST e diretor do Sindicato dos Metrovi\u00e1rios de SP<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Durante o processo eleitoral o MRT publicou dois textos de debates com as posi\u00e7\u00f5es de nossa organiza\u00e7\u00e3o. Gostar\u00edamos de respond\u00ea-los de forma fraterna. Achamos que \u00e9 poss\u00edvel extrair de seus dois textos alguns debates importantes que se fazem necess\u00e1rios para a atua\u00e7\u00e3o do conjunto dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Um abstencionismo eleitoral injustific\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p>Partimos da defini\u00e7\u00e3o de que estamos em um regime democr\u00e1tico-burgu\u00eas, onde, a n\u00e3o ser em casos excepcionais, \u00e9 uma tarefa fundamental da esquerda revolucion\u00e1ria apresentar suas propostas para a classe trabalhadora aproveitando a brecha eleitoral. Em nossa opini\u00e3o, o objetivo dos dois textos do MRT \u00e9 justificar, ou at\u00e9 mesmo teorizar, a pol\u00edtica abstencionista nas disputas de prefeituras, especialmente na polarizada disputa de S\u00e3o Paulo entre o PSOL e os tucanos. Como se viu os companheiros n\u00e3o se vincularam a nenhuma candidatura majorit\u00e1ria no primeiro turno e, no segundo, n\u00e3o chamaram voto, nem mesmo cr\u00edtico, em Boulos. Ali\u00e1s, sequer chamaram voto nulo abertamente. Foi um voto nulo envergonhado. Quando viram que os setores mais avan\u00e7ados da classe trabalhadora estavam em meio a uma batalha eleitoral contra os tucanos, preferiram se calar quanto ao voto nulo. Mesmo assim, quando perguntados o que iriam digitar na urna no dia 29\/11 parte de seus militantes simplesmente n\u00e3o respondiam. Faziam o mesmo que as dezenas de textos publicados no esquerda di\u00e1rio durante as elei\u00e7\u00f5es, n\u00e3o chamavam voto em ningu\u00e9m para a prefeitura e n\u00e3o diziam o que fariam na urna.<\/p>\n<p>Para a tradi\u00e7\u00e3o marxista o voto \u00e9 t\u00e1tico, ou seja, n\u00e3o est\u00e1 no campo dos princ\u00edpios, como por exemplo a independ\u00eancia de classe. Da mesma forma que durante os governos do PT tanto n\u00f3s como o MRT cham\u00e1vamos voto nulo nos segundos turnos como uma t\u00e1tica para denunciar seus governos de concilia\u00e7\u00e3o de classe, em 2018, chamamos, assim como os companheiros do MRT, voto cr\u00edtico no Haddad como uma t\u00e1tica para combater a extrema direita, sem nenhuma ilus\u00e3o no programa do PT.\u00a0 Os companheiros parecem n\u00e3o entender isso quando tentam vincular um chamado de voto e campanha para Boulos \u00a0a uma suposta \u201cadapta\u00e7\u00e3o \u00e0 frente ampla\u201d, concluindo com a f\u00f3rmula abstrata que a \u00fanica posi\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de independ\u00eancia de classe \u00e9 n\u00e3o ter posi\u00e7\u00e3o nenhuma.<\/p>\n<p>Inclusive, pela l\u00f3gica que utilizam, os companheiros v\u00e3o al\u00e9m ao tentar estender essa t\u00e1tica abstencionista para todo um per\u00edodo. Como sabemos, para o MRT, vivemos em um novo regime pol\u00edtico p\u00f3s 2016. Frequentemente chamado pela f\u00f3rmula abstrata de \u201cRegime do Golpe Institucional\u201d, tamb\u00e9m chamado por um tempo de \u201cbonapartismo judicial\u201d e agora de \u201cbonapartismo institucional\u201d. \u00a0Os companheiros n\u00e3o definem muito bem o que \u00e9 exatamente esse novo regime e no que se diferencia substancialmente de uma democracia burguesa, regime no qual governou durante 14 anos a frente popular, apenas utilizam o conceito para explicar todos os fen\u00f4menos da realidade: da vit\u00f3ria de Bolsonaro em 2018 ao fortalecimento do \u201ccentr\u00e3o\u201d em 2020. Lembremos que muitos setores da esquerda, sobretudo nas universidades, impressionados com o impeachment de Dilma, agitavam que talvez n\u00e3o ter\u00edamos nem mais elei\u00e7\u00f5es em 2016 ou 2018. Esse discurso na \u00e9poca era alimentado pela dire\u00e7\u00e3o do PT. Esse debate que sempre esteve fora da realidade n\u00e3o existe mais, mas tem fortes resqu\u00edcios nas teses do MRT. Agora, usam esse mesmo conceito abstrato para dizer que a esquerda n\u00e3o pode se propor a governar uma cidade em meio ao \u201cregime do golpe institucional\u201d ou do bolsonarismo, justificando assim sua posi\u00e7\u00e3o abstencionista para a prefeitura. Curiosamente, no entanto, o \u201cnovo regime\u201d permite ainda a exist\u00eancia de \u201ctribunos do povo\u201d, o que fez com que a \u00fanica t\u00e1tica eleitoral concreta do MRT fosse chamar voto para a sua bancada de vereadores.\u00a0Se abst\u00e9m para a prefeitura justificando que isso seria se \u201cadaptar ao regime\u201d, por\u00e9m para vereadores \u201ca vida segue normal\u201d.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de defini\u00e7\u00f5es abstratas, o concreto \u00e9 que o regime pol\u00edtico em que vivemos permitiu a realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es municipais, e dessas elei\u00e7\u00f5es surgiu um fen\u00f4meno que foi a candidatura de Boulos. E aqui se encontra um erro que frequentemente o sectarismo comete: confundir fen\u00f4menos pol\u00edticos com sua dire\u00e7\u00e3o. N\u00f3s concordamos e compartilhamos das cr\u00edticas que os companheiros fazem \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da campanha de Boulos, das limita\u00e7\u00f5es do programa, da frente ampla com partidos de concilia\u00e7\u00e3o de classes e burgueses que a dire\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria do PSOL defende, de ceder \u00e0s press\u00f5es da burguesia da cidade para moderar o discurso etc. Tudo isso escrevemos em nosso jornal Combate Socialista e no site, al\u00e9m de dar a batalha junto com o Bloco de Esquerda no PSOL contra esse curso oportunista que busca repetir a experiencia fracassada do PT. Por\u00e9m, sabemos diferenciar essa dire\u00e7\u00e3o do que representou o fen\u00f4meno Boulos e o PSOL de S\u00e3o Paulo nessa elei\u00e7\u00e3o:\u00a0 uma express\u00e3o das lutas que se desenvolveram de forma incipiente contra o governo da extrema direita e que tiveram como epicentro S\u00e3o Paulo (breque dos app, torcidas antifascistas, movimento negro&#8230;), na qual fez com que um amplo setor da vanguarda e mesmo do movimento de massas buscasse uma sa\u00edda num l\u00edder de ocupa\u00e7\u00f5es e num partido de esquerda que n\u00e3o esteve no governo nos \u00faltimos anos. Como muitas vezes acontece, o fen\u00f4meno \u00e9 mais a esquerda que sua dire\u00e7\u00e3o. Diferente do MRT, n\u00f3s n\u00e3o ignoramos a realidade como ela se apresenta se refugiando no abstracionismo e buscamos nos vincular a esse movimento, tendo lado na polariza\u00e7\u00e3o que existiu na cidade, compartilhando a vontade de centenas de milhares de jovens e trabalhadores em derrotar os tucanos nas elei\u00e7\u00f5es, fazendo campanha junto com eles, sem deixar de fazer as criticas necess\u00e1rias, mas como parte deste movimento.<\/p>\n<p><strong>Sobre nossa luta contra a pol\u00edtica da frente ampla<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7amos esclarecendo os companheiros do MRT que h\u00e1 muito temos lutado contra a pol\u00edtica da dire\u00e7\u00e3o do PSOL de alian\u00e7as com partidos burgueses ou que encabe\u00e7aram os governos de concilia\u00e7\u00e3o de classes. Temos centenas ou at\u00e9 milhares de p\u00e1ginas escritas sobre isso desde 2005 quando esse debate come\u00e7a a ser feito no PSOL. Portanto \u00e9 completamente insustent\u00e1vel o MRT alegar que \u201cQue nossas cr\u00edticas tenham influenciado a CST \u00e9 um sinal positivo\u201d quando se refere a nossa pol\u00edtica de cr\u00edtica \u00e0 frente ampla. Segundo essa ideia distante da realidade, influenciados pelo esquerda di\u00e1rio e pela pol\u00edtica do MRT, ter\u00edamos lutado contra a Frente Ampla.<\/p>\n<p>Esclarecemos aos companheiros que pelo visto pouco conhecem de nossa hist\u00f3ria, que durante os anos 90, antes mesmo do MRT ou da LER-QI existir como organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil, e quando a internet ainda dava seus primeiros passos, a CST j\u00e1 batalhava no PT elaborando sobre a pol\u00edtica de alian\u00e7as com partidos burgueses.<\/p>\n<p>O que mais chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 feita em um texto justamente respondendo um texto nosso de cr\u00edtica a frente ampla no segundo turno em S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m disso, \u00a0fingem ignorar as nossas posi\u00e7\u00f5es sobre a Frente ampla em Bel\u00e9m e Florian\u00f3polis no primeiro turno.<\/p>\n<p>Chegamm a afirmar que foi errado que a CST prop\u00f4s na quinta-feira (dia 26\/11) que a principal tarefa at\u00e9 o dia 29\/11 era fazer campanha e virar votos para a candidatura de Boulos e n\u00e3o \u201corganizar os trabalhadores\u201d. \u00a0Sim, faltavam tr\u00eas dias para as elei\u00e7\u00f5es, qual era exatamente o plano de lutas \u00a0que os companheiros estavam propondo para esses tr\u00eas dias? Na verdade a luta de classes, a disputa pela consci\u00eancia da classe trabalhadora estava em uma forte batalha eleitoral contra o PSDB, da qual o MRT e seu site se abstiveram. \u00a0Utilizar essa frase fora de contexto e esconder que em todos os nossos editoriais, inclusive o eleitoral, chamamos a que as centrais sindicais, a UNE e os partidos de oposi\u00e7\u00e3o rompam com o imobilismo e construam uma jornada nacional de lutas contra a retirada de direitos e o governo Bolsonaro beira \u00e0 desonestidade.<\/p>\n<p>Essa pr\u00e1tica dos companheiros n\u00e3o ajuda na constru\u00e7\u00e3o de um polo de independ\u00eancia de classe no pa\u00eds. N\u00f3s reivindicamos a experiencia e o exemplo da Frente de Esquerda na Argentina. Este instrumento n\u00e3o \u00e9 patrim\u00f4nio exclusivo do PTS ou do nosso partido Izquierda Socialista, mas sim da unidade dos revolucion\u00e1rios. Infelizmente a pol\u00edtica concreta do MRT \u00e9 oposta ao exemplo da FIT-U, aqui o que prima \u00e9 o divisionismo, o abstencionismo eleitoral e a autoproclama\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 expresso na incapacidade dos companheiros em fazerem unidade em chapas de sindicato para combater a burocracia sindical ou at\u00e9 em elei\u00e7\u00f5es de CIPA. Saem sozinhos sempre em qualquer uma dessas elei\u00e7\u00f5es, alegando sempre diferen\u00e7as gigantescas com outras organiza\u00e7\u00f5es, que \u201cimpedem\u201d unidade. Como sabemos, essa \u00e9 a base da autoproclama\u00e7\u00e3o. Boicotam, por exemplo, a CSP-CONLUTAS, um polo important\u00edssimo do sindicalismo combativo no Brasil e na Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o \u00e9 surpresa, por tanto, que nas elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o possuam pol\u00edtica para al\u00e9m de si mesmos e caiam no abstencionismo total . Chamamos os companheiros a reverem essa postura e ajudar na tarefa imprescind\u00edvel de reorganizar a esquerda revolucion\u00e1ria e internacionalista no pa\u00eds que d\u00ea respostas concretas a realidade. De nossa parte, seguimos dispostos a construir a unidade dos revolucion\u00e1rios no Brasil, batalhando por um polo dos que reivindicam a experi\u00eancia da FIT-U que atue em comum nos processos de luta da nossa classe e realize a\u00e7\u00f5es como aquelas ocorridas em SP e no RJ no MASP e na embaixada dos EUA.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caio Dorsa \u2013 Cipista do Metr\u00f4 de SP Diego Vitello \u2013 Coordena\u00e7\u00e3o Nacional da CST e diretor do Sindicato dos Metrovi\u00e1rios de SP Durante o processo eleitoral o MRT publicou dois textos de debates com as posi\u00e7\u00f5es de nossa organiza\u00e7\u00e3o. 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