

	{"id":8432,"date":"2021-07-05T14:29:29","date_gmt":"2021-07-05T14:29:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=8432"},"modified":"2021-07-05T14:29:29","modified_gmt":"2021-07-05T14:29:29","slug":"150-anos-da-internacional-de-pe-o-vitimas-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2021\/07\/05\/150-anos-da-internacional-de-pe-o-vitimas-da-fome\/","title":{"rendered":"150 anos da Internacional: \u201cDe p\u00e9, \u00f3 v\u00edtimas da fome&#8230;\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">por <strong>Adolfo Santos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Tradu\u00e7\u00e3o de Lucas Schlabendorff<\/p>\n<p><em>Eugene Pottier (1816-1887) morreu sem saber que seu poema, A Internacional, escrito em junho de 1871, viria a se tornar o hino da classe trabalhadora mundial. Muitas vezes a cantamos, murmuramos ou assobiamos sem conhecer a sua origem, seus autores ou o contexto em que foi criada. Neste texto, queremos compartilhar uma parte dessa bela hist\u00f3ria que completa 150 anos em 2021.<\/em><\/p>\n<p>Pottier nasceu em Paris, Fran\u00e7a, em 4 de outubro de 1816, no seio de uma fam\u00edlia oper\u00e1ria. Com apenas 13 anos, aprendeu o of\u00edcio de seu pai como empregado de embalagens e se incorporou \u00e0s fileiras do proletariado. Nesse ambiente, foi marcado pelas primeiras grandes lutas travadas pelos trabalhadores e se integrou com tudo ao movimento revolucion\u00e1rio da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em 1848, eclodiram rebeli\u00f5es na Europa contra o absolutismo mon\u00e1rquico. A Fran\u00e7a foi a vanguarda. Em fevereiro, as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es derrubaram Lu\u00eds Felipe I e se instalou a Rep\u00fablica. No entanto, as conquistas democr\u00e1ticas estabelecidas pelo novo governo n\u00e3o conseguiram aliviar a fome e a mis\u00e9ria do povo franc\u00eas. A lua de mel acabou em junho. Ao grito de \u201cp\u00e3o ou balas!\u201d, \u201ctrabalho ou balas!\u201d, uma multid\u00e3o, em grande parte armada, voltou a montar barricadas como em fevereiro. Um setor de Paris ficou sob controle dos trabalhadores, mas uma violenta repress\u00e3o acabou derrotando a tentativa de realizar, segundo Marx definiu, \u201ca maior insurrei\u00e7\u00e3o j\u00e1 ocorrida, uma revolu\u00e7\u00e3o do proletariado contra a burguesia\u201d*. Ali, na linha de frente, estava Eugene Pottier.<\/p>\n<p>Ativo militante da causa dos oprimidos, em 1867 fundou a C\u00e2mara Sindical das Oficinas de Desenhistas e se filiou \u00e0 Primeira Internacional. Em 1871, foi eleito representante na Comuna de Paris pelo Segundo Distrito, depois de obter 3.352 votos dos 3.600 emitidos, e integrou o primeiro governo oper\u00e1rio revolucion\u00e1rio da hist\u00f3ria. Ap\u00f3s a derrota da Comuna, em maio passou \u00e0 clandestinidade e, refletindo a experi\u00eancia da Comuna, escreveu o poema <em>A Internacional<\/em>, que anos mais tarde se integrou \u00e0 sua obra, Cantos Revolucion\u00e1rios. Para evitar sua execu\u00e7\u00e3o, fugiu para a Inglaterra. Em 1879, voltou para seu pa\u00eds e participou da forma\u00e7\u00e3o do Partido Oper\u00e1rio Franc\u00eas, colaborando no jornal O Socialista, junto de Paul Lafargue, um dos genros de Karl Marx.<\/p>\n<p>Eugene Pottier, revolucion\u00e1rio e poeta, morreu em Paris, no dia 6 de novembro de 1887. Seu enterro, do qual participaram milhares de trabalhadores, se converteu em um verdadeiro ato pol\u00edtico que foi duramente reprimido pela pol\u00edcia. Em uma homenagem p\u00f3stuma, Lenin escreveu: \u201cPottier morreu na mis\u00e9ria, mas deixou erguido em sua mem\u00f3ria um monumento imperec\u00edvel. Foi um dos maiores propagandistas por meio da can\u00e7\u00e3o\u201d (<em>Pravda<\/em>, 3\/1\/1913). E foi mesmo.<\/p>\n<p><em>A Internacional <\/em>n\u00e3o \u00e9 apenas um poema. \u00c9 um verdadeiro manifesto revolucion\u00e1rio que convoca o proletariado do mundo inteiro a derrotar o imp\u00e9rio burgu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Um grito de guerra dos trabalhadores<\/strong><\/p>\n<p>A obra de Pottier foi completada por outro filho da classe trabalhadora, o belga Pierre Degeyter (1848-1932). Quando tinha 7 anos, sua fam\u00edlia se mudou para a Fran\u00e7a, onde come\u00e7ou a trabalhar em f\u00e1bricas desde crian\u00e7a. Se alfabetizou em uma escola noturna para trabalhadores e, aos 38 anos, formou-se na Academia de M\u00fasica.<\/p>\n<p>Em 1886, se somou ao coro oper\u00e1rio A Lira dos Trabalhadores, fundado por Gustavo Delory, um dos l\u00edderes do Partido Oper\u00e1rio Franc\u00eas, que, em 1888, o encarregou de compor a m\u00fasica de v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias populares.<\/p>\n<p>Entre essas letras estava o poema de Eugene Pottier. Degeyter comp\u00f4s a melodia para <em>A Internacional <\/em>que o coro A Lira dos Trabalhadores cantou pela primeira vez em uma festa anual organizada pelo sindicato de vendedores de jornais. A can\u00e7\u00e3o fez sucesso imediato na Fran\u00e7a e logo se popularizou no mundo inteiro, convertendo-se em um grito de guerra dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Em 1892, foi adotada como o hino dos trabalhadores pela Segunda Internacional, e, em 1919, Lenin a oficializou na Terceira Internacional e passou a ser o hino nacional da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS) at\u00e9 1943. N\u00e3o por acaso Stalin, que queria eliminar qualquer tra\u00e7o de internacionalismo, mudou o hino adotado pela URSS de Lenin por outro, que enaltece o sentimento gr\u00e3o-russo.<\/p>\n<p><em>A Internacional <\/em>foi traduzida a todos os idiomas e \u00e9 cantada em todos os pa\u00edses do mundo. Em cada lugar, o movimento dos trabalhadores se apropriou dela de tal forma que foi incorporando suas pr\u00f3prias palavras.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro encontrar v\u00e1rias vers\u00f5es, ainda que no mesmo idioma. No entanto, qualquer que seja a vers\u00e3o, n\u00e3o muda a ess\u00eancia expressada pelo seu autor no original franc\u00eas: um vibrante chamado ao proletariado para que se levante, se una e lute para mudar as bases do mundo.<\/p>\n<p>*Marx\/Engels, Obras Escolhidas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A Internacional<\/em>, vers\u00e3o em portugu\u00eas cantada no Brasil<\/strong><\/p>\n<p><em>De p\u00e9, \u00f3 v\u00edtimas da fome<\/em><\/p>\n<p><em>De p\u00e9, fam\u00e9licos da terra<\/em><\/p>\n<p><em>Da ideia a chama j\u00e1 consome<\/em><\/p>\n<p><em>A crosta bruta que a soterra<\/em><\/p>\n<p><em>Cortai o mal bem pelo fundo<\/em><\/p>\n<p><em>De p\u00e9, de p\u00e9, n\u00e3o mais senhores<\/em><\/p>\n<p><em>Se nada somos em tal mundo<\/em><\/p>\n<p><em>Sejamos tudo, \u00f3 produtores<\/em><\/p>\n<p><em>Bem unidos fa\u00e7amos<\/em><\/p>\n<p><em>Nesta luta final<\/em><\/p>\n<p><em>Uma terra sem amos<\/em><\/p>\n<p><em>A Internacional<\/em><\/p>\n<p><em>Senhores, Patr\u00f5es, chefes supremos<\/em><\/p>\n<p><em>Nada esperamos de nenhum<\/em><\/p>\n<p><em>Sejamos n\u00f3s que conquistemos<\/em><\/p>\n<p><em>A terra m\u00e3e livre e comum<\/em><\/p>\n<p><em>Para n\u00e3o ter protestos v\u00e3os<\/em><\/p>\n<p><em>Para sair desse antro estreito<\/em><\/p>\n<p><em>Fa\u00e7amos n\u00f3s por nossas m\u00e3os<\/em><\/p>\n<p><em>Tudo o que a n\u00f3s nos diz respeito<\/em><\/p>\n<p><em>Bem unidos fa\u00e7amos<\/em><\/p>\n<p><em>Nesta luta final<\/em><\/p>\n<p><em>Uma terra sem amos<\/em><\/p>\n<p><em>A Internacional<\/em><\/p>\n<p><em>O crime do rico a lei o cobre<\/em><\/p>\n<p><em>O Estado esmaga o oprimido<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o h\u00e1 direitos para o pobre<\/em><\/p>\n<p><em>Ao rico tudo \u00e9 permitido<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c0 opress\u00e3o n\u00e3o mais sujeitos<\/em><\/p>\n<p><em>Somos iguais todos os seres<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o mais deveres sem direitos<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o mais direitos sem deveres<\/em><\/p>\n<p><em>Bem unidos fa\u00e7amos<\/em><\/p>\n<p><em>Nesta luta final<\/em><\/p>\n<p><em>Uma terra sem amos<\/em><\/p>\n<p><em>A Internacional<\/em><\/p>\n<p><em>Abomin\u00e1veis na grandeza<\/em><\/p>\n<p><em>Os reis da mina e da fornalha<\/em><\/p>\n<p><em>Edificaram a riqueza<\/em><\/p>\n<p><em>Sobre o suor de quem trabalha<\/em><\/p>\n<p><em>Todo o produto de quem sua<\/em><\/p>\n<p><em>A corja rica o recolheu<\/em><\/p>\n<p><em>Querendo que ela o restitua<\/em><\/p>\n<p><em>O povo s\u00f3 quer o que \u00e9 seu<\/em><\/p>\n<p><em>Bem unidos fa\u00e7amos<\/em><\/p>\n<p><em>Nesta luta final<\/em><\/p>\n<p><em>Uma terra sem amos<\/em><\/p>\n<p><em>A Internacional<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00f3s fomos de fumo embriagados<\/em><\/p>\n<p><em>Paz entre n\u00f3s, guerra aos senhores<\/em><\/p>\n<p><em>Fa\u00e7amos greve de soldados<\/em><\/p>\n<p><em>Somos irm\u00e3os, trabalhadores<\/em><\/p>\n<p><em>Se a ra\u00e7a vil, cheia de galas<\/em><\/p>\n<p><em>Nos quer \u00e0 for\u00e7a canibais<\/em><\/p>\n<p><em>Logo ver\u00e1s que as nossas balas<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00e3o para os nossos generais<\/em><\/p>\n<p><em>Bem unidos fa\u00e7amos<\/em><\/p>\n<p><em>Nesta luta final<\/em><\/p>\n<p><em>Uma terra sem amos<\/em><\/p>\n<p><em>A Internacional<\/em><\/p>\n<p><em>Pois somos do povo os ativos<\/em><\/p>\n<p><em>Trabalhador forte e fecundo<\/em><\/p>\n<p><em>Pertence a Terra aos produtivos<\/em><\/p>\n<p><em>\u00d3 parasitas deixai o mundo<\/em><\/p>\n<p><em>\u00d3 parasitas que te nutres<\/em><\/p>\n<p><em>Do nosso sangue a gotejar<\/em><\/p>\n<p><em>Se nos faltarem os abutres<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o deixa o sol de fulgurar<\/em><\/p>\n<p><em>Bem unidos fa\u00e7amos<\/em><\/p>\n<p><em>Nesta luta final<\/em><\/p>\n<p><em>Uma terra sem amos<\/em><\/p>\n<p><em>A Internacional<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Adolfo Santos Tradu\u00e7\u00e3o de Lucas Schlabendorff Eugene Pottier (1816-1887) morreu sem saber que seu poema, A Internacional, escrito em junho de 1871, viria a se tornar o hino da classe trabalhadora mundial. Muitas vezes a cantamos, murmuramos ou assobiamos sem conhecer a sua origem,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":8433,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[1677,1295,532,31,1678],"class_list":["post-8432","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia-e-formacao-politica","tag-comunista","tag-fundacao","tag-historia","tag-internacional","tag-marxismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8432"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8432\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8433"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}