

	{"id":9423,"date":"2022-06-15T20:00:10","date_gmt":"2022-06-15T20:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=9423"},"modified":"2022-06-15T20:00:10","modified_gmt":"2022-06-15T20:00:10","slug":"ucrania-segunda-carta-a-esquerda-ocidental-taras-bilous","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2022\/06\/15\/ucrania-segunda-carta-a-esquerda-ocidental-taras-bilous\/","title":{"rendered":"Ucr\u00e2nia: segunda carta \u00e0 esquerda ocidental (Taras Bilous)"},"content":{"rendered":"<p>por <strong>Taras Bilous<\/strong>*, para vientosur.info<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos saber como a Ucr\u00e2nia se desenvolver\u00e1 depois da guerra. O que sabemos \u00e9 que as consequ\u00eancias ser\u00e3o terr\u00edveis caso ven\u00e7a a R\u00fassia.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois meses, quando escrevi a \u201cCarta de Kiev \u00e0 esquerda ocidental\u201d, esperava que o estupor causado pela invas\u00e3o russa e as vozes da esquerda ucraniana levassem a esquerda ocidental a reconsiderar sua abordagem. Lamentavelmente, muitos setores n\u00e3o o fizeram. Em suas an\u00e1lises da guerra, a popula\u00e7\u00e3o ucraniana \u00e9 uma v\u00edtima que precisa de ajuda humanit\u00e1ria e nada mais, em vez de um sujeito com desejos que deveriam ser respeitados.<\/p>\n<p>Claro que isso n\u00e3o se refere a todos os componentes da esquerda. Os partidos de esquerda escandinavos e os da Europa Oriental escutaram o povo ucraniano e apoiam o envio de armas para a Ucr\u00e2nia. Observa-se certo progresso entre as e os socialistas estadunidenses, mas, desgra\u00e7adamente, nem sequer uma declara\u00e7\u00e3o conjunta de socialistas ucranianos e russos convenceu pessoas suficientes para que respaldem o apoio militar. Diante disso, permito-me dirigir mais uma vez \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma guerra justa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Comecemos abordando uma quest\u00e3o muito comum: por que se presta tanta aten\u00e7\u00e3o e tanta ajuda \u00e0 Ucr\u00e2nia, enquanto n\u00e3o se faz o mesmo com outros conflitos armados pelo mundo? Em primeiro lugar, \u00e9 preciso questionar se as potenciais consequ\u00eancias da guerra n\u00e3o s\u00e3o raz\u00e3o suficiente para prestar mais aten\u00e7\u00e3o. Afinal, quando foi a \u00faltima vez que o mundo se viu amea\u00e7ado t\u00e3o de perto por uma poss\u00edvel guerra nuclear? Em segundo lugar, admito que outros conflitos n\u00e3o recebam suficiente aten\u00e7\u00e3o. Como escrevi anteriormente, o fato de que a Europa trate as pessoas refugiadas ucranianas muito melhor do que suas hom\u00f3logas s\u00edrias e afeg\u00e3s deve-se, sobretudo, ao racismo. \u00c9 um bom momento para criticar as pol\u00edticas migrat\u00f3rias e apontar que a ajuda prestada ao povo refugiado ucraniano deve ser concedida para todas as pessoas refugiadas, venham de onde venham.<\/p>\n<p>Recordo outro conflito armado em que partes da esquerda aplaudiram seus mocinhos (e mocinhas) e lhes prestavam uma aten\u00e7\u00e3o desmesurada em compara\u00e7\u00e3o a outros conflitos armados: Rojava. Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 Rojava, e podemos enumerar muitas queixas a respeito das pol\u00edticas internas e externas de Zelensky. A Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 nem sequer uma democracia liberal cl\u00e1ssica: aqui, todos os presidentes tratam de acumular tanto poder da forma que seja poss\u00edvel com mecanismos informais, o parlamento promulga leis inconstitucionais e constantemente se violam os direitos e liberdades da cidadania. Inclusive durante a guerra, o governo ucraniano aprovou uma lei que retira direitos trabalhistas. Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 muito distinta do resto da Europa Oriental.<\/p>\n<p>Isso significa que o povo ucraniano deveria depor as armas? Em minha opini\u00e3o, a resposta \u00e9 evidente: decidi me incorporar nas For\u00e7as de Defesa Territorial assim que come\u00e7ou a guerra, e n\u00e3o sou o \u00fanico, longe disso. Anarquistas da Ucr\u00e2nia, Bielorr\u00fassia e inclusive alguns da R\u00fassia lutam atualmente na Defesa Territorial ou colaboram com ela. Eles n\u00e3o gostam de Zelensky e nem do Estado ucraniano; a pol\u00edcia os deteve repetidamente em algumas manifesta\u00e7\u00f5es (assim como a mim) e alguns anarquistas estrangeiros foram alvo de tentativas de deporta\u00e7\u00e3o por parte dos servi\u00e7os especiais. Apesar de tudo isso, fomos \u00e0 guerra. Voc\u00eas podem pensar que esses n\u00e3o s\u00e3o verdadeiros anarquistas, ou, talvez, poder\u00e3o pensar que n\u00f3s sabemos algo sobre a Europa Oriental que lhes escapa.<\/p>\n<p>Sou socialista e n\u00e3o penso que \u00e9 preciso defender o pr\u00f3prio pa\u00eds em qualquer guerra defensiva. Essa decis\u00e3o deveria depender de uma an\u00e1lise das for\u00e7as participantes, da natureza social da guerra, dos sentimentos da popula\u00e7\u00e3o, do contexto geral e das potenciais consequ\u00eancias de diferentes resultados. Se a Ucr\u00e2nia estivesse governada por uma junta fascista e a situa\u00e7\u00e3o fosse aquela descrita na propaganda russa, eu tamb\u00e9m condenaria a invas\u00e3o, mas n\u00e3o me juntaria ao ex\u00e9rcito. Nessa situa\u00e7\u00e3o seria mais apropriado impulsionar uma luta guerrilheira independente. H\u00e1 outras invas\u00f5es, como a que levou a cabo os EUA no Afeganist\u00e3o e no Iraque, que \u00e9 preciso condenar, mas que colocam o questionamento de se seria correto lutar em defesa dos regimes dos talib\u00e3s ou de Saddam Hussein. Eu duvido. Mas, no nosso caso, vale a pena proteger a democracia muito imperfeita da Ucr\u00e2nia frente ao regime parafascista (sic, NdT) de Putin? Sim.<\/p>\n<p>Sei que muitas pessoas n\u00e3o gostam dessas coloca\u00e7\u00f5es. Depois de 2014, quando se tornou popular chamar Putin de fascista na Ucr\u00e2nia, critiquei essa opini\u00e3o. No entanto, nos \u00faltimos anos o regime de Putin se tornou cada vez mais autorit\u00e1rio, conservador e nacionalista, e, depois da derrota do movimento antiguerra, sua transforma\u00e7\u00e3o deu uma volta no parafuso. Intelectuais de esquerda russos, como Greg Yudin e Ilya Budraitskis, pensam que o pa\u00eds est\u00e1 evoluindo para o fascismo.<\/p>\n<p>Em muitos conflitos armados \u00e9 correto propor a diplomacia e o acordo. Em muitos casos de conflitos \u00e9tnicos, as correntes internacionalistas n\u00e3o deveriam tomar partido. Mas essa guerra n\u00e3o est\u00e1 entre eles. A diferen\u00e7a da guerra em Donbass, em 2014, que era uma quest\u00e3o complicada, da natureza da guerra atual, \u00e9 simples. A R\u00fassia leva adiante uma guerra imperialista agressiva; a Ucr\u00e2nia leva adiante uma guerra popular de liberta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos saber como se desenvolver\u00e1 a Ucr\u00e2nia depois da guerra, pois isso depende de uma s\u00e9rie de fatores. Mas podemos assegurar que, caso ven\u00e7a a Ucr\u00e2nia, haver\u00e1 alguma oportunidade de mudan\u00e7a progressista. Caso ven\u00e7a a R\u00fassia, as consequ\u00eancias ser\u00e3o terr\u00edveis. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal para apoiar a resist\u00eancia ucraniana, inclusive com ajuda militar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A extrema direita ucraniana<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Pode ser que algu\u00e9m fa\u00e7a outra pergunta: o que dizer da extrema direita ucraniana? Nos debates mais razo\u00e1veis sobre essa quest\u00e3o, um lado sempre destaca o escasso apoio eleitoral com que conta a extrema direita e sua nula representa\u00e7\u00e3o parlamentar, enquanto outro lado insiste em que, devido \u00e0 sua infiltra\u00e7\u00e3o em certos aparatos do Estado e sua participa\u00e7\u00e3o ativa nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua, a extrema direita exerce uma influ\u00eancia desproporcional na pol\u00edtica ucraniana. Ambas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o corretas, mas h\u00e1 um fato que ambos os lados deixam passar: a influ\u00eancia desproporcional da extrema direita est\u00e1 baseada, em grande parte, na debilidade da sociedade civil e do Estado, n\u00e3o em sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da extrema direita \u00e9 observada em toda a Europa Oriental, ainda que a din\u00e2mica varie de um pa\u00eds a outro. Ao final da d\u00e9cada de 2000, a extrema direita semeou o terror nas ruas, com bombardeios, pogroms e outros ataques letais. Ap\u00f3s os dist\u00farbios da pra\u00e7a Manezhnaya, em 2010, o Estado russo decidiu intervir e membros da extrema direita russa fugiram do pa\u00eds ou foram encarcerados. Alguns se refugiaram na Ucr\u00e2nia, que era um lugar seguro, em particular porque o aparato repressivo do Estado ucraniano \u00e9 muito mais d\u00e9bil. (A debilidade relativa do Estado tamb\u00e9m foi a raz\u00e3o principal do \u00eaxito das manifesta\u00e7\u00f5es de massas na Ucr\u00e2nia em compara\u00e7\u00e3o com as da Bielorr\u00fassia, onde os manifestantes se enfrentavam com a deten\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria e a tortura, ou as do Cazaquist\u00e3o, onde as for\u00e7as de seguran\u00e7a, respaldadas pela R\u00fassia, praticaram uma repress\u00e3o mortal.)<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, as for\u00e7as da extrema direita na Ucr\u00e2nia estiveram submetidas a novas provas. Desde a revolta de Maidan, o desenvolvimento de uma sociedade civil liberal alterou o equil\u00edbrio de for\u00e7as nas ruas. At\u00e9 pouco tempo n\u00e3o havia uma divis\u00e3o n\u00edtida entre a extrema direita e outros grupos pol\u00edticos, mas isso tamb\u00e9m est\u00e1 mudando gradualmente gra\u00e7as ao ascenso do movimento feminista e LGBT, que se op\u00f5em aos radicais de direita. Finalmente, gra\u00e7as \u00e0 campanha contra a deporta\u00e7\u00e3o do anarquista bielorrusso Aleksey Bolenkov e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do distrito de Podil diante da extrema direita em Kiev, no ano passado, temos assistido a um ressurgimento do movimento antifascista nas ruas.<\/p>\n<p>Desde 2014, a extrema direita tem compensado seus fracassos eleitorais refor\u00e7ando sua presen\u00e7a nas ruas e sua alian\u00e7a com os liberais, que se formou durante os anos de luta contra o regime de Yanukovich. No entanto, essa uni\u00e3o come\u00e7ou a rachar gradualmente depois que Zelensky subiu ao poder em 2019. A extrema direita, em particular o movimento Azov, estava em crise, e, desde a destitui\u00e7\u00e3o do Ministro do Interior, Arsen Avakov, considerado o patrono de Azov, o aparato estatal passou a trat\u00e1-lo com mais frieza.<\/p>\n<p>Obviamente, a guerra alterou tudo, e o que vai ocorrer daqui pra frente depende de muitos fatores. A participa\u00e7\u00e3o da extrema direita ucraniana na guerra atual \u00e9 menos importante do que em 2014, com uma exce\u00e7\u00e3o evidente: o Batalh\u00e3o Azov. Mas nem todos os integrantes desse Batalh\u00e3o s\u00e3o de extrema direita, e, ao estar integrado na Guarda Nacional e nas For\u00e7as Armadas, executam as ordens do alto comando. Inclusive, Azov n\u00e3o \u00e9 mais do que uma pequena parte da resist\u00eancia ucraniana. Por consequ\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 motivo para supor que a guerra atual impulsionar\u00e1 o ascenso da extrema direita tanto como ocorreu na guerra no Donbass.<\/p>\n<p>Hoje por hoje, a principal amea\u00e7a para a popula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 a extrema direita ucraniana, mas os ocupantes russos. Isso inclui grupos que, em anos recentes, foram atacados pela extrema direita, como as comunidades ciganas e as pessoas LGBT, que tamb\u00e9m participam ativamente da resist\u00eancia ucraniana. Tamb\u00e9m se aplica \u00e0s pessoas que residem em Donbass. A propaganda russa utiliza hipocritamente as pessoas residentes do Donbass para justificar a invas\u00e3o, acusando a Ucr\u00e2nia de \u201cgenoc\u00eddio\u201d, enquanto o ex\u00e9rcito russo arrasa completamente as cidades da regi\u00e3o. Enquanto aqui o povo faz longas filas para participar da Defesa Territorial ucraniana, na regi\u00e3o de Donbass, controlada pela R\u00fassia, capturam os homens nas ruas, os incorporam nas fileiras a for\u00e7a e os lan\u00e7am para a batalha, sem que tenham recebido sequer instru\u00e7\u00e3o, como carne de canh\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conflito interimperialista<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Outro argumento comum que se utiliza contra a resist\u00eancia ucraniana \u00e9 que trata-se de uma guerra subsidi\u00e1ria entre o Ocidente e a R\u00fassia. Todo conflito militar \u00e9 polifac\u00e9tico, e um dos componentes do conflito atual \u00e9 um conflito interimperialista. No entanto, se isso bastasse para qualificar de guerra subsidi\u00e1ria, praticamente todos os conflitos armados no mundo s\u00e3o guerras subsidi\u00e1rias. Em vez de debater sobre o termo, \u00e9 mais importante analisar o grau de depend\u00eancia da Ucr\u00e2nia em rela\u00e7\u00e3o ao Ocidente e compreender os objetivos dos campos imperialistas.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia \u00e9 muito menos subsidi\u00e1ria do Ocidente do que foram as for\u00e7as curdas em rela\u00e7\u00e3o aos EUA em sua heroica luta contra o Estado Isl\u00e2mico. Por outro lado, ser subsidi\u00e1rio n\u00e3o significa ser um t\u00edtere: trata-se de for\u00e7as locais que recebem apoio militar de outros pa\u00edses. Tanto esses como aqueles t\u00eam seus pr\u00f3prios interesses, que podem coincidir apenas em parte. E, do mesmo modo que a esquerda apoiou as e os combatentes de Rojava, apesar de que as for\u00e7as curdas da S\u00edria recebiam ajuda militar estadunidense, a esquerda deveria apoiar o povo ucraniano. A pol\u00edtica socialista relativa a conflitos armados deveria estar baseada na an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o sobre o terreno e n\u00e3o na quest\u00e3o de se uma pot\u00eancia imperialista apoia um ou outro lado.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, algumas pessoas da esquerda recorreram \u00e0 hist\u00f3ria da Primeira Guerra Mundial para defender que as correntes socialistas n\u00e3o deveriam apoiar nenhum lado em conflitos interimperialistas. No entanto, a Segunda Guerra Mundial tamb\u00e9m foi um conflito interimperialista. Isso significa que n\u00e3o era preciso apoiar nenhum lado naquela guerra? N\u00e3o, porque o conflito interimperialista era apenas uma dimens\u00e3o da guerra.<\/p>\n<p>Em um artigo anterior recordei que muitos representantes de movimentos anticoloniais n\u00e3o quiseram lutar por seus colonizadores durante a Segunda Guerra Mundial, e um dos l\u00edderes do Congresso Nacional Indiano, Chandra Bose, inclusive colaborou com a Alemanha Nazista. N\u00e3o obstante, tamb\u00e9m vale a pena lembrar as palavras de Jawaharlal Nehru: no conflito entre o fascismo e a democracia, devemos estar inequivocamente do lado desta \u00faltima. Tamb\u00e9m vale a pena mencionar que o mais coerente dos l\u00edderes do Congresso Nacional Indiano que apoiou os Aliados na guerra foi M.N. Roy, seu membro localizado mais \u00e0 esquerda. Claro que isso n\u00e3o significava que Roy decidiu apoiar o imperialismo brit\u00e2nico. Do mesmo modo, apoiar a luta contra o imperialismo russo n\u00e3o implica apoiar o imperialismo estadunidense.<\/p>\n<p>Certamente a situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 distinta. A participa\u00e7\u00e3o direta de outros pa\u00edses na guerra n\u00e3o faria mais do que agravar a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o obstante, as correntes socialistas deveriam apoiar a press\u00e3o econ\u00f4mica sobre a R\u00fassia e exigir san\u00e7\u00f5es mais severas e o embargo do petr\u00f3leo e do g\u00e1s russos. Muitas san\u00e7\u00f5es que se aplicam atualmente est\u00e3o destinadas a debilitar a ind\u00fastria militar russa e minar, assim, a capacidade da R\u00fassia para seguir combatendo. A esquerda tamb\u00e9m deveria apoiar o bloqueio das importa\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo e g\u00e1s da R\u00fassia, incrementando, assim, a press\u00e3o econ\u00f4mica sobre Putin para que se ponha um fim na guerra.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que os EUA tenham aprendido sua li\u00e7\u00e3o pelo papel rid\u00edculo que tiveram no Iraque e no Afeganist\u00e3o, mas a R\u00fassia agora tem que aprender sua pr\u00f3pria li\u00e7\u00e3o, e quanto mais contundente melhor. A derrota na guerra provocou revolu\u00e7\u00f5es em diversas ocasi\u00f5es, inclusive na R\u00fassia. Depois de que ela perdeu a guerra da Crimeia, em 1856, o Imp\u00e9rio Russo finalmente aboliu a escravid\u00e3o. A primeira revolu\u00e7\u00e3o russa, de 1905, produziu-se pouco depois da derrota da R\u00fassia na guerra com o Jap\u00e3o. A derrota na Ucr\u00e2nia poderia desencadear outra revolu\u00e7\u00e3o. Enquanto Putin estiver no poder, qualquer mudan\u00e7a progressista na R\u00fassia e na maioria dos Estados p\u00f3s-sovi\u00e9ticos ser\u00e1 quase imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses ocidentais compartilham a responsabilidade por essa guerra. O problema \u00e9 que, muitas vezes, pessoas da esquerda radical criticam esses pa\u00edses por motivos equivocados. Em vez de criticar o fornecimento de armas para a Ucr\u00e2nia, deveriam criticar o fato de que, mesmo depois da anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia e da invas\u00e3o do Donbass, alguns Estados membros da Uni\u00e3o Europeia seguiram vendendo armas \u00e0 R\u00fassia. Isso \u00e9 apenas um exemplo. A responsabilidade por essa decis\u00e3o recai nos governos ocidentais, n\u00e3o na esquerda. No entanto, em vez de tentar mudar a situa\u00e7\u00e3o para melhor, boa parte da esquerda, de forma ignorante, tenta piorar as coisas ainda mais.<\/p>\n<p>O povo ucraniano \u00e9 muito consciente de que a guerra \u00e9 terr\u00edvel. Essa n\u00e3o \u00e9 nossa primeira guerra. Estamos h\u00e1 anos vivendo um conflito aberto em Donbass. Nesta guerra estamos sofrendo importantes perdas, e seguiremos sofrendo se a guerra se prolongar. Corresponde-nos dizer que sacrif\u00edcios queremos fazer para ganhar a guerra e que concess\u00f5es devemos fazer para p\u00f4r fim \u00e0 morte e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o entendo por que o governo dos EUA est\u00e1 de acordo com isso enquanto boa parte da esquerda prefere adotar uma abordagem mais imperial, exigindo que o Ocidente decida por n\u00f3s.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, o Kremlin n\u00e3o se mostrou disposto a fazer concess\u00f5es s\u00e9rias. Espera que nos rendamos. O povo ucraniano n\u00e3o aceitar\u00e1 o reconhecimento de suas conquistas territoriais. H\u00e1 quem alegue que o fornecimento de armas para a Ucr\u00e2nia prolongar\u00e1 a guerra e incrementar\u00e1 o n\u00famero de v\u00edtimas. Na verdade, \u00e9 a falta de fornecimento de armas que ter\u00e1 esse efeito. A Ucr\u00e2nia pode vencer e sua vit\u00f3ria \u00e9 o que deveria propor a esquerda internacional. Se triunfar a R\u00fassia, estar\u00e1 criado um precedente para a redefini\u00e7\u00e3o das fronteiras estatais a base da for\u00e7a, empurrando o mundo para a terceira guerra mundial.<\/p>\n<p>Eu me tornei socialista, em grande parte, devido \u00e0 influ\u00eancia da guerra em Donbass e quando me dei conta de que somente superando o capitalismo teremos a possibilidade de viver em um mundo sem guerras. No entanto, nunca conquistaremos esse objetivo se defendermos a n\u00e3o resist\u00eancia \u00e0 invas\u00e3o imperialista. Se a esquerda n\u00e3o adotar a postura correta diante dessa guerra, estar\u00e1 desacreditada e marginalizada. E teremos que lutar durante muito tempo para superar as consequ\u00eancias dessa necessidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Taras Bilous \u00e9 historiador ucraniano e ativista do Movimento Social (Sotsialniy Rukh).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto publicado originalmente em Dissent, 4-5-2022: <a href=\"https:\/\/www.dissentmagazine.org\/online_articles\/self-determination-and-the-war-in-ukraine\">https:\/\/www.dissentmagazine.org\/online_articles\/self-determination-and-the-war-in-ukraine<\/a>. A tradu\u00e7\u00e3o para o espanhol foi publicada em vientosur.info e reproduzida em uit-ci.org. A tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas foi realizada pela milit\u00e2ncia da CST-PSOL a partir da vers\u00e3o em espanhol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Taras Bilous*, para vientosur.info &nbsp; N\u00e3o podemos saber como a Ucr\u00e2nia se desenvolver\u00e1 depois da guerra. 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