

	{"id":9685,"date":"2022-09-09T17:15:14","date_gmt":"2022-09-09T17:15:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/?p=9685"},"modified":"2022-09-09T17:21:02","modified_gmt":"2022-09-09T17:21:02","slug":"chile-triunfo-do-nao-um-balanco-da-derrota-e-como-acreditamos-que-a-luta-deve-continuar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cstuit.com\/home\/2022\/09\/09\/chile-triunfo-do-nao-um-balanco-da-derrota-e-como-acreditamos-que-a-luta-deve-continuar\/","title":{"rendered":"Chile: triunfo do \u201cN\u00e3o\u201d, um balan\u00e7o da derrota e como acreditamos que a luta deve continuar"},"content":{"rendered":"<p>Por MST, se\u00e7\u00e3o chilena da UIT-CI<\/p>\n<p>05\/09\/2022<\/p>\n<p>A maioria do pa\u00eds (62%) decidiu rejeitar a nova proposta constitucional, contra apenas 37% que votaram a favor. Um resultado que abateu um amplo setor de companheires, companheiras e companheiros, que tem agrupado os melhores lutadores da rebeli\u00e3o popular de 2019 at\u00e9 hoje. A confus\u00e3o reina, porque n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que ontem venceram os grandes empres\u00e1rios, a direita e os pinochetistas mais fan\u00e1ticos. Entendemos e compartilhamos a decep\u00e7\u00e3o de centenas de milhares de pessoas.<\/p>\n<p>Hoje, h\u00e1 uma tarefa fundamental: entender o que aconteceu, os reais motivos da derrota e quais ser\u00e3o suas consequ\u00eancias para o povo e a classe trabalhadora. A velha e desastrosa tradi\u00e7\u00e3o de culpar o povo por ser \u201cignorante e fascista\u201d n\u00e3o nos serve. Agora, mais do que nunca, devemos nos fortalecer com as conclus\u00f5es corretas para retomar a luta, algo ainda urgente.<\/p>\n<p><strong>As verdadeiras raz\u00f5es da derrota eleitoral<\/strong><\/p>\n<p>Parece absolutamente contradit\u00f3rio que as mesmas pessoas que protagonizaram uma das rebeli\u00f5es populares mais importantes dos \u00faltimos tempos, que votaram com 80% para mudar a Constitui\u00e7\u00e3o, que elegeram uma maioria de candidatos \u201cindependentes\u201d para a Assembleia agora usem sua for\u00e7a para rejeitar a mudan\u00e7a constitucional. Mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Essa derrota come\u00e7ou a se concretizar em 15 de novembro de 2019, quando a direita, a ex-Concerta\u00e7\u00e3o [1] e a Frente Ampla assinaram o Acordo de Paz para salvar o governo Pi\u00f1era e desviar a for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o para o caminho institucional de um processo constituinte absolutamente condicionado pelo empresariado, de modo que n\u00e3o fosse nem livre nem soberano. N\u00e3o s\u00f3 isso. Esse acordo criou as bases para que fossem atacados os mais combativos ativistas das mobiliza\u00e7\u00f5es, transformando-os em presos\/as pol\u00edticos\/as, ou reprimindo-os brutalmente. Tudo isso garantindo aos Carabineiros a impunidade para essa tarefa. E assim segue at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Com 80% de aprova\u00e7\u00e3o no primeiro plebiscito, e com maioria de votos para os \u201cindependentes\u201d, a classe trabalhadora e o povo pensaram que seria formada uma institui\u00e7\u00e3o que se oporia aos corruptos de sempre, mas isso n\u00e3o aconteceu. Por isso, veio a decep\u00e7\u00e3o e a ruptura de milh\u00f5es com o processo constituinte. A Assembleia Constitucional permitiu que Pi\u00f1era governasse com tranquilidade. N\u00e3o fez nada para lidar com a perda de empregos e o crescimento da pobreza. N\u00e3o fez nada pelos\/as presos\/as pol\u00edticos\/as ou contra os militares e policiais que reprimiram. Foi mais um parlamento, afastado das demandas imediatas daqueles que protagonizaram a rebeli\u00e3o popular, como queriam a direita, a ex-Concerta\u00e7\u00e3o e os que hoje comp\u00f5em o governo.<\/p>\n<p>Nessa mesma Assembleia Constitucional, e nos bastidores, a maioria dos \u201cindependentes\u201d cedeu o controle aos partidos tradicionais, que deixaram de fora do novo texto constitucional demandas t\u00e3o importantes como a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Entre embates e manobras, nasceu a nova Constitui\u00e7\u00e3o que, embora com avan\u00e7os democr\u00e1ticos, deixou intacto o modelo econ\u00f4mico, respons\u00e1vel pela profunda desigualdade vigente no pa\u00eds. Por isso, a aprova\u00e7\u00e3o popular \u00e0 nova proposta se manifestou nas pesquisas, mas ela n\u00e3o despertou o engajamento oper\u00e1rio e popular. E a confus\u00e3o se espalhou diante de uma proposta que n\u00e3o atendeu \u00e0s principais demandas pelas quais sa\u00edmos \u00e0s ruas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, outra frustra\u00e7\u00e3o preparou o terreno para ontem. O novo governo, com o Partido Comunista e a Frente Ampla \u00e0 frente, tem sido uma grande decep\u00e7\u00e3o para milh\u00f5es. Diante da profunda crise econ\u00f4mica enfrentada por milh\u00f5es de fam\u00edlias trabalhadoras, Boric e seu governo n\u00e3o adotaram as medidas mais b\u00e1sicas para evitar o desastre. N\u00e3o fizeram nada contra a infla\u00e7\u00e3o. N\u00e3o fizeram nada contra os sal\u00e1rios miser\u00e1veis. Se negaram a prestar qualquer aux\u00edlio direto do Estado e deixaram intactos os lucros dos grandes empres\u00e1rios. O que eles entregaram, a \u201cm\u00e3o na massa\u201d, foi a repress\u00e3o contra o povo mapuche e chileno, e intermin\u00e1veis \u200b\u200bpromessas vazias. Foi por isso que milh\u00f5es usaram o voto do plebiscito para punir o governo.<\/p>\n<p>Ainda mais criminosas foram suas a\u00e7\u00f5es na campanha. Enquanto milhares tentavam enfrentar, com escassos recursos, o \u201cN\u00e3o\u201d pinochetista, Boric e seus partid\u00e1rios firmavam aceleradamente um acordo para reformar a nova Constitui\u00e7\u00e3o em benef\u00edcio dos empres\u00e1rios. Eles negociaram descaradamente e publicamente a nova Constitui\u00e7\u00e3o com o \u201cN\u00e3o\u201d, argumentando que tinha que ser feita uma \u201cConstitui\u00e7\u00e3o de todos\u201d.<\/p>\n<p>Desnecess\u00e1rio dizer que as dire\u00e7\u00f5es das principais organiza\u00e7\u00f5es sindicais, estudantis e populares do pa\u00eds, controladas por esses mesmos partidos, t\u00eam desempenhado um papel desastroso no aumento da desilus\u00e3o. A CUT, que nada fez pelas fam\u00edlias trabalhadoras nestes tempos dif\u00edceis, a Associa\u00e7\u00e3o de Professores, que se limita apenas a palavras educadas para exigir reivindica\u00e7\u00f5es, a CONFECH, ausente h\u00e1 anos e agora totalmente submissa ao novo governo mesmo contra os estudantes, mal fizeram campanha. Perguntamos: quantos atos e atividades essas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam convocado com trabalhadores\/as, com estudantes?<\/p>\n<p>A campanha da direita e do \u201cN\u00e3o\u201d, o veneno da mentira e do medo, ocupou com facilidade as brechas da desilus\u00e3o abertas pelos que dirigem hoje o governo, que lideraram o \u201cSim\u201d, negociaram com a direita na Assembleia e durante a rebeli\u00e3o popular salvaram Pi\u00f1era. Esta \u00e9 a sua derrota. Milh\u00f5es de trabalhadores\/as, estudantes, mulheres, dissidentes e irm\u00e3s e irm\u00e3os dos povos origin\u00e1rios votaram expressando essa confus\u00e3o. Ou punindo diretamente as meias medidas e as mentiras deste governo que prometeu mudar as coisas.<\/p>\n<p>Vale, no entanto, acrescentar outro ponto n\u00e3o menos importante. Aprovo a Dignidade [1] e os velhos partidos conseguiram conduzir todo o processo pol\u00edtico at\u00e9 hoje, porque n\u00e3o conseguimos construir uma alternativa pol\u00edtica para os milh\u00f5es que lutaram durante a rebeli\u00e3o popular. Uma alternativa que lute contra a infla\u00e7\u00e3o e os sal\u00e1rios miser\u00e1veis e pelas reivindica\u00e7\u00f5es mais candentes da classe trabalhadora e do povo. Ela nos permitiria (na \u00e9poca) enfrentar as manobras e as engana\u00e7\u00f5es na Assembleia, al\u00e9m de ter garantido a vit\u00f3ria do \u201cSim\u201d contra a Constitui\u00e7\u00e3o de Pinochet. Sem essa dire\u00e7\u00e3o, como ficou claro, todos os esfor\u00e7os podem ser em v\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Usar\u00e3o essa derrota para continuar atacando o povo e a classe trabalhadora<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, o triunfo do \u201cN\u00e3o\u201d permite a continuidade do giro \u00e0 direita do governo, que j\u00e1 construiu todas as pontes com os l\u00edderes do pinochetismo. Tal giro tem sido feito ao n\u00e3o se tocar em Pi\u00f1era ou nos oficiais que impuseram o terror contra a rebeli\u00e3o popular, militarizando Wallmapu e reprimindo as mobiliza\u00e7\u00f5es. E, sobretudo, com o compromisso com um acordo nacional para construir a &#8220;Constitui\u00e7\u00e3o de todos&#8221;. Esse foi, \u00e9 e ser\u00e1 o governo de Boric, do PC e da FA.<\/p>\n<p>Assim que venceram, e em meio a pequenas comemora\u00e7\u00f5es que n\u00e3o emocionaram seus pr\u00f3prios eleitores, os l\u00edderes do \u201cN\u00e3o\u201d correram para aceitar a proposta feita por Boric. Ambos os lados concordaram h\u00e1 muito tempo, de costas para o povo, que qualquer que fosse a op\u00e7\u00e3o vencedora, deveria levar a um novo caminho de reforma, mas agora inteiramente controlado pelo parlamento corrupto.<\/p>\n<p>Um novo processo constituinte, prometeu Boric. Temos que fazer mudan\u00e7as na Constitui\u00e7\u00e3o dos anos 80, respondeu a direita. Ambos os lados sabem que precisam continuar alimentando a esperan\u00e7a de que mudan\u00e7as \u201crespons\u00e1veis\u201d s\u00f3 podem ser realizadas por eles mesmos, trancados no Congresso. E para isso prop\u00f5em instalar um cen\u00e1rio de reformas que tranquilize milh\u00f5es de fam\u00edlias trabalhadoras, que veem seu padr\u00e3o de vida cair diariamente, em decorr\u00eancia da crise econ\u00f4mica. Cresce o terreno f\u00e9rtil para o descontentamento social, e eles n\u00e3o esqueceram disso mesmo com o triunfo conjuntural do \u201cN\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Seja qual for o nome, o que eles querem \u00e9 um novo acordo nacional para liquidar qualquer vest\u00edgio da rebeli\u00e3o popular de 2019 e continuar descarregando o peso da crise econ\u00f4mica nas costas dos\/as trabalhadores\/as. Por isso, \u00e9 urgente tirar conclus\u00f5es sobre a derrota do \u201cSim\u201d no 4 de setembro e organizar nossas fileiras para enfrentar os novos ataques do governo e seus aliados da oposi\u00e7\u00e3o de direita.<\/p>\n<p><strong>Devemos enfrentar todos<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por que era importante vencer o \u201cSim\u201d? Porque o triunfo do \u201cN\u00e3o\u201d fortaleceria, como ocorreu, os setores mais reacion\u00e1rios do pa\u00eds. Foi assim que milhares de n\u00f3s entendemos, participando dos principais atos ou impulsionando a campanha com nossa pr\u00f3pria for\u00e7a. Aqueles de n\u00f3s que n\u00e3o s\u00f3 buscaram o voto, denunciaram as manobras do governo Boric, convocaram a mobiliza\u00e7\u00e3o contra a infla\u00e7\u00e3o e os sal\u00e1rios miser\u00e1veis e se solidarizaram ativamente com todas as lutas.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 essencial fortalecer aquela unidade que existiu entre n\u00f3s que promovemos a luta contra o pinochetismo e o \u201cN\u00e3o\u201d nas ruas. A vit\u00f3ria eleitoral deles significar\u00e1 mais sofrimento para milh\u00f5es de fam\u00edlias trabalhadoras. Isso porque eles nos obrigar\u00e3o a pagar o custo da crise econ\u00f4mica, enquanto os ricos est\u00e3o cada dia mais ricos.<\/p>\n<p>Precisamos nos reagrupar, unificar as lutas, abrir di\u00e1logos fraternos, agir juntos contra todos aqueles que querem usar o triunfo do \u201cN\u00e3o\u201d para continuar atacando a classe trabalhadora e o povo. Tempos vir\u00e3o para lamentar a recente derrota. Hoje, \u00e9 o momento de retomar os caminhos abertos pela rebeli\u00e3o popular de 2019.<\/p>\n<p>Por um plano de luta nacional de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o e aos sal\u00e1rios de fome!<\/p>\n<p>Contra a militariza\u00e7\u00e3o de Wallmapu e a repress\u00e3o! Pela liberdade de nossos\/as presos\/as!<\/p>\n<p>Contra as negocia\u00e7\u00f5es entre o \u201cN\u00e3o\u201d e o governo Boric para impor um falso processo constituinte, controlado pelos corruptos de sempre!<\/p>\n<p>Unir-nos na luta, retomar as ruas, construir juntos uma alternativa pol\u00edtica dos\/as lutadores\/as!<\/p>\n<p>Que os\/as trabalhadores\/as e os povos do Chile e do mundo governem!<\/p>\n<p><strong>Comit\u00ea Executivo do MST<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[1] Concertaci\u00f3n de Partidos por la Democracia (Coaliz\u00e3o de Partidos pela Democracia), conhecida popularmente como Concertaci\u00f3n, foi uma coaliz\u00e3o eleitoral, formada em 02 de fevereiro de 1988, composta por Partido Democrata Crist\u00e3o (PDC), Partido pela Democracia (PPD), Partido Radical Social-Democrata (PRSD) e Partido Socialista (PS). Governou o Chile de 1990 a 2010. Foi extinta em 2010 (Nota do tradutor).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[2] Apruebo Dignidad: coaliz\u00e3o pol\u00edtica, formada em 11 de janeiro de 2021, composta pela Frente Ampla (Converg\u00eancia Social, Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica e Comuns) e por Chile Digno, Verde e Soberano (Partido Comunista, Federa\u00e7\u00e3o Regional Verde Social e A\u00e7\u00e3o Humanista). Elegeu, em dezembro de 2021, o atual presidente chileno, Gabriel Boric (Nota do tradutor).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por MST, se\u00e7\u00e3o chilena da UIT-CI 05\/09\/2022 A maioria do pa\u00eds (62%) decidiu rejeitar a nova proposta constitucional, contra apenas 37% que votaram a favor. 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